II.2. A PPLICATION DE LA PIV A LA MESURE DE VITESSE D ’ UN ECOULEMENT ELECTROCONVECTIF : ETUDE
II.2.1. Choix des particules
II.2.1.1. Étude statique
Ao longo da história da leitura, a materialidade dos meios em que ela se configura passou por uma série de transformações formais: da modalidade de transmissão oral ao manuscrito, deste à engenhosa invenção de Gutenberg, do texto impresso ao virtual eletrônico, e-book. Naturalmente, as mudanças impingidas pelas novas tecnologias de comunicação alteram as práticas de transmissão da cultura, embora reconheçamos que essas novas formas não anulam as precedentes, uma vez que os leitores não compartilham igualmente das mesmas práticas e modos de apropriação dos textos. Ao contrário, convivem com leituras, algumas inclusive semelhantes, em suportes e formas variadas de divulgação, conforme veremos no decorrer deste estudo, que provoca reflexão fundamentada no pensamento de que os suportes textuais interferem decisivamente no modo de circulação dos diferentes textos/gêneros, entre os quais se situa a adaptação de clássicos. Nesse sentido, o recurso da adaptação, responsável em difundir grandes obras culturais da humanidade e, consequentemente, aumentar a sua acessibilidade entre os leitores, se insere na história da escrita e da leitura, razão pela qual empreendemos um breve histórico dos meios utilizados para registrar textos, a partir dos quais mostraremos que essas diferentes modalidades determinam a heterogeneidade da leitura.
Dentre as formas de difusão da cultura, o livro é a que mais se destaca. Suscetível de uma multiplicidade de usos, suas modalidades de ler são múltiplas, diferentes conforme
as épocas, os lugares, os ambientes (CHARTIER, 2004). Representante de um mercado diversificado para seus consumidores, e, como qualquer outro bem de consumo, o livro tornou-se um objeto de produção, pouco a pouco, acessível à massa. Na França, por exemplo, mesmo com a chegada da Internet, ele continua sendo o principal objeto cultural dos franceses, haja vista representar 50% das compras de bens culturais. Permanece, então, a literatura no ranking da liderança, com a seguinte distribuição do gênero: 20% do mercado são dos romances franceses e estrangeiros, seguido de 17% das obras infanto- juvenis, acrescido de 11% das histórias em quadrinhos, considerado gênero literário na medida em que autores como Proust foram adaptados em quadrinhos16. Ainda no que diz
respeito ao dossiê sobre livros na sociedade francesa hoje, é importante ressaltar que as traduções representam 14% da produção editorial do país. Entre os estrangeiros mais lidos, ao lado de autores americanos, de uma argelina e de um egípcio, encontra-se o brasileiro Paulo Coelho (KHOURI-DAGHER, 2008).
A França, um país reconhecido no mundo por ostentar um grande consumo de livros, não é o único a exibir resultados satisfatórios nesse setor. Em nosso país, o brasileiro lê, em média, 4,7 livros por ano, e compra, em média, 1,2 exemplar por ano, conforme resultado da segunda edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”17 – realizada pelo Instituto
Brasileiro de Opinião Pública e Estatística – IBOPE, a pedido do Instituto Pró-Livro, divulgada em maio de 2008. Essa pesquisa tinha como objetivos conhecer o comportamento do leitor brasileiro, principalmente com relação aos livros, e fazer um levantamento junto aos entrevistados de suas opiniões a respeito da leitura.
Quando indagada sobre o que gostavam de fazer em seu tempo livre, a maioria dos brasileiros escolheu a opção que se dirigia a assistir à televisão; ocupando a quinta posição, verificou-se a opção que dizia respeito à preferência pela leitura, mas, ainda assim, em relação à primeira edição realizada entre 2000 e 2001, constatou-se nesta última pesquisa o crescimento do índice de leitura entre os brasileiros18. Acerca da indagação sobre o que eles
estavam lendo, o livro praticamente liderou na preferência, perdendo apenas para as revistas. Já na opção dos gêneros mais lidos pelos leitores entrevistados, a Bíblia ocupou o primeiro lugar com 45%, seguido dos Livros didáticos com 34%, o Romance com 32%, a Literatura infantil 31%, a Poesia com 28% e a História em quadrinhos com 27%. É
16
Números retirados da revista de informação do Ministério das Relações Exteriores e Européias Label France na qual se apresenta um dossiê acerca do lugar do livro na sociedade francesa. Revista internacional da atualidade francesa, nº 69 1º trimestre de 2008.
