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Perspectives

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3.1.1 – Os deveres espirituais para o bem viver

As irmandades leigas1 foram fundadas entre os séculos IX e XI e tiveram uma atuação muito forte na Igreja Católica e na sociedade. Os leigos que as compunham procuravam, da melhor maneira possível, desenvolver o espírito de devoção e de solidariedade, tanto na vida como na morte. Aliás, cuidar para que os irmãos tivessem uma boa morte tornou-se um dos principais fatores de existência daquelas agremiações.

As confrarias, criadas para praticar todas as obras de caridade, vieram a considerar, nos séculos XV e XVI, a assistência às exéquias como uma de suas funções principais. Uma pessoa se torna membro de uma confraria por dois motivos: para beneficiar com as preces dos confrades o dia de sua própria morte e, em seguida, para assistir com suas próprias preces aos outros defuntos, assim como, em

1 ASSOCIAÇÃO RELIGIOSA / IRMANDADE LEIGA: Organismo fundado para fins religiosos. Apresenta

ordinariamente as seguintes características: estrutura orgânica e institucional, definida num estatuto; a adesão dos membros, que se dá por co-participação nos intentos e nas obrigações estatutárias; adesão formal por parte dos membros, com base nas normas estatutárias; estabilidade e autonomia (relativa) da associação enquanto associação, para além do variar dos membros; atribuição dos cargos associativos com base em critérios formais preestabelecidos pelo estatuto. In: SCHLESINGER, Hugo; PORTO, Humberto. Dicionário Enciclopédico das Religiões. V. I. Petrópolis: Vozes, 1995. p. 265. As irmandades leigas tiveram uma grande atuação na Igreja Católica e na sociedade por se tratar de corporações que reuniam leigos de todos os segmentos sociais, como artesãos, mercadores, nobres e camponeses, com objetivos espirituais e materiais. Os primeiros grupos a surgirem no período medieval eram verdadeiros núcleos de apoio mútuo, não somente religiosos, mas também corporações de assistência à saúde e de profissionais. Seus fins eram os mais diversos, dentre eles destacam-se a celebração dos rituais sagrados, a devoção aos santos, a assistência material, a comunhão fraterna, a promoção do culto público e o preenchimento das necessidades espirituais. Cf. VINCENT, Catherine. Op. cit.; BOSCHI, Caio César. Os Leigos e o poder: Irmandades leigas e política colonizadora em Minas Gerais. São Paulo: Ática, 1986.

particular, os pobres que são privados de todo meio material de adquirir intercessores espirituais.

As confrarias foram também – em muitos locais em que não havia corporações de papa-defuntos, como os pregoeiros em Paris – encarregadas das pompas fúnebres da paróquia. O hábito dos confrades, além do mais, se parece com a veste de luto, a veste longa com o capuz que prende sobre o rosto.

Assim, graças às confrarias, o enterro do pobre não mais escapava às honras da Igreja, que havia solenizado o dos ricos.2

As irmandades garantiam, em boa medida, a segurança e a tranqüilidade dos indivíduos que se associavam a elas. “O confrade adquiria as benesses e a segurança indispensáveis para os tempos de doença e invalidez e, no extremo, garantia seu próprio sepultamento.”3 Após o sepultamento as irmandades ainda providenciavam os sufrágios para as almas, cumprindo o que estava redigido no estatuto. Seriam celebradas as missas de acordo com o cargo que o irmão ocupava na associação. As agremiações demonstravam seu ímpeto de solidariedade aos vivos e aos mortos, porém, as “preocupações fúnebres e o sufrágio da alma dominam as confrarias.”4 Tais associações cumpriam, dessa forma, a piedosa tarefa de salvar vidas.5

As irmandades se espalharam por toda a Europa nos séculos seguintes e, no século XVI, foram trazidas para o Brasil com os colonos portugueses. A metrópole implantou na colônia uma estrutura política e religiosa já existente em Portugal, trazendo assim, as associações leigas presentes em praticamente todas as cidades portuguesas.6 Com a colonização de Minas Gerais no século XVIII, as agremiações foram fundadas pelos primeiros desbravadores com a finalidade de suprir a deficiência de sacerdotes na região. Essas associações foram também implantadas em Juiz de Fora a partir de meados do século XIX.7

