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Cinco (p. 103-104)

– Nada? – gritou Lorena gesticulando em código para Irmã Priscila que apareceu na janela do casarão. A freira a- briu os braços e respondeu também perfilada como um marinheiro sinalizando o con- vés. “Nada.” E arrematou a mensagem levando as mãos ao peito para exprimir seu sen- timento. Com um gesto pálido, Lorena agradeceu e ficou mor- discando a conta maior do fio de âmbar. “Se até agora não te- lefonou não telefona mais.” Era ir pensando na rotina do dia: banho. Ginástica. O certo seria fazer a ginástica antes mas de- via estar com a pressão baixa, precisava de água quente para o estímulo inicial. Embora pas- sageiro. “Ai meu Pai.” Almoço com a mãe, como ela estaria? Péssima, naturalmente. Não es- quecer de pedir a chave do car- ro, dia-sim dia-não Lia vinha pedir aquela chave, por sorte a

Le ragazze

Cinque (p. 210)

– Niente? – gridò Lorena gesticolando in codice a Suor Priscila che apparse alla finestra della villa. La suora aprì le brac- cia e rispose anche lei salutando come un marinaio sul ponte. “Niente.” E concluse il messag- gio conducendo le mani al petto per esprimere i suoi sentimenti. Con un gesto pallido, Lorena ringraziò e rimase a mordicchia- re il chicco più grande del filo d’ambra. “Se fin adesso non ha chiamato non chiamerà più.” Bisognerebbe pensare alla routi- ne del giorno: bagno. Ginnasti- ca. La cosa più giusta sarebbe fare prima ginnastica ma forse aveva la pressione bassa, aveva bisogno dell’acqua calda per lo stimolo iniziale. Anche se pas- seggero. “Oh mio Dio.” Pranzo con la mamma, come starà? Ma- lissimo, naturalmente. Non di- menticare di chiedere le chiavi della macchina, un giorno sì un giorno no Lia viene a chiedere

Ragazze

Cinque (p. 105-106)

– Niente? – gridò Lorena gesticolando in codice con So- rella Priscila che era comparsa alla finestra del caseggiato. La suora aprì le braccia e rispose facendo segnali come un mari- naio di profilo sul ponte. «Ni- ente». E sottolineò il messag- gio portando le mani al petto per esprimere il suo sentimen- to. Con un gesto pallido Lorena ringraziò, e se ne rimase a mor- dicchiare la perla più grande della collana di ambra. «Se fi- no ad ora non ha telefonato non telefona più». Restava solo di pensare alla routine del giorno: bagno. Ginnastica. Sarebbe sta- to meglio fare prima ginnastica ma doveva avere la pressione bassa, aveva bisogno di acqua calda per lo stimolo iniziale. Anche se passeggero. «Oh pa- dre mio». Pranzo con mamma, come starà? Malissimo, natu- ralmente. Non dimenticarsi di chiedere la chiave della mac-

mãe era vagotônica, não lem- brava que já tinha emprestado na véspera. “Queira Deus que Lião não seja metralhada den- tro dele.” Faculdade. Fabrizio devia estar por lá atiçando a greve. Laçá-lo para um cinema, festival Greta Garbo, ih, paixão por essa mulher. O sofrimento e o gozo por saber exatamente como é a mulher eterna, ela que era efêmera. “Lorena, a Breve”, pensou e franziu a tes- ta. Mas a namorada neurótica devia estar desencadeada, “Ah, Fabrizio, ame uma p mas não ame uma neurótica que a p po- de virar santa mas a neurótica.” Montar naquela moto e se agar- rar à sua cintura, sentindo o cheiro de couro da jaqueta, bi- cho-homem trepidando na ven- tania, “Vamos, Fabrizio? Mi- nha mesada está inteira, come- remos como príncipes, bolinho de bacalhau e fado”. Choraria potes porque estaria o tempo todo pensando em M.N. que por sua vez estaria pensando no filho mais velho com minhoca- ções agudas, ele tem cinco fi- lhos.

