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Sous-section 1 – L’organisation de la lutte

Muitos autores (Chua, 1986; Ryan et al., 2002; Mason, 2002; Vieira, 2009) consideram que a posição ontológica do investigador face à natureza da realidade do fenómeno em estudo tem influência na opção epistemológica para se alcançar o conhecimento inerente a esse fenómeno. Por sua vez esta opção epistemológica afeta os paradigmas teórico-metodológicos de interpretação do fenómeno a utilizar pelo investigador.

Quanto à posição ontológica do investigador face à natureza da realidade do fenómeno em estudo:

O conhecimento a que se pretende chegar, para o qual se pretende contribuir, consiste em saber qual a informação a prestar aos stakeholders das OSFL para avaliarem o desempenho da organização e tomarem decisões sobre a mesma. Como se viu na revisão de literatura os interesses dos stakeholders, nomeadamente os de informação, são diversos. Todavia a existência de tipologias de stakeholders, apontadas na literatura (Clarkson, 1995; Mitchell et al., 1997; Atkinson et al., 1997) pressupõe que há uma continuidade, um interesse de fundo, um posicionamento de cada stakeholder face à organização, que se mantém e que se pode tipificar. Também nestes estudos sobressai a existência de interesses comuns entre diferentes tipos de stakeholders, até porque todos eles são partes interessadas na organização. Se esta lhes interessa, é porque existe, porque tem algum desempenho, porque de algum modo os afeta ou beneficia. É esta interação entre o stakeholder e a organização, que conduz à necessidade de informações sobre a mesma, para a tomada de decisões. Pelo que deve haver um corpo comum de informação sobre a organização, que satisfaça a generalidade dos seus stakeholders.

Sendo as OSFL uma realidade relativamente nova (conforme se viu na revisão de literatura, o seu desenvolvimento/crescimento deu-se essencialmente a partir de meados do Século XX),

quanto ao seu impacto na sociedade e estudo científico, há um caminho por percorrer até à consolidação e sistematização de um corpo de conhecimento que as explique e contribua para o seu tratamento. Existe assim por um lado uma prática, em tudo o que se relaciona com as OSFL, que resulta de conhecimentos e experiências diversas, que resolve problemas e situações, nem sempre do modo mais adequado. E por outro lado, fruto de as OSFL serem um fenómeno relativamente recente, necessidades latentes pouco tratadas, e um corpo de conhecimentos muito pobre.

Neste contexto, de curta existência das OSFL e de pouca investigação, surge um conjunto de perspetivas por explorar de modo a alcançar um conhecimento mais completo destas organizações (Helmig et al., 2004).

Para o efeito crê-se que existe uma realidade independente de quem a observa, crê-se que há uma verdade a identificar, ela pode ter diversas adaptações em função de situações concretas, ela pode gerar diversas leituras mas no fundo a verdade é só uma. A ciência procura descobrir a verdade, procura encontrar e apresentar uma explicação para as realidades. Muitas vezes ou quase sempre não o consegue à primeira. As conclusões a que agora ou aqui se chegam podem depois ser postas em causa. Com o aprofundamento da investigação, com honestidade intelectual, consegue-se chegar à verdade ou acaba-se por torná-la mais clara. No caso das ciências sociais reconhece-se a influência do ser humano, com a sua liberdade e capacidade de raciocínio, que geram ambientes complexos de múltiplas influências, proporcionando situações diversas e casos extremos. No entanto, admite-se haver uma generalidade, uma normalidade, uma razoabilidade, em cada realidade social, que pode ser identificada, explicada e projetada. Podendo-se ainda, a partir de uma base comum, identificar variantes, alternativas e chegar ao tratamento de cada caso concreto.