Após essa apresentação rápida do que vem a ser as irmandades leigas, concentraremos, a seguir, nossa análise em seus estatutos, tendo por base os artigos que descrevem os deveres espirituais dos irmãos. Vamos analisar a estrutura de cinco irmandades

2 ARIÈS, Philippe. Op. cit., p. 132. 3 BOSCHI, Caio César. Op. cit., p. 13.

4 COELHO, Maria Helena da Cruz. Op. cit., p. 161. 5 BOSSY, John. Op. cit., p. 48.

6 RUSSEL-WOOD, A. J. R. Op. cit., Prefácio, p. XIV.

7 Estudos mais detalhados sobre as irmandades leigas no Brasil, em Minas Gerais e em Juiz de Fora, podem ser

conferidos nos seguintes trabalhos: AZZI, Riolando. O Catolicismo popular no Brasil. Op. cit.; BORGES, Célia. Devoção branca de homens negros. Op. cit.; BOSCHI, Caio César. Op. cit.; MENEZES, J. Furtado de. Igrejas e irmandades de Ouro Preto. A Religião em Ouro Preto. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1942; OLIVEIRA, Anderson José Machado de. Devoção e caridade: irmandades religiosas no Rio de Janeiro imperial (1840- 1889). Dissertação (Mestrado em História) - Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói: 1995; SALLES, Fritz Teixeira de. Op. cit.; SCARANO, Julita. Devoção e escravidão. A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos no Distrito Diamantino no século XVIII. 2. ed. São Paulo: Nacional, 1978; QUIOSSA, Paulo Sérgio. Op. cit.

que atuaram na Igreja de Juiz de Fora, procurando também compreender como se dava a prática da fé e da espiritualidade dos confrades para o bem viver e, logicamente, para o bem morrer. Vale lembrar que uma das principais finalidades das irmandades era garantir a proteção dos confrades tanto na vida como na morte.

No período estudado por nós, detectamos a presença de cinco irmandades de leigos atuando na Igreja de Juiz de Fora. A primeira associação desse modelo a surgir na cidade foi a Irmandade do Santíssimo Sacramento da Matriz de Santo Antônio, fundada em 30 de julho de 1854; depois aparece a Irmandade de Nosso Senhor dos Passos, criada em 06 de agosto de 1854; a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário foi criada em 22 de abril de 1888, provavelmente pela população negra da cidade; no início do século XX foram fundadas ainda a Irmandade de São Roque, em 08 de setembro de 1902 e a Irmandade de São Mateus, em 25 de agosto de 1907.

A Irmandade do Santíssimo Sacramento tinha por finalidade a promoção do culto a Jesus Sacramentado na Eucaristia.8 No capítulo 1º e artigo 6º de seu estatuto estava determinado que:

Todos os Irmãos devem prestar religiosa obdiencia as determinaçoens da Mesa, respeitar os membros da Administração annual, e comparecer a todas as festividades, prossissão e mais actos da Irmandade com ópas vermelhas, bem como acompanhar o sagrado Viatico9, quando for levado aos enfermos.10

A obediência figurava como uma pré-determinação para a aceitação de um membro na agremiação. A exigência também do comparecimento aos eventos com suas opas vermelhas tornou-se preceito de um confrade assíduo e cumpridor dos estatutos. As vestes eram sagradas e, por isso, apresentavam grande poder simbólico sobre a irmandade, e somente deveriam ser usadas em ocasiões especiais e determinadas pelos estatutos. “O símbolo revela certos aspectos da realidade ― os mais profundos ― que desafiam qualquer outro meio de conhecimento. As imagens, os símbolos [...] respondem a uma necessidade e

8 As irmandades tinham um estatuto que, prevendo os objetivos da organização e a dinâmica de funcionamento,

era conhecido como “Compromisso”. Os compromissos de todas as irmandades seguiam mais ou menos um modelo padrão, estabelecendo a organização interna, a hierarquia, as regras, dias de festas e as condições de contratação do capelão. In: BORGES, Célia. Devoção branca de homens negros. Op. cit., p.90.

