B. Quelques actions marquantes
B.3 Aérotriangulation analytique, GPS absolu et autres problèmes (Ph Hottier)
Sob a influência da sedução, a perversão de ver pode alcançar grande importância na vida sexual da criança. (Freud, 1905, p. 181)
O caso clínico apresentado nessa dissertação tem como hipótese diagnóstica a perversão, que, como vimos em Aulagnier, é uma das manifestações da
potencialidade polimorfa. Esta hipótese foi pautada no conflito identificatório de
Pedro, em sua realidade histórica e, finalmente, nas peculiaridades em torno da escolha objetal que remete ao modelo de amor recebido na relação parental, em detrimento de um desvio sexual do paciente. Tentarei localizar especificamente no conflito identificatório de Pedro as manifestações concernentes à perversão.
A dinâmica familiar do sujeito em questão é composta por alguns elementos transgressores, oferecidos tanto por parte da mãe, quanto do pai, e que, em algum nível, se fazem presentes também na vida social e erótica de Pedro. Todo o contexto familiar relatado mostrou uma indulgência com algumas violações da mãe, especialmente com relação à falta de interdição dela frente à criança. Pedro ficou entregue à satisfação oral da amamentação até os sete anos, sem qualquer interferência de um terceiro – marido da mãe ou filhos mais velhos – que pudesse pôr fim a uma relação que é considerada em nossa cultura, no mínimo, como constrangedora. Do ponto de vista psicanalítico, essa extensão do período de amamentação pode ter favorecido fixações, ao estabelecer uma das condições para a fixação, que é o excesso de estimulação.
Além disso, as cenas de sexo da mãe que Pedro presenciara durante toda a infância, deve ter-lhe causado verdadeiro horror, uma vez que o coito pode ser interpretado pela criança como uma cena agressiva e violenta. Neste contexto, sua mãe ignorou qualquer necessidade de proteção à criança, o grau de parentesco e a diferença entre as gerações; afinal, eram adultos frente a uma criança. Partindo então do postulado de Aulagnier, segundo o qual a perversão implica uma violação
2 Alguns autores citados nesta discussão não estão presentes nos capítulos I e II dedicados à parte teórica. Essas contribuições foram selecionadas e se justificam por se tratarem de autores que articulam sua prática clínica ao tema da perversão.
da lei sexual, social ou ética3, é possível identificar na vida erótica da mãe de Pedro,
uma transgressão da lei nos três aspectos propostos pela autora.
A transgressão a que Pedro foi submetido pode ser ainda mais arcaica do que sua memória pode acessar. Diante da descrição que tenho de sua mãe, não é difícil supor que ele tenha vivido uma estimulação sensorial exagerada desde os primeiros dias de vida, ainda que sob a justificativa de cuidados e higiene. Para Joyce McDougall, com base em sua experiência clínica ―[...] uma mãe pode a contragosto fazer de seu filhinho e de seu corpo uma apropriação indébita‖4 ao atuar seus
fantasmas inconscientes. Trata-se de uma fronteira difícil de ser delimitada, porém, o excesso pode ser determinado até mesmo pela mão da mãe que, sem o freio da sexualidade infantil bem recalcada, perde o limite no contato com o bebê.
Segundo Aulagnier, antes do advento do Eu – entre os seis e os dezoito meses, as vivências do bebê possuem uma inscrição psíquica, por meio de uma representação pictográfica e fantasmática. As representações dessas vivências não serão anuladas, ainda que, no caso da representação pictográfica, sejam inacessíveis ao Eu. Aulagnier ressalta ―o papel que a sensorialidade desempenha na colocação em vida do aparelho psíquico‖5. E por que então, essa mesma
sensorialidade capaz de injetar libido numa criança, pôde ser tão nociva a Pedro? Pedro é o sexto filho, fruto de um casal que não dormia na mesma cama havia tempos. Assim, a criança recém-chegada ganhou seu lugar na cama junto à mãe, onde ficou até os treze anos. Considerando que tal experiência teve a intensidade pulsional potencializada na fase fálica - auge do complexo de Édipo, o que pensar de um púbere e suas transformações corporais acompanhadas da explosão hormonal que é característica desta fase? Impossível não considerar que os desejos incestuosos estiveram muito presentes na vida de Pedro. E a partir dessa consideração, infiro também que o desrespeito de sua mãe, resgatado pela memória de Pedro, pode estender suas raízes aos momentos mais primitivos de sua infância.
