GOUVERNANCE VERTICALES
3.3. Transactions connexes et interdépendance dans la résolution de problèmes
O imaginário da globalização, aponta Abélès, está marcado pela dimensão cultural, que por sua vez está no centro do processo de globalização, envolvendo os fluxos e as redes em cuja malha os indivíduos contemporâneos navegam e face aos quais a Antropologia deve se reposicionar . “Enquanto os teóricos da modernização acreditavam na secularização do mundo dependente da racionalidade científica, vemos que ao contrário (hoje) a explosão das mídias tornou possíveis novos desdobramentos do imaginário coletivo, uma busca de novas transcendências.” (Abélès, 2009:39)
Abélès salienta que os fluxos e a interconexão afetam as singularidades culturais e o local, objetos por excelência caros aos antropólogos, confrontando-os a uma realidade marcada por processos de desenraizamento e desterritorialização. As migrações, assim como o impacto das mídias afetam profundamente os universos culturais, fazendo dos fluxos culturais e do modo como as sociedades deles se apropriam, ou como rejeitam a
circulação cultural, um tema relevante para a Antropologia do mundo contemporâneo. Entre os exemplos citados estão a internacionalização da cozinha asiática e a expansão
da música étnica, veículos do imaginário associado ao seu lugar de procedência e ao mesmo tempo à idéia “cosmopolita” de um mundo multicultural integrado.
Appadurai (1996) aponta a impossibilidade de se estudar os novos cosmopolitismos sem analisar os fluxos culturais transnacionais no interior dos quais eles competem e se retroalimentam, desafiando “verdades” acadêmicas. Destaca entre estas últimas a ligação entre espaço, estabilidade e reprodução cultural e enfatiza a necessidade de se dar atenção à dinâmica cultural da desterritorialização. Propondo um novo estilo de etnografia, o autor tem em vista capturar o impacto da desterritorialização sobre os recursos imaginativos das experiências vividas no local. Atribui como tarefa da etnografia revelar o “quebra-cabeça” de saber qual é a natureza da localidade como experiência vivida, em um mundo globalizado e desterritorializado.(Appadurai,1996:52)
As questões da agência e da imaginação são centrais em sua análise : a imaginação na vida social vista como um campo organizado de práticas sociais e de negociação entre os locus de agência (indivíduos) e campos de possibilidades globalmente definidos. Central a todas as formas de agência, a imaginação constituiria um fato
social e uma componente chave na ordem global. O binômio agência/imaginação nos remete diretamente aos relatos biográficos que constituem o material etnográfico levantado nesse estudo, cuja análise pretende esclarecer o caráter das migrações norte- sul em foco.
O autor salienta que a fantasia tornou-se uma prática social que entra na fabricação da vida social para muita gente e constitui um novo poder ligado a imagens, idéias, oportunidades que vem de outro lugar, circuladas pela mídia. Propõe que vidas parcialmente imaginadas sirvam de base para etnografias que captem vozes significativas em um mundo transnacional, desterritorializado: o “ser cosmopolita” como meta de vidas construídas. Sugere por fim iluminar as relações vividas entre as vidas imaginadas e as redes de cosmopolitismos no interior das quais elas se desdobram. (Appadurai,1996:54)
A des/reterritorialização e o transnacionalismo enquanto práticas contemporâneas não podem ser desvinculados do imaginário da globalização em suas formas específicas. Interpelando a interculturalidade globalizada Garcia Canclini (2007) propõe que se estude os imaginários sobre a globalização produzidos a partir de diferentes perspectivas - da América Latina , da Europa e dos EUA, abarcando os diversos destinos migratórios e considerando suas ambivalências e transformações na virada do século. Dirige sua atenção à relação entre o mercado e a interculturalidade e destaca que mudanças simbólicas radicais vem se gestando tanto nas sociedades e nos sistemas de comunicação como nas representações que cada nação tem de si mesma e das outras. Trazendo ao presente um passado recente, no quadro das relações culturais tecidas entre a Europa e a América Latina, a tensão histórica do binômio metrópole/colônia permeada pela noção de “civilização” pode nos servir de introdução ao tema dos imaginários sobre a alteridade. Erigida em critério de hierarquização e identificada com os valores racionais, associados ao domínio técnico e instrumental predominante no velho continente, a “civilização” foi vista como ausente e continua sendo considerada como “em processo” no Novo Mundo, notadamente em sua porção latina. O recurso à literatura é um dos caminhos que nos revela o imaginário social sobre a América Latina no pensamento europeu e suas rupturas internas decorrentes do contato com a alteridade.
