Para as populações costeiras, o temor infundido pelo Oceano assumia contornos vagos e imprecisos, mas os perigos reais que vinham do mar geravam medos concretos. Com efeito, durante muitos séculos, o litoral português foi alvo frequente da acção de piratas e corsários, de diferentes nacionalidades. Primeiro, ainda nos alvores da nacionalidade, foram os normandos; depois, os muçulmanos que ocupavam parte da Península; na época dos Filipes, os ingleses, franceses e holandeses, inimigos da coroa espanhola; em tempos mais recentes, predominavam os marroquinos e argelinos. Estes piratas atacavam não só as naus que vinham da Índia e do Brasil, como também as pequenas embarcações que navegavam ao longo da costa em actividades de cabotagem ou pesca. Não raras vezes, atreviam-se mesmo a desembarcar com o objectivo de pilhar os povoados mais próximos e de raptar homens, mulheres e crianças, que eram levados para o Norte de África, onde eram vendidos como escravos ou ficavam cativos até ao pagamento de um resgate.
Este tipo de ataques prolongou-se até ao primeiro quartel do século XIX. A ousadia dos piratas não tinha limites, os periódicos - o Mercúrio Português, a Gazeta de Lisboa e o Diário do Governo - documentam algumas das suas acções: em 1718, os “mouros” tomaram alguns barcos de pescadores nas vizinhanças de Cascais; em 1721,
49 Patrick Gautier Dalché apud José Mattoso, “Antecedentes medievais da expansão portuguesa”, História
da Expansão Portuguesa, dir. de Francisco Bethencourt e Kirti Chaudhuri, vol. I, Lisboa, 1998, p. 16.
50 Luís Adão da Fonseca, Op. Cit., p. 60; Id., “A visão do Oceano no século XV”, Jornal de Letras,
dois corsários, apresaram no Cabo de S. Vicente uma balandra holandesa, que vinha de Roterdão, carregada de géneros para Portimão; anos mais tarde, 17 pessoas de Viana foram feitas cativas, junto à fortaleza de S. João da Foz51. As autoridades esforçavam-se por travar estes ataques consolidando os sistemas de defesa do litoral e enviando navios para patrulhar as águas costeiras52, mas quando havia desembarques, cabia às populações locais rechaçar o inimigo: «tocou-se logo a rebate na terra, soaram os sinos das freguesias de Esmoriz, Paramos e Silvalde, e concorreu muita gente à praia. (...). É para admirar a prontidão, e zelo, com que acudiram à defesa do País não só os homens, mas ainda as mulheres carregadas com cestos de pedras»53.
As investidas dos piratas tinham lugar um pouco por todo o litoral português - Viana do Castelo, barra do Douro, Berlengas, Cabo da Roca, barra de Tejo -; mas, a zona mais atingida era a costa algarvia, não sendo de admirar que os pescadores daquela região se recusassem a afastar-se «porque lhes é mui perigoso, e arriscado o saírem a pescar; pois que piratas infestam as costas de Portugal, e do Algarve com latrocínios marítimos»54: «bastaria ter falado com os desgraçados que o nosso Governo mandou há
poucos anos resgatar a Argel para saber com que segurança os pobres Algarvios vão pescar a Larache a cavalinha»55. Esta situação era tão frequente que havia ordens
religiosas especializadas na recuperação dos cativos56. Este gravíssimo problema só veio a ser debelado com a assinatura de tratados de paz celebrados com Marrocos (1774) e a Argélia (1813). Contudo, estes acordos custaram caro à diplomacia portuguesa, já que sendo o corso a principal fonte de rendimento destes Estados, foi necessário pagar importantes compensações financeiras para que abandonassem tão lucrativo negócio57.
As acções de pirataria tiveram consequências profundas no quotidiano daqueles que viviam junto à costa. O medo de um possível ataque e a angústia gerada pelas notícias, falsas ou verdadeiras, que circulavam entre as populações ajudavam a criar um
51 Gazeta de Lisboa, n.º 21, 26-05-1718; Id., n.º 40, 02-10-1721; Id., n.º 35, 28-08-1727. 52 Id., n.º 23, 04-06-1722;
53 Id., n.º 30, 24-07-1738.
54 Suplemento ao Diário do Governo, n.º 42, 19-02-1822. 55 Diário do Governo, n.º 47, 25-02-1822, pp. 336-337.
56 A «Ordem da Santissima Trindade e Redentores Gerais dos Cativos, [pôs] editais por todo o Reino,
para que todos os Fiéis Cristãos, movidos da piedade, concorrão com as suas esmolas para poder chegar o dinheiro (...), ao resgate do grande numero de pessoas,que estão sofrendo a aspereza daquela dura escravidão, até o último do presente mês de Maio, em que os ditos Padres hão de partir do porto desta Cidade para Barbaria», Gazeta de Lisboa Ocidental, n.º 19, 09-05-1726, p. 152.