quelle chiavi, per fortuna mam- ma è vagotonica, non si ricorda che le aveva già prestate il gior- no prima. “Spero che Lião non sia mitragliata dentro la macchi- na.” L’università. Fabrizio sarà là a scatenare lo sciopero. Ac- chiapparlo per andare al cinema, festival Greta Garbo, ih, la pas- sione per quella donna. La sof- ferenza e il piacere per sapere esattamente com’è la donna e- terna, lei che è effimera. “Lore- na, la Breve”, pensò aggrottan- do la fronte. Ma la morosa ne- vrotica sarebbe libera, “Ah, Fa- brizio, ama una p piuttosto che una nevrotica perché la p po- trebbe diventare santa ma la ne- vrotica.” Montare su quella mo- to e aggrapparsi alla sua cintura sentendo l’odore di pelle della giacca, bestia-uomo tremolando nelle raffiche di vento, “Andia- mo, Fabrizio? La mia paghetta è intatta, mangeremo come due principi, frittelle di baccalà e fa- do”. Piangerebbe come un a- gnellino perché penserebbe tutto il tempo a M.N. che a sua volta starebbe pensando al figlio più grande con le sue nuvole nere, lui ha cinque figli.

china, un giorno o l’altro Lia sarebbe venuta a chiedere quel- la chiave, per fortuna la mam- ma era vagotonica, non si ri- cordava di averla già prestata il giorno prima. «Voglia il cielo che Lião non sia mitragliata dentro alla macchina». Facoltà. Fabrizio se ne doveva stare da quelle parti ad attizzare lo scio- pero. Trascinarlo al cinema, fe- stival Greta Garbo, uh, passio- ne per quella donna. La soffe- renza e il godimento di sapere esattamente com’è la donna eterna, lei che era effimera. «Lorena, la Breve», pensò e aggrottò la fronte. Ma la ragaz- za nevrotica doveva essere sca- tenata, «Ah, Fabrizio ama una

p ma non amare una nevrotica

che la p può diventare santa ma la nevrotica». Montare su quel- la moto e tenersi alla sua vita, sentendo l’odore di cuoio della giacca, animale-uomo a trepi- dare nel vento: «Andiamo, Fa- brizio? Ho la mesata intera, mangeremo come due principi, polpette di baccalà e fado». Pi- angerei a catinelle perché pen- serei per tutto il tempo a M.N. che a sua volta starebbe pen- sando al suo figlio più grande in lombricamenti acuti, lui ha cinque figli.

Nesse parágrafo, nota-se que a narração é inicialmente heterodiegética e a focalização é externa. Todavia, uma vez concluída a comunicação mímica entre Lorena e a freira, sente-se uma gradativa aproximação do narrador em relação à personagem, culminando numa focalização interna. Não fosse pelo uso das aspas, não seria possível distinguir com nitidez a voz de Lorena da voz do narrador heterodiegético. Essa mescla de vozes, entretanto, é característica do discurso indireto livre, como observa Aguiar e Silva:

A voz das personagens faz-se ouvir tanto em discurso directo, nos diálogos e nos monólogos, como em discurso indirecto. Num caso como noutro, essa voz diferencia-se claramente da voz do narrador, quer pela sua “transcrição” com adequados indicadores grafémicos, quer pela sua introdução com verbos

dicendi, quer pela sua caracterização com traços idiolectais, sociolectais e

dialectais que não podem ser atribuídos ao narrador. No discurso indirecto livre, porém [...], manifestam-se mescladas, no mesmo enunciado, a voz do narrador e a voz da personagem [...]. (1997, p. 764)

Essa é uma forte característica de As meninas. Muitas vezes é tarefa quase impossível determinar onde se cala a voz do narrador heterodiegético para deixar que a voz das personagens se manifeste. No caso do fragmento acima, alguns traços revelam a identidade da voz: primeiro, evidentemente, o uso de aspas; segundo, alguns indícios como “[...] saber exatamente como é a mulher eterna, ela que era efêmera” ou, ainda, “‘Lorena, a Breve’, pensou e franziu a testa” marcam a diferença entre as vozes.

A transição entre as vozes, contudo, dá-se de modo bastante sutil nesse fragmento, pois a focalização interna do narrador heterodiegético se aproxima de tal forma do fluxo de pensamentos de Lorena que chega a passar a impressão de que é a própria personagem quem narra. O fato de que as traduções interpretem a mudança da voz narrativa de modo diferente é uma prova de que se trata de uma questão realmente ambígua.

