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Équations phénoménologiques de diffusion

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1.5 Conclusions du chapitre 1

2.1.1 Équations phénoménologiques de diffusion

Gostaria de começar este tópico explicando a grafia que utilizo para Yemanjá, visto que encontramos várias formas de se escrever: Iemanja, Yemonja, Yemaya. Iwashita aponta as influências espanholas e portuguesas para as diferentes formas de grafia386, nesta linha deveríamos adotar a grafia Iemanjá, mais puxada para o português. Mas os adeptos da tradição preferem o termo escrito Yemanjá, entendendo que assim está mais próxima da língua original, como nos mostra Woodrow387. Por isso, no intuito de valorizar a opção dos adeptos, que são os que utilizam o termo em sua narrativa pessoal, resolvemos também trabalhar com a grafia mais íntima dos praticantes.

Quando pensamos na África, é preciso ressaltar a grande diversidade cultural do continente e este já deve ser tido como um complicador para se entender as origens culturais que herdamos da África na composição da nossa própria cultura e, no caso

383 SILVA, Wagner G. da. Candomblé e Umbanda: caminhos da devoção brasileira. São Paulo: Selo

Negro, 2005. p. 104-105.

384 RISÉRIO, Antonio. A utopia brasileira e os movimentos negros. São Paulo: Ed. 34, 2007. p. 278 385

A entrevista com Boaventura de Sousa Santos trás uma boa leitura sobre este modelo social europeu. In. GOMIDE, Denise (org.). Governo e sociedade civil: Um debate sobre espaços públicos democráticos. São Paulo: Editora Petrópolis/ABONG, 2003. p.15-31.

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IWASHITA, P. Maria e Iemanjá: análise de um sincretismo. São Paulo: Paulinas, 1991. p. 37.

específico deste estudo, na maneira como nosso povo organizou sua religiosidade, pois aqui chegaram pessoas de diversas regiões da África. Berkenbrock nos fala de quatro períodos: o primeiro – ciclo da Guiné, segunda metade do séc. XVI – os escravos eram oriundos da costa africana, onde hoje localiza-se a Nigéria, Togo, Gana, Benim, Libéria, Costa do Marfim, Ilhas do Cabo Verde, São Tomé e Príncipe. O segundo – ciclo de Angola e Congo, séc. XVII – procedência de Camarões, Zaire, Gabão, República Central Africana. O terceiro – ciclo da Costa da Mina, início do séc. XVIII – Nigéria e Benim. O quarto e último ciclo repete o trajeto do golfo do Benim388. Temos ainda uma divisão por grupos culturais feita por Bastide, que seriam quatro: 1- sudaneses (Yoruba e dahomeanos), 2- islâmicos (Peuhls, Mandingas, Haussa), 3- Bantos de Angola e Congo, 4- Bantos de Moçambique389.

Esta mistura de povos, logicamente, produz uma nova relação dos próprios africanos com sua cultura de origem, mas alguns aspectos não se perdem neste novo olhar que se forma, ganhando até maiores relevâncias, como sendo uma essência que transcendia as diferenças regionais unindo todos os africanos que, ali, estavam numa mesma condição. É este o caso da experiência com o sagrado feminino, um exemplo disto é o mito nagô “que vem dar origem ao Candomblé. Neste mito africano é Nanâ Buruque que dá à luz todos os orixás, sem auxílio de ninguém”390

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Podemos notar que o “povo de santo”, como é chamado os adeptos do candomblé, são muito zelosos em resguardar as tradições de seus ancestrais, esta é na verdade a base da religião, as tradições, como podemos ver nas falas: “A tradição é o mais importante, ficam querendo trazer umas novidades, os meninos novos, mas no candomblé não tem espaço para isso”. “Na umbanda eles misturam muito, o candomblé é mais puro, procura cultivas as tradições, a língua, as roupas”. Não é possível deixar escapar um certo preconceito entre os praticantes das duas tradições, também observado por Negrão391

Esta valorização do feminino como elemento gestador, que dá a vida, ligada à fertilidade e, por isso, à Terra, não se perde, podemos vê-la claramente na fala dos adeptos: “No colo de minha mãe é que posso descansar, porque na presença dela

388 BERKENBROCK, V. J. A experiência dos Orixás – um estudo sobre a experiência religiosa do

Candomblé. Petrópolis: Vozes, 1997.

389 BASTIDE, R. As religiões africanas no Brasil. São Paulo: Ed. USP, 1989. p. 67-68. BERKENBROCK

cita ainda o estudo de Bergmann, que fala de três grupos, reunindo os dois últimos. Conf. BERGMANN, M. Nasce um povo. Petrópolis: Vozes, 1978. p. 41.