9 VIÁTICO: Designação litúrgica dos auxílios espirituais ministrados aos enfermos e agonizantes. Inclui os

sacramentos da confissão, comunhão e unção dos enfermos. O Concílio de Nicéia fala de uma lei antiga e canônica de socorrer espiritualmente os enfermos. É de lei divina e eclesiástica esta urgência em perigo de morte. O ritual romano prevê um formulário específico para estes casos. O único dia do ano litúrgico em que é interditado este ministério é a Sexta-feira Santa. In: SCHLESINGER, Hugo; PORTO, Humberto. Op. cit., p. 2624.

10 AISSCM. Estatutos da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Matriz de Santo Antônio, 1855. Cap. 1º., art.

preenchem uma função: revelar as mais secretas modalidades do ser.”11 Vestidos com suas opas, os confrades se apresentavam para prestar culto a Jesus Sacramentado.

Além das celebrações semanais como a reza do terço, as missas dominicais e a adoração a Jesus Sacramentado, os irmãos do Santíssimo deveriam participar anualmente das festividades da Semana Santa e da festa do Corpo de Deus (Corpus Christi). Todos deveriam atuar paramentados, demonstrando seu fervor e sua fé. As celebrações das quais eles participavam eram as missas, procissões, orações próprias e sermões. Por outro lado, semanalmente,

em todas as quintas feiras se celebrará no Altar mór o Sacrosanto sacrificio da Missa com assistencia de Irmãos com suas ópas, thuribulo e toxas: no dia da commemoração dos fieis defuntos se dirão trez Missas, havendo no fim os responsorios, que marca o Ritual Romano, assistindo a este acto a Mesa e mais Irmãos.12

A participação na missa com comunhão tornou-se essencial na preparação dos confrades para a vida e para a morte. As celebrações contavam com a presidência do capelão da irmandade que era também o pároco da Matriz de Santo Antônio.

Detectamos no estatuto da Irmandade de Nosso Senhor dos Passos que os seus deveres espirituais não se distanciaram daqueles dos confrades do Santíssimo Sacramento. A promoção do culto ao Senhor dos Passos era o principal objetivo. Por outro lado, os irmãos deveriam “comparecer todas as vezes q. forem convidados para qualquer acto da Irmandade, com os seos balandráos roxos.”13 A missa semanal também deveria ser um momento de grande participação. Anualmente, no primeiro domingo de maio, celebrava-se a Festa de Nosso Senhor dos Passos, onde se fazia a procissão cantada da imagem dos Passos e sermão com a maior solenidade.14 Procurava-se, dessa maneira, envolver todos os confrades que deveriam comparecer com suas opas e tochas para melhor brilhantismo das celebrações.

Os irmãos negros também deveriam ter seus deveres espirituais para com a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. “São actos desta Irmandade a celebração da festividade de Nossa Senhora do Rosario, de São Benedicto, São Elesbão e Santa Efigenia, e

11 ELIADE, Mircea. Imagens e símbolos: ensaio sobre o simbolismo mágico-religioso. (Trad. Sônia Cristina

Tamer). São Paulo: Martins Fontes, 1991, pp. 8-9.

12 AISSCM. Estatutos da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Matriz de Santo Antônio, 1855. Cap. 6º, art.

29-31.

13 CMIJF / AHPHOF. Estatutos da Irmandade de Nosso Senhor dos Passos da Freguesia de Santo Antônio do

Paraibuna, 1855. Cap. 1º, art. 6º.

14 CMIJF / AHPHOF. Estatutos da Irmandade de Nosso Senhor dos Passos da Freguesia de Santo Antônio do

bem assim os suffragios aos Irmãos fallecidos.”15 Com relação à festa de Nossa Senhora do Rosário, ela “terá lugar no primeiro Domingo de Outubro, precedida de novena, constando a Festa de Missa Cantada, sermão ao evangelho, Procissão a tarde. Sermão e Te Deum na entrada da Procissão, o que tudo se fará com a pompa devida, segundo os recursos da Irmandade.”16 Porém, a “Festa de São Benedicto, São Elesbão e Santa Efigenia poderá ser feita no dia designado pela Mesa administrativa, reunindo-se em um só festejo os tres gloriosos Santos se assim for deliberado pela Mesa.”17 Esses três santos tornaram-se os mais cultuados pelos negros em Juiz de Fora, como no resto do Brasil.

