A prevalência da tese de que a economia devia se expandir pela intervenção do Estado ganhou força no País desde o início do século. As idéias e as pressões exercidas pelos diversos grupos sociais, insatisfeitos com a situação de livre comércio, tornaram contundentes a idéia de uma frente nacionalista, onde, cabia ao Estado a responsabilidade de planejar as obras de maior interesse para o desenvolvimento econômico e social.
O País optou por uma organização de mercado com características monopolísticas, aprovando um Código de Águas que permitia, através da concessão, a participação da iniciativa privada.
Embora a nação brasileira tenha conseguido bons resultados com este modelo, a posição monopolística das empresas no mercado, ao longo dos anos, concentrou o mercado nas mãos de poucas empresas, inibiu a busca de inovações, não permitiu a introdução de modernas e drásticas melhorias no gerenciamento das obras e na redução de custos, além de trazer uma acomodação no posicionamento estratégico das empresas que, somente tomaram algumas decisões, a partir do momento em que as restrições financeiras atingiram limites inadmissíveis à sua sobrevivência.
O sistema capitalista híbrido vivenciado pelo País ao longo dos anos se esgotou, reduziu a capacidade de reação e de agir das organizações na IEE e, portanto, não tem mais mobilidade econômica, social e política para enfrentar os desafios de uma competição que se toma cada vez mais agressiva.
Os trabalhos desenvolvidos por Pettigrew (1987), demonstram de forma positiva a importância de se considerar o contexto social de transformações em que vivem e atuam as organizações. Numa era de rápidas mudanças econômicas, sociais e políticas, as empresas, para sobreviverem, devem buscar a liderança no mercado com estratégias diferenciadas em relação aos concorrentes.
Neste contexto, o processo político e cultural das organizações é altamente relevante, pois pode permitir o entendimento de como as mudanças são vistas e como elas podem ser explicadas, facilitando aos participantes a elaboração de estratégias consistentes com a dinâmica do ambiente.
A inoperância das empresas concessionárias e dos demais agentes que atuam na IEE tradicional no Brasil, é, em parte, decorrente da estreita visibilidade de considerar perspectivas de mudanças ao longo do tempo.
Neste sentido,, observa-se que os trabalhos desenvolvidos nesta área, através de documentos específicos (relatórios, dissertações, teses, estudos diversos etc) e os depoimentos feitos com personalidades que contribuíram para o desenvolvimento e o aperfeiçoamento da IEE no Brasil (Eletrobrás, 1995; Borenstein, 1996; Leite, 1997; C&L, 1997), revelam uma despreocupação com o estudo, a definição e a implantação de estratégias inovadoras para modificação da performance e do “status quo” vigente para um ambiente de intensa competição.
Não há registros oficiais e nem estudos nesta área, no Brasil, de que debates foram feitos de forma sistematizados para avaliar os efeitos da liderança, da performance econômico e organizacional da IEE numa economia globalizada e competitiva.
Conforme observa Mintzberg (1995), num ambiente em que as organizações não são levadas a enfrentarem a competição, elas se acomodam e adotam posturas defensivas quando se tratam de realizar mudanças. As organizações denominadas burocráticas têm mais dificuldades para buscarem o seu desenvolvimento com ações inovadoras, rápidas e que causem impactos no mercado. Para ele, as organizações devem tentar e não ignorar as mudanças que se processam no ambiente dinâmico de competitividade.
O levantamento histórico das transformações que a IEE no Brasil teve (Vide Capítulo IV), demonstra que as ações desenvolvidas ao longo do tempo, com todas as mudanças ocorridas no campo político, econômico e social, internacional e nacional, não foram suficientes para preservar a integridade econômico-financeira das empresas e permitir, nas décadas de 80 e 90, a continuidade normal do atendimento da oferta de energia elétrica.
A reestruturação da IEE no Brasil, a partir de 1995, segue uma tendência mundial, derivada diretamente da falência do Estado como empresário, dos elevados déficits públicos e da impossibilidade de se conseguir uma maior eficiência na alocação dos recursos na sociedade, com mercados organizados sob a égide do monopólio, impedindo, a livre concorrência, a introdução de inovações rápidas e a diminuição dos preços da energia ofertada.
Constitui um processo de mudanças que demandará algum tempo para se concretizar. A adaptação das empresas e dos demais agentes às novas regras não é uma tarefa simples, pois
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requer, não só um novo direcionamento, mas, sobretudo, mudanças fundamentais em suas estratégias. Por sua vez, a abordagem de análise da performance da indústria e das empresas pela ótica da organização industrial é um fato recente e está em processo rápido de desenvolvimento.
