Não se poderia deixar de abordar a respeito das figuras retóricas que são mais alguns recursos linguísticos que podem ser utilizados a serviço da persuasão, surgindo como argumento no momento da defesa da tese que se apresenta. Segundo Abreu (2004, p. 105), “as figuras retóricas possuem um poder persuasivo subliminar, ativando nosso sistema límbico, região do cérebro responsável pelas emoções. Elas funcionam como cenas de um filme, criando atmosferas de suspense, humor, encantamento, a serviço de nossos argumentos”.
Existem as figuras estilísticas que podem confundir com as retóricas. Entretanto, deve- se distingui-las, pois podem até receber o mesmo nome, porém, a utilidade, o objetivo é bem diferente. As figuras estilísticas não estão preocupadas com persuadir, mas apenas com a forma, a estética, a beleza do texto. As figuras retóricas são usadas a serviço da persuasão, de modo que a sua presença ocorre assumindo um valor de argumento necessário ao contexto e à situação retórica em análise.
Vemos o exemplo: “uma criança precisa desde a mais tenra idade ter responsabilidade assim como um peixinho que precisa de asas para voar”. Ora, há um confronto entre a ideia ilógica de um peixe ter asas para voar, bem como uma criança de ter responsabilidade desde a a mais tenra idade, isso tem um efeito persuasivo.
A figura retórica busca o persuadir, enquanto a estilística versará apenas acerca da forma, do sentido na perspectiva do literário. Enquanto as figuras retóricas têm um caráter funcional, as estilísticas têm o objetivo de causar a emoção estética.
Segundo Abreu (2004), as figuras retóricas podem-se dividir em quatro grupos: figuras de som, de palavra, de construção e de pensamento. Reboul (2004) apresenta uma outra classificação, em que aparecem algumas figuras que em Abreu faz parte de um grupo e em Reboul faz parte de outro, como a metáfora por exemplo que faz parte das figuras de sentido de Reboul e em Abreu faz parte das figuras de palavra.
Na classificação de Reboul (2004), aparecem as principais, segundo ele, figuras de retórica que estão classificadas, conforme a relação que estabelecem com o discurso em que se encaixam, quais sejam: figuras de palavras, de sentido, de construção e de pensamento.
Salientamos, entretanto, que nosso objetivo é mostrar, de forma genérica, as figuras retóricas, não se detendo tão profundamente nelas, mesmo porque só a metáfora seria suficiente para um estudo de dessa natureza.
Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005) trazem uma classificação diferente dessas aqui apresentadas, mas fala que para facilitar um melhor entendimento do leitor, vale designar as figuras pelos nomes mais ben conhecidos tradicionalmente. Para os autores, há as figuras da escolha, da presença e da comunhão. Segundo eles (2005, p. 195),
Esses termos não designam gêneros dos quais certas figuras tradicionais seriam as espécies. Significam somente que o efeito, ou um dos efeitos, de certas figuras é, na apresentação dos dados, impor ou sugerir uma escolha, aumentar a presença ou realizar a comunhão com o auditório [...] um dos modos essenciais da escolha, a interpretação, pode, ao que parece, dar azo a uma figura argumentativa (p. 195).
Nesse sentido, a interpretação vai surgir como um fato percebido como uma figura argumentativa ou de estilo, de acordo com o efeito produzido sobre o auditório.
Ferreira (2007) apresenta uma classificação que coincide com a de Perelman e a de Olbrechts-Tyteca (2005). Trata das figuras de presença, de comunhão e de escolha. Esse trabalho adota essa classificação para fins de análise. Nesse sentido, seguem as figuras de presença na perspectiva desses autores.
As figuras de presença despertam o sentimento de presença do objeto do discurso na mente do auditório. Entre as figuras de presença, podem-se destacar: a repetição, a anáfora e a anadiplose. Entretanto, segundo Ferreira (2007, p.125), “saber o nome das figuras não é tão importante para o analista (depende da profundidade empreendida à análise), mas o olhar atento sobre elas pode revelar artimanhas persuasivas”.
De todo modo, entende-se repetição como a figura que explora a recorrência de termos ou ideias iguais ao longo do discurso, fixando e destacando determinado tópico. Já a anáfora é a figura que consiste na repetição da mesma palavra no início da frase seguinte, é muito comum no discurso religioso.