17 Disponível em http://www.camaradolivro.com.br/docs/RetratosdaLeituranoBrasil. Acesso 20/06/2008. 18
Sobre os resultados da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, há uma análise feita pela professora Maria Antonieta da Cunha (UFMG e PUC-MG) denominada Acesso à leitura no Brasil: considerações a partir da
pesquisa. Disponível também em http://www.camaradolivro.com.br/docs/RetratosdaLeituranoBrasil. Acesso
importante ressaltar que a pesquisa não ofereceu como opção o texto adaptado, o que não afastou a possibilidade de que, desse montante, muitos livros terem sido lidos em versões adaptadas.
Outro dado dessa pesquisa que nos chamou a atenção refere-se à resposta dada à forma como os leitores costumavam ler os livros: 55% leem trechos ou capítulos, 38% o livro inteiro de uma só vez, 16% o mesmo livro mais de uma vez, 11% pulando páginas e lendo partes do livro mais de uma vez, 7% mais de um livro ao mesmo tempo. Tais resultados confirmaram o julgamento errôneo de que os leitores efetuam a operação da leitura de maneira uniforme e de que todos leem todos os textos integralmente. Esse ideal de leitor não se firma, se considerarmos os dados concretos da pesquisa do Instituto Pró- livro.
Pennac (1993), ao apresentar os direitos imprescritíveis do leitor, dentre os quais o de pular páginas de sua escolha, não terminar um livro, o de reler, nos adianta que o livro nos desperta sentimento de absoluta propriedade, razão pela qual, ao cair em nossas mãos, tornam-se nossos escravos. Considerando a leitura como “um ato anárquico”, Pettrucci (1999, p. 223), citando Hans Magnus Enzensberger, afirma que o “leitor tem sempre razão e ninguém pode retirar-lhe a liberdade de fazer de um texto o uso que mais lhe agradar”. E ainda acrescenta:
Faz parte dessa liberdade folhear o livro de um lado para outro, pular trechos inteiros, ler as frases ao contrário, deformá-las, reelaborá-las, continuar a tecê-las e a melhorá-las com todas as associações possíveis, extrair do texto conclusões que o texto ignora, encolerizar-se e alegrar-se com ele, esquecê-lo, plagiá-lo e num certo momento atirar o livro num canto (IBID, IBIDEM).
Utilizando-se da prerrogativa de seus direitos, o leitor, portanto, defende os “poderes” a ele conferidos, alguns, inclusive, elencados por Manguel (1997), como o de antecipar, deturpar, acrescentar, saltar sentidos. Assim, na condição de proprietário, nos concedemos todos os direitos e tratamo-lo de acordo com o que um determinado texto representa para cada leitor, dando-lhe um sentido. Tais questões nos permitem polemizar certos discursos que defendem a ilusão do cânone literário como textos acabados pelo autor, portanto, inalteráveis na existência da suposta “originalidade”, desconsiderando a pluralidade dos usos dos quais a adaptação, em sua materialidade, está investida.
Nessa mesma linha, a pesquisa corrobora nossa posição de que muitas categorias influenciam os leitores no momento da escolha de uma obra. Questionados sobre os fatores que mais influenciam os leitores na seleção de um livro, as respostas variam seguindo a disposição: 63% tema, 46% título do livro, 42% dicas de outras pessoas, 33% autor e 23% a capa do livro. Esta última mostra que o texto não é desmaterializado, ideia defendida por
Mackenzie (2004) e reforçada por Chartier (1990), segundo o qual não há compreensão de um escrito que não dependa das formas através das quais ele chega ao seu leitor.
