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O amor, apesar de usufruir contemporaneamente de tanta promoção, somente passou a ser estudado cientificamente há pouco tempo em nosso meio. No território nacional e em ambiente acadêmico o estudo do amor e das relações amorosas começou por volta do ano 2000, com o oferecimento por parte do Prof. Dr. Ailton Amélio da Silva, em nível de Pós- graduação, das disciplinas “Ligações amorosas: relacionamento, sexo e amor” e “Seleção de parceiros, flerte, namoro e casamento: uma abordagem observacional/experimental” e, em nível de graduação, da disciplina: “Relacionamento amoroso: teoria e pesquisa”, todas essas vinculadas ao Departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia da USP de São Paulo. O professor Ailton graduou-se em psicologia durante os anos de 1969 – 1974 e, em 1976, ingressou no Departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia da USP de São Paulo. Orientado pelo o Prof. Dr. Arno Engelmann obteve o título de Mestre, em 1982, com a dissertação intitulada: “Julgamento de pessoas desconhecidas”. Posteriormente, neste mesmo ano, no mesmo departamento e com o mesmo orientador, prosseguiu seus estudos, agora em nível de doutorado e obteve o título de Doutor com a tese intitulada: Julgamento de expressões faciais de emoções.

Com graduação, mestrado e doutorado em Psicologia pela USP, Ailton Amélio começou a ministrar aulas na universidade em 1985. No entanto, somente depois de quase duas décadas, o Prof. Ailton se interessou pelo estudo do comportamento amoroso e passou a publicar artigos Timidez para Iniciar um relacionamento amoroso, em 1998, Therapie

cognitive de l'inhibition amoureuse, em 1998, Estilos de Amor X estilos de apego: uma relação possível, em 2003; Determinação das histórias de amor mais adequadas para descrever relacionamentos amorosos e identificação das histórias de amor que produzem mais identificação, menos identificação e que as pessoas mais gostariam de viver, em 2005; O conteúdo da vida amorosa de estudantes universitários, em 2006; O ciúme romântico e os relacionamentos amorosos heterossexuais contemporâneos, em 2008; e livros como O mapa

do amor, em 2001; Para Viver um Grande Amor, em 2005 e, Relacionamento amoroso, em

2009, além de capítulos de livros e participações em congressos que tematizavam o amor como Pequenos motivos, grandes romances, em 2002, e Simulação de flerte e amizade: uma

análise perceptivo-auditiva de emissões vocais, em 2009, capítulos integrantes dos livros Da sedução ao casamento e Laringologia e voz hoje, respectivamente. Até então, seu principal

objeto de estudo era a comunicação não verbal, pesquisa que ampliou para a análise do flerte e, depois, para o amor. De acordo com as próprias palavras do Professor Ailton2:

No início, eu me interessei por comunicação não verbal e, enquanto dava aula de mestrado e doutorado nessa área, percebi que havia pesquisas sobre o estudo do flerte. Resolvi, então, estudar o flerte em novelas e gravações ao vivo. Nessas aulas, os alunos demonstravam muito interesse e eu acabei ampliando o assunto. De duas, fomos para três aulas e, de repente, já estava abordando e pesquisando toda a área de relacionamento amoroso.

Muito possivelmente em face da recenticidade do estudo científico do amor em nosso meio, a produção acadêmica de textos que tem o amor como tema é escassa comparativamente ao que se publica, por exemplo, nos EUA. Numa busca computadorizada da literatura que trata do amor romântico, realizada pelo autor do presente trabalho nas bases de dados PSICODOC, PEP- Psychoanalytic Electronic Publishing, Web of Science, Scopus, PePSIC, Scielo, Redalyc, DOAJ, Medline (PubMed), Lilacs e PsycINFO, sem limite de tempo, com os termos “romantic” e “love” e “romantic love”, respectivamente, com o filtro Brasil, para restringir a pesquisa, verificou-se que o primeiro estudo publicado em periódicos científicos e que tinha o amor como foco foi Sobre a ternura, noção esquecida no periódico Interações, em 2005. A autora desse artigo, Profa. Dra. Ana Lila Lejarraga, graduou-se em Psicologia pela Universidad Nacional de La Plata (1976), Especialização em Terapia de adolescentes pelo Instituto de Psiquiatria da UFRJ (1982), Mestrado em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1992), Doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1999) e Pós-doutorado em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2011). Atualmente é professora associada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Departamento de Psicologia Clínica e Divisão de Psicologia Aplicada). Neste artigo, a autora discorre sobre a noção de ternura com o intuito de refletir sobre as relações amorosas contemporâneas. A os impasses da concepção freudiana da

2(http://redeglobo.globo.com/globouniversidade/noticia/2011/10/entrevista-amor-e-o-tema-de-pesquisa-de-

ternura como pulsão sexual de alvo inibido, o estudo resgata a faceta mais originária da ternura, apontada por Freud em 1912. Neste artigo, levanta-se a hipótese de a ternura ser uma forma de identificação, que pode ser chamada de identificação terna, em que uma parte da pessoa se identifica com a condição desvalida e dependente do outro. Finalmente, articula-se a necessidade infantil de ternura com o estado de desamparo, interpretando-se a necessidade do homem de ser amado, devido a sua condição desamparada, como necessidade de ternura, ou seja, de ser reconhecido e considerado por um outro. Esse trabalho originou-se a partir de uma publicação da autora intitulada Paixão e ternura, um estudo sobre a noção de amor na obra

freudiana, publicada em 2002 pela editora Relume-Dumará e de sua tese de doutorado

intitulada Paixão e ternura, um estudo sobre a noção de amor na obra freudiana, defendida em 1999, tendo como orientador o Prof. Dr. Jurandir Sebastião Freire Costa. Até então. o que se tinha aqui no Brasil eram os esforços de alguns profissionais (e.g. Flávio Gikovate, Maria Helena Matarazzo, Roberto Shinyashiki), geralmente relacionados com a área de autoajuda, que escreveram sobre ciúme, timidez, infidelidade.