É possível supor que os pais de Pedro não o tenham planejado, ou até mesmo desejado mais uma criança, uma vez que possivelmente sua mãe tentou
3 AULAGNIER, P. (1970) “Aspects Théoriques des Perversions”. In Sexualité Humane, p. 217.
4 MCDOUGALL, Joyce. Teatros do Eu – Ilusão e Verdade no Palco Psicanalítico; revisão técnica Pedro Henrique B. Rondon – Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992, p. 209.
5 AULAGNIER, P. (1986) “Nascimento de um Corpo, Origem de uma História”. In Desejo e Identificação. Organização e tradução de Maria Lucia V. Violante – São Paulo: Annablume, 2010, p. 32.
fazer um aborto na gravidez de Elaine, sua quinta filha. Porém, é consenso entre os irmãos que a mãe sempre demonstrara preferência pelos filhos do sexo masculino. Deste modo, o sexo de Pedro deve ter minimizado a falta de desejo pela criança que acabava de nascer; entretanto, pode também ter sido mais um determinante para a formação da parceria perversa entre ele e a mãe, uma vez que muito precocemente a mãe o colocou na posição de cúmplice de suas aventuras sexuais.
Na época de seu nascimento, a irmã mais velha de Pedro era adolescente, tinha 14 anos, os demais ainda eram crianças: Bete, 11 anos; César, 9 anos; David, 5 anos e Elaine, 2 anos. Pedro contou-me que tinha outro irmão que, assim como ele, dormia com a mãe algumas vezes; embora não soubesse a qual irmão ele se referia, é certo que este irmão era mais velho do que sua irmã Elaine. Assim, nitidamente havia um investimento materno diferenciado sobre os filhos do sexo masculino.
Desta maneira, o sexo de Pedro, sua beleza, que o destacava dos irmãos, e o fracasso em que se encontrava a conjugalidade de seus pais, provavelmente favoreceram a relação patológica estabelecida entre ele e a mãe. Embora esses aspectos não sejam, a priori, condição para favorecer uma perversão quando diante de pais psiquicamente saudáveis, penso que tenham incrementado o já complicado contexto familiar. Para Aulagnier:
O que o olhar materno vê estará marcado, também, por sua relação com o pai da criança, por sua própria história infantil, pelas conseqüências de sua atividade de recalcamento e de sublimação, pelo estado de seu próprio corpo – conjunto de fatores que organizam sua maneira de viver seu investimento a respeito da criança.6
Como se não bastasse o excesso de estimulação a que Pedro foi submetido ao dividir o leito com a mãe, há ainda a questão da amamentação. Pedro trouxe uma lembrança, na qual mamava em pé no seio materno. Sobre esse aspecto, observo a falta de interdição materna associada a uma figura paterna enfraquecida, primeiramente pela incerteza, mas também pela ausência do pai que, apesar de morar com Pedro, não foi capaz de deter a sedução da mãe sobre a criança.
Desta maneira, as identificações e a escolha objetal de Pedro também podem ter sido construídas a partir desse lugar passivo e voyeurista perversamente dedicado a ele. Aulagnier dá destaque ao ―poder dos sentidos de afetar a psique [e que] lhe permitirá transformar uma zona sensorial numa zona erógena.‖7. Neste
caso, o misto de horror e prazer8 decorrente das cenas de sexo que Pedro visualizou, pode ter favorecido tanto o desenvolvimento dos aspectos sadomasoquistas relacionados à violência da cena de coito, quanto um desvio relacionado ao alvo sexual, ou seja, estabeleceu-se um modelo voyeurista de obtenção de prazer sexual. É fato, porém, que Pedro não reagiu, acomodou-se e aceitou a cadeira reservada na plateia da mãe. Sofria com a interferência dela em sua vida afetiva, mas não tinha força para ―abandoná-la‖. Para McDougall, ―as crianças são prisioneiras dos desejos e dos temores inconscientes de seus pais. Mas, nem todos os prisioneiros querem fugir!‖9
Como se sabe, o prazer que advém do ver está presente, em algum nível, em todos, uma vez que o ponto de partida é o polimorfismo infantil. Porém, no caso de Pedro, suponho que o prazer decorrente de uma pulsão escopofílica tenha escapado ao orquestramento das pulsões parciais que ocorre na fase fálica, daí a presença marcante desse aspecto em sua vida erótica. São muitas as cenas de intimidade (mãe, amigos, primas da namorada, amigo da namorada) que chegam ao conhecimento de Pedro. Em contrapartida, no processo analítico Pedro parece sair da posição de espectador e põe a mim nesta ―plateia‖. Descreve com precisão algumas cenas, e assim, se alterna na posição voyeurista / exibicionista.
