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Dans le document Rapport public annuel 2012 (Page 22-27)

Snowman-Jimmy55 é tido como um protagonista único na prosa deMargaret Atwood.

Em Oryx e Crake, a escritora propõe, pela primeira vez, uma voz narrativa a partir da perspectiva do masculino. A narrativa não é em primeira pessoa, mas se estrutura pelo monólogo interior indireto em terceira pessoa, cujo foco é a mente do protagonista, que aparentemente é o único ser humano sobrevivente a uma situação catastrófica causada principalmente por experimentos biotecnológicos. Para iniciar a análise dessa personagem importante, destaco o parágrafo introdutório do romance:

O Homem das Neves acorda antes do amanhecer. Ele fica deitado, imóvel, ouvindo a maré encher, uma onda atrás da outra se derramando sobre as diversas barricadas, wish-wash, wish-wash, no ritmo do coração. Ele gostaria tanto de acreditar que ainda estava dormindo (ATWOOD, 2004b, p.15).

Sempre que analiso narrativas, observo com bastante atenção o primeiro parágrafo do texto literário, já que na maioria das vezes essa parte da história nos apresenta informações importantes. De fato, o parágrafo inicial de Oryx e Crake já evidencia um protagonista em estado de paralisia diante de uma realidade cujo espaço físico traz marcas de um ambiente degradado pela ação humana. É possível observar também, já nessas primeiras linhas, como o espaço físico repercute psicologicamente na personagem, que, ao acordar, se depara com uma realidade hostil, fazendo com que deseje ainda estar dormindo. Este é o início da jornada de Snowman, que ajuda a contar a história de um mundo em dois tempos distintos: o passado distópico e o presente pós-apocalíptico.

Embora a narrativa se passe num tempo futuro, o que me chama a atenção é o entrelaçamento temporal entre presente e passado. No momento presente, a personagem se autodenomina Snowman (Homem das Neves, em português). No passado, chamava-se Jimmy. A mudança de nome no contexto pós-apocalíptico sugere uma nova identidade para que ele consiga sobreviver num novo ambiente onde há poucos suprimentos, além de lidar com animais híbridos, como os porcões, que ameaçam constantemente a sua vida. Diante disso, o nome

55 Na versão em português de Oryx e Crake, a tradutora sugere O Homem das Neves para se referir a Snowman.

Embora seja uma tradução literal correta, manterei Snowman para me referir ao protagonista ao longo da minha análise.

Snowman (Homem das Neves) remonta à ideia de “abominável”, como é ilustrado no próprio texto: “Por ora, ele abreviou o nome. Ele é simplesmente o Homem das Neves. Guardou para si o abominável, seu instrumento de tortura secreto” (ATWOOD, 2004b, p. 18).

Ao assumir a identidade de “o abominável Homem das Neves”, Jimmy retoma uma das figuras que povoam o imaginário das narrativas norte-americanas: o mito do Sasquatch ou Pé Grande. Além disso, seu nome marca uma ironia dentro do texto. Isso porque, no universo ficcional da narrativa, com a neve já derretida há muito tempo em decorrência das mudanças climáticas, não faria sentindo para os novos habitantes do planeta alguém se chamar Snowman. Através dessa nova persona, o protagonista se coloca no lugar de um ser selvagem que, para sobreviver, ultrapassa a fronteira do humanismo, invocando seu lado animalista: “O Abominável Homem das Neves — existindo e não existindo, vislumbrado no meio de uma nevasca, homem-macaco ou macaco-homem, furtivo, ardiloso, conhecido apenas de se ouvir falar e pelas suas pegadas de trás para a frente” (ATWOOD, 2004b, p.18).

De fato, a forma fluida como tal protagonista é descrito permite-me recorrer à ideia de pós-humano. Essa dubiedade em existir e não existir (preso num intervalo temporal), tal como o próprio Snowman-Jimmy apresenta-se ao/a leitor/a na ambiguidade — “homem-macaco ou macaco-homem” — sugere que a concepção de humano se amplia no romance, solicitando a quebra do paradigma respaldada na visão tradicional do humanismo universal e da identidade inquebrantável. A forma como o protagonista se apresenta também permite a conexão com a ideia de ferality, na esteira de reflexão de Garrard, que a define como “a condição de existir no entrelugar entre domesticação e selvageria” (GARRARD, 2014, p. 242, tradução minha).56 O

lado “fera” da personagem consiste, desse modo, numa energia subversiva para ajudá-lo a sobreviver no contexto pós-apocalíptico. Portanto, considerando esse fato além do apocalipse imanente ao próprio prefixo “pós” de pós-humanismo, eu argumento que a personagem em questão constitui um dos devires da condição pós-humana no âmbito da trilogia MaddAddam.

