A História da Educação é indissociável da História Geral. Portanto, antes de adentrar na Educação da Grécia e relacionar a função do Pedagogo com a do Guia de Turismo, convém fazer uma breve contextualização histórica, a fim de compreender a educação e a cultura gregas.
Geograficamente a Grécia localiza-se ao leste do Mar Mediterrâneo, na Península Balcânica; apresenta relevo acidentado e um litoral recortado por golfos, banhado pelo Mar Egeu e pelo Mar Jônio. Devido ao relevo montanhoso, a prática da agricultura revela-se difícil naquele país.
Na Antiguidade, a Grécia tinha diversas regiões que se constituíram em Cidades-Estados. As diferentes cidades tinham em comum a religião e o idioma, além da semelhança nas instituições sociais e políticas. Os gregos denominavam sua pátria de Hellás ou Héladee a si mesmos de helenos. Assim distinguiam-se dos outros, denominando-os “bárbaros” (ARANHA, 1996).
Assim, este povo se constituiu da civilização micênica (início do Segundo Milênio a. C.), que reunia vários povos. Havia uma subdivisão regional e temporal do período Heládico, que se referia à sofisticada cultura grega entre 1600 a.C e 1050 a. C. Tempos homéricos (séc. XII ao VIII a.C.) são chamados assim porque nessa época teria vivido Homero (séc. IX ou VII a. C.), que deixou duas obras poéticas de grande importância para a época: Ilíada e Odisseia. Naquela época, a sociedade era formada por pequenas comunidades, uma reunião dos membros de uma grande família que obedeciam a um chefe e cujo poder era patriarcal. Período arcaico (séc. VIII, a VI a.C.) – nesse período ocorreram transformações culturais, políticas e sociais; um dos fenômenos mais importante nessa época foi a colonização, que espalhou os gregos por toda a área costeira do Mar Mediterrâneo e do Mar Negro. Período clássico (séc. V e IV a.C) representa o esplendor da civilização. A produção nas artes, literatura e filosofia definiu o que viria a ser a herança cultural do mundo ocidental. Nesse período desenvolveu-se o imperialismo das duas maiores cidades: Atenas e Esparta. O Período helenístico (séc.III e II a. C.) registra a crise
da polis grega, invasão macedônica, expansão militar e cultural helenística. A civilização grega se espalha pelo mediterrâneo e se funde a outras culturas (ARANHA, 1996).
Na Grécia, o modo de produção escravagista aparece como uma instituição social e se revela como a diferença das raças. Na época o meio de se conseguir escravos era fazer prisioneiros de guerra: a pirataria e as corridas sobre os mares do sul davam-lhes grande soma de cativos. Desde então o tráfico era muito praticado. Nessa civilização, havia na escravidão detalhes que salvavam a dignidade do homem. Assim, a avaliação dos seus talentos era manifestação plenamente permitida. Na Grécia, as faculdades intelectuais atingiram grande destaque entre os gregos. Esopo e Phedro Epítito eram nomes ilustres no seu País. Havia os escravos domésticos que, dentre outras coisas, serviam para fazer rir em festas; escravos que diziam ao senhor os nomes do que estes encontravam na rua; outros que lhe abriam caminho entre o povo.
A visão que os gregos tinham do mundo os distinguia de todos os demais povos do mundo. Eles colocavam a razão acima dos seus mitos e dos povos do mundo antigo e a utilizavam como instrumento a serviço do próprio homem. Em suma: no mundo grego o homem era o ser mais importante do universo.
Nos séculos V e VI a.C. a cultura grega, estimulada pelas transformações econômicas e sociais, passa por mudanças. Houve formação de novos grupos sociais ligados ao comércio, que reclamavam uma maior participação na vida política da Grécia; por outro lado houve a construção de uma cultura mais voltada ao saber religioso e mítico, que exalta a razão pessoal de cada indivíduo e é capaz de submeter à análise qualquer crença ou tradição.