Talvez a identificação epidérmica e a história de vida de alguns dos santos, e seus dons miraculosos, expliquem por que os negros das irmandades do Rosário os adotaram tão bem. A padroeira era branca e a quase totalidade dos santos de devoção negros. Talvez estes fossem mais confiáveis que os santos brancos. É sabido que para os brancos Santo Antônio era de grande ajuda para encontrar negro fugido. De modo que, tal como os brancos tinham os seus santos de predileção no mercado de bens simbólicos, os negros também reverenciavam os seus e os poderes de cada santo não se confundiam.18

Outro dever de ordem espiritual que auxiliava o devoto, tanto na vida como para se fazer uma boa passagem, era o de que todos os irmãos deviam rezar a Coroa de Nossa Senhora ― O Rosário ― diariamente. A reza do Terço aproximava o devoto da Santa Mãe de Cristo e da Igreja.

Em Minas foi grande a divulgação do rosário e seu poder de proteção. Adquirir um rosário devia significar muito para aquela população desejosa de proteção. Além disso, tratava-se de um objeto obrigatório nos cultos, principalmente nos serviços fúnebres, onde se rezava pelas almas dos irmãos. Em algumas irmandades havia reza semanal, comumente aos sábados, estipulada nos compromissos. O rosário ajudava o fiel nas adversidades. Carregar um rosário e recitar o terço passava por ser uma arma poderosa para aqueles que acreditavam na eficácia daquela prática.19

Com relação aos devotos de São Roque, que fundaram sua irmandade em 1902, a assistência espiritual para o bem viver resumia-se em dois atos: festejar o santo padroeiro anualmente e conservar e administrar a capela de São Roque ou outras benfeitorias do seu patrimônio.20

15 CMIJF / AHPHOF. Estatutos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário da Freguesia de Santo Antônio da

cidade de Juiz de Fora, 1888. Cap. 1º, art. 7º.

16 CMIJF. Estatutos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário da Freguesia de Santo Antônio da cidade de Juiz

de Fora, 1888. Cap. 11º, art. 35º.

17 CMIJF. Estatutos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário da Freguesia de Santo Antônio da cidade de Juiz

de Fora, 1888. Cap. 11º, art. 36º.

18 BORGES, Célia. Devoção branca de homens negros. Op. cit., pp. 184-186. 19 Ibidem, pp. 160-161.

A Irmandade de São Mateus procurou também investir anualmente nos festejos do santo. Porém, a dita associação deveria organizar-se de maneira que futuramente pudesse construir uma igreja em homenagem ao referido orago. Era um dever prescrito no estatuto e que foi levado adiante por todos os irmãos, visto que, sem demora, um terreno foi adquirido e o templo foi erguido logo em seguida.21

Vale ressaltar que em todas as irmandades havia uma prescrição em seus estatutos sobre a participação dos confrades nas reuniões marcadas periodicamente ― conforme a necessidade ― para discutir assuntos referentes à mesma e deliberar sobre as atividades a serem exercidas. Todas também deveriam ter um capelão que, geralmente, deveria ser empregado da irmandade. Sua principal função deveria ser a de dar assistência espiritual para os confrades.

Em todas as irmandades as mulheres eram aceitas, porém, em três delas ficam evidentes que sua principal atividade para o engrandecimento espiritual consistia em prestar assistência na organização, limpeza do templo e conservação das alfaias. Geralmente elas não tinham assento na Mesa Administrativa, apesar da aceitação de suas freqüências nas reuniões.22 Aliás, a participação em reuniões tornou-se um dos preceitos fundamentais para a convivência, a solidariedade e a sociabilidade dos confrades. O crescimento espiritual e o aprendizado para a vida ficavam em evidência, pois discutiam-se assuntos referentes à Igreja, à irmandade e ao cotidiano dos irmãos (família, namoro, amizade, espiritualidade, política, etc.). Estes deveriam apreender os ensinamentos do assistente espiritual ― o capelão ― e procurar vivenciá-los no seu convívio social.