Em Oryx e Crake, além das personagens, os tempos da narrativa também ajudam a criar uma atmosfera em que os devires de pós-humano se manifestam. Basta apenas observar, já nas primeiras páginas, a referência a um relógio que não funciona, registrando zero hora. O “relógio parado” é um símbolo emblemático para situar o tempo da narrativa. Mesmo Jimmy já encarnando o Snowman, um ser para quem a noção de tempo não tem função alguma, a “ausência de um tempo oficial causa-lhe um arrepio de terror” (ATWOOD, 2004b, p. 15). Essa ausência de um tempo oficial, aliás, inspira a leitura da obra em questão como uma narrativa

informada pelo Antropoceno, uma vez que, embora tal era geológica seja uma realidade, não há ainda um consenso de quando o período se iniciou.

As complicações no que se refere ao tempo da narrativa não linear de Oryx e Crake sugerem, em todo caso, que eu deva considerá-lo também como uma configuração do pós- humano. De fato, ainda que o objetivo desta análise não foque diretamente na questão do tempo, eu não poderia deixar de observar esse aspecto, que se coloca como um elemento desestabilizador para as personagens que lutam pela sobrevivência. Cabe inclusive citar a discussão de Paul Huebener, que, em seu texto, Timely ecocriticism: reading time critically in

the environmental humanities [Ecocrítica oportuna: interpretando criticamente o tempo nas

humanidades ambientais], inicia a discussão que reproduzo abaixo por considerá-la bastante pertinente à minha análise:

Enquanto a área da ecocrítica tem sido amplamente associada com conceitos de lugar, biorregião e outras questões espaciais, há também muitas maneiras pelas quais abordagens ambientais para os estudos literários e culturais possam se beneficiar de um foco direcionado às questões relacionadas ao tempo (HUEBENER, 2018, p. 327, tradução minha).57

Huebener ainda acrescenta que o tempo nunca é uma entidade singular, mas sim uma coleção do múltiplo. Em face desse argumento, reconhecer a complexidade do tempo da narrativa de Atwood é importante. A conexão do tempo com o espaço devastado mobiliza o sentimento de nostalgia que permeia as personagens humanas da trilogia. Em relação a esse sentimento, a propósito, é pertinente trazer algumas considerações em torno da ideia de “solstalgia”, termo cunhado em 2004 por Glenn Albrecht que foi professor de sustentabilidade na Murdoch University, na Austrália. Nas palavras de Lisa Knopp,

solstalgia (rima com nostalgia), uma combinação da palavra em latim solacium (conforto) e a raiz grega algia (dor), [nomeia] a aflição ou angústia que sentimos quando reconhecemos que o lugar onde moramos e que amamos está sob ataque. Somos solstálgicos quando o alívio e o conforto que esperamos sentir em casa são substituídos pela dor e pela angústia por causa de mudanças no meio ambiente que percebemos como negativas. Solstalgia é um tipo de saudade que se sente mesmo estando em casa (KNOPP, 2014, p. 664, grifos do autor, tradução minha).58

57 No original: ‘While the field of ecocriticism has largely been associated with concepts of place, bioregion, and other spatial concerns, there are also many ways in which environmental approaches to cultural and literary studies can benefit from a concentrated focus on issues connected to time”.

58 No original: “solstalgia (it rhymes with nostalgia), a combination of the Latin word solacium (comfort) and the Greek root algia (pain), [names] the distress or anguish we experience when we recognize that the place where we reside and that we love is under assault. We are solstalgic when the solace and comfort that we expect to feel when we’re at home is replaced by sorrow and distress because of changes to the environment that we perceive as negative. Solstalgia is a type of homesickness that one gets while still at home”.