As duas garotas com quem Pedro se relacionou, tinham em comum atitudes ousadas, porém, camufladas numa postura correta que as colocavam acima de qualquer suspeita. Longe de igualá-las à mãe de Pedro, quero apenas ressaltar o quanto o desejo dele aponta, ao contrário do que ele próprio diz, para uma direção que repete o modelo de relação estabelecido entre ele e a mãe. Na infância, Pedro teve que conciliar a imagem da mãe (objeto de amor) à transgressão (traições). De alguma maneira, essa relação entre prazer e transgressão aparece em sua vida
7AULAGNIER, P. (1986) “Nascimento de um Corpo, Origem de uma História”, p. 34.
8 Suponho que a criança tenha observado as primeiras cenas de sexo entre a mãe e os amantes como uma experiência de horror e violência; porém, como esse cenário permeou toda sua infância, considero também que a adaptação às cenas e o seu desenvolvimento psicossexual, que o direcionava às descobertas de seu próprio corpo, podem ter estimulado no menino experiências prazerosas decorrente da erotização a que foi exposto.
adulta como elemento fundamental para Pedro acessar o prazer. Suponho a presença de um elemento masoquista em sua escolha objetal, pois, como alguém que se reconhece como ciumento, pode privilegiar em sua escolha, mulheres ousadas?
Mel, a primeira namorada, era uma dedicada estudante de Psicologia que gostava de se divertir com jogos eróticos que incluíam as amigas e o namorado. Júlia, a segunda namorada, conciliava ainda mais a discrepância entre aspectos maternos e transgressores, pois era uma garota bastante religiosa – membro da banda musical da igreja – e com uma criatividade sexual que impressionava Pedro.
Freud analisou pré-condições excepcionais de alguns homens para que estes possam acessar o amor. Uma dessas pré-condições consiste que:
[...] a mulher casta e de reputação irrepreensível nunca exerce atração que possa levar à condição de objeto amoroso, mas apenas a mulher que é, de uma ou outra forma, sexualmente de má reputação, cuja fidelidade e integridade estão expostas a alguma dúvida.10
Para Freud, essa pré-condição se relaciona com a experiência do ciúme que ―parece ser uma necessidade para os amantes desse tipo‖11. Somente com a
presença do ciúme o objeto amado atinge alto grau de importância – aspecto que era bastante presente na vida erótica de Pedro. É fato, porém, que não há nada de excepcional no fato de um amante sentir ciúme, entretanto, Freud destaca uma ―natureza compulsiva‖ na qual ―os relacionamentos desse tipo repetem-se com as mesmas peculiaridades‖.12. Assim, além da compulsão que impõe a pré-condição do
ciúme, há as repetições desse padrão intenso e descartável de relacionamento, na medida em que outro objeto amoroso mostra-se capaz de reunir tais condições.
Essa maneira singular de se comportar no amor tem, segundo Freud, a mesma origem psíquica encontrada nos amores das pessoas ―normais‖. ―Derivam da fixação infantil de seus sentimentos de ternura pela mãe e representam uma das consequências dessa fixação‖.13
Há, portanto, uma diferença entre a hipótese formulada por Freud e o caso exposto, pois para Freud, essa fixação tem base numa fantasia de infidelidade
10 FREUD, S. (1910) “Um Tipo Especial de Escolha de Objeto feita pelos Homens (Contribuições à Psicologia do Amor I)”, p. 172.
11 Ibid., loc. cit. 12 Ibid., p. 173. 13 Ibid., p. 174.
materna, à medida que o menino entra em contato com a evidência de que sua mãe, assim como as demais mulheres, tem relação sexual com outro homem (o pai).