Recorro a Bergamini (s/data), para evocar as “demolições do mito civilizatório”, nas quais as vanguardas européias tiveram um papel destacado ao voltar seu olhar para o
Novo Mundo, expondo aqui muito sucintamente o percurso do próprio conceito. O conceito de “civilização” como valor absoluto seria questionado por Nietzsche, que o categorizou como adestramento, repressão, associado a todas as formas de se tolher o potencial do indivíduo, enquanto a cultura seria vista por ele como a expansão das energias individuais. A autora observa que se Nietzsche não concebia a barbárie como distante da Europa civilizada, foi Freud que destacou a não oposição entre civilização e cultura. (Bergamini, s/data, p1245) Por outro lado, a oposição civilização x primitivismo, como sabemos, serviria de fundamento para a dominação colonial, enquanto alimentava o imaginário das metrópoles em relação às possessões d‟além mar. As Américas entrariam em cena, pela via do “exotismo” no pensamento romântico, em meio à busca européia por reunificar homem e natureza, que antecipou a descoberta freudiana do inconsciente, observa a autora :
A percepção européia revisada da antes aturdida não-civilização acabou sendo o acesso estetizado à cultura “primitiva”. O novo valor coloca como exclusiva a essa realidade dos povos pré-colombianos, orientais e demais culturas alheias ao prefixo “euro” - cristalizado como uma das marcas máximas da civilização - a verdadeira correspondência entre homem e natureza. O instinto é o índice geral desses grupos ainda afastados do “artifício”, espólio da aculturação civilizatória. Foi assim que antes do aparecimento das teorias psicanalíticas, o Romantismo contagiou a busca às fontes edênicas do Novo Mundo.(Bergamini,s/data,p1246)
Bergamini revela que a virulência contra a chamada “civilização” e a sede do novo cultural geograficamente situado nas Américas se desdobra em dois momentos, que ela denomina 1ª e a 2ª demolições do mito civilizatório. A 1ª representada pelo pensamento romântico do século XIX e a segunda pelos ecos finais da era romântica (decadentismo, realismo fantástico) e pelas vanguardas. As vanguardas se formariam sob o impacto das idéias de Freud e Jung sobre a importância do mundo irracional, cuja busca era por uma alternativa emancipada do eixo racional, pautando-se na forma intuitiva e religiosa de pensar do homem ameríndio. Nesse sentido, os vanguardistas continuariam em parte sintonizados no pensamento romântico, entre os quais os surrealistas foram os que mais recorreram às fontes vivas do pensamento mítico. (Bergamini, s/data, p1246) Garcia Canclini (2007) aponta o fascínio distante que a América Latina exerceu sobre os europeus, que aqui sempre viram o que o racionalismo ocidental reprimiu: prazeres sem culpabilidade, relações fluídas com a natureza que a intensiva urbanização européia sufocou , “a exuberância da natureza que envolve a história e alimenta a corrente da vida” , que deu lugar às narrativas edênicas de artistas dissidentes europeus que se refugiaram nos trópicos. A América Latina vista como o lugar remoto para situar
as utopias dos europeus; como um lugar onde tudo é possível, onde se vê múltiplas maneiras de fazer fortuna ou fazer revolução impraticáveis na Europa.
Instigado pelo caráter de réplica na constituição das sociedades latino-americanas em relação à matriz européia , Laplantine (1994) desenvolveu em Transatlantique - entre Europe et Amériques Latines , uma reflexão sobre o olhar europeu voltado para o Novo Mundo e a ruptura com a lógica da identidade que teria dado fundamento ao racionalismo unificador enraizado no velho continente. Analisa o impacto da obra de autores que traduziram a complexidade contraditória latino-americana como Borges, Cortázar, Garcia Marques, Astúrias, Vargas Llosa, Neruda, Carpentier, Rulfo, C.Fuentes, O. Paz, Jorge Amado e Mário de Andrade entre outros, sobre as vanguardas européias, refletindo-se claramente no movimento surrealista.