Mais recentemente outros pesquisadores, vinculados a diversas instituições, se interessaram a estudar o amor romântico. Um dos pioneiros na área a se doutorar tendo o amor como tema foi o Prof. Vicente Cassepp-Borges com a tese intitulada: Amor e construtos

relacionados: evidências da validade de instrumentos de medida no Brasil, sob a orientação

do psicometrista Prof. Dr Luiz Pasquale, da Universidade de Brasília (UNB), em 2010. Posteriormente, o Prof. Dr. Vicente Cassepp-Borges publicou, na área dos relacionamentos amorosos, outros trabalhos como autor e coautor, Características psicométricas da

relationship assessment scale Sternberg´s triangular love scales national study of psychometric attributes (e, em sua versão nacional Estudo nacional dos atributos psicométricos da Escala triangular do amor de Sternberg), em 2012; Evidências de validade da Escala Triangular do Amor de Sternberg - Reduzida (ETAS-R), em 2013, A redução de itens como uma alternativa para a Escala Triangular do Amor, em 2014; além de sua

participação com trabalhos em congressos científicos e com outros capítulos de livros publicados que discorrem a respeito do amor como Amor: múltiplas perspectivas e

Considerações teóricas e práticas sobre a qualidade em relacionamentos amorosos, capítulos

integrante do livro Atualização em avaliação e tratamento das emoções, publicado em 2013. Há de se evidenciar que, anteriormente, o Prof. Vicente Cassepp-Borges já havia começado a se interessar pelo o estudo do comportamento amoroso e, em 2006, defendeu, pela a

Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), a sua monografia de conclusão de curso intitulada: Escala triangular do amor de Sternberg no Brasil: tradução, validação de

conteúdo e propriedades psicométricas.

Também nessa época, o Prof. Alexsandro Luiz de Andrade, sob a orientação do Prof. Dr. Agnaldo Garcia, em 2011, concluiu o seu doutorado com a tese, defendida em 2011:

Relacionamentos românticos: modelos de qualidade e satisfação em relacionamentos de casal. Posteriormente a essa obra acadêmica, teve a oportunidade de publicar, na área dos

relacionamentos amorosos, outros trabalhos como The association of structural

configurations of romantic relationships with beliefs about couple relationships: a social representations study, em 2011; Desenvolvimento de uma medida multidimensional para avaliação da qualidade em relacionamentos românticos - Aquarela-R, em 2012; Uma breve história das tentativas para medir atributos dos relacionamentos amorosos em língua portuguesa, em 2013; Evidências de validade da Escala Triangular do Amor de Sternberg - Reduzida (ETAS-R), em 2013; Configuration and affective consequences of investing in

romantic relationships, em 2013 Configuration and affective consequences of investing in

romantic relationships, em 2013; Escala de Crenças sobre Amor Romântico: indicadores de validade e precisão, em 2014 e, no ano de 2012, publicou o livro Avaliação e medidas psicológicas no contexto dos relacionamentos amorosos, além de sua participação com

trabalhos em congressos científicos e com capítulos de livros publicados que discorrem a respeito do amor como, por exemplo, o capítulo intitulado Interconexões entre amor,

satisfação e qualidade nas relações românticas que faz parte da obra Relacionamento interpessoal: temas contemporâneos, publicado em 2013.

A partir desses estudos, o interesse em tematizar o amor, tem crescido cada vez mais em todo o território nacional. Este é o panorama nacional do estudo do amor no Brasil.

CAPÍTULO 3

O CONCEITO DE CONCEITO

De acordo com Ausubel (1963, citado por Lomônaco, 1997): “o homem vive num mundo de conceitos, não num mundo de objetos, eventos e situações” (p. 1). O que pode se depreender segundo a sentença desse autor é que o ser humano está imerso em um universo de conceitos. No entanto, se perguntarmos para diferentes pessoas, desde o leigo até o acadêmico de nível superior, o que elas entendem por conceito, provavelmente encontraremos respostas tanto díspares, quanto contraditórias (Lomônaco, 2002). Mas, considerando-se que este estudo investigará o conceito de amor para uma determinada amostra, é fundamental esclarecer o que se entende por conceito e, como ele será definido neste trabalho. Afinal, de acordo com Lomônaco (1997), se não compreendermos o que é o conceito, não saberemos como ele se desenvolve, quais as condições mais adequadas para que se possa ensiná-lo e como ele poderá ser compartilhado comumente pelas pessoas de um certo agrupamento ou de uma determinada cultura. A definição de conceito no Dicionário Houaiss da língua portuguesa (Houaiss e Villar, 2009) apresenta onze itens, dos quais se pretende considerar somente as seguintes acepções:

/.../ 9 FIL. representação mental de um objeto abstrato ou concreto, que se mostra como um instrumento fundamental do pensamento em sua tarefa de identificar, descrever e classificar os diferentes elementos e aspectos da realidade

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