390 MURARO, R. M. Breve introdução histórica. In O martelo das feiticeiras. p. 8. 391

NEGRÃO, Lísias N. Entre a cruz e a encruzilhada: formação do campo umbandista em São Paulo. São Paulo: USP, 1996. p. 315.

ninguém se atreve. Ela é a mãe, não é? É ela quem manda”. “São muitas as entidades femininas, todas elas trazem a vida, dão ânimo e confortam na hora das necessidades, pode ser Yemanjá, Iansã, Nanâ, Oxumaré, não importa, todas trazem a semente da vida”. Esta referência também aparece de maneira muito original no santuário de Natividade se fizermos uma leitura do significado simbólico da casa de Maria; segundo Grubits a casa tem o apelo simbólico do arquétipo feminino, representa ao mesmo tempo proteção e o lugar de onde saímos, nossa origem, nossa essência392.

Bastide destaca as danças como símbolo de um erotismo ritualístico que dá ânimo aos escravos393; tal poder da dança era tão forte e evidente que foi motivo para que os brancos permitissem sua prática, pois garantia uma sobrevida aos negros e maior disposição para o trabalho. Mas servia também para difundir esta relação com um sagrado vibrante e sedutor, com profunda relação com a terra e com a fecundidade, um sagrado feminino. Esta expressão corporal é vista com muito destaque tanto no daime, onde o transe místico é conduzido pelo bailado e pelos hinários. O bailado é tão presente para o daimista que em alguns casos se torna a principal referência para o praticante, como vemos na fala do simpatizante da doutrina da floresta: “venho para bailar, é o que me atrai, gosto do som e do movimento”. Nas religiões de origem africana, então nem precisa falar, como coloca Neres et. all. “No candomblé há uma força vital (axé) que é constantemente passada por meio da música, da dança e dos gestos. Por isso, sem música não existe cerimônia no candomblé”394

Se no universo europeu a racionalidade dá o tom, procurando conduzir a experiência religiosa e doutriná-la, no mundo africano a entrega a uma experiência imediata, completamente intuitiva é que vai reger a relação com o/a sagrado/a: “Não pode controlar o orixá, tem que deixar ele baixar na hora que ele quiser, senão é pior”. “O orixá é que domina, mesmo que você não queira, não é escolha sua, é por isso que tem muita gente que sofre querendo contrariar o orixá”. Estas falas demonstram como os cultos de origem africana no Brasil preservam esta relação imediata com o sagrado, uma relação que não é conduzida pelo ser humano.

Esta percepção um tanto intuitiva da realidade também está presente no Daime: “Tem que deixar a bebida atuar, se quiser ficar controlando é pior”. “A gente sente a força, ela vai chegando e toma a gente, aí é só deixar ela te levar que as coisas vão

392 GRUBITS, Sônia. A casa: cultura e sociedade na expressão do desenho infantil. Psicologia em estudo.

Vol. 8, Maringá, 2003. In. http://www.scielo.br/pdf/pe/v8nspe/v8nesa12.pdf acessado em 24/12/2013.

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BASTIDE, R. As Américas negras. São Paulo: DIFEL/Ed. USP, 1974. p. 159.

acontecendo como tem que ser”. Não esqueçamos que mestre Irineu era um mulato nordestino, portanto, descendente de africanos. Curiosa a percepção do menino azande, narrada por Evans-Prichard interpretando o mundo a partir da ótica da magia395. É esta percepção mágica da realidade que parece conduzir esta relação e proporcionar a experiência religiosa como a observamos.

Às vezes estas características são colocadas como provas de uma certa inferioridade cultural dos povos africanos, aqui, ao contrário, percebemos nesta uma qualidade imprescindível para a manifestação da espiritualidade, que é geralmente abafada pela racionalidade européia., talvez aí uma boa dica para entendermos a aproximação espontânea entre as culturas africanas e indígenas, bem acentuada no santo daime. Uma figura emblemática desta proximidade é Juramidam, que carrega vários traços da mitologia nagô, como descreve Araujo396.

A presença africana na cultura brasileira não precisa ser apontada, ela salta aos olhos e se manifesta em todos os espaços como arte, culinária, moda e, como não podia deixar de ser, na religião. Estas marcas não estão restritas a guetos culturais, mas se misturam e aparecem em todas as partes. O reconhecimento desta “negritude” na essência de nossa brasilidade é bem expressa na padroeira do país, Nossa Senhora de Aparecida, a madona negra. O que precisamos é entender e assumir a mestiçagem de nosso povo, sabendo reconhecer em nossos hábitos a origem de cada um, as traços do continente africano são fortes e precisos, inclusive na sua diversidade, pois é fundamental destacar que não recebemos uma influência monolítica afinal vieram para cá vários povos, com culturas distintas, assim como foi a realidade das nações indígenas, que veremos a seguir.

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