Chapitre III. La dynamique des identités professionnelles : une
H. Les éléments de transition identitaire
Ao tratar do tema da “globalização contemporânea”, Harvey lembra que mesmo antes de 1942, ano do descobrimento da América, o comércio e as trocas feitos internacionalmente já estavam bastante ativos. Dessa forma, considera o que é conhecido como “globalização” como mais uma fase do processo relacionado à produção capitalista. (HARVEY, 2004, p. 80-81)
O termo “globalização”, para o autor, define um conjunto de mudanças que caracterizam a etapa atual dentro do processo de “ajustes espaciais” necessários à sobrevivência do capitalismo, que “constrói e reconstrói uma geografia à sua própria imagem e semelhança”. Harvey (2004) estabelece quatro alterações que têm tornado o termo mais “atrativo” nos últimos vinte anos. São elas:
1. A desregulamentação financeira que, segundo o autor, se inicia nos Estados Unidos nos anos 1970 devido à estagflação da economia e ao colapso do Bretton Woods14. Esse último, um sistema global de comércio e
troca “hierarquicamente organizado e largamente controlado pelos Estados Unidos”, foi substituído por outro sistema também global, porém descentralizado e controlado pelo mercado, o que “tornou bem mais voláteis as condições financeiras do capitalismo”. A partir de então, o termo “globalização” passou a ser usado significando uma “virtude”. (HARVEY, 2004, p. 89) 2. Apesar da grande quantidade de mudanças tecnológicas
e de inovação que vêm acontecendo desde 1960, a mudança que destacaria o processo atual seria a forma como acontecem atualmente a transferência e a imitação de tecnologia internamente e também entre as zonas da economia mundial. Acontece tanto devido ao comércio de armamentos, quanto pela existência de “elites educadas e com formação científica capazes de absorver e adaptar conhecimento e procedimentos em qualquer e em todo lugar”, levando tanto a inovação quanto transferência de tecnologia em ritmo avançado a serem consideradas grandes forças de “promoção da globalização”. (HARVEY, 2004, p. 90)
14 As experiências do capitalismo das décadas de 1920 e 1930 revelaram a sua
força destrutiva que levou a políticas totalitárias como reação à “pretensão de autonomia” da economia. Assim, os Acordos de Bretton Woods de 1944 que tinham como objetivo criar um sistema internacional que abrangia o “conjunto das relações comerciais, produtivas, tecnológicas e financeiras”, era uma reação a essa “experiência negativa” e tratava de “erigir um ambiente econômico internacional destinado a propiciar um amplo raio de manobra para as políticas nacionais de desenvolvimento, industrialização e progresso social”. (BELLUZZO, 1995, p. 12) Segundo Kilsztajn, “o acordo de Bretton Woods refletia a hegemonia dos Estados Unidos no pós-guerra. Oficialmente, no papel de reserva internacional, o dólar foi vinculado a mercadoria que historicamente tem representado o dinheiro universal – o ouro. As demais moedas deviam se alinhar ao dólar, tornando-se convertíveis a taxas de cambio relativamente fixas”. (KILSZTAJN, 1989) A partir desse sistema foram criados o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial.
3. Mudanças promovidas através da mídia e dos sistemas de comunicações que levam à ideia da existência de uma “revolução da informação” associada ao que seria uma “nova era da globalização em que a sociedade da informação reinará suprema”. O autor lembra que esse exagero também aconteceu com a “novidade da ferrovia, do telégrafo, do automóvel, do rádio e do telefone em sua época”. Mas, cada exemplo desses gerou mudanças no seu tempo, assim como a tecnologia da informação traz grandes mudanças “na organização do consumo e da produção, bem como na definição de desejos e necessidades integralmente novos”. Além disso, a “desmaterialização do espaço”, que teve origem no aparelho militar, e cria o chamado “ciberespaço”, foi apropriada pelas instituições financeiras. (HARVEY, 2004, p. 90-91)
4. As transformações que reduziram o tempo e os custos dos transportes, tanto de pessoas como de mercadorias, ajudaram a reduzir as restrições espaciais, e com isso, permitem “rápidos ajustes de localização da produção, do consumo, de populações e assim por diante”. (HARVEY, 2004, p. 91-92)
Segundo Milton Santos (2008), para construir a imagem dessa “globalização” como o “único caminho para a história”, a informação é monopolizada por grandes empresas do setor de comunicações, que ao manipula-la contribuem para manter a ideologia que sustenta esse sistema. É o inverso do que se transmite como “fábula” da globalização, que “prega” que o avanço das tecnologias de comunicação, que é capaz de transmitir as notícias de forma rápida e quase simultânea aos acontecimentos, realmente informa as pessoas, quando na verdade busca confundir. (SANTOS, 2008, p. 36) A globalização para Santos, portanto, é uma construção desse sistema que desvia, através da ideologia, a atenção dos problemas reais característicos, obtendo o controle por poucos grupos hegemônicos.
