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2.8 Propriétés des images TEP reconstruites

2.8.3 Évaluation des contrastes et quantification

O tema do passado tem grande importância nas obras de Bacon. Entretanto, ele reconhecia que rupturas com os erros da antiguidade eram necessárias para a construção de um futuro melhor. Na verdade, o que Bacon queria conservar da antiguidade eram alguns resultados práticos interessantes e terminologias úteis, mas ele não via nenhuma proposta metodológica anterior a dele como capaz de reordenar a vida social. É ilustrativa disso a metáfora baconiana “dos destroços de um naufrágio” 83.

Segundo Bacon, um atento observador pode resgatar do dilúvio do tempo histórias passadas, a partir da análise do legado do passado, isto é, dos monumentos, dos provérbios, dos documentos e dos tratados. É o observador que resgata o passado. Os destroços do naufrágio não têm o papel de resgatar ninguém. Não há pedaço de madeira flutuando em que um náufrago possa se agarrar para, nadando, chegar às margens do rio e se salvar. O navio que naufragou indica a passado que existiu, mas não um futuro que pode existir. A despeito disso, Bacon não assumia abertamente a posição de um progressista anti-conservador. Ele valorizou o fato de que o pensador, embora não ensine aonde ir, mostre aonde não se deve ir.

Muito pouco avanço houve na ciência durante os séculos que precederam a era moderna, constata Bacon. O mundo antigo não se apresentou como um celeiro de inventos. Pouco se fez para que o conhecimento levasse a uma vida mais aprazível. Mesmo que experimentos tenham sido realizados, a carência de aplicação do método indutivo gerou muitas conclusões obtusas, que, para Bacon, nada acrescentaram ao saber humano. Bacon sabe haver “regiões ermas e solidões” tanto “no tempo como no espaço”. Em outras palavras, também na história do mundo encontramos períodos onde culturas e civilizações estiveram infecundas, estéreis em relação à produtividade proposta pela nova ciência. Apesar disso, no Novum Organum, Bacon fala da Grécia, de Roma e da Europa como os baluartes do progresso humano. Estas civilizações, malgrado a escassez da dinâmica proporcionada pela verdadeira indução, estava à frente das demais:

Bem consideradas as coisas, um número tão grande de séculos reduz-se a um lapso efetivamente exíguo. Das vinte e cinco centúrias em que mais ou menos estão compreendidas a história e o saber humano, apenas seis podem ser esco

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lhidas e apontadas como tendo sido fecundas para as ciências ou favoráveis ao seu desenvolvimento. No tempo como no espaço há regiões ermas e solidões. De fato só podem ser levados em conta três períodos ou retornos na evolução do saber: um, os gregos; outro, o dos romanos, e, por último, o nosso, dos povos ocidentais da Europa; a cada um dos quais se pode atribuir no máximo duas centúrias de anos 84.

Nos séculos anteriores, segundo Bacon, a filosofia natural não recebeu o seu devido reconhecimento porque a ela foi dado o status de uma concepção não indutiva de ciência. A filosofia natural não se constituiu como uma norma autônoma de investigação, mas como uma via de transição para médicos e matemáticos. Subalterna à outros saberes, ela ficou privada dos desenvolvimentos a que naturalmente tende 85. A

antiguidade, desse modo, no conceber baconiano, está exasperada. Ela não traz ao mundo as respostas para as perguntas mais persistentes, deixa ao seu tempo uma lacuna a ser preenchida, não pode dar fim aos diversos problemas existentes. Por isso, a função do “novo” é de dar ao mundo a resposta às perguntas e de proporcionar, outrossim, o progresso das civilizações. A crítica acerba de Bacon a Aristóteles, a ponto de identificá-lo com os sofistas, se situa no cotexto da oposição dos partidários da Reforma Protestante a Aristóteles, em especial dos partidários de Pedro Ramo (1515-1572)86. Sob

a influência do ramismo87, Bacon se une ao sentimento popular protestante que quer

simplificar o que julgavam ser a complexa lógica aristotélica, eliminando muitas de suas abstrações e tornando-a mais acessível ao homem comum. Em segundo lugar, Bacon queria empreender um método científico capaz de alcançar o conhecimento que Aristóteles não alcançou. Por isso, avaliou criticamente o método indutivo aristotélico e chegou à conclusão de que a indução aristotélica era uma falsa indução, pois partia da observação das regularidades e alcançava facilmente os axiomas maiores.

É de grande valia mostrar aqui o fato de que o método baconiano propõe um _________________

84 BACON, Francis. Novum Organum [1620], p. 40. 85 Ibidem, p. 48.

86 Pedro Ramo foi um lógico protestante e humanista francês, muito popular entre os

acadêmicos ingleses da universidade de Cambridge. Seu trabalho tinha a função de tornar a lógica mais acessível ao povo comum e mais didática.

novo entendimento da indução. O método indutivo baconiano dá à experimentação uma importância maior do que a que foi dada por Aristóteles e pelo aristotelismo do medievo tardio: “No aristotelismo medieval, a indução foi reduzida a mero mecanismo de retórica e dialética, tradição que persiste na Renascença como retorização da lógica”88. É

que a indução aristotélica não fornece as referências metodológicas necessárias para orientar o trabalho de pesquisa das observações iniciais até o nível da lei científica. Desse modo, Aristóteles salta facilmente dos enunciados particulares para os enunciados gerais, sem observar o conjunto de procedimentos intermediários que, segundo Bacon, são necessários para dar este salto. Vale lembrar que um filósofo como Hume, porém, diria que mesmo a indução rigorosa de Bacon não estaria apta para estabelecer a existência de nexos causais entre os fenômenos, mas se prestaria para explicar a expectativa do observador de que os fenômenos se repitam, uma vez que aparecem associados frequentemente.Diferentemente de Aristóteles, Bacon entende que a pesquisa deve ser lenta e cuidadosa, antes de chegar a afirmações positivas sobre a regularidade de um fenômeno89. Bacon busca ser mais técnico que Aristóteles. Ficou

evidente nesta seção que o projeto filosófico-metodológico consignado no Novum Organum é uma tentativa de corrigir o Organon aristotélico e consolidar um método capaz de prover um conhecimento apto para interferir no mundo natural e satisfazer as necessidades humanas.