O II Ateliê Internacional da Nova Museologia, realizado em Lisboa no ano de 1985, foi um evento em cujo documento final é possível perceber, mais uma vez, um esforço em criar conceitos para enunciar a prática museológica. Neste momento, os discursos estavam menos voltados para o exterior, ou para se opor a uma experiência “instituída” de museus, e mais preocupados em definir os termos de atuação do próprio movimento.
O evento reuniu setenta e duas pessoas dos seguintes países: Argentina, Bélgica, Brasil, Canadá, Espanha, França, Noruega e Portugal.42 Com a meta de “aprofundar a reflexão sobre a nova museologia e dar ao movimento estruturas internacionais de organização”43, teve objetivos teóricos e práticos. Entre os objetivos teóricos estavam: refletir sobre as relações entre museus e poder público no desenvolvimento de museus locais, aprofundar as reflexões sobre as relações entre museus locais e investigação científica e defender a importância de atuação dos museus locais na preservação de patrimônios. Entre os objetivos práticos estavam a apresentação da Declaração de Quebec, para reafirmá-la, e a estruturação de uma associação internacional com foco na Nova Museologia. A programação do evento se dividiu em debates nos grupos de trabalho e visitas às experiências locais.
É importante deter a reflexão sobre este evento pelo esforço realizado naquele momento em produzir categorias para o campo. No documento produzido durante este evento, a categoria “museu integral” desaparece e dá lugar a “museu local”. Percebe-se que há uma especialização da ideia a ser comunicada com o uso da nova categoria. Se, antes, o museu integral buscava dar conta de uma transformação na essência dos museus em geral, agora, com a categoria museu local, buscava-se enunciar experiências específicas de uma museologia que se pretendia nova. No lugar da transformação das grandes narrativas nacionais, elucidativas de um passado identificado com os grupos
42 Atas do II Ateliê Internacional sobre a Nova Museologia – Museus locais, 1985. MINOM-ICOM 1985-046-04. Disponível em: http://www.minom-icom.net/_old/signud/.
43 Atas do II Ateliê Internacional sobre a Nova Museologia – Museus locais, 1985. MINOM-ICOM 1985-046-04. Disponível em: http://www.minom-icom.net/_old/signud/.
dominantes, apresentava-se o museu como lugar do desenvolvimento local, que deveria passar pela preservação do patrimônio, pela investigação científica e pelo poder público tanto quanto os outros tipos de museu.
Nas relatorias dos grupos de trabalho, algumas definições para a categoria “museu local” são apresentadas. O grupo de trabalho Museus locais e poder público defendeu que:
a denominação museu local, que se apresenta sob diferentes formas, corresponde aqui aos museus que privilegiam a dialética homem/meio e fundamentam o seu funcionamento na participação da população local.44
Nos eventos que sucederam a Mesa Redonda de Santiago do Chile, é sempre retomada a ideia de valorizar a relação dos museus com seu meio. A população local deixa de ser apenas público, com quem os museus precisam comunicar, mediar e interagir, como aparecia nos documentos anteriores, para surgir como participante fundamental na organização e gestão dos museus. Na noção de ecomuseu a participação da população também é importante característica, porém, é com a categoria museu local que este princípio se consolidou. É importante atentar para esta mudança conceitual, já que este princípio da participação da população estará na matriz dos empreendimentos que, nos anos 2000, mobilizarão a categoria museologia social e serão problematizados mais à frente.
Já o grupo “Museus locais e defesa do Patrimônio” aprofunda esta definição:
O museu local privilegia as formas descentralizadas de modo que a imagem se encontra em permanência de forma coletiva a fim de que o conjunto da população do território se sinta motivada e possa participar continuamente nas atividades do museu local, nas decisões que lhe digam respeito, na sua organização e gestão.45
44 Atas do II Ateliê Internacional sobre a Nova Museologia – Museus locais, 1985. MINOM-ICOM 1985-046-04. Disponível em: http://www.minom-icom.net/_old/signud/.
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Ao mesmo tempo, percebe-se um alargamento da ideia de desenvolvimento a que se integrariam os museus. No encontro de 1972 os esforços eram concentrados no papel dos museus no desenvolvimento tecnológico para melhoria das condições de vida local. Em 1985, tratava-se de “integrar todos os meios de desenvolvimento” 46, buscando tornar os museus “de certa forma um dos meios possíveis de aproximação entre os povos, do seu conhecimento próprio e mútuo, do seu desenvolvimento crítico e do seu desejo de criação fraterna de um mundo respeitador da sua riqueza intrínseca.” 47 O foco no incentivo à propagação dos avanços tecnológicos e sua aplicação para o desenvolvimento local sai de cena para dar lugar a uma percepção holística do desenvolvimento, incorporando conceitos humanistas a essa percepção.