Para Harvey (2004), essas mudanças que caracterizam a fase atual de expansão geográfica do capitalismo, geram consequências que abrangem os modos de vida e diversidades culturais, as corporações e
sua forma de organização e de atuação, as cidades e sistemas urbanos, e até mesmo o papel do Estado.
Uma dessas consequências, que se deve principalmente às mudanças nos sistemas de transporte, é a “dispersão e a fragmentação geográficas dos sistemas de produção, das divisões do trabalho e das especializações de tarefas”. Além disso, há um aumento muito grande da força de trabalho, tanto pelo crescimento populacional, quanto pela inclusão de uma população que antes não fazia parte da força de trabalho assalariada, o que inclui mulheres. Com isso, devido aos intensos fluxos migratórios, tem-se hoje um proletariado caracterizado por ser “geograficamente disperso” e “culturalmente heterogêneo”, sobretudo pela sua diversidade “étnica, racial e religiosa”. (HARVEY, 2004, p. 92)
Como decorrência, há dificuldade tanto por parte das “nações- Estado” quanto por parte do movimento socialista de organizar os trabalhadores, seja para qual for o objetivo. Há, portanto, uma maior exploração do que há vinte anos. (HARVEY, 2004, p. 92-93) Mesmo os trabalhadores de países desenvolvidos, ou “países capitalistas avançados”, que contavam com uma condição de certa forma privilegiada, têm visto suas condições superiores serem degradadas diante desse desenvolvimento desigual. (HARVEY, 2004, p. 100)
Quem se beneficia são as corporações, que centralizam cada vez mais o poder corporativo, criando grandes blocos de empresas mundiais, e que com isso conseguem exercer o controle tanto dos trabalhadores quanto do espaço. Essas corporações tornam “lugares individuais bem mais vulneráveis aos seus caprichos”, pois tem a liberdade para mudar suas sedes de produção quando preferirem, contribuindo para as concorrências entre lugares do mundo inteiro. (HARVEY, 2004, p. 92-93)
Um exemplo local da facilidade de mudança foi o caso da montadora da Chrysler instalada em Campo Largo em 1998 e que ficou apenas até 2001, o que gerou demissões da própria indústria, mas também problemas para as empresas fornecedoras que normalmente acompanham esse perfil de indústria.
O papel do Estado nesse processo também muda, segundo Harvey, pois tem seus poderes reduzidos, principalmente no que se refere ao controle da movimentação de capital, devido à desregulamentação financeira. Há uma reterritorialização do mundo,
pois, “as operações do Estado passaram a ser disciplinadas pelo capital monetário e financeiro”. Ou seja, se numa fase anterior porém recente do capitalismo, quando as nações-Estado encontravam-se mais fortalecidas, houve uma redefinição dos limites territoriais dos países se aproximando à situação que encontramos hoje, redefinidos devido aos ajustes espaciais do capital, quando esse controle e poder é passado para o capital monetário e financeiro, além dessas fronteiras geográficas serem cada vez menos importantes, há também um reajuste das forças que comandam as ações que influenciam nesses territórios. As “nações-Estado” cumprem agora um papel no neoliberalismo de “descobrir maneiras de criar um clima favorável aos negócios”, e para tanto acabam se tornando mais “intervencionistas do que antes”. (HARVEY, 2004, p. 94)
Mas, Harvey lembra que o papel das “nações-Estado” ainda é importante “contra o poder predatório do mercado” e também com problemas associados à globalização, como os ambientais ou de preservação cultural.