Os trabalhos apresentados pela Coopers & Lybrand no projeto RE-SEB, enfatizam claramente a importância da introdução de mecanismos de eficiência, da competição na geração, do livre acesso à rede de transporte, da remuneração justa e razoável dos ativos, de preços justos e de regras estáveis, como balizadores de uma organização industrial que permitirá o País a inserção na economia internacional pela diminuição do custo brasil e pelo aumento da produtividade.
As empresas concessionárias de energia elétrica terão que buscar a liderança, mobilizar o poder interno e externo, rever suas competências, reformular negócios, reformular os processos gerenciais e de tomada de decisão, consolidar uma nova estrutura organizacional, estudar e propor um novo sistema de informação, onde a informática e telemetria assumem papel fundamental.
Com o processo de privatização em curso e com as mudanças que se processam em todas as economias mundiais, as empresas já perceberam a necessidade de se adaptarem à dinâmica do ambiente e dos novos padrões de concorrência. Contudo, é importante salientar, que as empresas concessionárias de energia devem fazer um esforço para estabelecerem uma estratégia de mudança que seja planejada, evitando-se, problemas futuros aos acionistas, ao processo de organização industrial e ao desenvolvimento do País como um todo.
Certamente, a reestruturação da IEE em curso, proporcionará ao Brasil uma mudança de mentalidade nesta área, ensejará a busca de uma maior eficiência no processo de alocação de recursos e conduzirá a economia brasileira para um novo patamar de produtividade e de competitividade.
Neste sentido, pode-se dizer que o Brasil leva uma grande vantagem em relação aos países que já efetuaram a reestruturação da IEE. Ele pode incorporar as experiências e evitar os erros cometidos, além de poder contar com pessoas altamente qualificadas sobre os diversos assuntos que a nova organização industrial deverá exigir.
Dentre as diversas opções de modelos para a organização desta indústria, o Brasil está considerando os modelos que estão em andamento na Inglaterra e nos Estados Unidos,
devendo, no campo da regulação, seguir mais a experiência norte-americana, em virtude das características de ordem federativa.
Por outro lado, pode-se dizer que a metodologia utilizada no desenvolvimento da presente dissertação permitiu a introdução e a associação de vários autores que estão trabalhando suas idéias no campo da economia, da administração e da sociologia. A proposta de Pettigrew (1987), simplifica o endereçamento da pesquisa, condiciona a integração de outras visões como as desenvolvidas por Baer (1985), Austin (1990), Mintzberg (1995) etc., e abre espaço para a introdução de idéias inovadoras como as desenvolvidas por Porter (1993) e Tyrole (1995).
Embora, no Brasil, tenha sido desenvolvido vários estudos a respeito da evolução e da performance da IEE, não se tem notícia de que estudos foram feitos sobre o ângulo fidedigno da metodologia proposta no campo da organização industrial. Um trabalho que envolve um período tão longo, com uma série histórica de aproximadamente 100 anos, é uma tarefa por demais complexa, o que de certa forma, tem dificultado a realização de trabalhos mais sugestivos, consistentes em termos metodológicos e com uma linha de análise inovadora.
Para este efeito, pode-se dizer que os procedimentos sugeridos por Pettigrew (1987), servem como base e como premissa para uma pesquisa consistente, pois, consegue integrar o processo histórico, o conteúdo e o processo em si de mudanças.
Os trabalhos de Scherer e Ross (1990), Austin (1990), Porter (1993) e Tyrole (1995), reformulam princípios, agregam variáveis e diretrizes inovadoras para facilitar o entendimento da performance e das estratégias adotadas pelas indústrias, num determinado contexto, e como elas podem contribuir para o aumento das vantagens competitivas das nações modernas.
Os objetivos dos estudos de examinar o processo de formação e de desenvolvimento da liderança de organizações e de indústrias devem ser aperfeiçoados, procurando, na medida do possível, e de acordo com os resultados que se esperam, integrar as diversas visões da ciência.
Por fim, recomenda-se que trabalhos desta natureza sejam desenvolvidos ao longo do tempo pela comunidade científica, procurando detectar os desequilíbrios e pontos de estrangulamento em que se encontram as indústrias e as empresas, evitando-se o exame superficial e o uso de metodologias inapropriadas.
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