O II Ateliê Internacional da Nova Museologia foi espaço para a produção de definições e procedimentos para a museologia sob o prisma da Nova Museologia. As reflexões produzidas neste evento cunharam os termos e expressões que, posteriormente, foram mobilizados pelos articuladores da museologia social para compor o campo semântico que gravita em torno dela.
Ao longo deste capítulo, busquei problematizar através de prismas diversos a criação e consolidação da museologia social como categoria no campo da museologia. Procurei apontar os intelectuais que se mobilizaram em torno dela, identificando também seus espaços de circulação e as estratégias de que lançaram mão para legitimar aquela categoria. Dentre essas estratégias para consolidação da categoria, a historicização me pareceu mais interessante, na medida em que produz relações de continuidades entre determinados eventos e conceitos. Era buscando aproximar-se de determinadas experiências e categorias produzidas no passado recente que estes intelectuais buscavam qualificar sua própria experiência. O uso desta estratégia fica bastante evidente em duas situações.
No que diz respeito à continuidade entre eventos distintos, podemos elencar a defesa que Mario Moutinho faz de uma leitura que conecta a elaboração da Declaração de Quebec, a realização do Ateliê de 1984 e a criação do Movimento Internacional da Nova Museologia (Minom) à Mesa Redonda de Santiago do Chile. Pede o autor que aqueles eventos sejam lidos “como um todo coerente, que contribuiu desde então, para o reconhecimento no seio da Museologia, do direito à diferença” (Moutinho, 1995: 26). A
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coerência entre os eventos é mobilizada em uma apropriação dos discursos neles produzidos, revelando o projeto que mobilizava Mario Moutinho, no momento de produção daquela reflexão já ocupado da produção da museologia social como categoria legítima no campo.
Outro aspecto desta produção de continuidades diz respeito às relações que se estabeleceram entre alguns conceitos. Note-se, por exemplo, que o termo museologia social não aparece nos documentos do ICOM nem do MINOM até finais dos anos 1980. Eram utilizados termos como museologia comunitária, museologia local, museologia ativa. Não é possível afirmar com precisão quando o termo museologia social tornou-se, para os sujeitos que se mobilizam em torno dela, a categoria que engloba todas essas iniciativas. O primeiro documento que encontrei com o termo é o já abordado programa do curso de especialização em Museologia Social criado por Mário Moutinho. Entretanto, percebe-se uma apropriação do termo para designar experiências anteriores e com as quais se pretende estabelecer, justamente, uma relação de continuidade e aproximação.
Esta operação fica especialmente clara quando se analisa o arquivo do MINOM disponibilizado na internet. Nos descritores e palavras-chaves que referenciam as séries e documentos é possível encontrar 92 registros do termo museologia social, dentre os quais se encontram, também, documentos produzidos nas décadas de 1970 e 1980. Porém, ao analisar os documentos que compõem as séries e fundos assim descritos, não se encontra o termo.
O arquivo do Minom foi organizado a partir da pesquisa de mestrado realizada por Ana Mercedes Fernandes dos Reis Diez Stoffel Fernandes no mestrado em Museologia Social da ULHT, sob orientação de Mario Moutinho. 48 A pesquisa resultou na dissertação Um núsleo dosumental para o estudo do Minom, defendida em junho de 2005 (Fernandes, 2005). Afirma a autora que seu objetivo inicial era produzir uma história do Minom. Entretanto, ao se deparar com a documentação dispersa sobre o movimento, decidiu redirecionar o foco de sua pesquisa. Dedicou-se então à
recolha e organização de todo o acervo documental MINOM possível e à concepção de um modelo informático de tratamento
48 “The SIGNUD – MINOM Document Collection was designed within the context of a master’s thesis submitted to Universidade Lusófona by Ana Mercedes Stoffel Fernandes, and constitutes a reference methodological framework dedicated to MINOM – International Movement for a New Museology.” Disponível em http://www.minom-icom.net/signud-minom-documental-collection-interpretation-and- management-system. Acesso em: 12/03/2016.
e interpretação dessa mesma documentação, cuja consulta permitisse a elaboração de trabalhos científicos históricos e de investigação, bem como outro tipo de iniciativas, que pudessem apoiar a difusão e expansão dos seus propósitos. (Fernandes, 2005: 8-9).
