Iniciamos a discussão dos resultados da ENAC começando por referir que procederemos a algumas comparações com os estudos de Mahl e Vasconcelos-Raposo (2005) e de Vasconcelos-Raposo, Coelho, Mahl e Fernandes (2007), uma vez que estes se referem à mesma investigação com futebolistas brasileiros, mas com utilização de diferentes instrumentos: os
primeiros utilizaram o CSAI-2, enquanto Vasconcelos-Raposo e colaboradores (2007) recorreram à ENAC.
Começamos que observar que o nível competitivo mais elevado (Nacional) é o que apresenta os índices mais baixo no negativismo e alto na autoconfiança. Por outro lado, o nível competitivo mais baixo (Distrital) é o que evidencia o valor mais alto no negativismo e o mais baixo na autoconfiança. Os índices do negativismo e da autoconfiança aumentam e diminuem respectivamente à medida que desce o nível competitivo. Estes resultados sustentam e reforçam os que foram obtidos com o PPP, já que neste a autoconfiança (então denominada de autoconfiança2) e o controlo do negativismo, cuja escala é inversa ao negativismo da ENAC, diminuem, de uma forma geral, quando desce o nível competitivo.
Encontrámos diferenças significativas no negativismo, especificamente entre os níveis competitivos Nacional e Distrital e Regional e Distrital, com os valores mais baixos a pertencerem aos níveis competitivos superiores dos emparelhamentos. Estas diferenças, para além de confirmarem a importância do autocontrolo emocional no rendimento desportivo dos futebolistas, reforçam o estatuto deste skill como factor diferenciador do nível de rendimento e performance desportivos. Palmeira e colaboradores (2002) e Vasconcelos- Raposo (1993) referenciam a capacidade de controlo das próprias emoções, nomeadamente nas situações de grande pressão competitiva, como um factor determinante para o desempenho dos atletas de elite no desporto de competição, como é o caso do futebol profissional, especialmente o de alto rendimento.
As nossas conclusões vão ao encontro dos trabalhos de Mahl e Vasconcelos-Raposo (2005) e Vasconcelos-Raposo e colaboradores (2007) e da Teoria Multidimensional da Ansiedade Competitiva (Martens et al., 1990a, 1990b), que defende que o rendimento se relaciona de forma negativa e linear com o negativismo e positiva e linear com a autoconfiança. Também Martens e colaboradores (1990a) sugeriram que os atletas com maior habilidade têm uma capacidade superior aos menos hábeis para lidar com os pensamentos
negativos, e possuem, antes da competição, níveis de negativismo e activação inferiores e uma autoconfiança superior. O sucesso resultante de uma certa aptidão natural para a prática desportiva, leva a que o indivíduo vivencie níveis de negativismo inferiores, que resultam na realização de melhores performances e vice-versa. Estes argumentos, para além de encontrarem sustentação nos nossos resultados e nos de Mahl e Vasconcelos-Raposo (2005) e Vasconcelos-Raposo e colaboradores (2007), são também confirmados por Coetzee e colaboradores (2006), num trabalho igualmente concretizado com futebolistas. Estes autores encontraram diferenças significativas no negativismo, constatando que os futebolistas de sucesso apresentam melhores índices comparativamente aos de menor sucesso.
É de salientar que, se para uns a situação desportiva competitiva é sempre geradora de pensamentos negativos prejudiciais à performance desportiva, existindo uma relação inversa entre negativismo e rendimento (Martens et al., 1990b), para outros, o negativismo, na mesma situação, pode ser facilitadora para uns atletas e prejudicial para outros (Cruz, 1996c). O facto de os pensamentos negativos poderem ser benéficos para a prestação desportiva é igualmente contemplado por Jones e Hanton (2001).
A diferença da nossa investigação para os trabalhos de Mahl e Vasconcelos-Raposo (2005) e de Vasconcelos-Raposo e colaboradores (2007) está no facto de que apenas encontramos diferenças significativas inter-níveis competitivos no negativismo, enquanto aqueles autores encontraram em ambas as escalas dos instrumentos utilizados (CSAI-2 e ENAC). Estas diferenças devem-se, possivelmente, ao facto daqueles autores terem concretizado o seu estudo só com atletas profissionais, enquanto o nosso contempla profissionais e amadores. O profissionalismo no futebol e, consequentemente, a dedicação exclusiva à actividade, costuma estar associado a níveis competitivos mais elevados, consequentemente menores índices de negativismo. Podemos também referenciar aqui os factores culturais como potenciais elementos diferenciadores entre os resultados obtidos no presente trabalho e os de Mahl e Vasconcelos-Raposo (2005) e de Vasconcelos-Raposo e colaboradores (2007).
