Sobre corpo, compreendemos que este é detentor de um vasto espaço nos discursos difundidos socialmente, bem como a ele é dedicado muita atenção no que concerne a realização de tera- pias, práticas corporais, processos cirúrgicos, intervenções estéticas, entre outros processos interventivos com finalidade de lazer, expressão e cuidados com a saúde.
Refletindo sobre o corpo, Nóbrega (2010) chama a atenção para a cultura de consumo que se criou sobre ele na contem- poraneidade, especialmente a partir da influência das insti- tuições midiáticas. No entanto, o consumo se dá sobre o corpo bonito, sexualmente disponível e passível de exposição através da aparência e do visual.
1 Atualmente o endereço do blog Medida Certa. Disponível em: <http://fantas-
tico.globo.com/platb/medidacerta>. Acesso em: 29 jan. 2015. direciona para o último quadro que foi o “Medida Certa – O Condomínio”, o qual foi ao ar em 2015. Fato que impossibilita a localização dos dados do período da coleta, deixando-os apenas nos arquivos dos pesquisadores e não mais disponíveis na rede. No entanto, algumas informações do quadro ainda estão disponíveis no site da Globo, na página direcionada ao programa Fantástico, disponível em: <http://g1.globo.com/fantastico/quadros/medida-certa/>. Acesso em: 29 jan. 2015.
Os discursos sobre o corpo veiculado pela mídia são em sua maioria restritos diante a variedade corporal existente, pois, adotam padrões que devem ser dissipados no imaginário social buscando uma adequação coletiva como sinônimo de feli- cidade, de beleza, e, acima de tudo, de saúde.
Diante os dados analisados chegamos as seguintes catego- rias de análise: corpo como sistema operacional; corpo biológico; corpo fragmentado e exterior ao sujeito; corpo quantificado e padronizado; e, corpo sujeito. Estas categorias mantem relações entre si e contribuem com a busca da reprogramação do corpo.
Corpo como sistema operacional
Destacamos dentro desta categoria as compreensões, saberes e práticas que se propuseram a realizar uma reprogramação do corpo. Os termos reprogramar ou reprogramação foram frequentemente utilizados durante todo o desenvolvimento do quadro pelos profissionais da área médica, nutricional e da Educação Física, bem como pelos jornalistas integrantes e pelo público que acompanhou o quadro.
Em muitos momentos, a ideia da reprogramação foi tomada como conceito base para os objetivos e as intervenções realizadas. Segundo a jornalista Patrícia Poeta o desafio do quadro é “reprogramar o corpo em 90 dias” (PATRÍCIA POETA, VÍDEO BLOG 03).
Sobre este fato, percebemos que quando é realizada a programação no corpo não se devem negar os componentes nele existente, mas é necessário reorganizar os hábitos e costumes para poder atingir os objetivos estabelecidos. Podemos perceber isto quando a jornalista Renata Ceribelli apresenta que o objetivo
do “reality” é reprogramar o corpo, e que os jornalistas/apresen- tadores passaram pelo processo de reprogramação mantendo as rotinas de cada um (RENATA CERIBELLLI, VÍDEO BLOG 02).
O corpo se associaria ao computador, visto que, seria necessária a “instalação” de novos hábitos, especialmente atra- vés da prática regular de exercícios e do controle alimentar, bem como por meio da “remoção” do que não lhe é útil ou do que atrapalha o seu desempenho. Esse corpo enquanto siste- ma operacional, assim como os sistemas computacionais, está submetido aos riscos da contaminação dos vírus. Estes vírus seriam provenientes de diferentes fontes, sejam os vírus biológi- cos estudados e decifrados nos laboratórios pelos profissionais da área da saúde, ou, os vírus sociais, que aqui caracterizaría- mos a partir das modas, do consumo, das aparências, entre outros, e que no cotidiano nos infectam ou buscam nos infectar.
Para refletir de forma mais detalhada sobre os vírus sociais acima comentados, destacamos o fenômeno das modas. Sobre este, Baudrillard (1990, p. 77) comenta que:
Basta considerar o efeito da moda. É um contágio miraculoso das formas, em que o vírus da reação em cadeia prevalece à lógi- ca da distinção. O prazer da moda é, decerto, cultural, mas não seria mais ainda decorrente do consenso imediato, fulgurante nos jogos dos signos? As modas, aliás extinguem-se como as epidemias, quando devastaram a imaginação, e o vírus se cansa.