Este posicionamento ontológico, em relação ao conhecimento das realidades, do seu ser, da sua essência, das suas causas primárias, encaixa-se nas assumpções mais “objetivas” referidas em 1979 por Burrel e Morgan, e mais tarde retomadas por Morgan e Smircich (1980), Hopper e Powell (1985), Chua (1986), Ryan et al. (2002) e Vieira (2009). Assume-se a realidade social entre uma “estrutura concreta” e um “processo concreto” conforme definidos em Morgan e Smircich (1980). Uma realidade formada por uma rede de relações entre as partes envolvidas, onde em termos gerais se pode encontrar uma estrutura concreta de comportamentos. Uma realidade onde há interação entre as partes envolvidas, gerando-se processos concretos que se interligam com outros, havendo em cada um influências e interesses diversos, pelo que em cada situação há particularidades a ter em conta. No entanto, uma realidade social onde podem encontrar-se linhas gerais de comportamento, de interesse e de atuação.

Quanto à opção epistemológica para se alcançar o conhecimento inerente ao fenómeno em estudo:

O posicionamento ontológico acima referido leva-nos a uma opção epistemológica positivista, em que pela observação se vai procurar descobrir e explicar uma realidade, pouco conhecida e tratada (Morgan e Smircich, 1980; Hopper e Powell, 1985; Chua, 1986; Ryan et al., 2002; Vieira, 2009).

Pretendendo responder à questão de partida: como prestar informação sobre o desempenho da OSFL que satisfaça a generalidade dos seus stakeholders; deve-se começar por identificar a necessidade de informação destes e depois tentar encontrar, descobrir, uma forma adequada de prestar esta informação. No presente trabalho pretende-se descobrir uma regulação para a realidade em observação que facilite ao seu tratamento pela sociedade, encaixando-se em termos de investigação numa abordagem da sociedade pelo lado da regulação, conforme referida em 1979 por Burrel e Morgan.

A combinação da visão objetivista do mundo com a preocupação da sua regulação foi etiquetada em 1979 por Burrel e Morgan pelo termo de “funcionalismo” e tem sido nesta combinação que predominantemente se tem realizado a investigação em contabilidade (Hopper e Powell, 1985; Chua, 1986; Ryan et al., 2002; Vieira, 2009). No funcionalismo, conforme referem Hopper e Powell (1985), encaixam-se abordagens como as da teoria organizacional e da teoria dos sistemas, nas quais assenta a teoria dos stakeholders24 (Elias et

al., 2000; Freeman e McVea, 2001), teoria esta que serve de base ao presente trabalho. No funcionalismo, como também referem Hopper e Powell (1985), em termos metodológicos o trabalho de investigação é essencialmente positivista. Positivismo que considera existir uma realidade objetiva, que deve ser interpretada pelo investigador também objetivamente, através da experiência e da observação, neutra e objetiva, com a separação entre o investigador e o objeto de estudo (Vieira, 2009).

Quanto aos paradigmas teórico-metodológicos de interpretação do fenómeno a utilizar pelo investigador

O problema em estudo é uma realidade comum a todas as OSFL, que conforme foi referido no capítulo anterior se expressa com matizes diferentes em cada organização ou pelo menos em cada tipo de organização. Em termos teóricos ela está pouco aprofundada na literatura científica; em termos práticos, na vivência das OSFL o problema tem-se resolvido muito em função do interesse, poder e influência, dos diversos stakeholders e da própria organização.

24 Na teoria dos stakeholders os stakeholders são vistos como constituindo um sistema em que uma decisão/alteração na organização pode afetar de modo diferente mais do que um tipo de stakeholder (Freeman et al., 2010).

Uma vez que se pretende explicar uma realidade social ainda pouco estudada, procurando entendê-la, sendo uma realidade complexa cujo estudo exige detalhe, a realização de uma investigação qualitativa apresenta-se como a mais recomendada. Pois, conforme refere Mason (2002) através da investigação qualitativa podemos explorar de um modo amplo o contexto social do fenómeno em estudo, procurar entender os intervenientes, as suas razões, as necessidades, os resultados desejados, e ainda, os modos como funcionam os processos sociais, as instituições e o relacionamento entre as partes. Ou conforme Vieira et al. (2009), a investigação qualitativa contribui para se explicar a forma como os fenómenos sociais são interpretados, compreendidos, produzidos e constituídos; ela ajuda os investigadores a compreenderem as pessoas (instituições) e os contextos sociais complexos nos quais estas vivem e interagem.

