4. SUIVIS DE LA DÉCISION D-2018-021
4.3 Évolution des impacts de la maintenance réalisée sur les taux
Sustentei anteriormente que é possível notar que ao longo dos tempos houve um grande empenho por parte do ser humano para distinguir a si dos demais animais. Esse orgulho humano diante dos demais animais, de acordo com Nietzsche (2004, p. 33, grifos do autor), se fundamenta “num preconceito quanto ao que é espírito: e tal preconceito é relativamente jovem. Na longa história da humanidade pressupunha-se o espírito em toda parte e não se pensava em honrá-lo como privilégio do homem”. É, portanto, um breve apanhado da história de afirmação desse entendimento humano de espírito como atributo exclusivo da espécie que será apresentado aqui. Merece ressalva o fato de que, nesse histórico
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de distinções, a característica distintiva elencada como principal na maioria dos casos está associada a uma noção de espírito mais próxima do campo da filosofia do que de uma acepção religiosa.
Adorno e Horkheimer (2006) dedicam uma seção de Dialética do Esclarecimento à dualidade entre homem e animal. Para eles, “na história europeia, a Ideia do homem exprime- se na maneira pela qual ele é distinguido do animal. A ausência da razão no animal prova a dignidade do homem” (ADORNO; HORKHEIMER 2006, p. 201). Os autores citam um episódio recorrente em contos infantis como exemplo do desprezo do humano para com o animal: os encantamentos que aprisionam um homem no corpo de um animal representam uma condenação. De acordo com os filósofos, “quando a dominação da natureza é o verdadeiro objetivo, a inferioridade biológica será sempre o estigma por excelência, e a fraqueza impressa pela natureza a marca incitando à violência” (ADORNO; HORKHEIMER 2006, p. 203-204). Foi esse também o pretexto que historicamente subjugou a mulher. Respeitar o animal, para eles, num mundo liberto da aparência em que os valores humanos se sobrepõem aos naturais, acabava por ser assimilado como um ato de traição do progresso. As empresas no sentido de estabelecer distinções, assim, consistem num aparato necessário para levar a cabo os intuitos humanos. Na maioria dos casos, essa estratégia vem sendo considerada legítima mesmo quando certas distinções, ingenuamente, quase chegam a ponto de atribuir o estatuto de deidade ao ser humano – uma vez que, com certa frequência, admitem ou sugerem a colocação do homem fora do Reino Animal.
David Hume (2004), apesar de se referir aos animais não humanos como criaturas dotadas de pensamento, não esconde o quão mais extraordinária considera a nossa espécie e admite que, para chegarmos a um bom entendimento da natureza humana, a comparação com tais seres é uma técnica adequada. De acordo com o filósofo,
Ao formarmos nosso conceito sobre a natureza humana, podemos fazer uma comparação entre os homens e os animais, as únicas criaturas dotadas de pensamento que os nossos sentidos conhecem. Certamente essa comparação é favorável à humanidade. De um lado, nós vemos uma criatura cujos pensamentos não são limitados por quaisquer fronteiras estreitas, seja de espaço ou de tempo; que amplia as suas pesquisas até as mais distantes regiões do globo, e mesmo além do globo, até os planetas e corpos celestes, olha para trás especulando sobre a sua origem, para ao menos tentar entender a história da raça humana; projeta o futuro para julgar a influência de suas ações sobre a posteridade, e os julgamentos que farão de seu caráter mil anos depois; uma criatura que interpreta as causas e efeitos com grande profundidade e complexidade; que extrai princípios gerais de acontecimentos particulares; que se aprimora a partir de suas descobertas; corrige seus erros; e até mesmo torna esses erros proveitosos. Do outro lado, apresentam- nos uma criatura inteiramente oposta a isso; limitada, em suas observações e pensamentos, a alguns poucos objetos visíveis que a cercam; sem curiosidade, sem antevisão; guiada cegamente pelo instinto; e atingindo em pouco tempo o limite da
62 sua perfeição, além do qual jamais será capaz de avançar um passo sequer. Que enorme diferença existe entre essas criaturas! E que elevado deve ser o nosso julgamento da primeira, em comparação com a segunda. (HUME, 2004, p. 189-190) Nota-se que o filósofo empirista avaliza ao mesmo tempo a distinção enquanto método para a ciência do homem e o estatuto mais “elevado” da espécie humana. Além disso, Hume (2004) é bem mais detalhista ao descrever as características humanas do que quando se refere aos outros animais. Ele se contenta em dizer apenas que os animais são “limitados” e cegamente guiados pelos instintos. Levando em conta esse trecho do texto do autor, não seria descabido admitirmos que em sua visão a ciência do homem é encetada com um erro fundamental. Ao promover a comparação, Hume (2004) não tem o cuidado de reconhecer o pertencimento do ser humano ao Reino Animal. Trata-se de uma comparação “entre os homens [“de um lado”] e os animais [“do outro lado”]”. Esse equívoco, no entanto, não pode ser atribuído estritamente a Hume, pois esse recurso distintivo utilizado exatamente desse modo ou com pequenas variações é um lugar-comum mesmo entre alguns dos sujeitos mais lúcidos de nossa história. Isoladamente, essa cisão tampouco consiste num grave problema de deturpação da natureza humana. Não é a mera dicotomização discursiva que é problemática, mas ela talvez seja um pequeno indício de um abismo mais profundo que pouco a pouco vem sendo cavado. Uma hipótese que se pode lançar é a de que o não reconhecimento da animalidade de nossa espécie e a ausência de enfoque educativo no que se refere a esse quesito ao longo da história humana, quiçá culmine hoje em situações extremas de (in)subordinação/(in)disciplina por parte dos educandos e em certo prejuízo formativo e desgaste da credibilidade das instituições. Todavia, o que mais interessa aqui é a natureza da cisão estabelecida por Hume (2004), isto é, a busca por distinção não raro vem acompanhada da insinuação de que o homem não é um animal.