Os itens abordados pela pesquisa permitem, pois, identificar a relação que os brasileiros mantêm com o livro. Esse bem simbólico, entretanto, ao chegar aos domínios dos leitores nos dias de hoje, já passou por muitas transformações. Dessa diversidade nasce uma história que acompanha os processos de mudanças nas produções impressas ao longo do tempo, do manuscrito ao surgimento da edição digital. Não se trata de apresentarmos, neste capítulo, uma descrição minuciosa sobre o processo histórico pelo qual passou o livro, mas, em função desse processo, se estender à história da leitura e à do leitor – na qual a adaptação de clássicos se inclui –, e até, em alguns momentos, se confundirem de tal maneira que se complementam; é impossível discorrer sobre uma dessas categorias sem aludir às demais. Darnton (1990, p.109), para quem a história do livro poderia ser denominada história social e cultural da comunicação impressa, defende que o objetivo da história do livro é “entender como as ideias eram transmitidas por vias impressas e como o contato com a palavra impressa afetou o pensamento e comportamento da humanidade nos últimos quinhentos anos”.
O historiador norte-americano, no entanto, não é a única referência representativa nos estudos sobre a história do livro e da leitura. Nesse campo de atuação dispomos de um farto material, aqui já devidamente referenciado, produzido pelo historiador francês Roger Chartier – cujo trabalho contribuiu decisivamente no desenvolvimento desta pesquisa; por Mckenzie (2004), que fundamenta sua crítica na Sociologia da Leitura; por Manguel (2001; 2008) que, com sua intimidade de leitor, nos conta uma história de leitura e de como certas obras podem ser traduzidas, adaptadas e apropriadas por outros autores em épocas diversas. Para relatar a história da indústria editorial, de leituras e leitores no Brasil, contamos com o trabalho pioneiro de Hallewell (1985) e de Araújo (1999), além de recentes estudos realizados por outros pesquisadores sobre o tema da história da leitura e do livro no Brasil, como, por exemplo, Lajolo e Zilberman (2001; 1988; 1985), Abreu (2003; 2002; 1995) e Barbosa (2008; 2007; 2006), este último estudo desenvolvido mais especificamente no estado da Paraíba.
Os registros históricos deixam ver que a palavra escrita, antes de chegar à moderníssima digitalização na tela do computador, onde não mais se diferenciam os diversos discursos a partir de sua própria materialidade19, no decorrer da história da cultura
letrada, ganhou outros materiais e outros suportes: inscrição em pedras, em plaquinhas de argila e de cera; manuscrito em pergaminho ou em rolos de papiro da Antiguidade grega e romana, substituídos depois pelo códex, o livro formado de folhas e páginas, agrupadas
19 Chartier (2002) apresenta uma discussão acerca das transformações das práticas de leitura estabelecidas pelo
dentro de uma mesma encadernação; e, finalmente, resultando no livro impresso tal como o conhecemos hoje – um códice formado por uma sucessão de folhas de papel, feito por meio de caracteres metálicos da tipografia, inventada por Gutenberg durante o século XV. Do trabalho artesanal individualizado à produção em série realizada pela força das máquinas, essas transformações certamente mudaram o estatuto do livro e determinaram os modos de ler em vários momentos da sociedade, mas, mesmo com todas as mudanças operadas com a ascensão das novas tecnologias de comunicação, o essencial da forma do livro como bem simbólico que representa a cultura humana não se alterou.
É possível verificar, então, que os livros exibiram diversos formatos com características materiais específicas, definidas em cada época para o uso de um novo público. No entanto, para este produto chegar até o leitor, outras mãos, além das do autor, contribuíram em sua composição. A organização do trabalho tipográfico, qual seja: correção – incluindo aqui todas as variações linguístico-gramaticais –, impressão, ilustração, paginação, encadernação, além do seu custeio e de sua comercialização, se juntam ao escrito do autor para formar o efeito final, o texto.
Os textos não existem fora dos suportes materiais (sejam eles quais forem) de que são os veículos. Contra a abstração dos textos, é preciso lembrar que as formas que permitem sua leitura, sua audição ou sua visão participam profundamente da construção de seus significados. O “mesmo” texto, fixado em letras, não é o “mesmo” caso mudem os dispositivos de sua escrita e de sua comunicação (CHARTIER, 2002b, p. 61-2).
Sem compreender essas condições materiais e econômicas, as quais favorecem a transmissão da cultura, fica incompleta a historicização em seus aspectos socioculturais de um gênero cuja manufatura muito promoveu a difusão dos clássicos universais – a adaptação. Nessa perspectiva, o texto não atua sobre o leitor por si só, mas através de uma materialidade, um formato, imagens, uma capa, uma distribuição e outros elementos que vão contribuir no processo de construção de sentido do leitor (CHARTIER, 2001a).