Como exemplo, vemos um trecho dos corpora desta pesquisa:
[...] senhores presentes aqui… cumprimento a pessoa do Senhor P o qual tive o prazer de trabalhar no juizado especial aqui de Arapiraca… D. J… senhores membros do conselho de sentença… e:: por último – até invertendo a ordem – [ ] os senhores serventuários a quem cumprimento na pessoa da A. e por motivo especial ESPECIAL tanto na inversão da ordem em cumprimentar os senhores serventuários. (Exemplo 1 dos corpora).
A palavra especial é repetida três vezes, inclusive uma delas, em caixa alta, com uma tonalidade mais alta. A repetição objetiva destacar o termo repetido, voltando às atenções sobre ele, provocando um feito persuasivo. A anáfora se faz por meio do termo senhores que
é repetido no início de cada ato de fala do retor, provocando uma invocação voltada para o auditório a quem o orador se dirige. Essa anáfora reforça a ideia de presença do auditório, assumindo um tom bastante persuasivo.
A anadiplose é a repetição da mesma palavra ou expressão no final de uma frase ou oração e no começo da frase ou oração seguinte, é o que outros autores chamam de concatenação. Observamos isso no exemplo acima retirado dos corpora, no enunciado que diz “e por motivo especial ESPECIAL tanto...”, a palavra especial encerra um enunciado e inicia outro, realizando assim uma anadiplose, concatenando as ideias e constituindo argumento.
Segundo Ferreira (2010, p. 126), existem possibilidades de se criar um efeito de presença que realce o próprio argumento, transformando uma figura de estilo em argumentativa, quais sejam:
- dividir o todo nas suas partes (amplificação);
- terminar com a síntese do que foi dito (conglomeração); - repetir a mesma ideia com outras palavras (sinonímia);
- insistir em certos tópicos, apesar de já entendidos pelo auditório (repetição);
- perguntar sobre algo quando já se conhece a resposta (interrogação); - descrever as coisas de modo tão vívido que apreçam passar-se sob os nossos olhos (hipotipose).
As figuras de presença, que partem de técnicas de apresentação, são fundamentais para que o orador possa evocar realidades afastadas no tempo e no espaço. São bastante relevantes para o meio jurídico em que são necessários recapitular os fatos passados, a fim de esclarecê- los para o melhor entendimento, colaborando no processo persuasivo.
Quanto às figuras de comunhão, remetem a um conjunto de caracteres referentes ao acordo, à comunhão com as hierarquias e valores do auditório, pretendendo a participação ativa do auditório na exposição. Entre essas figuras, destacam-se: a alusão, a citação e os provérbios.
A alusão serve para criar ou confirmar a comunhão com o auditório por meio de referências a uma cultura, a uma tradição, a um passado comum entre o orador e o auditório. A alusão é um recurso argumentativo que busca aproximar o auditório do retor, utilizando um contexto compartilhado.
A citação aparece como outro recurso de comunhão. O orador corrobora o que diz com o peso da autoridade e, assim, cria uma relação de dependência do auditório ao texto citado. Como exemplo disso, tem-se:
[...] Então… diz o seguinte um dos doutrinadores Roberto Silva Franco diz o seguinte olha… o infanticídio é o crime da genitora… da ( ) é por a mãe que se acha sob a influência do estado pós-operal…(Exemplo 2 dos corpora).
O texto citado ratifica o que vem sendo defendido pelo retor, assim a citação vai assumir o valor de argumento, o chamado argumento de autoridade. Além da citação propriamente, os provérbios e máximas podem ser considerados também citação.
As figuras de escolha ocorrem quando um fato é selecionado e contextualizado. Segundo Ferreira (2010, p. 128), “o orador, por meio da linguagem figurada (perífrase e epíteto, por exemplo), encontra uma maneira de qualificá-lo, caracterizá-lo e interpretá-lo, de acordo com seu interesse argumentativo”.
Como o próprio nome sugere, as figuras de escolha estão voltadas para o ato de selecionar os fatos que sejam mais relevantes para a questão em foco, devendo o orador considerar os valores do auditório, pois estes valores influenciam na hora do acordo entre orador e seus interlocutores bem como na escolha dos argumentos. Como exemplo, no caso de um julgamento de um filho que mata seu pai, o retor pode interpretar que o auditório esteja diante de um vingador de sua mãe; outro orador pode, dependendo das circunstâncias, defender que há um frio assassino de seu pai.
