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ÉVOLUTION DU NOMBRE D’EXPLOITATIONS

Dans le document AVRIL 2016 (Page 23-26)

Sendo este o momento primordial de nossa pesquisa, partimos, inicialmente, para uma caracterização individual dos sujeitos entrevistados87 para entrar no seu universo particular, entender suas trajetórias e conhecer parte de suas histórias de vida.

3.4.1 Francisco

A busca pelo contato com Francisco teve início com uma conversa telefônica com sua mãe, uma senhora instruída e sempre presente, mas que se viu esgotada com a dificuldade de melhora do filho durante toda a trajetória no sistema socioeducativo. De modo diferente, estava agora feliz ao informar que ele havia constituído família, estava morando em uma cidade da Zona da Mata mineira e trabalhando como pedreiro para sustentar seu primeiro filho.

Assim, fizemos contato telefônico com o jovem e marcamos nosso encontro em sua cidade ao findar de seu expediente de trabalho. Ao entrar na cidade, ainda dentro do ônibus, reconheci o jovem erguendo um muro com tijolos. Como se parecesse nos aguardar, procurou com os olhos pelo ônibus e acenou. O encontro foi marcado na praça

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Destaca-se que todos os entrevistados já haviam completado a maioridade na época em que aconteceram as entrevistas, sendo assim, iremos fazer menção aos mesmos como jovens.

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central da cidade onde Francisco chegou guiando sua moto, mostrando com orgulho o primeiro seu bem, fruto do próprio trabalho.

Francisco é o filho mais velho de uma união que gerou apenas um casal. Como revela, sofreu com o histórico de uso abusivo de álcool do pai, até que o casamento teve um fim. Morando com a mãe e a irmã em uma casa localizada no mesmo terreno em que a tia e a avó maternas residiam, iniciou o uso de drogas aos 14 anos por “curiosidade” e desde então se tornou dependente. Segundo ele,

esvaziei minha casa... Minha avó escondia até os potes de mantimentos debaixo da cama para eu não roubar... tudo o que minha mãe comprava, eu vendia. No desespero minha tia até chegou a comprar droga pra mim pra eu não ter que roubar.

Após vários períodos de internação, justificados pelos pequenos, mas recorrentes roubos, Francisco sempre retornava para sua comunidade de origem onde afirma existir muitos pontos de venda de drogas e, assim, acabava retornando ao uso, pois não recebera um tratamento de saúde adequado, apenas fora privado da liberdade para manter-se afastado das drogas. Aos 19 anos, afirma que o marco da transformação em sua vida foi mudar-se de cidade.

Ao longo da pesquisa veremos com mais profundidade as respostas trazidas pelo jovem e os rebatimentos da privação da liberdade em sua vida e na definição de suas escolhas.

3.4.2 Tales

A notícia que tínhamos era que o jovem Tales estaria preso na cadeia de sua cidade, mas fomos surpreendidos quando entramos em contato com sua mãe, cujo coração, como ela mesma afirmou, estava agora “sossegado”. O filho estava recuperado, morando sozinho e trabalhando em sua cidade natal no interior do estado.

Na conversa com Tales, por telefone, empolgado, o jovem se ofereceu para vir a Juiz de Fora nos conceder a entrevista e assim aconteceu. O encontro foi em uma praça central da cidade, em que o jovem chegou vestido de terno e gravata com uma enorme bíblia debaixo do braço. “Você já deve ter reparado que eu mudei só de me ver assim, né?”, perguntou com um sorriso no rosto.

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Filho de uma jovem mãe e fruto de um relacionamento instável, foi adotado por uma prima e criado por ela como filho. No período em que ficou internado na unidade socioeducativa de Juiz de Fora, a equipe técnica viabilizou o contato com a mãe biológica e tentou fortalecer os vínculos a pedido do próprio jovem. Durante esse processo passou a ter duas mães: “a mãe que me criou e minha mãe de verdade”. Fortalecido o vínculo, passou a chamar “a mãe que o criou” de tia e pode contar com o apoio da mãe biológica que o “adotou” desde então.

Aos 19 anos, Tales apresenta um enorme histórico de atos infracionais e uma trajetória nada incomum dentro do sistema socioeducativo e também prisional a que estão sujeitos centenas, se não milhares, de adolescentes brasileiros.

Acautelado em sua cidade por três vezes, chegou a permanecer por duas vezes, em caráter provisório, por quarenta e cinco dias e por três meses na cadeia pública, já sentenciado com a internação, aguardando vaga no sistema socioeducativo, até que veio transferido para Juiz de Fora. No Centro Socioeducativo, longe de sua família e recebendo visitas esporádicas, vivenciou experiências difíceis a respeito das quais prefere não ficar se lembrando, como afirmou. Mas também pode iniciar o que seria um “começo da mudança”.