Knopp ainda acrescenta que, apesar de Albrecht ter criado o termo para referir-se a um contexto específico,59 o significado da palavra expandiu-se, passando a abarcar a devastação do

espaço físico ocasionada por fenômenos da natureza, como: inundações, secas, furacões e incêndios florestais causados pela desestabilização do clima. Isto posto, tendo em mente as características do gênero cli-fi presentes em Oryx e Crake, percebemos que Snowman-Jimmy manifesta esse sentimento de solstalgia, enquanto, na condição de sobrevivente, vaga por um espaço físico que apresenta mudanças drásticas causadas tanto pelas mudanças climáticas quanto por experimentos biotecnológicos amplamente letais.

Essa situação caótica pela qual o protagonista atravessa torna-se um dos impedimentos que dificultam a sua sobrevivência. Considerando o que expus até o momento, percebe-se que Snowman-Jimmy existe numa realidade alternativa, que vai além das forças da temporalidade. O passado de Jimmy cruza-se constantemente com o presente de Snowman, o que, na relação de empatia que nós leitores estabelecemos com a personagem, permite imaginar a sensação de terror e angústia constantes que o invade ao se deparar com um ambiente totalmente alterado. A voz de Snowman, portanto, sobrepõe-se à de Jimmy, no momento em que diz a si mesmo “acalme-se”. Manter a calma é uma das principais estratégias de sobrevivência, no âmbito das narrativas pós-apocalípticas.

A sobrevivência é uma palavra-chave que perpassa a literatura canadense. No fazer literário de Margaret Atwood, tal ideia pode ser vista como um dos temas principais e recorrentes. A própria escritora fala desse aspecto relativo à soobrevivência da sua literatura nacional:

O símbolo central para o Canadá — e isto está baseado em vários exemplos de sua ocorrência na literatura canadense tanto em inglês como em francês — é sem dúvida Sobrevivência, la Survivance. [...] [A] palavra [...] pode sugerir sobrevivência a uma crise ou a um desastre, como um furacão ou um naufrágio (ATWOOD, 2004c, p. 41, grifo da autora, tradução minha).60

Survivance, que aparece no trecho acima, é uma palavra que suscita mais explicações.

Francis IV e Munson (2017) colocam que o termo se “refere à sobrevivência, persistência, e resistência dos povos indígenas em face ao genocídio, à opressão e à tragédia”.61 Esta breve

59 Em seu artigo “On Solstalgia”, Lisa Knopp nos informa em que circunstâncias a palavra solstalgia foi inventada. De acordo com ela, Albrecht cunhou o termo para referir-se aos efeitos da mineração no Vale Hunter e da seca prolongada que castigou florestas na região sul do País de Gales.

60 No original: “The central symbol for Canada — and this is based on numerous instances of its occurrence in

both English and French-Canadian literature — is undoubtedly Survival, la Survivance. [...] [T]he word can […] suggest survival of a crisis or disaster, like a hurricane or a wreck”.

61 No original: “refers to survival, endurance, and resistance of Indigenous people in the face genocide, oppression and tragedy”.

definição que os estudiosos propõem origina-se na abordagem de Gerald Vizenor (2008). Este, por sua vez, assevera que survivance é mais do que a mera sobrevivência, é um modo de vida que valoriza os conhecimentos indígenas. Com esse argumento em mente, compreendo que, no momento em que Jimmy assume a identidade de Snowman, sua atitude representa, ao meu ver, o resgate de uma narrativa de survivance para renunciar à tragédia do apocalipse na obra e ao vitimismo do passado do protagonista. Buscarei respaldar melhor esta interpretação durante a análise da personagem em questão, bem como ao tratar de ainda outras na trilogia, que estão interligadas pelo mesmo tema da sobrevivência.

Em relação ao conceito de sobrevivência proposto por Atwood, vale citar ainda Eloína Prati dos Santos (2000), que afirma que tal conceito é múltiplo e adaptável. Essa observação me ajuda a retomar o tropo da sobrevivência, ampliando a sua rede de significados para além daquela proposta por Atwood, que basicamente restringe-se a duas perspectivas: primeiro, à sobrevivência dos/as primeiros/as exploradores/as do território canadense ao ambiente natural hostil; e, em segundo lugar, à sobrevivência dos nativos vinculada à preservação de um lugar onde permanecessem vivos. Santos (2000, p. 231) ainda acrescenta que:

A palavra pode sugerir sobreviver a desastres naturais, acidentes, ou a sobrevivência cultural, no caso dos quebequenses, ou resistir aos ataques imperialistas de um vizinho robusto, no caso dos canadenses falantes de inglês. Mas a ideia principal é manter-se vivo. As preocupações com a sobrevivência, previsivelmente, tornaram-se preocupações com os obstáculos a essa sobrevivência. Para os primeiros exploradores, era externa: a terra, o clima; para a maioria dos escritores atuais, esses obstáculos tornaram-se internos e mais difíceis de identificar.