Para o estudo do problema em aberto – a necessidade de satisfazer os stakeholders das OSFL com informação que lhes permita avaliar o desempenho da OSFL com quem se relacionam –, estando pouco tratado na literatura científica, sendo uma questão nova e emergente, exige- se iniciar um processo de investigação de descoberta, avançando-se sequencialmente, passo a passo. Nestes, conforme Denscombe (2003), não se testam hipóteses, seguem-se técnicas de amostragem não probabilísticas, numa base de “pequenos números”, em que como numa investigação policial, os resultados de um passo levam à decisão do passo seguinte da investigação. Neste tipo de investigação exige-se a análise e observação de diferentes fontes de informação, que geralmente se encontram pouco estruturadas, implicando que o investigador as interprete (Denscombe, 2003). Nestas circunstâncias, ainda conforme Denscombe (2003), a investigação deve basear-se muito mais nas palavras (das pessoas, dos documentos e as que expressam as observações) e comunicar-se essencialmente através destas. Resultando assim uma análise descritiva, com perspetiva holística, ou seja uma análise qualitativa. Nestes processos de investigação de descoberta a análise qualitativa é mais adequada do que a investigação suportada em números, mais apropriada para estudos de larga escala, com um foco específico de incidência e onde se propicia o tratamento estatístico. Segundo Patton (2002) as diferenças entre a investigação quantitativa e qualitativa envolvem questões de amplitude e profundidade da investigação. Os métodos qualitativos permitem investigar temas específicos com grande profundidade prestando especial atenção aos detalhes, ao contexto e nuances.

O posicionamento ontológico e a opção epistemológica, acima assumidas, são compatíveis com a investigação qualitativa. Conforme Ryan et al. (2002), Vieira et al. (2009) e Myers (2011) a adoção da perspetiva filosófica do positivismo25 é conciliável com uma investigação

qualitativa. Em circunstâncias como as do presente trabalho, onde parece impor-se um

estudo exploratório, recomendando-se a análise qualitativa. Autores como Eisenhardt (1989), Keating (1995), Ahrens e Chapman (2006), Vaivio (2008), reconhecem que, através de estudos de caso qualitativos, poder-se-á chegar, em conformidade com a abordagem positivista à formulação de hipóteses, à formulação de teorias, ao desenvolvimento de teorias e à proposta de modelos.

A investigação sobre a prestação de informação aos stakeholders das OSFL de modo que lhes permita avaliar o desempenho da OSFL com quem se relacionam, tem subjacente um puzzle intelectual do tipo “mecânico”, ou seja, segundo classificação apresentada em Mason (2002) investiga-se a forma como algo funciona ou é constituído. Ou o que é equivalente, a forma como algo pode funcionar ou ser constituído. Também segundo Mason (2002) a investigação qualitativa é boa para suportar argumentações “mecânicas” que se focam no como um fenómeno social ou um processo opera ou é constituído.

As questões de investigação são a expressão do puzzle intelectual (Mason, 2002). No presente estudo, para a resolução do problema apresentado, colocam-se como questões principais (que se subdividiram em 8 questões de investigação secundárias; cf. Secção 1.3, p. 17):

• Como é que os stakeholders avaliam o desempenho da organização? Serão os critérios utilizados comuns a várias categorias de stakeholders?

• Como é que a OSFL pode satisfazer as necessidades de informação dos stakeholders? Que características deve possuir um modelo de prestação de informação aos stakeholders, que se ajuste às necessidades de informação destes para a avaliação do desempenho da OSFL?

Neste contexto a realização de um estudo de caso evidencia-se ser uma boa estratégia de investigação, como a seguir se expõe.

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