O autor aborda os “cruzamentos culturais transatlânticos”, incluindo a fascinação exercida pela Europa sobre as elites latino-americanas, à medida que o “espírito do Iluminismo” se difundia no sub-continente, produzindo um tipo de colonialismo cultural e mental marcadamente francês. Em contrapartida, a América se apresentaria como a utopia da Europa, o Éden que evocava o princípio da humanidade e onde o sonho surrealista de uma ruptura radical com o racionalismo europeu estava se realizando. Um Novo Mundo arcaico e futurista ao mesmo tempo,“o encontro indissociável do cósmico, do estético e do político” na formulação de Breton, após sua visita ao México em 1938.
Laplantine propõe uma questão, entre as muitas relações que tece no livro, que interessa particularmente à investigação em foco: O que acontece a um europeu a partir do momento vertiginoso em que chega ao Novo Mundo e penetra na vida americana ? A resposta, exposta como tese central, será: o abandono do centro de referência e de gravidade. Sua reflexão pode ser vista como uma crítica cultural da civilização européia e especificamente dos limites impostos à consciência do sujeito pelo racionalismo positivista.
A perda do centro de referência aludido pelo autor não se dá no entanto à revelia dos sujeitos migrantes europeus que se dirigem à América Latina, mas como parte de um projeto, no sentido referido por G. Velho, de uma busca intencional de exposição a diferentes ethos e visões de mundo , lançando mão da errância como expressão de uma recusa à estabilidade e hierarquia sociais a que estão submetidos “em casa” e de valorização da experiência individual. Nesse processo de renegociação da realidade e de valores, a escolha da sociedade brasileira não é aleatória, uma vez que esta revela-se um
terreno propício para a experiência de metamorfose pessoal do migrante cosmopolita, por razões que serão discutidas a seguir.
Múltiplos são os aspectos abordados pelo autor para fundamentar sua tese, dos quais reteremos alguns pertinentes para tratar a questão dos migrantes europeus no Nordeste brasileiro, envolvendo o impacto da diversidade e da mestiçagem sobre o imaginário europeu e o desejo de ruptura desses indivíduos com os parâmetros culturais de origem. Trata-se de encontrar pistas para compreender a lógica da opção desses migrantes do norte por instalar-se no sul globalizado para aqui construir ou reformular suas vidas.
2.5 A ORIGINALIDADE DA AMÉRICA LATINA E SUAS REPRESENTAÇÕES
Analisando certas práticas culturais na América Latina marcadas pelo sincretismo de diferentes matrizes, como o Candomblé por exemplo, Laplantine ressalta naquelas que ele qualifica como sociedades heterogêneas e plurais , a capacidade de auto- desdobramento e o convívio de identidades múltiplas entre seus membros e grupos sociais. Opondo-se à lógica da auto-afirmação e à pretensão do auto-domínio que marcaria o pensamento ocidental , o autor identifica ali uma lógica da possessão, a aceitação da deriva e da perda do auto-domínio, deixando-se possuir pela diversidade. A lógica da identidade que, segundo Laplantine, exclui a duplicidade e busca o acordo consigo mesma, estaria no cerne da geografia mental da cultura européia- por sua vez assentada na racionalidade científica e no dogmatismo cristão- impossibilitando os indivíduos de aceitar e mesmo pensar a pluralidade radical. (Laplantine,1994:17) O autor ressalta o impacto perturbador de uma realidade hipercomplexa e composta como a latino-americana, sobre a racionalidade européia que tudo separa, classifica e ordena pela lógica da identidade.
Europeus habituados a uma repartição escrupulosa de tarefas e à identificação de cada um com sua função, seriam confrontados na América Latina com elementos que o Ocidente reprimiu:
(...) o desenvolvimento de personalidades múltiplas e o senso de prazer sem culpa, as relações particulares que cada indivíduo estabelece com certos aspectos da natureza, mas também com as cores, sons, perfumes; a irredutibilidade da pessoa a um modelo de comportamento unitário moldado por dois milênios de monoteísmo cristão, quatro séculos de uma racionalidade excludente de outras lógicas e dois séculos de universalismo do Iluminismo. (Laplantine, 1994:33)