3.4.3 Elias

No primeiro encontro com o jovem Elias não obtivemos sucesso. O

aguardávamos no local e horário combinados, mas o jovem não se fez presente. No dia seguinte recebemos uma ligação, e uma voz preocupada em se explicar disse que não havia comparecido, pois precisou ajudar a sogra às pressas e queria saber se teria como remarcar a entrevista.

Filho caçula de pais separados, Elias possui quatro irmãos e foi um deles quem mais o apoiou. Acusado de homicídio e ocultação de cadáver, crimes estes que afirma não ter cometido, encontrou em um dos irmãos grande apoio e a pessoa que o aconselharia nos períodos difíceis que teve de enfrentar.

Aos 21 anos, após passar mais de dois anos cumprindo medida socioeducativa de privação de liberdade e semiliberdade, Elias está formalmente empregado dentro da área

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em que se especializou profissionalmente no SENAI enquanto estava no PEMSE. Reside com a noiva e passou a ser “motivo de orgulho” para sua mãe.

Jovem muito educado e sempre receptivo aos atendimentos da equipe técnica, Elias passou pela rebelião de 2008 dentro do Centro Socioeducativo sem se envolver com o tumulto, ainda assim, conta que apanhou de sete policiais fardados e um cachorro, e

declarou que “poderia ter ficado revoltado com isso”, mas fez a opção por manter-se calmo pra sair de lá o quanto antes.

“Hoje minha felicidade é quando eu recebo meu salário e mando minha mãe e minha noiva pro supermercado fazer compras”.

Com suas palavras o jovem nos apontou de que modo o cumprimento da medida o influenciou em sua vida. Com base nesses apontamentos e, também, dos demais

entrevistados, construiremos nossas análises.

3.4.4 Luan

A notícia de como estava Luan nos foi dada por sua irmã: “preso, não teve jeito...”

Nascido em uma família em que tios e primos tinham envolvimento com a criminalidade, e cuja mãe era grave dependente de drogas, Luan foi deixado aos cuidados da avó materna, enquanto o irmão aos cuidados de sua madrinha. Dessa forma, declara que ao irmão foram dadas oportunidades e educação para que não se envolvesse com as “as coisas erradas da vida, enquanto que pra mim: nada... desde pequeno sempre foi assim”.

Sem nada pra comer, ia para o supermercado para roubar e era perseguido por conta disso em sua comunidade. Conta que perambulava pelos bares da cidade, tentando achar os restos de comida nas mesas e em suas lixeiras.

Aí sim era quando eu comia comida gostosa de verdade... mesmo que fosse resto babujado de outra pessoa... porque já tava cansado de raspar as panelas na minha casa pra ver se conseguia comer pelo menos um pouquinho...

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Cresceu no que seria uma boca de fumo, uma casa que servia de ponto de drogas e que era administrada por uma tia. Afirma que começou como “vapor” e chegou a ser “patrão” e entrou no sistema socioeducativo por conta do tráfico e do uso abusivo de drogas.

Dono de um comportamento enérgico declara que sofreu muito durante a internação, mas depois “acostumou, ficou suave”. Disse ter vivido de tudo dentro do Centro Socioeducativo e ao compará-lo a cadeia onde está, afirma que a internação é “só a réplica de uma cadeia”.

Nos momentos finais da entrevista, Luan declarou “agora eu não quero falar mais, não... quero entrar na minha cela e dormir um bocado, ver uma televisão... relaxar...” apontando, tristemente, que já havia se naturalizado ali também.

3.4.5 Lorenzo

A princípio, o contato telefônico com o Lorenzo não foi viabilizado, pois o número de telefone não mais correspondia ao de sua residência. Mas a surpresa veio ao saber que ele estava na lista daqueles que estavam detidos no CERESP.

Ao me encontrar, nas dependências daquela unidade, disse: “É, acabei seguindo o caminho do meu pai”, afirmou o jovem de 20 anos, já preso há dois meses. Sua intenção era conseguir um roubo grande para que pudesse “deixar essa vida”, para isso cometeu um crime federal e será sentenciado em cerca de oito anos, segundo sua defesa.

O pai já está no sistema penitenciário há mais de dez anos. A mãe trabalha em período integral para sustentar a casa onde também reside o companheiro desempregado e a filha mais velha que está se graduando na faculdade.

