As questões relacionadas à definição e ao conceito de periferia são determinantes para a compreensão do centro e da centralidade, até porque, a priori, o centro é o ambiente constituído espacialmente em oposição a periferia, podendo ensejar um entendimento de que os processos verificados em cada uma dessas áreas são dissonantes.
Tal percepção, que a princípio estabelecem estes espaços como sendo antagônicos, advém de um entendimento verificado por Dematteis (1998), ao afirmar que o exame da literatura sobre as periferias urbanas, entre os de 1950 e 1980, era marcado
por definições que colocavam a periferia como espaço em oposição ao centro, sendo evidenciados, neste contexto, inúmeros critérios metafóricos de dominação, relacionados ao centro principal, e de dependência, relativo as periferias.
De fato, reconhecemos que o centro é um fato apenas e tão somente porque existe uma periferia, do mesmo modo que não podemos imaginar uma periferia sem um centro como referência. Porém, isso não significa que podemos ter uma visão rígida e maniqueísta sobre a relação centro-periferia. O que devemos ressaltar é que o centro e a periferia podem ser tratados como antagônicos, no sentido das premissas, como um postulado, no entanto, é arriscado considerar o mesmo antagonismo como sendo um paradigma.
Pois assim, poderíamos incorrer em uma reprodução equivocada referente a imagem da periferia, definindo-a “como não-centro, consequentemente como um espaço sem os valores da centralidade” (DEMATTEIS, 1998, p. 4).
É prenunciado que os espaços urbanos tendem a apresentar um centro de um lado e do outro a periferia, mas uma simples mudança de escala pode ser suficiente para nos fazer perceber outras diferenciações centro-periferia. Pois, em diversas realidades urbanas, notadamente as brasileiras, ao vislumbrarmos uma análise espacial a partir da escala da cidade ou da aglomeração urbana, como um todo, identificaremos uma periferia marcada por estruturas uniformemente difusas orientadas a partir da articulação de um centro principal opulento. Todavia, ao debruçarmos sobre limites zonais urbanos, numa escala geográfica mais detalhada, é possível identificarmos a ocorrência de espaços nodais articuladores capazes de imprimir relativas complexidades as periferias.
Dematteis (1998, p. 5) indica que está complexidade resultante das relações estabelecidas entre centro e periferia, verificada a partir de simples mudanças escalares, são constatadas tanto nas cidades anglo-saxãs e como nas cidades latinas, sendo que o autor,
a imagem das novas periferias é então complexa: na escala macro aparece uma única grande estrutura difusora na forma de uma rede, enquanto na escala
micro cada “nó” dessa rede revela características específicas, identidades
particulares e, portanto, princípios de organização espacial de característica própria. Os modelos gerais aptos a descrever essas novas realidades territoriais e sociais são precisamente os de sistemas complexos, de auto-organização, de autopoiese.
Nesta direção, Bonnet e Tomas (1989) defendem que, mesmo sendo recorrentes as análises sobre a temática da centralidade a partir de concepções dualistas entre centro-
periferia, onde o centro da cidade se apresenta como centralidade exclusiva e as periferias como as áreas marginalizadas socialmente, a partir dos anos de 1960, na Europa e nos Estados Unidos, ganha força a visão de que o centro da cidade não expressa mais exclusivamente poder sobre o espaço, acabando por perder e/ou transferir parte dos seus valores econômicos, simbólicos, religiosos, políticos e culturais que o caracterizou uma vez.
Surge, de acordo com Bonnet e Tomas (1989), a concepção de novos centros na periferia, mostrando uma renovação da centralidade, não limitada ao centro principal/tradicional da cidade ou a sua área de expansão. Esta situação, até então singular, contribuiu para impulsionar até mesmo a propagação de ideias em torno da ocorrência de uma possível diluição e dissolução da cidade, sendo que alguns autores, a exemplo de Webber (1968) e Mitchell (2002), chegaram a defender até mesmo “o fim das cidades” e que o conceito de cidade tinha até se tornado anacrônico.
O que se verifica, no entanto, conforme Mignot (et al, 2004), é que, originalmente, no caso das metrópoles contemporâneas, estas são caracterizadas por um duplo movimento, aparentemente paradoxal, de concentração e de espalhamento.
O que a princípio parece um contrassenso, pode ser elucidado por Lencioni (2008), no sentido de que existe unidade na dispersão, e tal unidade é estabelecida em função de movimentos concentradores/centralizadores que formam e concedem integridade a aglomeração.
Essa combinação de dispersão e concentração é que configura o espaço da metrópole contemporânea. A metrópole coesa, como “grande cidade”, é a forma clássica da metrópole. O seu espraiamento por um extenso território e seus limites imprecisos pode levar a entender que o que é disperso não é o aglomerado [...]. Trata-se apenas de uma aparência, pois o que é disperso é a forma que assume a aglomeração. Seja qual for a configuração metropolitana, quer seja um espaço mais denso ou mais disperso, esse espaço é condição, processo e produto associado à urbanização, que tem na ideia de aglomeração um dos elementos centrais de sua definição. Portanto, o que é disperso é sua forma (LENCIONI, 2008, p. 9).
Assim sendo, a concentração e a dispersão são contraditórias apenas na aparência, pois estas, ao fornecer elementos para a constituição da centralidade, contribuem para a reestruturação atual das formas urbanas, marcadas por movimentos que vão desde o reforço da centralidade historicamente estabelecida, até a uma tendência a
multicentralidade9.
Neste contexto, funções são dispersas a partir da ordem superior dos centros principais para centros de ordem inferior, sendo que, dentre outros fatores impulsionadores, evidencia-se as deseconomias de aglomeração como determinante para o desencadeamento deste processo de descentralização (CORRÊA, 1997), que acabam por estabelecer relações complementares ou de concorrência entre centros, contribuindo para alterar, não só o “espaço dos lugares”, defendido por Castells (1983), mas também o seu “espaço dos fluxos”.