No caso do Pedro, porém, a realidade fora bastante invasiva, pois não lhe permitira fantasiar: a infidelidade lhe era exposta e o terceiro a lhe provocar ciúme quase nunca era seu pai, ou seja, não havia um único inimigo a odiar, o que poderia favorecer sua insegurança. Essas peculiaridades em torno da escolha objetal não são relacionadas por Freud, exclusivamente, a perversos ou neuróticos, porém, tal como postula McDougall, enquanto na neurose a situação de abuso ou transgressão está mais no plano da fantasia, na perversão há sempre uma contribuição real do ambiente.
O abuso a que Pedro foi submetido na infância, a partir do contato corporal com a mãe, que o amamentou até os sete anos e com ele dividiu a mesma cama – a qual durante o dia era palco de suas orgias –, teve, sem sombra de dúvida, um papel determinante em seu desenvolvimento psicossexual.
É alarmante a atitude condescendente do pai e dos demais para com uma mulher que permitia a uma criança de 07 anos pendurar-se em seu corpo para ―mamar‖. Contudo, o mais abusivo, certamente foi tê-lo feito espectador das relações sexuais da mãe com seus amantes.
De alguma maneira, Pedro foi se acomodando nesse lugar passivo de espectador; manter a condição de filho preferido não fora uma tarefa fácil para ele. Tenho a impressão de que Pedro era, dos filhos, o predileto, e que a grande dedicação e cumplicidade que mantinha com sua mãe era um meio de sustentar essa posição. Embora se queixasse muito das solicitações da mãe, dificilmente a contrariava. O silêncio de Pedro diante das cenas de sexo parece ter sido um dos primeiros sinais de retribuição aos privilégios a ele oferecidos pela mãe. Ocorria assim, uma cumplicidade perversa.
O pai de Pedro não é totalmente excluído da cena familiar, era o provedor da família. No entanto, não era respeitado e, muito menos, desejado pela esposa, haja vista a falta de referência positiva da mãe para com esse homem que era enganado e desmoralizado frente ao filho e, possivelmente, frente à vizinhança. Pedro se via diante de um homem alcoolista, promíscuo e que não se impunha diante das traições da mulher. Além disso, pairava sobre Pedro a dúvida sobre sua verdadeira
paternidade; no entanto, Pedro mostrava-se indiferente a isso, uma vez que a referência materna não abria espaço para um pai (independente da consanguinidade) a ser admirado e respeitado. O pai como objeto de identificação é ambíguo e permissivo, o que provavelmente impôs a Pedro alguma dificuldade em reconhecer no pai um representante da lei a qual deveria se submeter. Para Ceccarelli:
Quando o pai não assegura o lugar de depositário tanto da corrente afetuosa quanto da intensa hostilidade do filho – ou quando a interiorização do medo do mundo externo não é transformada em angústia do pai – a criança vê-se impedida de experimentar seus sentimentos ambivalentes. Isto pode prejudicar a maturação do desejo de morte do pai e entravar a identificação com o pai edipiano. Sem essa identificação, sua função simbólica se vê comprometida.14
Pedro aprendeu a ―gostar‖ do amante de sua mãe, aquele que possivelmente era seu pai biológico; tenho a impressão de que a mesada que lhe era destinada por esse homem era uma gratificação pelo seu silêncio.
Desde muito cedo, foi permitido a Pedro transgredir a regra primordial contra o incesto. O pai, com sua ausência e seus vícios, associados à perversidade de sua mãe, não conseguiu promover a interdição de Pedro contra os desejos incestuosos.
Os ―dois pais‖ de Pedro, embora representem pouco em termos de interdição, em algum nível puderam ser os representantes dos outros, favorecendo o acesso ao simbólico. Porém, mais do que os pais, a relação com os irmãos e o contato com a sociedade garantiram a Pedro algum suporte para o reconhecimento da castração simbólica. Entretanto, esse reconhecimento vem junto com a recusa da castração, sustentada pelo desejo materno de mantê-lo na posição de eterno cúmplice e companheiro, diga-se de passagem, o predileto.