Ao deixar a unidade, por vezes, escutávamos alguém comentando dentro do Centro Socioeducativo que vira o jovem vestido com o uniforme de uma rede de

supermercados da cidade. No entanto, esse período de “sossego”, segundo o jovem, durou apenas cerca de um ano. Deixou o bairro onde morava, pois arrumou problemas com traficantes, na tentativa de sustentar-se a si e a companheira, vislumbrou no crime, novamente, a possibilidade de “levantar um dinheiro fácil”.

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Durante a entrevista Lorenzo explicita melhor as razões que o fizeram retornar à prática delituosa e compartilha conosco os alguns momentos vivenciados durante a privação da liberdade e as repercussões dessa experiência para o seu futuro e, assim, nos auxilia na construção dessa pesquisa.

3.4.6 Augusto

Assim como no caso do jovem Lorenzo, só fomos noticiados de onde Augusto se encontrava quando acessamos a lista dos que estavam no CERESP. No Centro de

Remanejamento já se encontrava há três meses devido a um assalto a uma casa lotérica no interior de Minas.

Aos 21 anos, revela que a intenção com o crime não era outra senão garantir uma quantia grande de dinheiro para sustentar a companheira e o filho. Mas a tentativa frustrada o fez ingressar no sistema penitenciário que, de acordo com suas declarações, para o filho de dois anos é o “hospital” onde se trata, “que é pra ele não achar ele tem um pai bandido... não quero essa vida pra ele”.

Residente em um bairro violento de Juiz de Fora, o jovem morava com a mãe e seus três irmãos e três sobrinhas. À época da internação, na oportunidade da visita

domiciliar, encontramos o seu nome pichado em todos os muros da rua onde morava, em uma demonstração de domínio sob aquele espaço. Como ele mesmo lembra, andava dia e noite com duas armas na cintura, pois precisava se “garantir” mediante tantos conflitos com outros adolescentes e, até mesmo, traficantes do seu bairro. Nas ocasiões em que era liberado para passar o fim de semana com sua família, conta que não podia sair de dentro de casa, nem mesmo quando recebera a liberdade: “só depois que os traficantes foram presos e outros lá morreram é que eu pude sair na rua”.

Acautelado devido a um homicídio, Augusto foi internado já com 18 anos, pois o ato fora cometido pouco tempo antes de completar a maioridade, afirma que teve “sorte de ter caído como de menor”. Ao longo de sua internação, afirma sempre ter sido acuado a manter o bom comportamento sob ameaças de ser transferido para o CERESP. Diante do medo, “ficava quieto pra sair dali mais rápido”.

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Essas e outras experiências o jovem compartilhou conosco e delas faremos proveito para trazer ao leitor a interferência desse período em que ficou privado de sua liberdade.

3.4.7 Matias

Envolvido com a prática de atos infracionais desde quatorze anos de idade, Matias, agora com dezenove anos, já estava sendo uma das pessoas mais procuradas da região pela polícia.

Não foi difícil imaginar onde se encontrava, pois os jornais da cidade noticiavam suas práticas, agora sem problemas em divulgar seu rosto e seu nome.

Ainda assim, em contato com seu pai ele nos informou que o filho já

estava preso no CERESP há dois meses e pela segunda vez. Tendo sido submetido

a vários tipos de medidas socioeducativas e por várias vezes, nunca teve

envolvimento com o tráfico, a questão maior, até então, eram os incontáveis

assaltos. De acordo com suas palavras: “ué, deu vontade e eu fui roubar”.

Quando ainda era adolescente, em uma de suas internações, chegou ao

Centro Socioeducativo com marcas de tortura e em poucas palavras contou o que

os policiais o fizeram. Sendo um dos articuladores de um tumulto dentro da unidade

revela que apanhou de um ex-agente socioeducativo e declarou que “ainda bem que

eu nunca encontrei esse pilantra no meu caminho”.

Matias sempre usava o exemplo do pai, um trabalhador braçal, para dizer “que não foi falta de exemplo”. A mãe parou de trabalhar para cuidar dos três filhos, mas Matias passou a morar com amigos e declara que nunca deu atenção ao que a mãe dizia. Durante as visitas a Matias no Centro Socioeducativo raras eram as palavras trocadas entre mãe e filho.

Ao chegar à juventude, em meio a sua conturbada vida, afirma que conheceu uma pessoa e construiu sua própria família. No entanto, “minha mulher não gostava da minha vida, mas pra ficar comigo tinha que aceitar... ela tem que gostar é de cuidar do meu filho, só isso”.

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Ao findar da entrevista disse: “Me volta eu pra lá, lá é bom... Você não tem como fazer isso, não?”, referindo-se à unidade socioeducativa.

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