A “globalização” seria responsável também, por uma “grande revolução ecológica, política econômica e social na organização espacial da população mundial”, acelerando o ritmo da urbanização a partir dos anos 1950, considerada pelo autor como uma “hiperurbanização”. Com isso, as cidades e também as regiões metropolitanas tornam-se importantes para a “economia política global” e ao mesmo tempo tornam-se muito competitivas. (HARVEY, 2004, p. 93-94)
Segundo Santos, devido à “necessidade de capitalização” sob o custo ideologicamente difundido de “desaparecer do cenário econômico” a concorrência, que antes podia atender a “certas regras de convivência preestabelecidas ou não”, é substituída pela criação de novas éticas e de novos valores pela competitividade. Essa “necessidade de sobrevivência”, tanto de empresas quanto de regiões e cidades, cria novas normas de convivência pela competitividade, onde “a única regra é a conquista da melhor posição”, em que há um “afrouxamento dos valores e um convite ao exercício da violência”. (SANTOS, 2008, p. 57)
Durante o período do “capitalismo concorrencial”, segundo Santos (2008, p. 52), mesmo havendo diferenças entre os impérios, o mercado era subordinado à política. Com a globalização, essa Política,
que antes cabia ao Estado, agora significa a política das empresas, que junto com suas técnicas, trazem consigo um conjunto de normas rígidas a serem seguidas. Para o autor, ao se instalar numa determinada comunidade, as empresas trazem suas “próprias regulamentações” e com isso “alteram as relações sociais de cada comunidade”. (SANTOS, 2008, p. 68) A implantação dos Distritos Industriais de São José dos Pinhais foi um exemplo de imposição da política das empresas, pois foram criados de modo a atender aos novos processos de produção. Além de terem significado grandes investimentos públicos, principalmente em infraestrutura, interferiu negativamente em questões ambientais locais, como visto no capítulo anterior.
Para Harvey, as mudanças quantitativas que ocorreram por conta dessa “globalização” geraram também mudanças qualitativas. Mas, foram mudanças limitadas, pois não alteraram fundamentalmente o modo de produção e suas relações sociais, de modo que ela foi apenas a:
(...) reafirmação dos valores capitalistas do início do século XIX associada a uma inclinação típica do século XXI no sentido de jogar todos (e tudo que possa ser trocado) na órbita do capital, ao mesmo tempo que se tornam grandes segmentos da população mundial permanentemente redundantes no tocante à dinâmica básica de acumulação do capital. (HARVEY, 2004, p. 98) A partir dessas considerações, o autor propõe que no lugar do termo “globalização” seja utilizado “desenvolvimento geográfico desigual”. Com isso, ao tomar conhecimento dessa condição de desigualdade, é possível rever a partir tanto das oportunidades quanto das dificuldades que esse cenário oferece, uma “reformulação de uma política adequada”. (HARVEY, 2004, p. 98)
Outra questão importante sobre a “globalização” é que apesar das tentativas de se naturalizar esse processo, alegando ainda que é o “único caminho”, ela é na verdade um projeto geopolítico, o que chamou de “cruzada utópica”, centrado nos Estados Unidos desde 1945. (HARVEY, 2004, p. 99) Portanto, essa globalização contemporânea foi introduzida através dos “interesses da classe capitalista em ação por meio da política externa, militar e comercial
dos Estados Unidos”. (HARVEY, 2004, p. 99) Porém, diferentes classes capitalistas de diversos lugares deram seu apoio às políticas dos Estados Unidos, em troca de proteção militar e legal. (HARVEY, 2004, p. 100)
Esse processo que conhecemos como “globalização” interfere tanto na reestruturação do espaço urbano quanto no fortalecimento de características da sociedade urbana, características essas que a difere de outras sociedades mais antigas. O que se forma em termos de cidade influencia em todas as relações sociais, inclusive mundialmente.