Portanto, verificamos que a moda surge como um efei- to viral que contamina as pessoas, contaminação essa que se extinguirá, ou se ressignificará, quando se normaliza dentro do contexto social em que estas vivem. No contexto atual a moda
cansa quando se torna habitual, fato que demanda a necessi- dade do surgimento de novas modas. Assim, percebemos que a moda enquanto vírus social atrela-se as relações de poder exercidas socialmente, não um poder centrado em um único sujeito ou grupo, mas um poder que circula através das relações exercidas e vivenciadas por esses, como destaca Foucault (2012) ao tematizar sobre poder numa perspectiva relacional.
Ainda sobre a associação do corpo ao sistema operacio- nal, Baudrillard (1990, p. 31) diz que “a revolução cibernética leva o homem, diante da equivalência entre cérebro e computa- dor, à interrogação crucial: sou um homem ou uma máquina?”. Essa interrogação que coloca o ser humano diante a inquietação da associação a uma máquina não é recente, no entanto, verifi- camos ressignificações. Anteriormente, o corpo foi constante- mente associado às máquinas, sendo estas pensadas através das máquinas a vapor, de funções mecânicas “braçais”, de força e produção do trabalho. Este seria visualizado no arcabouço dos seus músculos, ossos e constituintes biológicos que associados entre si possibilitariam o desenvolvimento de trabalho.
Hoje em dia, os seres humanos assemelham-se as máquinas digitais, virtualizadas e integradas a circuitos de informações. Máquinas essas que tentam reproduzir, e muitas vezes reprodu- zem, funções desempenhadas pelos seres humanos nas relações sociais. Todavia essas máquinas apresentam limitações que as tornam estranhas ao ser humano. Para Baudrillard (1990, p. 61):
O que sempre distinguirá o funcionamento do homem do funcionamento das máquinas, mesmo das mais inteligentes, é a embriaguez de funcionar, o prazer. Inventar máquinas que sintam prazer está ainda, felizmente, fora dos poderes do homem. Todos os tipos de prótese
podem concorrer para o prazer dele. Embora invente algumas que trabalham, “pensam” ou se deslocam melhor do que ele ou por ele, não há prótese, técnica ou midiática, do prazer do homem, do prazer de ser homem. Para isso seria necessário que as máquinas tivessem ideias do homem, que pudessem inventar o homem, mas para elas é tarde demais: foi ele quem as inventou.
O ser humano enquanto corpo vivo e situado em um contexto está sujeito às sensações, as ressignificações e as reconstruções dos sentidos e modos do viver. As máquinas estão condicionadas e programadas ao desenvolvimento de funções específicas pensadas a partir dos desejos e necessida- des de quem as programa, todavia o ser humano não se rende aos desejos “próprios” das máquinas.
A ideia desta categoria de análise é sintetizada na fala da jornalista Renata Ceribelli quando realiza a apresentação da proposta do quadro. A jornalista argumenta que: “vou tirar da memória do meu corpo tudo aquilo que me fez engordar no decorrer dos anos, e vou reprogramá-lo em 90 dias” (RENATA CERIBELLI, POSTAGEM 01). “A proposta do Medida Certa é Reprogramar o Corpo em 90 dias. E o que isso significa? Dar um outro padrão de saúde para o corpo através de mudanças nos hábitos alimentares, e principalmente incluindo atividade física Diária na nossa vida” (RENATA CERIBELLI, POSTAGEM 51).
Diante os argumentos expostos, verificamos que o corpo nessa reprogramação se torna passivo, visto que as intervenções foram realizadas de fora para dentro não oportunizando a atua- ção do próprio corpo, que para nosso entendimento não pode ser reconhecido somente como objeto, mas também como sujeito que se modifica, capaz de refletir e decidir sobre suas ações.
Na realização dessa reprogramação corporal, fica eviden- te que os exercícios foram essenciais. Durante o quadro foram realizadas diferentes tipos de atividade física, as quais exempli- ficamos a seguir: vôlei, natação, musculação, corrida, caminha- da, musculação, pular corda, remo, ciclismo, dança, ginástica funcional, yoga, entre outros.
O controle alimentar também foi essencial para a obten- ção da reprogramação proposta. Ao longo do quadro foram apresentadas inúmeras dicas de alimentos que contribuem para o emagrecimento, como também para o aumento do peso. Receitas de pratos; indicação da alimentação fragmentada de três em três horas, seis vezes ao dia; ingestão de fibras e hidra- tação; dentre outras dicas. Portanto, fica evidente que nesta categoria de conteúdo o corpo foi compreendido e divulgado pela mídia como um sistema operacional com necessidade de reprogramação, ou seja, de emagrecimento.