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4.2 Heuristiques de placement des objectifs dans un MA-TSP-

5.2.2 Étude d’une situation fictive basée sur une zone

Introdução

Neste capítulo iremos refletir sobre as especificidades da investigação sociológica com adolescentes e suas famílias a partir do cruzamento de duas experiências de terreno cujos resultados divergentes permitiram a identificação de um conjunto de questões metodológicas relevantes.

Na verdade, os manuais de métodos e técnicas em ciências sociais são pródigos em alertar para o facto de a investigação científica não deixar de ser ela mesmo um processo social, face ao qual o investigador tem de estar devidamente munido para lidar com as dinâmicas que cada nova pesquisa desencadeia. As propriedades sociais dos interlocutores – inves- tigador e sujeito(s) da investigação –, as circunstâncias e as temporalidades em que a pesquisa ocorre (grau de saturação da atividade de pesquisa no território em análise, duração da relação empírica, ciclo de vida em que o sujeito é captado, cenário da observação, só para mencionar alguns exemplos), são apenas alguns dos ingredientes que se jogam decisiva- mente neste processo.

Pesquisar adolescentes, em particular, requer precauções adicionais por parte do investigador. No quadro dos estudos de juventude, os adoles- centes constituem um objeto específico dado o carácter especialmente híbrido e transitório da sua condição. Mergulhado num duplo processo de crescimento (físico) e amadurecimento (moral e cognitivo), o adoles- cente exibe, com alguma frequência, algumas vulnerabilidades (Brevi- glieri 2007), a mais importante das quais é a ambiguidade identitária que

se manifesta na tensão entre uma reivindicação autonómica, em clara desvinculação da tutela dos adultos, e uma (ainda) forte dependência (económica e estatutária) dos seus progenitores, o que o aproxima da condição tutelada da infância (Pappámikail 2011; 2013). Por outras pa- lavras, a sua identidade (ainda muito provisória) vai-se construindo den- tro destes limites dilemáticos – a pretensão à autonomia e a ausência efe- tiva de condições (materiais e jurídicas) para lhe aceder. Neste processo de construção de si ancorado num eu dubitativo, aqueles que partilham a mesma condição, isto é, os pares desempenham um papel decisivo en- quanto instância de validação identitária e abrigo existencial do adoles- cente, amortecendo as angústias de trilhar sozinho a «descoberta do mundo» e oferecendo um espaço vital de reconhecimento e celebração coletiva (Singly 2006; Jarvin 2004).

Não raras vezes o processo de filiação intensiva nos pares é acompa- nhado de um relativo fechamento ao mundo adulto (e aos adultos eles próprios), não obstante a proclamada «abertura democrática» vigente, nomeadamente, na família relacional moderna (Singly 2000). Um fecha- mento que tenta, nem sempre com sucesso, defender o «mundo adoles- cente» de um escrutínio adulto que pode ameaçar liberdades provisoria- mente conquistadas ou sancionar práticas e representações culturais.

Importante será dizer que tais propriedades constitutivas da condição adolescente na contemporaneidade não desqualificam o adolescente en- quanto sujeito. À imagem de qualquer outro sujeito de pesquisa, com as suas confissões, omissões e ambiguidades, ele apresenta-se ao investigador como um indivíduo competente na produção de um discurso reflexivo sobre os seus modos de vida, sobre a atribuição de sentidos que lhes con- fere, e na (re)produção de códigos e linguagens culturais do grupo que lhe serve de pertença (e referência) – códigos e linguagens especificamente juvenis, com acentuada marca grupal e geracional.

As especificidades do retrato analiticamente traçado do adolescente têm potenciais consequências no desenho metodológico e na implemen- tação da pesquisa empírica. Desde logo, porque o investigador exibe ele próprio o estatuto de adulto, o que pode suscitar junto do interlocutor adolescente efeitos conotativos com as figuras tutelares perante as quais ele pretende afirmar-se como ser autónomo, desvinculado das subordi- nações observadas na infância (progenitores, professores e outros adultos significativos). Depois, porque sendo o adolescente um sujeito social em construção – cujo palco privilegiado de experimentação se situa no uni- verso dos pares, fonte de acolhimento e partilha existencial –, a relutância no acesso e na partilha de informação com indivíduos exteriores ao grupo

amical, da philia, pode revelar-se hipótese plausível com a qual o inves- tigador se poderá deparar.

As reflexões que aqui apresentamos, a partir de duas pesquisas empíricas, visam justamente evidenciar alguns dos possíveis impactos da especifici- dade da pesquisa com adolescentes; em concreto, iremos debruçar-nos sobre quatro momentos críticos que ambas as pesquisas tiveram de en- frentar – com resultados bem distintos. Depois de apresentarmos breve- mente os dois projetos em causa e de justificar as opções metodológicas inicialmente adotadas, começaremos por refletir sobre as vicissitudes que envolvem a etapa do acesso aos jovens-adolescentes, no que constitui o primeiro momento crítico identificado. Conquistado o acesso, a seleção dos contextos (cenários) da inquirição constitui um elemento não despi- ciendo da investigação, como iremos discutir num segundo ponto. Em contextos de copresença como o que caracteriza a técnica da entrevista face a face (real ou virtual, através de meios tecnológicos), utilizada em ambos os projetos, o momento da interação é particularmente crítico, uma vez que envolve relações e negociações estatutárias cujo rumo pode reve- lar-se decisivo para o desfecho da pesquisa. É também sobre essa questão que nos debruçaremos com algum detalhe, cotejando procedimentos e re- sultados obtidos em cada um dos projetos. Um último ponto que nos pro- pomos debater prende-se com a mobilização do adolescente enquanto parceiro de pesquisa. Em concreto, iremos problematizar os desempenhos contrastantes exibidos pelos sujeitos das duas pesquisas no seu papel de mediadores, a nosso pedido, no acesso às suas famílias – mais especifica- mente, a um dos seus progenitores – enquanto ingrediente de uma estra- tégia de triangulação intergeracional prevista em ambos os projetos.

Para finalizar, tentaremos sistematizar as questões metodológicas mais pertinentes retiradas do exercício comparativo aqui ensaiado.

Duas pesquisas com adolescentes: