Partie II : Phase théorique
2. Cadre conceptuel
2.2 Les émotions
2.2.3 Le deuil soignant
A vontade tende. Pressiona. Quer explodir. É sedenta. Quer espalhar-se. Está em tensão. Procura sair de si mesma. Quer projetar-se. Procura poder. Quer realizar- se. Exprime-se e expressa-se. Articula-se. A vontade torna-se língua. A vontade tornada língua cria mundo e realidade. (FLUSSER, 2006, p. 160)
Depois de deixar o céu, o Diabo rapidamente se dirigiu a terra e “não perdeu um minuto” (ASSIS, 1997, p. 371), começou a divulgar a sua “doutrina nova e extraordinária” (ASSIS, 1997, p. 371). Desse modo, o maligno apresentava-se a todos tal como realmente era: o Diabo, dotado de estratégias, que visava modificar a sua imagem a qual fora durante tanto tempo deturpada pelas beatas, dizia ele:
_Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil a airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para o meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo... (ASSIS, 1997 p. 372)
Como podemos notar, o Diabo apresenta um projeto claro; fundar sua instituição, e para que isso aconteça, ele vem decido em transformar a realidade a fim de conquistar o domínio absoluto do poder. E pondo em prática as suas ideias, demonstra uma nova face de pai legítimo e generoso, disposto a proporcionar tudo aquilo que as pessoas necessitam, e também, malicioso, porta-se de um modo “gentil a airoso” (ASSIS, 1997, p. 372).
Dessa forma, depois que a multidão passou a procurá-lo, o Diabo começou a determinar os seus preceitos. E se ele era conhecido como o “espírito de negação” (ASSIS, 1997, p. 372) a sua primeira ação não podia ser outra, portanto, começou negando as virtudes permitidas, transformando-as em pecados, e aqueles famosos setes pecados capitais seriam os aceitáveis, assim todos os membros de sua igreja deveriam praticá-los. Segundo o Diabo:
A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: “Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu”... O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. [...] Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento. (ASSIS, 1997, p. 372)
O Diabo não se limitou em apenas estipular os seus novos mandamentos, mas, ele buscava fundamentá-los, explicando a importância deles para a constituição de sua nova doutrina. Sublinhamos que Machado também nos descreve um Diabo ilustrado, conhecedor
das páginas literárias.
Observemos ainda que o Diabo tem um discurso muito sedutor, pois demonstra para as pessoas que elas teriam somente vantagens com ele: o desfrute dos prazeres mundanos: “[...] prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos” (ASSIS, 1997, p. 371).
Nesse sentido, o Diabo não vem com o propósito de causar danos, destruição e nem sofrimentos à vida de seus servos, pelo contrário, este oferece somente a parte boa: os deleites mundanos, e dessa maneira, o narrador da história de forma irônica complementa de que aliar- se ao Diabo seria possivelmente um bom negócio, pois não seria “muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum?” (ASSIS, 1997, p. 372).
E os mandamentos do Diabo não terminaram por aí, ele também se preocupou em proibir os homens de praticarem todas as formas do bem, porque essas eram nocivas para sua instituição. Vejamos este trecho:
E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu fortemente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal [...] Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. (ASSIS, 1997, p. 373)
A princípio, o Diabo obteve um enorme sucesso e uma multidão passou a frequentar sua igreja, que se tornou popularmente conhecida. E então, o maligno já se sentia vencedor diante de Deus, pois havia conseguido cumprir o que desejara: fundar uma Igreja e propagar sua doutrina. Sobre isso, assinala o narrador:
A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo. (ASSIS, 1997, p. 373)
Interessante salientar que se o Diabo conseguiu êxito em seu intento, foi porque de um modo profético e messiânico estimulou as pessoas, trazendo uma novidade, de que a elas seria permitido a prática do mal. A pesquisadora Vera Casa Nova em seu artigo, Do Sermão do Diabo: o avesso da narrativa, também comenta sobre este aspecto, explicando que a teologia do Diabo, lida às avessas a partir da Bíblia, conseguiu atrair adeptos. Segundo ela:
Enquanto que as virtudes são apontadas no discurso da igreja de Deus como importantes para a salvação das almas, o Diabo as lê ao contrário, através de antinomias, numa teologia que ele constrói com a ideia do corpo dócil – as turbas corriam atrás dele entusiasmadas e messianicamente induzidas pelo pecado ou avesso das palavras e virtudes propaladas. (NOVA, 1992, p. 180)
Concordamos ainda com o argumento de Vera Casa Nova de que estão presentes no conto, duas forças contrárias, dois deslumbrantes discursos de poder, o de Deus e o do Diabo, e, é claro que, cabe somente ao homem a escolha de qual lado deve seguir. Sobre isso discorre Nova:
Deus e o Diabo como forças antagônicas, numa encruzilhada do destino humano, corresponderiam a retóricas particulares, cada um representado pela sua igreja, respectivamente, ora afirmando, ora negando a ação humana, fascinando o humano...Siderações de ouvintes, quando a eloquência torna imóveis escritura contra escritura, breviário contra breviário. (NOVA, 1992, p. 180)