Na perspectiva tradicional, a organização do ensino enfatiza a fragmentação das disciplinas e o estudo individualizado, o que provoca a ausência de interação entre alunos e também entre estes e o professor, por compreender que a aprendizagem ocorre quando o sujeito consegue memorizar mecanicamente os conhecimentos transmitidos, a fim de que sejam repetidos, quando necessário.
A teoria histórico-cultural apresenta outra perspectiva em relação à compreensão do processo de ensino e de aprendizagem. Ensinar significa fazer com que o sujeito mais experiente e/ou que se apropriou dos conhecimentos produzidos historicamente medeie a aprendizagem de quem ainda necessita deles se apropriar. Para isso, o ensino também apre- senta outra lógica de organização, uma vez que a internalização dos saberes se efetiva, a partir das relações que acontecem, primeiramente, no coletivo e, depois, no individual, ou seja, do interpsicológico para o intrapsicológico. Nesse sentido, vale ressaltar que a experiência vi- venciada durante a realização do experimento didático-formativo causou surpresa, tanto à pesquisadora quanto às alunas, uma vez que, durante o período de observação em sala de aula, dificilmente, as últimas produziam, quando organizadas em grupo, e isso se constituía uma preocupação da primeira, pois todas as atividades de ensino estavam previstas para acontecer em grupo.
Eu vejo assim: você queria que fosse discutido e o que a gente queria era ir logo respondendo as tarefas. Aí vinha a senhora e dizia: gente, vamos discutir primeiro, fazia todo mundo junto e depois fazia o individual. A gente lia um do outro. Ah! eu não tinha pensado desse jeito, Ah! eu poderia ter colocado desse jeito que ficou melhor. Eu achei válido demais. (LAINE, aluna, entrevista realizada em 03 de dezembro de 2008)
No processo de interação, alguns colegas se sentiam desafiados a pensar, refletir, discriminar, expor seus pensamentos, estabelecer relações, produzir textos, entre outras ações necessárias à apropriação dos conceitos. Isso significa dizer que o pensamento conceitual não só depende do esforço individual, mas também de sua mediação com o contexto de inserção do sujeito. Isso corresponde à premissa de Vygotsky de que: “o aprendizado adequadamente organizado resulta em desenvolvimento mental e põe em movimento vários processos de desenvolvimento que, de outra forma, seriam impossíveis de acontecer”. (VIGOTSKY, 1991a, p. 101)
A aluna Bela percebeu que a forma de organizar o ensino podia interferir na sua aprendizagem.
140 Com as contribuições dos grupos é bem mais fácil, apesar de quando é do grupo quase todos falam a mesma coisa, mas quando você vai escrever, individual, você escreve diferente. Engraçado, mas escreve”. (BELA, aluna, entrevista realizada em 24 de novembro de 2008)
O que chama a atenção da aluna é o fato de que a produção individual poderia ter sido praticamente igual à das participantes do grupo, uma vez que as discussões foram realizadas coletivamente, mas o resultado acabou sendo diferente. Isso ratifica a ideia de- fendida por Vygotsky (2005) de que o desenvolvimento, primeiro, se dá em nível social e, somente, depois, em nível individual. Assim, a reprodução do apropriado com a mediação - didática - e dos conceitos científicos - cognitiva - fez com que cada uma elaborasse seu conhecimento de forma diferente, consequentemente, o desenvolvimento cognitivo também se constituiu diferentemente.
várias vezes as meninas até se admiravam porque eu lia um pedaço e falava para elas que é isso, isso e isso. Você já tem a fundamentação teórica, parece que saiu de algum lugar que você já viu”. (BELA, aluna, entrevista realizada em 24 de novembro de 2008)
Situação semelhante ocorre com Tiana que, ao avaliar seu progresso na aprendi- zagem o atribui, em parte, às mudanças que ocorreram na forma de organizar o ensino, ao afirmar que:
Depois que vivenciei esta experiência de ensino eu não sou mais a mesma na maneira de pensar, na maneira de agir, de como quero ser como professora. A partir desse curso [· · ·] até a interação da sala de aula nossa, dos alunos com você [pesquisadora], e dos alunos entre si contribuiu muito [pausa]. (TIANA, aluna, entrevista realizada em 02 de dezembro de 2008)
A interação nos grupos e entre os grupos contribuiu para que as alunas que haviam desenvolvido mais ZDPs auxiliassem as colegas, para que também desenvolvessem as ZDPs necessárias à apropriação e reprodução dos diferentes conceitos, imprescindíveis à compreensão do conceito de didática. Esse processo aparece na fala de Yasmin, ao dizer:
Então quando eu percebi que podia aprender com o colega o que o professor havia explicado - o colega lá do fundo explicava - eu aprendia e quando eu ia explicar para alguém eu também aprendia. Às vezes aprendia mais do que antes, porque eu achava que sabia e quando ia explicar percebia que não sabia e acabava aprendendo com a outra pessoa. Ai quando chegava no particular eu colocava no papel [· · ·] o que havia aprendido [· · ·]. (YASMIN, aluna, entrevista realizada em 11 de dezembro de 2008)
A reflexão que a aluna fez em relação ao ensinar e aprender vem ao encontro dos estudos de Chaiklin, quando se refere à importância dada à interação na teoria do ensino desenvolvimental, ao dizer que: “A organização das interações na sala de aula no ensino desenvolvimental dá a possibilidade para diferentes grupos de alunos encontrarem sua própria relação com as tarefas”. (CHAIKLIN, 1999, p. 17)
Nessa perspectiva, os estudos de Leontiev (2004) e de Vygotsky (1991a) indicam que as interações levam à formação da consciência individual que só existe a partir de uma consciência social que tem na linguagem seu substrato real, pois é pela linguagem que os homens compartilham representações, conceitos, técnicas e se apropriam das significações sociais que, expressas individualmente, adquirem sentido individual, vinculado diretamente à vida concreta, às necessidades, aos motivos e aos sentimentos do falante.