A organização dos dados argumentativos consiste não apenas na interpretação, mas também no modo de apresentar determinados aspectos desses mesmos dados, em consonância com os valores do auditório. Com foi dito anteriormente, o orador se utiliza de perífrase que, por sua vez, consiste na substituição de um nome por uma palavra ou expressão qualificativa, do tipo “cidade das águas” referindo-se à cidade de Maceió, Estado de Alagoas. A perífrase quando se refere a pessoas é chamada de antonomásia, com exemplo: o presidente dos pobres, referindo ao presidente Lula. Já o epíteto consiste em tirar vantagens da adjetivação e em usar qualificativos de efeito. Todos esses recursos têm como base a escolha lexical.
Além da perífrase e do epíteto, há a correção como figura de escolha que consiste em substituir uma palavra ou expressão por outra com o objetivo de modificar o sentido da afirmação. Como exemplo, veem-se os programas do governo federal, do tipo “Programa Nacional de Transferência de Renda” por simplesmente “Bolsa Família” e “Programa Nacional de Incentivo ao Estudo” por “Pro-Uni”. Os mais extensos exigem muito esforço da memória além de não serem envolventes, enquanto os mais curtos são sintéticos, claros e de fácil de reconhecimento, não exigindo esforços da memória.
que busca criar sobre as imagens que provocam a sensibilidade do interlocutor. E o orador, em busca das reações de ordem emotiva, sentimental ou de prazer, proporcionadas pelas palavras, preocupa-se com a expressividade.
A expressividade é uma conquista e, como recurso argumentativo, funciona duplamente, a serviço do raciocínio: por um lado, prepara o espírito do auditório para que se disponha positivamente a acompanhar a argumentação desenvolvida e procura sensibilizá-lo para a crença ou a atitude que o orador pretende alcançar por meio da argumentação (FERREIRA, 2010, p. 130).
Assim a metáfora e metonímia, que são analogias, ganham contornos importantes para a produção de sentidos. A metáfora, que é herdada dos gregos, significa transporte, em outras palavras, quer dizer uma comparação sem os conectivos como, que nem, igual a. Permite uma ampliação dos significados daquilo que se quer dizer. Compara dois termos, enfocando suas similaridades,bem como suas dissimilaridades. Essa comparação não é de forma simples, mas condensa a conclusão de um raciocínio, podendo refletir um argumento.
Ao analista compete refazer a analogia que lhe deu origem ou a que a fundamenta para encontrar as características persuasivas. Já a metonímia é uma comparação da parte pelo todo. A palavra vem do grego metonymía que significa emprego dum nome por outro.
Ainda a respeito das metáforas, são usadas com a finalidade de aproximar campos do conhecimento diferentes no intuito de enriquecer e ampliar significados, de lavar conceitos de uma área para outra e vice-versa. Assim, têm-se os diversos tipos de retórica, baseados em metáforas, como a retórica da cura, comum nos discursos políticos, e a retórica da manutenção.
É importante para o analista de retórica observar se o orador, por uma razão ou outra, reforça, através das metáforas, impressões ideológicas, concepções filosóficas do existir ou mesmo artimanhas políticas, pois em defesa da ideologia utiliza-se muito a retórica. Quando os oradores estão diante de um debate ideológico mostram parte da verdade, escondem objetivos escusos, não têm interesse em revelar facetas menos agradáveis de uma determinada ideia contida no conjunto ideológico.
A ideologia, segundo Ferreira (2010, p. 136), “relaciona-se com os pontos de partida do preferível: o bom, o justo e o belo –, e pode manifestar-se por meio de figuras como um efeito retórico que fortalece um argumento fraco”. Nesse sentido, são várias as figuras que
fortalecem os aspectos ideológicos, tais como: vacina, omissão histórica, identificação, tautologia10, ninismo11, quantificação de qualidade e constatação.
Desde que o homem meditou sobre a linguagem, percebeu-se a existência de certos modos de expressão que não se enquadram no comum, cujo estudo foi em geral incluído nos tratados de retórica, daí o nome de figuras de retórica (PERELMAN; OLBRECHTS- TYTECA, 2005, p. 189). As tradicionais figuras de linguagem deixam de ser interpretadas como elementos de embelezamento do discurso e passam a exercer o papel emotivo e argumentativo na medida em que impressiona e se colocam como condensadores de determinados valores em torno dos quais a argumentação se estabelece.