57 Carlos Cunha, O corso norte-africano em finais do século XVIII e princípio do século XIX. Um tratado
clima de tensão permanente. Os rebates alarmistas e a necessidade de manter sentinelas em pontos-chave da costa exigiam mão-de-obra abundante, que era desviada das tarefas piscatórias e agrícolas, perturbando o dia-a-dia destas comunidades58. Em finais do século XVIII, o sequestro continuava a ser um dos maiores receios dos pescadores da Ericeira: a Misericórdia daquela vila, instituída em 1715 e financiada pelos homens do mar, tinha como principal função o resgate de cativos e o apoio às famílias, cujos maridos, pais e irmãos estavam presos no Norte de África59. Alguns autores defendem
que estas incursões foram responsáveis pelo despovoamento de certas zonas do litoral, com a fuga dos habitantes para regiões do interior60.
As marcas do temor inculcado pelos piratas ficaram assinaladas na literatura popular portuguesa: nos Romanceiro(s) é possível encontrar poemas que mostram como estes episódios estavam fortemente enraizados na memória do povo, são disso exemplo os versos Moiros partem mar abaixo, A filha do rei de Marrocos61, As duas irmãs62 e O
Cativo63. Os relatos destas aventuras foram também amplamente divulgados através da literatura de cordel: as histórias de pirataria e o drama vivido pelas vítimas povoavam o imaginário popular. Publicadas sob a forma de folhetos64, eram vendidas na rua obras como a Relação do sucesso que teve um corsário de levantados, que havia tempos andava infestando os mares, cativando muitas embarcações65 ou a Memorável relação da perda da nau Conceição que os turcos queimaram à vista da barra de Lisboa e vários sucessos das pessoas que nela cativaram66. Ainda hoje perduram alguns
58 F. Ribeiro da Silva, “Pirataria e corso sobre o Porto. (Aspectos seiscentistas)”, Separata da Revista de
História, vol. II, Porto, 1979, pp. 9-10 e 27.
59 Maria da Conceição Reis, A pirataria argelina na Ericeira no século XVIII, Ericeira, 1998, pp. 34-35. 60 F. Ribeiro da Silva, Op. cit., p. 26; Id., “O corso inglês e as populações do litoral lusitano (1580-
1640)”, Actas do Colóquio “Santos Graça” de Etnografia Marítima”, III, Póvoa do Varzim, 1985, p. 329.
61 J. Leite de Vasconcelos, Romanceiro português, Coimbra, vol. I, 1958, p. 208 e vol. II, 1960, p. 214. 62 «Partiu o conde de Arcelo/Para uma grande romaria/ D´onde foram descansar/ Em uma praia mui fria./
O conde entendeu a capa,/ Condessa sua mantilha;/ Lá por essa noite dentro/ Galé de mouro havia;/ Quiseram cativar o conde,/ Ele como homem não queria;/ Já o conde fica morto,/ Já a condessa vai cativa». Teófilo Braga, Romanceiro geral português. Romances de aventuras, históricos, lendários e
sacros, vol. II, Lisboa, 1907, p. 134.
63 «Eu vinha do mar de Hamburgo/Numa linda caravela;/ Cativaram-nos os moiros/ Entre la paz e la
guerra:/ Para vender-me levaram/ A Salé que é a sua terra/ (...)», Id., Ibid., p. 147.
64 António Rocha Madahil, Etnografia e História. Bases para a organização do Museu Municipal de
Ílhavo, Ílhavo, 1933, pp. 65-66.
65 Félix Feliciano, Relação do sucesso que teve um corsário de levantados, que havia tempos andava
infestando os mares, cativando muitas embarcações, Lisboa, s.d.
66 João Carvalho Mascarenhas, Lisboa, 1627 publicado in Viagens e naufrágios célebres dos séculos XVI,
vestígios deste medo ancestral, é o caso da expressão «andam mouros na costa», que continua a ser utilizada, embora poucos saibam qual a sua origem e sentido inicial67.