NOTIONS FONDAMENTALES
3. Variables, types et expression
Papert (2008, p. 169) discorre sobre a importância da transparência dos objetos:
Mesmo quando não há qualquer ocultamento deliberado, atualmente há uma tendência em direção a um acondicionamento pouco visível de tecnologias educativas. Há muito tempo, tudo o que uma sociedade sabia
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podia ficar aberto às suas crianças para uso ou imitação lúdica. Ainda na minha juventude, os objetos tecnológicos eram muito mais “transparentes” do que agora. Sei que foi muito importante para o meu desenvolvimento o fato de poder observar, e pelo menos pensar que entendi, os mecanismos internos de caminhões e carros e, eventualmente, passar pelo ritual de iniciação ao regular e até mesmo descarbonizar um motor e reajustar suas válvulas. O fato de muitas pessoas terem crescido em fazendas onde velhos tratores eram mantidos em funcionamento por meio de engenhosidade e improvisação (tinkering) contribuiu para a famosa mentalidade americana de aceitar desafios e resolver problemas; fico imaginando se a “opacidade” das máquinas modernas não é mais um problema ambiental – um problema ambiental de aprendizagem.
Para Papert, a prática em objetos outrora mais transparentes, até por meio de engenhosidade e improvisação (tinkering), contribui para a mentalidade de aceitar desafios e resolver problemas. Segundo o autor, seria necessário apropriar- se das ideias, possibilitando entendimento mais específico de assuntos. Papert (2008, p. 170) diz que a maioria das pessoas explicaria o funcionamento de um artefato45 com a frase “são programados para fazer isso”. Tal pensamento, segundo
Papert, é apenas a visão rasa que demonstra a necessidade de apropriação da ideia:
O saque que procuro fazer é um conjunto de ideias (e de tecnologias que capacitem as crianças a apropriarem-se delas) que possibilitariam uma resposta mais específica. Evidentemente, os mísseis são programados. No entanto, são programados de uma forma particular usando ideias específicas cujo desenvolvimento desempenhou um importante papel na história intelectual do século XX e cujas implicações poderiam desempenhar um papel até mesmo maior no vindouro. Minha esperança é que, para qualquer um que se aproprie dessas ideias, os mísseis inteligentes tornar- se-ão transparentes e, com eles, uma gama inteira de tecnologias e áreas da Ciência (PAPERT, 2008, p. 169).
A transparência das máquinas também foi abordada por Vieira Pinto ao descrever um sistema de causa e efeito: causas eram devidamente reguladas e o efeito realmente seria o desejado. Trazendo uma discussão mais aprofundada, inclusive com referências à Revolução Industrial, Vieira Pinto demonstra que o funcionamento das máquinas era mais evidente, ou visível. Além disso, a supervisão ou interação com o humano era constantemente requerida. Para o autor, um sistema
45 O texto aborda o entendimento das pessoas sobre o funcionamento, visto pela televisão, de
mísseis. Papert (2008, p. 169) resigna-se por citar o artefato bélico: “É deprimente sentir novamente que a melhor forma de abrir uma discussão é com uma imagem militar, mas ela reflete um fato real da vida que desempenhou um grande papel nas estratégias que orientam o meu trabalho”.
de causa e efeito poderia ser explicado a partir de uma relação preestabelecida entre as funções esperadas, geridas ou supervisionadas por um operador humano:
Eram conhecidos desde os primórdios da Revolução Industrial mecanismos cujo efeito, quando incluídos na máquina motora, de início as caldeiras a vapor, consistia em regular o funcionamento do motor, mantendo-o dentro de limites prefixados. Percebeu-se assim que no âmago da máquina fora instalado um dispositivo de autorregulação, em virtude do qual os efeitos de funcionamento do engenho revertiam ao centro propulsor e determinavam o comportamento deste. Efetuava-se no íntimo da máquina um circuito de comunicação do efeito à causa. O efeito “informava” à causa sobre o modo como estava sendo executada a ação desta, com o fim de não deixá-la ultrapassar os valores dentro dos quais devia operar, preestabelecidos pelo construtor por serem os valores considerados úteis (VIEIRA PINTO, 2005b, p. 337).