Na contemporaneidade Frans De Waal (2010), em livro dedicado a discutir a empatia e a socialidade em animais não humanos, também chama a atenção para esse impulso humano de querer se distinguir. O autor afirma que “mesmo aqueles que admitem que os humanos são um produto da evolução continuam a procurar pela centelha divina, pela ‘grande anomalia’ que nos diferencia dos outros animais” (DE WAAL, 2010, p. 293). Depreende-se dessa citação justamente o que há pouco mencionei: a ocorrência desse hábito persistente mesmo entre intelectuais.
De todas as distinções apresentadas pelo historiador Keith Thomas (1988) entre humanos e outros animais, a que consta no título desta seção certamente é a mais curiosa. Para um leigo em biologia, uma primeira impressão possivelmente leve a supor que o fato de
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não saber menear as orelhas se trate de uma desvantagem evolutiva do humano com relação aos outros animais, mas a seguir tratarei de me aprofundar nessa questão. Por ora é interessante chamar a atenção para o fato dessa característica não estar relacionada ao preconceito humano atestado por Nietzsche (2004). A incapacidade de mexer as orelhas nada tem a ver com a crença de que somos os únicos animais detentores de espírito.
Em sua obra O Homem e o Mundo Natural: mudanças de atitudes em relação às plantas e aos animais (1500-1800), Thomas (1988) elenca uma série de autores que se preocuparam em escolher um epítome qualificativo que distinguisse o humano de outros animais. Enquanto Thomas Willis chamou o ser humano de animal que ri, Benjamin Franklin preferiu tratar nossa espécie como “o animal que fabrica seus utensílios”. Edmund Burke, por sua vez, considera o homem um animal religioso e James Boswell um animal que cozinha (THOMAS, 1988).
Ao remontar aos gregos para situar as origens de tais investidas distintivas na literatura, Thomas (1988) salienta a importância que Platão atribuiu ao fato de o humano andar ereto e o interesse de Aristóteles em desenvolver o tema. Aristóteles, como se sabe, chamou o homem de animal político e social – e esses, bem como a alcunha de animal racional, talvez sejam os qualificativos distintivos mais famosos na história –, mas não sem antes expor uma série de outras diferenças de menor relevância como o fato do homem ser um animal que ri, no qual os cabelos encanecem e que seria o único animal que não pode menear as orelhas. A impossibilidade de menear as orelhas não é, ao contrário do que se poderia precipitadamente inferir (por se tratar de uma inaptidão), uma desvantagem evolutiva. O humano não meneia as orelhas porque não necessita. Os animais que o fazem geralmente se valem desse artifício para ouvir melhor, ou para denotar sentimentos como medo e perplexidade. Para o ser humano não haveria vantagem alguma em mover suas orelhas, pois o rosto humano carrega possibilidades de expressão muito mais complexas. Ademais, a facilidade que temos em mover o pescoço tornaria igualmente desnecessária a mobilidade de nossas orelhas. Nossa audição tampouco é prejudicada por essa inaptidão. Ainda que não se possa colocar a capacidade de mover as orelhas em termos de desvantagem ou vantagem evolutiva, é possível dizer que em uma espécie considerada mais evoluída, como o humano, se desenvolveram modos mais sutis de expressão que não requerem a mobilidade auricular. Trata-se, portanto, de um traço de suposta vantagem evolutiva ainda que por si só essa característica não denote um benefício. Curiosamente os poucos indivíduos que conseguem mexê-las, ainda que discretamente, ostentam e demonstram tal empresa como um talento
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especial. Embora não constitua uma vantagem, menear as orelhas torna-se, nesse sentido, uma proeza, e quem a realiza costumeiramente se vangloria de modo zombeteiro de possuir uma qualidade distintiva, uma espécie de vocação extraordinária. Ironicamente, assim, uma aptidão compartilhada com espécies consideradas inferiores na cadeia evolutiva (e que se expressa na espécie humana quase sempre como inaptidão) ganha estatuto de um dom extraordinário. Essa provocação não é de todo fortuita visto que a notoriedade lograda por uma aptidão que simboliza de certa maneira uma inferioridade evolutiva se alinha com a política desta pesquisa. O leitor já deve ter se dado conta que este trabalho tem como objetivo se debruçar sobre a animalidade e, particularmente a animalidade humana, num sentido afirmativo e, no nosso caso, como não poderia ser diferente, sempre revestida de humanidade. Não por acaso quero me ater à análise de eventos em que emergem intensidade animais e que se opõem ou consentem com a moral buscando salientar suas potências criativas e suas possibilidades de problematização para além do âmbito da moralidade. Não caberá aqui aferir a adequação ou inadequação dos atos, mas seu potencial multiplicador de perspectivas.
Como sustenta Nietzsche (2004), todos os grandes homens de vanguarda foram considerados imorais em suas épocas. O imoral por vezes pode ser um artista de si, um desviante que carrega um grande potencial autoformador afirmativo, um visionário que resiste a se render ao automatismo e aos cânones do pensamento de seu tempo, um poeta sensível demais para ser esmagado por burocracias e regras ortodoxas. Freud, por exemplo, foi considerado imoral em seu tempo por dar tamanha importância à sexualidade na formação da psique. Nietzsche, mais do que sê-lo, autointitulou-se um imoralista. Mais de cem anos se passaram e ambos certamente estão entre os pensadores mais influentes da história.