Em MaddAddam, é possível verificar os dois tipos de obstáculos apontados na citação; fatores externos e internos, que ameaçam a sobrevivência das personagens. A sobrevivência é um aspecto emblemático na trilogia em questão, pois há uma luta constante dos sobreviventes do pós-apocalipse para se manterem vivos. Por isso, um estudo a partir desse tema se impõe através do arco evolutivo das personagens que terão de superar os seus conflitos de ordem pessoal e que, de certa maneira, representa um desafio na luta pela sobrevivência.

Antes de prosseguir com a análise, é importante lembrar que Atwood ultrapassa os limites geográficos canadenses para situar o espaço da narrativa de sua trilogia. Tal como faz em The handmaid’s tale, a escritora ambienta a história nos Estados Unidos, onde, no tempo presente da narrativa, o protagonista perambula pela Costa Leste do país, acompanhado dos

Crakers. Nesse caso, a ideia de sobrevivência não se dá nas mesmas condições com que os

exploradores e nativos do Canadá tiveram que lidar, antes e durante o processo de colonização lá ocorrido.

A sobrevivência, em Oryx e Crake, é localizada nos EUA, mas tem relação direta com uma questão global, em que quase toda a espécie humana foi aniquilada como resultado de experimentos biotecnológicos, além de desastres ambientais ocasionados pela degradação da natureza. É nesse cenário desolador e sem esperanças que Snowman tenta sobreviver. Nas primeiras páginas do romance, o/a leitor/a se depara com indícios da luta do protagonista pela vida, conforme a citação que segue:

Ele guardara umas mangas lá dentro, fechadas em um plástico, uma lata de Salsichas Sem Carne Sveltana, uma preciosa meia garrafa de uísque — quase um terço de garrafa, na verdade — e uma barra energética sabor chocolate roubada de um camping, mole e melada dentro do invólucro de papel-alumínio. Ele também guarda ali um abridor de lata e, sem nenhum motivo específico, um picador de gelo: seis garrafas de cerveja vazias, por razões sentimentais e para estocar água fresca (ATWOOD, 2004b, p. 15-16).

Descrições desse tipo são recorrentes ao longo da narrativa e denotam a escassez de alimentos e de água potável no cenário pós-apocalíptico. A citação evidencia a preocupação de Snowman-Jimmy em manter um kit de sobrevivência com suprimentos e alguns objetos que ele deve utilizar para se alimentar e também reservar água da chuva. Essa atitude é um tipo de estratégia em que a personagem se apoia para adaptar-se à situação difícil e prolongar a sua vida. A ausência de suprimentos exemplifica os obstáculos externos que dificultam a sobrevivência do protagonista.

Entretanto, para sobreviver a essa situação-limite, Snowman-Jimmy também deverá vencer uma série de obstáculos de ordem interna: aqueles que caracterizam a personagem como um sujeito emocionalmente fragilizado. Pode-se constatar esse traço do seu perfil, por exemplo, quando a voz narrativa enfatiza que “seis garrafas de cerveja vazias”, úteis para armazenar água, são separadas também “por razões sentimentais”. Esta passagem comunica a nostalgia que acompanha Snowman-Jimmy, em quem se observa a “necessidade” de manter objetos sem nenhuma utilidade pelo simples fato de serem vestígios de um tempo que não existe mais.

Como assevera Howells (2005), a tensão entre os dualismos engendra a narrativa de

Oryx e Crake. Um dos mais evidentes concerne ao conflito digressivo do romance. Conforme

já mencionei, a narrativa é construída a partir do entrelaçamento do presente com o passado. Dessa forma, as memórias de Jimmy assombram constantemente o presente de Snowman. Se não bastasse a situação periclitante em que se encontra, a personagem tem de lidar com o conflito infância (passado) versus fase adulta (presente). “Antigamente, o Homem das Neves não era o Homem das Neves. Ele era Jimmy. Naquela época ele era um bom menino” (ATWOOD, 2004b, p. 25). Esta é a voz narrativa onisciente que apresenta o protagonista, retrocedendo à sua infância. É nessa fase que temos um panorama do contexto familiar de

Jimmy, filho de um cientista e uma microbiologista que trabalham para os já mencionados Complexos biotecnológicos.