Vieira Pinto deixa clara a perspectiva anterior de uma máquina: um dispositivo com causas e efeitos definidos que, em conjunto com o trabalho humano, dava conta de determinada tarefa:
O que se devia entender por sistema autônomo de produção, em sentido restrito, era a soma da máquina, ou do instrumento, semovente ou inerte, mais o operador humano que a movimentava ou vigiava, de tal modo que fundiam-se os dois fatores no ato existencial de transformação da realidade pelo homem. A ideia da separação entre ambos, com o funcionamento da maquinismo por si mesmo, no tempo das primeiras reflexões filosóficas sobre a técnica, pertencia ao reino da utopia, conforme retrata bem a conhecida expressão de Aristóteles46 (VIEIRA PINTO, 2005b, p. 340).
Entretanto, tal modelo foi substituído por um em que o sistema de informações foi incorporado à maquina, livrando o homem do constante trabalho de retroação ao dispositivo. O sistema de informações, que antes deveria obrigatoriamente passar pelo homem, tornou-se passível de regulação pela própria máquina. Vieira Pinto esclareceu:
O homem, no curso da evolução cultural, descobriu os meios de desobrigar- se da constante ligação mantida com uma máquina em particular, para fazê- la funcionar, criando um arranjo mecânico ou eletrônico que o libera do cuidado permanente ou das intervenções sucessivas, substituídas estas por uma única intervenção, a que instala na máquina a peça autorreguladora (VIEIRA PINTO, 2005b, p.340).
A instalação da “peça autorreguladora” na máquina levou Vieira Pinto (2005b, p. 340) a afirmar que
46 Vieira Pinto (2005a, p. 137- 141) dedica-se a discutir “Conceitos antigos da técnica: Aristóteles,
Kant”. Destaca-se: “No De Generatione Animalium, Aristóteles precisa seu pensamento, ao dizer: 'O calor e o frio podem tornar o ferro brando ou duro mas o que faz uma espada é o movimento dos instrumentos empregados, e este movimento contém o princípio da arte (técnica). Pois a técnica é o ponto de partida (ou o princípio, arquê) e a forma do produto'”.
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os entusiastas sem controle crítico falam desde já de uma terceira etapa, que seria aquela em que as máquinas se incumbiriam de programar a construção e direção de outras ainda mais perfeitas, numa sequência imaginária infinita. Cabe porém dizer que a terceira etapa, por enquanto, não passa de interrogação, não foi concretizada senão em esboços de teorias e projetos técnicos respeitáveis, mas sem a garantia de realização, deixando de lado, está claro, o vozerio de camelôs da fantasia científica.
É com essa nova “característica” da máquina que Álvaro Vieira Pinto identifica uma inversão da evolução. Segundo o autor, se antes os “artífices procuravam imitar o funcionamento do cérebro humano”, no momento vê-se no “'modelo' em ação no computador o protótipo explicativo dos fenômenos de atividade nervosa”. Essa inversão, “ainda não analisada criticamente, e o mais das vezes sequer percebida” é representada pela confusão intelectual de que, a partir do engenho cibernético, podem ser tiradas conclusões do funcionamento do organismo superior – o do homem. Estaria, segundo Vieira Pinto, “na base dos ensaios e da metodologia da simulação” (VIEIRA PINTO, 2005b, p. 341).
Depreende-se do pensamento de Vieira Pinto que estabeleceu-se um entendimento incorreto quanto à máquina autorregulando o próprio funcionamento. Enquanto um grupo chamado de “entusiastas sem controle crítico” crê em uma evolução autônoma das máquinas, o autor demonstra o engano:
Com efeito, mesmo em face a um hipotético terceiro tipo, teríamos de reconhecer o papel criador e regulador do cérebro humano, não apenas na gênese, que então se julgaria longínqua, da estirpe dos engenhos cibernéticos, mas na relação que mantêm com o homem. Não poderão desligar-se da prestação de serviço ao homem, de se revelarem úteis à produção social, a fim de merecerem que se lhes permita reproduzirem-se, resolvendo problemas que lhes seriam submetidos pelos agentes humanos. Somente o homem em sua atuação no trabalho suscita interrogações, de modo que sem ele, sem ligação com ele, na qualidade de puros instrumentos, as máquinas geratrizes de máquinas dariam origem a uma descendência de construções ininteligíveis e, o que seria pior, inúteis (VIEIRA PINTO, 2005b, p.341).