Entretanto, para transmitir essa nova cultura, nasceu um novo ideal de educação na Grécia, conhecido como Paideia, que busca a formação do homem em suas várias esferas (social, política, cultural e educativa). Essa educação atribui ao homem uma identidade cultural e histórica. Nasce, nesse contexto, a pedagogia como saber autônomo, sistemático e rigoroso.
O termo Paidéia foi criado no séc. V a.C., e nessa época significava apenas a criação dos meninos (pais, paidós). Porém, a palavra Paidéia não pode ser traduzida simplesmente como educação, mas muito mais que isso, significa também cultura, instrução e formação do homem grego.
Assim, a Paideia é a busca do conhecimento do homem, de forma individual, para que este possa interferir na organização política e social da polis. Portanto, a ideia principal é colocar o homem a par de todo o conhecimento necessário para conviver em sociedade (CAMBI, 1999).
A palavra pedagogia é de origem grega e deriva do termo “paidagogos”, paidós (criança) e agogôs (condutor). Assim sendo, o termo pedagogo significa condutor de crianças, aquele que ajuda a conduzir ao ensino. Na Grécia clássica esse era o nome dado aos escravos que conduziam as crianças à escola, ou seja, era o escravo responsável em conduzir a criança ao conhecimento. Porém, com o passar do tempo, esse termo passou a ser utilizado para designar as reflexões que estivessem relacionadas à educação (CAMBI, 1999).
Conforme Aranha (1996, p. 41), “A Grécia clássica pode ser considerada o berço da pedagogia”, porque desenvolveu e sistematizou o início do primeiro questionamento acerca da ação pedagógica. Essas reflexões influenciaram a educação e a cultura do ocidente, ao longo dos séculos.
No Oriente os povos acreditavam que a origem da educação era divina. Dessa forma, o conhecimento desses povos se limitava a seus próprios costumes e crenças, o que impedia uma reflexão mais profunda sobre a educação. Entretanto, como destacamos, na Grécia clássica a razão estava acima do conhecimento puramente religioso e místico. Naquela época a concepção dos gregos sobre educação se resumia à inteligência crítica e à liberdade do pensamento do homem. O surgimento da filosofia grega foi um fator de grande relevância para o desenvolvimento de um novo conceito de educação na Grécia.
É importante sinalizar que no item 2.3 deste capítulo, o qual trata sobre as principais características históricas do guia de turismo, discorreu-se sobre antecedentes deste profissional. A literatura revela que os guias surgidos na antiguidade são bastante diversificados e remontam à mitologia, à literatura, à religião, à história e às explorações geográficas. Sendo assim, várias foram as atribuições do guia de turismo até chegar às que ele detém na atualidade.
Retomando a questão da relação do guia de turismo com o pedagogo, percebo que tanto um quanto o outro têm como uma de suas missões difundir o conhecimento. Ainda que sejam em áreas distintas, esses profissionais têm como
função levar o sujeito à cultura, à aprendizagem, a uma nova visão de mundo. Assim como a função do pedagogo é necessária por proporcionar a mediação entre os professores e os alunos de uma instituição de ensino, a função do guia de turismo também é essencial para o turista, pois este profissional é o principal agente interlocutor entre o visitante e o patrimônio histórico, cultural e natural da região visitada.
Analisando as características necessárias ao pedagogo em comparação com as do guia de turismo, percebo uma forte semelhança, pois tanto o guia de turismo quanto o pedagogo têm que demonstrar capacidade de planejamento e execução de planos, dinamismo, além de saber comunicar-se, gostar de lidar com o público, ter iniciativa, estabilidade emocional, transmitir e interpretar ideias. Em seu contexto de trabalho estes profissionais precisam estar preparados para enfrentar com criatividade e competência os desafios e imprevistos do cotidiano, ser flexível, tolerante e atento às questões relacionadas ao turista, e no caso do pedagogo, ao aluno. Hintze (2007, p. 43) ratifica essas reflexões: “A vida de um Guia de Turismo pode ser comparada à vida de um educador, pois ambos devem procurar o conhecimento e desenvolver métodos para poder apresentar as informações a seus públicos, sejam eles alunos ou turistas”.