3.1.2 – Os preceitos espirituais para uma boa morte

Uma das principais funções das irmandades consistia na proteção e na solidariedade aos confrades na hora da enfermidade e da morte. Muitos entravam para as corporações com o objetivo único de ganhar assistência em seus momentos finais, pois essa era a garantia de se ter um enterro digno e da salvação da alma através das orações e dos sufrágios. Aliás, esta se tornou a primeira estratégia de um indivíduo para obter a salvação, ou seja, ingressar em uma

21 AZZI, Riolando. Sob o báculo episcopal. Op. cit., p. 82

22 Cf. Estatutos da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Matriz de Santo Antônio de Juiz de Fora; Estatutos

da Irmandade de Nosso Senhor dos Passos da Freguesia de Santo Antônio do Paraibuna; Estatutos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário da Freguesia de Santo Antônio da cidade de Juiz de Fora.

agremiação e investir na organização cuidadosa de sua própria morte.23 Em todos os estatutos das irmandades podemos encontrar em seus artigos os preceitos e os deveres dos confrades diante de uma doença a ser enfrentada por ele ou alguém próximo e perante à busca de se ter uma boa morte.

A visita aos enfermos tornou-se um dos preceitos de solidariedade ao próximo e também uma obrigação do devoto ao ingressar na Irmandade do Santíssimo Sacramento. A visita aos doentes, geralmente era acompanhada de um ritual. Através das reuniões, a Mesa Administrativa decidia quais os confrades acompanhariam o sacerdote junto aos familiares e ao moribundo. “Todos os Irmãos devem prestar religiosa obdiencia as determinaçoens da Mesa, respeitar os membros da Administração annual [...], bem como acompanhar o sagrado Viatico, quando for levado aos enfermos.”24 Esse princípio de solidariedade ao próximo seguia fielmente os ensinamentos de Cristo.25 E isso era visto pelos católicos como um dos valores religiosos para se alcançar a vida eterna.

Também a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário apresentava em um dos artigos a seguinte orientação: “Quando a Irmandade tiver fundos sufficientes e algum Irmão ou Irmã cahir em estado de miséria, cegueira, infermidade grave sem meios de manter-se lhe ministrará os soccorros conforme o estado de seu cofre.”26 Observa-se que a referida associação poderia socorrer um confrade em estado de miséria e doença, desde que os cofres satisfaçam as despesas. Essa atitude também consistia em uma demonstração de solidariedade ao próximo.

Os estatutos evidenciavam os deveres e direitos dos irmãos para que se alcançassem o bem morrer. Isso envolvia compromissos e atitudes para o bom andamento dos trabalhos da irmandade. Além de ter que freqüentar as reuniões periódicas, os confrades deveriam participar dos eventos paramentados com suas opas e prestar assistência espiritual aos indivíduos enfermos ― irmão ou não ―, desde que fossem convidados para tal.

Alguns membros da associação tinham funções bem definidas e deveriam estar atentos aos acontecimentos, pois lidavam diretamente com o viver e o morrer. É o caso, por

23 REIS, João José. O Cotidiano da morte no Brasil oitocentista. In.: SOUZA, Laura de Mello e (Org). História

da vida privada no Brasil – Cotidiano e vida privada na América portuguesa. V. 1. São Paulo: Cia. Das Letras, 1997, p. 101.

24 AISSCM. Estatutos da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Matriz de Santo Antônio, 1855. Cap. 1º, art.

6º.

25 Sobre a solidariedade ao próximo, ver: COELHO, Maria Helena da Cruz. Op. cit., A autora faz uma

importante pesquisa sobre as confrarias em Portugal, e procura valorizar o significado da solidariedade dentro das associações, espaços próprios para esse comportamento.

26 CMIJF. Estatutos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário da Freguesia de Santo Antônio da cidade de Juiz

exemplo, do capelão que, além de prestar auxílio espiritual aos irmãos, era “obrigado a dizer na quinta-feira de cada semana uma Missa no Altar-mór por tenção dos Irmãos bemfeitores dessa Irmandade [a do Santíssimo Sacramento], vivos e defuntos, assistindo a esta Missa dous Irmãos de ópas vermelhas com toxas.”27 Da mesma forma, o sacristão ou andador ― ajudante direto do sacerdote ― deveria proceder da seguinte maneira perante uma situação de irmão enfermo ou de morte: “tocará o sino para sahir o Sagrado Viatico, para os enfermos, procedendo aviso, ou ordem do Rdº. Parocho, e fazer ao mais toques de estillo, e os dobres de enterro de forma que lhe for ordenada pelo Procurador [...].”28 A função do procurador era a de “determinar e regular os signaes que se fiserem pelos Irmãos fallecidos, conforme a

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