A conjugação dos verbos em português permite a ambigüidade, pois uma vez que o pronome pessoal permanece implícito no futuro do pretérito simples – choraria e

estaria podem ser tanto primeira quanto terceira pessoa do singular –, não se consegue

identificar a voz narrativa com segurança. Já a língua italiana obriga a identificação da voz mesmo que o pronome pessoal fique implícito, assim, a própria conjugação – nesse caso no condizionale – explicita a pessoa gramatical: (io) piangerei, (lui/lei)

piangerebbe; (io) starei, (lui/lei) starebbe. Ambas traduções, portanto, perdem

inevitavelmente a ambigüidade da passagem de voz.

Interpretando o fim das aspas como demarcação dessa passagem (fim da narração homodiegética e reinício da narração heterodiegética), traduzi a frase seguinte “choraria potes [...]” usando a terceira pessoa; Pesante, ao contrário, manteve a narração homodiegética ao traduzi-la na primeira pessoa. Diante de uma mesma bifurcação, cada tradução optou por um caminho diferente; ambas, porém, marcadas pela perda da ambigüidade.

Genette observa que o uso do presente por parte do narrador heterodiegético provoca a sensação de homodiegetização sentida em fragmentos como o que acabamos de ver:

Il me semble néanmoins que l’effet, si j’ose dire, d’homodiégétisation n’est jamais totalement évacué d’un récit au présent, dont les temps porte toujours plus ou moins présence d’un narrateur qui – pense inévitablement le lecteur – ne peut être bien loin d’une action qu’il donne lui-même comme si proche.116

(1983, p. 55)

116 [Parece-me que o efeito, se me é concedido dizer, de homodiegetização não está nunca completamente

De fato, é muito difícil sentir um narrador como heterodiegético em termos absolutos quando a sua narração focaliza as personagens de tão perto. No caso de uma transição de voz, parece não haver uma nítida fronteira entre a perspectiva do narrador e aquela da personagem. É o que se nota no parágrafo abaixo:

Cotejo 6: Mudança da voz narrativa dentro de um mesmo parágrafo As meninas

Três (p. 59-60)

“Padrão afro. Tem mu- lher hino e mulher balada”, pensou Lorena tirando o pija- ma. Sentou-se na borda da ba- nheira e percorreu com as pon- tas dos dedos a superfície da á- gua. “Eu sou uma balada me- dieval.” E Ana Clara? E Lia? Que gênero de música eram e- las? A única forma de ajudá-las seria oferecer-lhes coisas que não tinham. Apresentar-lhes coisas que não conheciam. O espanto de Lia quando chegou de sandálias franciscanas, a sa- cola de juta dependurada no ombro, só mais tarde comprou a de couro na feira. “Genial, entende. Genial”, repetiu exa- minando os objetos de toalete no banheiro. Abriu o frasco de sais. Cheirou. E em meio do enlevo, bateu no piso a cinza do cigarro. Disfarçadamente, enquanto esticava o piso felpu- do, Lorena apanhou o rolinho de cinza como se apanhasse u- ma borboleta. “Quer tomar um banho? Essa banheira é tão re- pousante”, sugeriu quando ao se inclinar viu de mais perto seus pés nas sandálias. “Pos- so?” – ela perguntou atirando a ponta de cigarro no trono. A- pertei a descarga e preparei-lhe um banho caprichadíssimo. O- fereci-lhe água-de-colônia para uma fricção no corpo, calçava sandálias mas fazia frio. O tal- co. O pente limpíssimo. Chá com biscoitos. Como apoteose, poesia, leio bem poesia. Quan- do levantei a cabeça, ela cochi- lava na poltrona. Mais tarde

Le ragazze

Tre (p. 187-188)