Muitos textos literários se vestiram de uma nova roupagem para ganhar novos leitores em outros contextos. Para tanto, o trabalho do novo autor, incumbido de reescrever velhas (e até algumas recentes) histórias, necessitou de colaboração para a composição do novo texto. Sabemos que as técnicas utilizadas para compor uma obra, em nossos tempos de agora, não diferem tanto de outras de séculos anteriores, se considerarmos que, mesmo quando manuscrito, a obra seguia caminhos parecidos até chegar ao leitor, assim: depois de escrito com a pena embebida em tinta, a versão manuscrita era passada por um copista a fim de reescrevê-la em letra bem legível, para logo ser submetida ao crivo dos censores. Concedida a autorização, o texto seguia para a oficina de tipografia onde os artesãos faziam as operações manuais necessárias para chegar às mãos do leitor. Dizendo com Chartier,
essa descrição denota que o texto não é produto acabado do autor, mas resultado de um trabalho em conjunto com profissionais que formam o mercado editorial, o mesmo realizado pelos artesãos do passado: “façam o que fizerem, os autores não escrevem livros. Os livros não são de modo nenhum escritos. São manufacturados por escribas e outros artesãos, por mecânicos e outros engenheiros, e por impressoras e outras máquinas”20. Resguardadas as
devidas proporções, muito desse trabalho realizado em época passada, cabe, atualmente, aos softwares, instrumentos das novas tecnologias da informação.
Numa discussão sobre o estado do setor editorial francês, Khouri-Dagher (2008) mostra uma área em franca transformação. Para ela, os editores “são aqueles que correm riscos e os defensores de ideias. Dos maiores aos menores, eles dão vida à atividade intelectual e literária francesa – e mundial – por meio das traduções”. Reiterando esse fato, a autora afirma que, graças à abertura para a literatura estrangeira nos anos 20, foi possível os franceses descobrirem autores clássicos como Kipling, Conan Doyle e Emily Brontë. No Brasil, mais ou menos nessa época, muitas dessas obras foram dadas a ler aos brasileiros pelo viés do trabalho dos editores. Monteiro Lobato, por exemplo, traduziu obras inglesas de Rudyard Kipling, como: Kim; O livro da Jangal; Mowgli, o menino lobo; e Jacala, o crocodilo. Anterior a Lobato, naturalmente, havia editoras comerciais no Brasil encarregadas de fazer circular a literatura estrangeira em nossa terra. Hallewell (1985), no prefácio da edição americana, em um estudo sobre uma completa história da indústria editorial brasileira, desenvolvido nos anos 70 do século passado, reconhece o desenvolvimento do setor em nosso país:
O Brasil apresenta no campo editorial, como em tudo mais, uma ampla gama de superlativos. Poucos países levaram tanto tempo para desenvolver uma indústria editorial nacional. Mas poucos as desenvolveram tanto nos últimos anos. E nenhum país do Terceiro Mundo possui hoje uma indústria editorial, em uma única língua, tão grande (HALLEWELL, 1985, p. xxix)21.
Para alcançar uma amplitude nesse mercado, editores e livreiros, desde o século XIX, como Plancher, Paula de Brito, Garnier, Laemmert, Francisco Alves e Monteiro Lobato, contribuíram significativamente para o florescimento da atividade editorial no Brasil. Antes disso, sabe-se que a tipografia inexistiu durante quase todo o período colonial, quando se registra uma pequena população majoritariamente rural, e apenas aos poucos se vai
20 Para fundamentar a distinção entre o trabalho de escrita (o texto) e a fabricação de livro (o impresso), Chartier
(1990, p.126) cita R. E. Stoddard, “Morphology and the Book from na American Perspective”, de uma comunicação apresentada no Colóquio Needs and Opportunities in the History of the book in american Culture, Worcester, American Antiquarian Society, 1984.
21
O autor do primeiro e mais completo panorama histórico da indústria editorial participou em 2004 do I
Seminário Brasileiro sobre Livro e História Editorial, promovido pela Universidade Federal Fluminense e pela
constituindo um empreendimento necessário, embora muito limitado, pois sua difusão se empenhava em atender, sobretudo, aos clérigos e à Corte. Nessa época, qualquer escrito que surgisse no Brasil colonial deveria permanecer manuscrito ou enviado para publicação em Portugal. Exemplos típicos são as Cartas Chilenas, atribuídas a Tomás Antonio Gonzaga, escritas em 1788 ou 89, que não foram impressas senão em 1845, e a poesia de Gregório de Matos, produzida entre 1660 e 1692, publicada somente em 1904 (HALLEWELL, 1985).