É possível supor a presença de algumas manifestações desse movimento de recusa e reconhecimento frente à castração a partir de características contraditórias presentes na postura de Pedro, as quais podem representar alguma relação com essa dupla afirmação. Na época do início do tratamento, Pedro estava contrariado com sua mãe e, por isso, conseguiu tecer alguns comentários críticos sobre a
14CECCARELLI, P. R. “A Sedução do Pai” In GRIFOS. Publicação anual do Instituto de Estudo Psicanalíticos – IEPSI – Belo Horizonte, número 18, out. 2001, pp. 91-97. Consultado no site: www.ceccarelli.psc.br.
postura dela em relação a ele. Entretanto, toda crítica era seguida por considerações que justificavam tal postura, tal como, ―Ela traía meu pai porque ele era mulherengo!” Ele reconhecia a transgressão da mãe, mas a absolvia no mesmo instante.
Tudo o que lhe propunha um distanciamento da mãe era vivido por ele como algo angustiante, provavelmente o remetendo à angústia de castração, a qual, com a colaboração de sua mãe, conseguiu driblar. A inserção de Pedro na escola primária, o primeiro trabalho, e, até mesmo, o ingresso dele na faculdade – o que só ocorreu com a ajuda da namorada Mel –, foram eventos carregados de angústia, por estarem contrariando o desejo manifesto da mãe.
A partir dessas considerações, posso supor que a potencialidade de Pedro (que considero ser polimorfa - perversão) poderia ser ainda mais grave. Isso porque sua mãe parece revelar um apossamento do filho, que poderia denunciar (na mãe) um desejo psicotizante, na medida em que reservava a Pedro um espaço no qual determinava todo posicionamento (boicote às namoradas, ao estudo, ao descanso e até ao direito de fazer suas próprias escolhas), visando única e exclusivamente sua própria satisfação. Aulagnier alerta sobre os riscos de tal desejo: ―É por isso que insisti sobre o poder desestruturante de um desejo da mãe que se expressasse por um ‗nada muda‘.‖15. Esse desejo reflete uma violência secundária que pode induzir a
criança a recorrer a defesas psicóticas. ―Tal desejo presente na mãe transgride não a lei que proíbe o incesto, mas a que proíbe o assassinato. Neste caso, assassinato psíquico de um desejo a vir, ou de um futuro desejante [...]‖16.
Neste sentido, a recusa e o reconhecimento da castração, que configuram a solução perversa diante da angústia gerada pela castração, foi a saída menos problemática, se comparada à saída psicótica. Inserido neste contexto, Pedro poderia ter simplesmente recusado a castração e ficado numa potencialidade psicótica, indiscutivelmente mais grave.
O estabelecimento da potencialidade se dá a partir da solução edípica diante da angústia de castração, esse desfecho ocorre na fase fálica de primazia genital. A
15 AULAGNIER, P. (1984) O Aprendiz de Historiador e o Mestre-Feiticeiro: Do Discurso Identificante ao
Discurso Delirante, p. 234.
16Idem. “Que Desejo, Porque Filho?”. Revista Psicanálise e Universidade. Número 21. São Paulo: Via Lettera Editora e Livraria, 2004, p. 16.
fase fálica da sexualidade infantil é um momento de grande intensidade pulsional, uma vez que os desejos incestuosos ganham força, constituindo o ápice do complexo de Édipo. Para Freud, ―nos meninos, conforme sabemos, essa fase é marcada pelo fato de que aprenderam a obter sensações prazerosas do seu pequeno pênis, e relacionam seu estado de excitação às suas idéias de relação sexual.‖17. No caso em questão, porém, a excitação não estava relacionada
simplesmente a ―idéias de relação sexual‖, como descreve Freud num processo normal de desenvolvimento psicossexual. Haviam cenas reais de sexo associadas a uma excessiva estimulação sensorial da criança.
Penso que a mãe de Pedro, que parece demonstrar uma sexualidade infantil não recalcada, não pôde fazer uma referência positiva à figura paterna. Pedro, assim, ficou aprisionado na sedução materna, sem a interferência de um pai que poderia lhe interditar o acesso à mãe.
A única característica positiva que Pedro traz em análise sobre o seu pai é o fato de considerá-lo trabalhador. Parece que ele identificou-se com esse aspecto de seu pai, porque Pedro é trabalhador, mas é também passivo e conivente com as transgressões de sua mãe, tal como o pai. Essa passividade é reforçada pela posição de espectador que ocupa junto à mãe.
É possível identificar elementos de seu complexo de Édipo positivo – pai como objeto de identificação e a mãe como objeto de amor –, que se manifestam em