“Modello afro. Ci sono le donne inno e ci sono le donne ballata”, ha pensato Lorena to- gliendosi il pigiama. Si sedette sul bordo della vasca e percorse la superficie dell’acqua con la punta delle dita. “Io sono una ballata medievale.” E Ana Cla- ra? E Lia? Loro, che genere di musica erano? L’unico modo di aiutarle sarebbe offrirgli cose che non avevano. Presentargli cose che non conoscevano. Lo stupore di Lia quando arrivò con i sandali francescani, lo zai- no di iuta appeso alla spalla, so- lo più tardi comprò quello di pelle al mercato. “Geniale, capi- sci. Geniale”, ripeté esaminando gli oggetti da toilette in bagno. Aprì il barattolo di sali. Annusò. E mentre si dilettava, batté sul tappetino la cenere della sigaret- ta. Sottilmente, mentre aggiusta- va il tappetino felpato, Lorena raccolse il rotolino di cenere co- me se acchiappasse una farfalla. “Ti vuoi fare un bagno? Questa vasca è così rilassante”, suggerì quando nell’inchinarsi vide da più vicino i piedi di Lia nei san- dali. “Si può?” – chiese gettan- do il mozzicone della sigaretta nel trono. Tirai l’acqua e le pre- parai un bagno specialissimo. Le offrii l’acqua di colonia per una frizione sul corpo, calzava i sandali ma faceva freddo. Il tal- co. Il pettine pulitissimo. Tè e biscotti. Come apoteosi, poesia, leggo bene poesia. Quando alzai la testa, lei sonnecchiava sulla poltrona. Più tardi seppi che non le piace né la poesia né la mu-

Ragazze

Tre (p. 60)

«Tipo afro. Ci sono don- ne inno e donne ballata», pensò Lorena togliendosi il pigiama. Si sedette sul bordo della vasca da bagno e percorse con la punta delle dita la superficie dell’acqua. «Io sono una balla- ta medievale». E Ana Clara? e Lia? Che genere di musica era- no loro? L’unico modo di aiu- tarle era di regalargli cose che non conoscessero. Lo spavento di Lia quando arrivò con i san- dali francescani, la borsa di iu- ta appesa alla spalla, solo più tardi comprò quella di cuoio al- la fiera. «Geniale, capito. Geni- ale», ripeté esaminando gli og- getti da toilette nel bagno. Aprì la boccetta dei sali. Annusò. E nel mezzo del sollievo, batté per terra la cenere della siga- retta. Facendo finta di niente, mentre allungava il pavimento felpato, Lorena prese il rotolino di cenere come se prendesse u- na farfalla. «Vuoi fare un ba- gno? Questa vasca è così ripo- sante», suggerì quando più da vicino vide i suoi piedi nei san- dali. «Posso?», chiese lei tiran- do la cicca nel trono. Pigiai lo scarico e le preparai un bagno minuziosissimo. Le offrii ac- qua di colonia per una frizione del corpo, portava i sandali ma faceva freddo. Il talco. Il pet- tine pulitissimo. Tè e biscotti. Come apoteosi, poesia, leggo bene poesia. Quando alzai la testa, lei dormicchiava nella poltrona. Più tardi scoprii che non le piacciono né la musica né la poesia. In ogni modo, ac-

narrador, o qual – pensa inevitavelmente o leitor – não pode estar tão distante de uma ação que ele mesmo aborda de tão perto.]

descobri que não gosta nem de poesia nem de música. Ainda assim, liguei o toca-discos e dei-lhe os patrícios, Bethânia, Caetano. E se não dei televisão é porque acho aquilo o fim. Embora esteja pensando numa mas só para ver os filmes an- tigos. E os longa-metragens de vampiros e monstros. Na saída, fez sua primeira ironia. Nem respondi.

sica. Nonostante tutto, accesi il giradischi e le offrii i suoi pae- sani, Bethânia, Caetano. E se non le offrii anche la televisione è perché la trovo una cosa ter- ribile. Anche se ora ci sto facen- do un pensierino ma solo per vedere i film antichi. E i lungo- metraggi di vampiri e mostri. Mentre usciva, fece la sua prima ironia. Non risposi nemmeno.

cesi il giradischi e le diedi i pa- trizi, Bethânia, Caetano. E se non le diedi la televisione è perché la considero la fine. An- che se stavo pensando di pren- derne una ma solo per vedere i vecchi film. E i lungometraggi di vampiri e mostri. All’uscita fece la sua prima ironia. Non risposi nemmeno.