Nos primeiros séculos do Brasil, a reduzida quantia de livros que circulava na colônia, constituída da maior fonte de conhecimento e de acesso ao sagrado, era patrimônio exclusivo dos jesuítas. A partir do século XVIII, no entanto, a posse de livros começa a apresentar modificação em relação aos séculos anteriores, à medida que se abria espaço para as ciências e os saberes leigos, ainda que as obras de natureza religiosa continuassem exercendo influência. Villalta (2005; 2002), abordando os usos dados aos livros pelos leitores na sociedade colonial, com base nos inventários do Rio de Janeiro e Minas Gerais, aventa que a propriedade de livros foi favorecida pela constituição de uma civilização urbana, com um expressivo setor de serviços e um aumento do nível educacional. Nesse estudo, o autor apresenta também uma série de obras beletristas que circulavam no país, entre as quais: As Aventuras de Telêmaco, de Fénelon; Paraíso
Perdido, de Milton; Lusíadas, de Camões; além de outros autores clássicos como Homero,
Horácio e Cícero, havendo, ainda, uma aparição de William Shakespeare; Viagens de
Gulliver, de Swift e Robinson Crusoé, de Daniel Defoe. Entre os ilustrados mais frequentes,
são citados Voltaire e Verney. Antes de Villalta, porém, registra-se o trabalho de Márcia Abreu (2003), que pesquisou acerca das solicitações de licença para remessa de livros para o Rio de Janeiro.
No século XX, Cecília Meireles (1984) insere As Aventuras de Telêmaco na categorização de Literatura Infantil como obra escrita para uma determinada criança, que depois passou a uso geral. Já as Viagens de Gulliver e Robinson Crusoé, para a autora, constituem exemplos de textos que não foram escritos para as crianças, mas que vieram a cair em suas mãos, e “dos quais se fizeram depois adaptações, reduções, visando torná-los mais compreensíveis ou adequados ao pequeno público”. A autora acrescenta que Robinson
Crusoé, “da sua ilha deserta foi visto por todas as crianças do mundo. Brincava-se de
Robinson como hoje se brinca de bandido. O papagaio e o guarda-sol de Robinson eram atraentes como as pistolas atuais”. Semelhante destino, conforme ainda adianta a autora, teve as Viagens de Gulliver, pois o livro, publicado anonimamente em 1726 e esgotada a primeira edição em uma semana apenas, consistia em uma sátira aos partidos políticos da Inglaterra, e não tinha como destinação direta as crianças, mas “foi lido por toda a gente, desde os estadistas até os nurses” (pajens). Sobre sua recepção entre os leitores atuais,
esclarece ainda Cecília Meireles que o leitor de hoje, “sem nada saber da Inglaterra de Jorge I, continua a divertir-se ou a meditar, enquanto Gulliver viaja pela terra dos gigantes e dos pigmeus, sentindo-se ora tão grande, ora tão pequeno, entre leis tão absurdas e linguagens tão enigmáticas”.
Pela lista das obras beletristas que circulavam no país, apresentada por Villalta, a concentração da posse dos livros entre os clérigos, advogados, médicos, boticários, mercadores e proprietários de terras, associada aos ofícios correspondentes, era uma exigência do próprio exercício da profissão. Ao lado dessas leituras, entretanto, as sagradas e as de entretenimento marcavam forte presença. Naturalmente, o livro, marcadamente estando nas mãos dos homens de letras, lhes atribuía mais prestígio social, reforçando, portanto, a desigualdade dos que não tinham acesso a esse bem, com o que podemos deduzir que a distribuição e a propriedade de livros no Brasil, desde seus primeiros anos, acusa a desigualdade de posse entre os leitores. Os usos dos livros também atendem à natureza diversificada, no universo público e privado, pois se prestavam tanto ao acesso à cultura religiosa, ao saber e ao entretenimento quanto à função de ornamentar. Dessa forma, os livros, aliados a outros objetos de ostentação de riqueza, configuravam status a quem os possuía, assumindo utilidades várias, portanto, e que se reconhecem até hoje.