Note-se que o acervo não foi composto apenas pelos documentos produzidos e acumulados pelo cotidiano administrativo da instituição. Afirma Fernandes que buscou, durante o levantamento,
fazer a recolha mais exaustiva possível de documentos, dados e depoimentos e também de bibliografia. Esta recolha foi realizada junto do maior número possível de intervenientes ligados ao processo de criação e desenvolvimento do movimento. Durante os contactos, foi solicitada a actores, promotores e simpatizantes do MINOM, a entrega daquela documentação que considerassem fundamental para o seu conhecimento e estudo. (Fernandes, 2005: 15).
Desta maneira, o chamado “arquivo do Minom” foi produzido a partir da busca orientada pelo interesse da autora e informada pela produção acadêmica em torno da museologia social.
Neste ponto, é preciso chamar atenção para a nomenclatura dada ao conjunto de documentos produzido neste processo. No site do Minom, a seção que dá acesso aos documentos é chamada “Arquivos do Minom (Minom Arshives na versão em inglês do site). Entretanto, no texto que o descreve, é chamado “Núcleo Documental”. Na dissertação de Ana Fernandes, afirma ter organizado um “Núcleo Documental”, mas, ao longo do trabalho, também se refere à organização de “dossiês de arquivo” e “pastas de arquivo” (Fernandes, 2005: 17-18).
No universo dos arquivos, o uso dessa nomenclatura faz toda a diferença. Segundo Marilena Leite Paes, um arquivo é “a acumulação ordenada dos documentos, em sua maioria textuais, criados por uma instituição ou pessoa, no curso de sua atividade, e preservados para a consecução de seus objetivos, visando à utilidade que poderão oferecer no futuro” (Paes, 2004: 16). Neste sentido, o empreendimento do
Minom se aproximaria mais da definição de “centro de documentação ou informação” que propõe Paes: “trabalha com documentos, criando-os ou coletando-os, classificando- os, conservando-os ou divulgando-os” (Paes, 2004: 17).
Em sua dissertação, Ana Fernandes usa indistintamente os termos museologia social e nova museologia. Ao analisarmos a historicização que faz do termo museologia social, percebemos que a indexação dos arquivos do Minom reflete de forma evidente a maneira como ela própria entende o termo (Fernandes, 2005: 34). Diversos eventos e práticas anteriores ao surgimento da categoria, alguns anteriores à própria Mesa Redonda de Santiago, são relacionados como exemplos de museologia social (Fernandes, 2005: 35-36).
Evidencia-se que a maneira de indexar os arquivos do Minom reproduz os sentidos que os profissionais articulados em torno da museologia social conferem à categoria. Esta indexação, ao ser transposta para os mecanismos digitais de busca no acervo influenciam a produção de conhecimento sobre a museologia social, pois impactam a informação que será disponibilizada aos pesquisadores sobre o tema. Luciana Heymann reflete sobre alguns efeitos da aplicação de ferramentas de acesso on- line a acervos arquivísticos (2012c). A autora sugere que
as ferramentas de automação e as tecnologias digitais, ao introduzirem mudanças no processamento das informações arquivísticas, obrigando os profissionais a pensá-las a partir de novos enquadramentos e, sobretudo, ao alterarem profundamente as formas pelas quais tais informações são acessadas, produzem novos sentidos para os acervos e conformam novas práticas. (Heymann, 2012c: 52)
A autora problematiza a ideia de que a consulta on-line proporcionaria automaticamente a universalização do acesso aos documentos. Em razão disso, sugere que estes dispositivos “ao mesmo tempo em que democratizam o acesso, viabilizando consultas em nível planetário, podem obscurecer contextos arquivísticos e enquadramentos institucionais” (Heymann, 2012c: 52). Entendo que, no caso do acervo do Minom, é produzida a opacidade destes “enquadramentos institucionais”, redundando na produção de continuidades entre eventos e categorias distintas que interessa àqueles que se mobilizam em torno da museologia social.
Os intelectuais engajados na produção da museologia social como categoria se articularam em grupos de produção acadêmica, fundaram uma revista e um programa de pós-graduação. Nestes ambientes, produziram narrativas históricas, definiram conceitos, concorreram por categorias e procedimentos da museologia. Realizaram este movimento atrelando o apelo à mobilização comunitária e a busca por renovação epistemológica dos museus.
Conforme anunciado, ainda que não abordado diretamente, foi destacada a atuação de alguns destes intelectuais na produção de políticas de governo para o campo dos museus no Brasil a partir do ano de 2003. Este será, justamente, o objeto central das reflexões do próximo capítulo.