Diante do exposto, considero o guia de turismo um agente pedagógico no contexto turístico, pois ao conduzir um grupo aos patrimônios histórico, cultural e natural, ele proporciona ao visitante conhecimentos os quais ele adquiriu durante sua formação profissional. Afirma Hintze (2007, p. 43) que “Um bom Guia deve conhecer história, geografia, folclore, museologia etc.”. Dessa maneira, entendo o guia como um educador, porque desenvolve uma condução ao conhecimento educacional turístico, no qual os turistas não apenas conhecem novos destinos, mas se beneficiam de estratégias didáticas que os levam a aprender sobre o multicultural e a valorizar os saberes que lhe foram transmitidos sobre cada destino turístico visitado.
Entre os exemplos possíveis, posso indicar que nos passeios a praias,
citytour, o guia cria nos visitantes uma perspectiva de diálogo e abertura à
diversidade, além de contribuir na formação de um olhar plural sobre a realidade e a construção da memória cultural. Essa metodologia do turismo cria possibilidades que ajudam o visitante a compreender o turismo a partir dos destinos, a entender as regiões geográficas por onde circula como um espaço educacional de apropriação
de conhecimento e aprendizagem e não como uma atividade meramente econômica.
3 PERCURSO METODOLÓGICO
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Neste capítulo apresentarei a trajetória de investigação no campo da pesquisa. Nesta etapa evidencio os bastidores da pesquisa etnográfica. Para desvendar os caminhos deste estudo, organizei-o em três fases. Na fase inicial, em que fica definido o que vai ser estudado, descrevo a definição do problema da pesquisa, o curso técnico de guia de turismo, a abordagem qualitativa e o método etnográfico.
Na segunda fase – a de contato com as pessoas para ter acesso aos guias de turismo – apresento como se deu o acesso e a negociação com vistas à elaboração da pesquisa, o contato com a empresa de receptivo, a escolha dos guias de turismo e o perfil dos guias de turismo da pesquisa.
Na terceira fase, que compreende o trabalho de campo e a observação participante, abordo a relação da etnógrafa com os funcionários da agência de receptivo, expectativas e dificuldades da etnógrafa, o processo de entrevista com os guias de turismo e a análise dos dados e escrita da tese.
Evidencio que o campo desta pesquisa se encontra a uma grande distância geográfica das minhas atividades cotidianas; é um espaço de sol, mar, rios e aeronaves, e precisei percorrer quilômetros para compreendê-los. O campo foi explorado por meio de viagens entre o litoral sul e norte do estado de Alagoas, consideradas passeios turísticos. Participei de trinta passeios turísticos distribuídos na área geográfica de sete municípios (Maceió, Marechal Deodoro, São Miguel dos Campos, Paripueira, Jequiá da Praia, Maragogi e Coruripe). Foram passeios acompanhados de sol, chuva, mar e rio. Realizei também quatorze traslados no aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares, localizado no município de Rio Largo. Todos os deslocamentos terrestres aconteceram por meio de ônibus e micro-ônibus adequadamente equipados para atender às necessidades da demanda turística.
O trabalho de campo foi realizado em 2011, num período acumulado de aproximadamente sete meses. Trata-se de uma etnografia em que todas as atividades observadas fizeram parte da rotina de trabalho dos sujeitos da investigação, que são seis guias de turismo, todos com formação profissional em
curso Técnico de Guia de Turístico pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial – SENAC. Todos eles cadastrados na categoria de Guia de Turismo Regional pelo Instituto Brasileiro de Turismo – Embratur. Estes profissionais prestam serviços a uma agência de receptivo localizada na cidade de Maceió.