Relativamente à autoconfiança, embora não tenhamos encontrado diferenças significativas, a verdade é que os seus índices vão aumentando à medida que se sobe no nível competitivo. Algumas investigações, tanto no futebol (Reilly et al.), no futsal (Silva & Vasconcelos-Raposo, 1997), como noutros contextos (Coelho, 2007; Coelho et al., 2007; Cruz, 1996c; Rodrigues & Cruz, 1997; Silva & Vasconcelos-Raposo, 1997; Vasconcelos-Raposo, 1993, 2002), demonstraram que os atletas de nível de rendimento superior possuem valores mais elevados na autoconfiança comparativamente aos de nível inferior. Hanton e colaboradores (2005) defendem que a autoconfiança é uma qualidade essencial para os atletas de elite, uma vez que os pode proteger contra potenciais pensamentos e sentimentos debilitadores vivenciados em situações competitivas. Por outro lado, os bons resultados parecem promover esta variável.
No que se refere às posições, na nossa investigação, tal como nas de Mahl e Vasconcelos-Raposo (2005) e de Vasconcelos-Raposo e colaboradores (2007), não se constataram diferenças significativas entre as diversas posições no que toca ao negativismo e à autoconfiança, o que reforça os resultados do PPP relativamente à autoconfiança, mas contraria os mesmos relativamente ao controlo do negativismo. Verificou-se ainda que, para além dos índices de negativismo aumentarem à medida que o posicionamento se afasta da própria baliza, os guarda-redes são os que revelam a média mais baixa no negativismo e a mais alta na autoconfiança, consolidando, assim, os dados obtidos com o PPP, que evidenciam a especificidade desta função. Por outro lado, o facto dos avançados apresentarem os valores mais altos e baixos, respectivamente, no negativismo e na autoconfiança, poderá constituir uma das justificações para a conhecida falta de eficácia, em termos de finalização, dos jogadores daquela posição. Por outro lado, os resultados em sentido contrário dos defesas, tanto na autoconfiança como no negativismo, poderão dever-se, não só às maiores responsabilidades defensivas deste sector, mas também à actual supremacia e sucesso do futebol eminentemente defensivo praticado por uma parte significativa das equipas portuguesas e europeias (Lobo, 2008).
Em termos gerais, os dados da ENAC reforçam, tal como os trabalhos de Mahl e Vasconcelos-Raposo (2005), a ideia de que a especificidade das posições ocupadas em campo solicitam valências psicológicas específicas e, consequentemente, promovem o desenvolvimento de diferentes perfis, existindo posições muito marcadas por esta evidência, nomeadamente a de guarda-redes.
A idade e a experiência competitiva dos futebolistas do nosso estudo, tal como nos de Mahl e Vasconcelos-Raposo (2005) e Vasconcelos-Raposo e colaboradores (2007), parecem influenciar os seus níveis de negativismo e autoconfiança. No que concerne à idade, os dados da presente investigação permitem identificar diferenças significativas inter-grupos no negativismo e na autoconfiança, constatando-se que estas dimensões diminuem e aumentam, respectivamente, com a idade. Idênticas tendências foram observadas por Mahl e Vasconcelos-Raposo (2005) e Vasconcelos-Raposo e colaboradores (2007), cujos trabalhos revelaram correlações significativas entre a idade e aquelas variáveis dependentes, sendo negativas as associações com o negativismo e positivas com a autoconfiança. Perry e Williams (1998) verificaram que os atletas mais experientes apresentam níveis inferiores de negativismo quando comparados com atletas iniciados (menos experientes). Estes resultados, tal como os que foram obtidos com a nossa aplicação do PPP, acentuam a importância da idade e da experiência competitiva, com o processo de aprendizagem que lhes é inerente, no desenvolvimento da capacidade de autocontrolo das emoções. A este propósito, Barbosa e Cruz (1997) referenciam a experiência competitiva dos atletas como um dos factores que determina a recorrência a diferentes estratégias para lidar com o negativismo.
No que se refere à autoconfiança, tal como já referimos e como sugere o trabalho de Mahl e Vasconcelos-Raposo (2005), aumenta significativamente com a idade, tal como com os anos de prática competitiva. Identificaram-se diferenças significativas entre os futebolistas com 11 ou menos anos de experiência competitiva e os grupos de 12-13 e 18 ou mais anos de experiência competitiva. Assim, tal como Perry e Williams (1998), sugerimos que os atletas
mais experientes apresentam níveis superiores de autoconfiança comparativamente a menos experientes.
Como já argumentamos, a idade e a experiência, com o processo de aprendizagem que lhes é inerente pelos treinos, competição e própria vivência da vida, parecem proporcionar não só o desenvolvimento do autocontrolo emocional, mas também de habilidades de diversa ordem, factor este mobilizador do sentimento de autoconfiança nas próprias competências.
Relativamente à análise das propriedades psicométricas da ENAC, os nossos resultados vão ao encontro dos trabalhos de Coelho (2007) e Coelho e colaboradores (2007) e respectivas argumentações quando questionam a adequabilidade do modelo original. A análise factorial confirmatória por nós realizada, tal como a de Vasconcelos-Raposo e colaboradores (2007), revela a boa adequação do modelo proposto por Coelho e colaboradores (2007), constando-se a existência de índices de adequabilidade superiores ao do modelo original.