Considerando que Jimmy é uma personagem de uma narrativa distópica, sua família segue o padrão típico e recorrente das distopias clássicas, nas quais a família é via de regra apresentada como disfuncional. A título de exemplificação, Jimmy “se sentia abalado, como se tudo estivesse a ponto de desmoronar e desaparecer” (ATWOOD, 2004b, p. 29). A passagem ilustra bem a insegurança de Jimmy, resultado de um contexto familiar fragmentado no qual a mãe é uma figura ausente. Embora o garoto tivesse uma conexão mais forte com o pai, a fuga misteriosa da mãe, que consegue driblar a severa fiscalização da CorpSeCorps, parece repercutir na formação do sujeito Jimmy, que se torna um adulto frágil e neurótico: “— Eu não sou a minha infância — o Homem das Neves diz em voz alta. Ele odeia estes replays. Ele não pode desligá-los, não pode mudar o assunto, não pode sair da sala” (ATWOOD, 2004b, p. 69- 70). De fato, apesar da nova identidade, Snowman não consegue se desvencilhar do seu passado, que se atualiza constantemente “no” e “contra” seu presente. Retomando o conceito de survivance neste momento, fica claro como Snowman tenta suprimir o passado de vítima na persona de Jimmy. Essa postura não deixa de ser uma atitude de resiliência, pela própria condição solitária da personagem. A narração sob sua perspectiva, aliás, permite-nos, além disso, ainda acessar um outro protagonista masculino da história: Crake.

Embora no início do romance essa personagem já se encontre morta, o fantasma de Crake assombra Snowman através dos recuos ao passado. Pelas memórias da personagem, o leitor vai desvendando as conexões entre os dois protagonistas masculinos de Oryx e Crake. Assim, descobrimos que, alguns meses antes de a mãe de Jimmy desaparecer, Crake, o seu melhor amigo, aparece. “As duas coisas aconteceram no mesmo ano. Qual era a ligação?” (ATWOOD, 2004b, p. 71). Aparentemente nenhuma; porém, o desaparecimento da mãe e o surgimento de Crake são marcas significativas na vida do protagonista.

Com a presença de Crake, Jimmy tem que lidar com outro dualismo que o persegue até o momento presente. Há algo em Crake que impressiona Jimmy: o modo de vestir, sua maturidade, sua inteligência, características que se opõem à personalidade do protagonista, que sempre depende do outro. A ‘inteligência’ de Crake é um fait accompli, o que acentua o sentimento de inferioridade de Jimmy. Essa polarização persegue os amigos durante todo o desenvolvimento dessas personagens.

Os amigos convivem muito tempo juntos, inclusive estudam na mesma escola, onde Crake se mostra excelente em Nanotecnologia Bioquímica. Aqui, a narrativa já dá indício do cientista promissor que ele se tornará anos mais tarde. Além disso, a parceria Crake/Jimmy

serve como personificação de um encontro conflituoso de duas áreas do conhecimento: as ciências naturais (mais especificamente, as ciências biológicas) e as humanas (especialmente das artes). Isso representa um dos dualismos mais persistentes no mundo ocidental, que separa a esfera daquelas como sendo prática e objetiva, e a das humanas/artes como campo permeado pela subjetividade, com juízos de valor embasando essa distinção. Na caracterização das duas personagens, no entanto, Atwood parece apontar um caminho em que as personalidades e conhecimentos de Crake e Jimmy se coadunam. Não posso deixar de observar, ademais, o fato de que o “casamento” dessas duas áreas ocasiona de certa maneira o apocalipse na obra. Apesar disso, acredito que a união da ciência (Crake) e das artes (Jimmy) aponta para a ideia da interdisciplinaridade, que perpassa as humanidades ambientais, tal como outras subáreas, a exemplo da ecocrítica.

Apesar das diferenças bem acentuadas nos perfis psicológicos de Jimmy e Crake, os jogos de computadores são um dos pontos que os aproximam. Conforme já sugeri, o mundo

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