Aqui se observa uma mudança da voz narrativa dentro do mesmo parágrafo – trata-se, então, do último caso de transição da voz citado anteriormente. Logo no início, diferencia-se claramente a voz do narrador heterodiegético e a voz da personagem, quer pela focalização externa, quer pelo uso de aspas e do verbo dicendi (“pensou Lorena”). A partir do momento em que a protagonista percorre a superfície da água com as pontas dos dedos, a focalização se aproxima do seu fluxo de pensamentos, tornando-se, portanto, interna: a impressão é de que a personagem, ao penetrar a superfície da água, tivesse estendido a mão, convidando a narração a penetrar os seus pensamentos. Com efeito, o foco da narração se aproxima de tal forma à personagem que chega a confundir-se com a própria; Lorena se inclina para ver de mais perto os pés de Lia e a focalização que já era interna parece também inclinar-se ainda mais, culminando com a passagem da narração heterodiegética à narração homodiegética. A dúvida poderia ser o ponto exato em que se dá essa passagem: na primeira frase (“‘Posso?’ – ela perguntou atirando a ponta de cigarro no trono”), ou na segunda (“Apertei a descarga e preparei- lhe um banho caprichadíssimo”)? Um leitor atento, entretanto, notará o indício que revela a mudança de voz com maior precisão: trata-se de uma característica idioletal de Lorena, ou seja, o uso do vocábulo trono117. A mudança de voz, portanto, acontece na

transcrição da pergunta de Lia.

Nesse caso, por conseguinte, as duas traduções demonstram concordar com o ponto no qual se dá a passagem da voz narrativa. Além disso, no trecho em que Lorena se lembra do início da amizade com Lia, ambas traduções utilizaram o passato remoto seja para a narração heterodiegética seja para a narração homodiegética, o que, sem

117 Lia, em outro momento do romance, confirma esse traço característico da amiga: “A sala de banho

lilás resplandece como se a noite do quarto tivesse se estendido acesa até ali. Tenho que deixar a porta aberta porque ela continua falando enquanto luto com o zíper que me belisca a pele. Do vaso (perdão, Lorena), do trono fico vendo os objetos cintilantes na mesa de mármore e que lembram os da concha rosada de Lorena: sais coloridos em frascos de cristal, arminhos, potes de creme, argolas douradas onde estão as toalhas com um grande Mbordado em roxo, o L de Lena é cor-de-rosa” (TELLES, 1998, p. 237- 238).

dúvida, contribuiu para que a transição de voz fosse sentida de forma tão sutil em italiano quanto em português.

Esse exemplo revela que a mudança da voz narrativa nem sempre é sentida de forma rígida, pois não há uma barreira imperativa entre os dois tipos de narração (hetero e homodiegética). Pode-se afirmar, ao contrário, que a mudança gradual de foco (do externo para o interno) permite uma passagem de voz suave, quase imperceptível aos olhos desatentos, como um dégradé, em que a passagem de uma cor a outra implica que em algum ponto as duas cores se mesclem antes de se fixar com maior precisão. Genette reconhece que, de fato, não há uma fronteira absoluta entre a narração homodiegética e a heterodiegética:

Je ne sais pas si je maintiendrais aujourd’hui l’idée d’une frontière infranchissable entre des deux types hétéro- et homodiégétique. [...] J’ai dit un peu plus haut que la seule présence d’un épilogue au présent pouvait y suffire, et je n’ai aucune raison de m’en dédire : contrairement au présent du commentaire, ou de référence au seul moment de la narration, cet emploi du présent marque sans équivoque une relation du narrateur à son histoire, qui est une relation de contemporanéité. A partir de quoi l’on hésitera légitimement entre un diagnostic d’homodiégèse ou d’hétérodiégèse – selon la définition de ces termes, qui après tout n’a elle-même rien d’absolu. Je serais donc ici plutôt porté aujourd’hui à accorder cette frange au gradualisme de Stanzel, malgré la réserve de Dorrit Cohn, qui objecte la clause d’impossibilité grammaticale : « Aucun texte, dit-elle, ne peut être placé sur la frontière qui sépare les narrations à la première et à la troisième personne, pour la simple raison que la différence grammaticale entre les personnes n’est pas relative mais absolue. » La « raison » est incontestable, mais la conséquence l’est ou non selon le sens donné au mot texte : il serait difficile à une phrase d’être à la fois dans les deux camps, mais un texte plus

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