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É em Baudelaire que, talvez pela primeira vez, se tornaram visíveis as profundas modificações na estrutura da Experiência. Como prenunciamos, Benjamin aponta em Baudelaire169 a passagem, por assim dizer, da Experiência à Vivência (do ponto de vista da experiência poética). O poeta teria conseguido inserir a experiência do choque170 no processo de constituição do tecido da memória da Experiência – ao mesmo tempo em que sepultava a Experiência tradicional. Baudelaire pressentiu no seu público (o homem “moderno”) a distância crescente que o separava da Experiência poética. Tentaremos reconstruir os principais elementos que Benjamin articula nestas análises: o choque, a multidão e a vida industrial.

Segundo Benjamin, há uma alegoria baudelairiana que compara o processo criativo do artista com um duelo do qual este sempre sai vencido, mas que antes de cair, emite um grito de susto. Para compreendermos o sentido desse grito, aprofundemos um pouco mais o choque,

“Quanto maior é a participação do fator do choque em cada uma das impressões, tanto mais constante deve ser a presença do consciente no interesse de proteger contra estímulos; quanto maior for o êxito com que ele operar, tanto menos essas impressões serão incorporadas à experiência, e tanto mais corresponderão ao conceito de vivência. Afinal, talvez seja possível ver o desempenho característico da resistência ao choque na sua função de indicar ao acontecimento, às custas da integridade de seu conteúdo, uma posição cronológica exata na

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Do mesmo modo como apontamos no item 1.2 para o caráter eminentemente transitório das primeiras fotografias: imagens de transição, passagem. Baudelaire também é passagem, nesse sentido.

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A expressão é do próprio Benjamin: “Die Erfahrung des Chocks gehört zu denen, die für Baudelaires Faktur bestimmend geworden sind.“ P. 617 (“A experiência do choque é uma das que se tornaram determinantes para a estrutura de Baudelaire.” P. 112). E o sentido é explicitamente o da incorporação do choque, pois ele também fala em “vivência do choque” (p. 126) – (“Dem Chockerlebnis, das der Passant in der Menge hat, entscpricht das ‘Erlebnis’ des Arbeiters an der Maschinerie.” P. 632). Ambas as citações em BENJAMIN, Walter. Gesammelte Schriften. Band II – 1. Suhrkamp Verlag. Frankfurt am Main. 1974.

consciência. Este seria o desempenho máximo da reflexão, que faria do incidente uma vivência. Se não houvesse reflexão, o sobressalto agradável ou (na maioria das vezes) desagradável produzir-se-ia invariavelmente, sobressalto que, segundo Freud, sanciona a falha da resistência ao choque.” 171

O choque é o registro consciente das ameaças exteriores e tem por função “catalogar”, por assim dizer, estes estímulos e impedir que o efeito seja traumático. Estes sobressaltos, que eram talvez imperceptíveis ou mesmo infinitamente menos numerosos, permitiam a integração dos estímulos à experiência. Neste momento de profundas modificações, Baudelaire fixa este momento com a imagem do duelo perdido e o compara com o processo poético-criativo: o último suspiro da experiência poética tradicional. A imagem ilustra com clareza a tese benjaminiana: é em Baudelaire que se cristaliza o duelo entre e o elemento tradicional e o elemento moderno da produção (tanto material quanto artística); e, pelo fato de o “veiculo” de Baudelaire ser uma arte poética que se fundava na experiência tradicional, levar a cabo sua tarefa era igual e necessariamente perder o duelo. O modo como o choque se inseriu na experiência poética e levou a cabo sua liquidação poderá se tornar mais claro se nos ativermos ao papel da multidão na obra do poeta.

Em primeiro lugar, é importante ressaltar que, ao mesmo tempo em que se reduz a capacidade das pessoas de comunicarem suas experiências umas às outras, amplia-se vertiginosamente o número de pessoas (e máquinas) que oferecem estímulos/ameaças potenciais ao indivíduo. Ao mesmo tempo em que o sujeito se aprofunda em seus próprios abismos psicológicos ele nunca está só. Da mesma forma que aponta para a multidão como uma espécie de princípio formal da obra de Baudelaire, Benjamin não pode deixar de apontar para o fato de que aquele nunca a descreveu, nunca a pôs no centro de sua obra (“Em Baudelaire, a massa é de tal forma intrínseca que em vão buscamos nele a sua descrição.” 172). Este é exatamente o caráter paradoxal da multidão na leitura benjaminiana: não constituir nenhuma espécie de grupo ou totalidade; é uma massa amorfa, e como tal, está virtualmente presente em cada esquina com infinitos choques para serem aparados.

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Idem. Sobre alguns temas em Baudelaire. P. 111.

172

Por isso afirma que “Baudelaire abraçou como sua causa aparar os choques, de onde quer que proviessem, com seu ser espiritual e físico. A esgrima representa essa imagem de resistência ao choque.” 173 Benjamin decifra a imagem do esgrimista afirmando que “os golpes que desfere destinam-se a abrir-lhe o caminho através da multidão [...] fantasma das palavras, dos fragmentos, dos inícios de versos com que o poeta, nas ruas abandonadas, trava o combate pela presa poética.” 174. A multidão é como um fantasma – e não por acaso a expressão fantasmagoria é muito presente na obra tardia de Benjamin, assim como n’O Capital. Marx admirava-se do caráter “esfumaçado” e inapreensível da forma mercadoria, sua “objetividade impalpável”175 e o considerou fantasmagórico. O mundo moderno se estrutura sobre a fantasmagoria do sempre -presente: a multidão, seja de estímulos sensoriais, seja de transeuntes, seja de mercadorias e vitrines, seja de palavras, está em todas as partes – mesmo na cidade abandonada. Ao que parece, Baudelaire é o canto do cisne não apenas do século XIX, mas de toda uma forma de história e experiência. Melhor dito, talvez o próprio século XIX seja este canto e Baudelaire seu porta-voz.