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sobre a Saúde da Mulher

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silvia lúcia Ferreira

enilda rosendo do nascimento simone andrade teixeira Patricia Figueiredo marques

A origem de muitos núcleos de estudos sobre a mulher, fe- ministas e/ou de gênero no Brasil está intrinsecamente ligada à história de mulheres militantes em grupos de esquerda e no fe- minismo, que passaram a atuar nas universidades e que hoje con- sideram ter configurado mais um espaço de militância feminista, que é o espaço acadêmico. (PEDRO, 2005) Este é o caso das fun- dadoras do grupo de Estudos sobre a Saúde da Mulher (gEM), cuja constituição, em 1987, se deu a partir da união de professoras que sob inspiração do movimento feminista, vislumbraram a possibi-

1 estudantes de graduação que participaram da coleta de dados: Patrícia Figueiredo marques (bolsista Pibic), ana Carina dunham dos santos (bolsista Pibic) leila luíza Conceição de Jesus (bolsista Pet).

lidade de desenvolver uma atuação militante a favor da saúde das mulheres.

A década de 1980 no Brasil pode ser caracterizada pela efer- vescência política e de ideias pró-democráticas. Várias foram as conquistas do movimento feminista e de mulheres em geral que, dentro de um processo de reconstrução da democracia, viram tornar-se realidade algumas de suas reivindicações, dentre elas: a implantação, pelo Ministério da Saúde, do PAISM, a criação dos Conselhos de Defesa dos Direitos da Mulher (CDDM), nos níveis nacional, estadual e municipal e as Delegacias de Atendimento à Mulher (DEAM). Ainda nessa década, mulheres atuaram ativa- mente na reorganização partidária,2 nas eleições para os diver-

sos níveis, na reelaboração da Constituição do país3 e nas eleições

presidenciais.

Foi ainda na década de 1980 que o conceito de gênero come- çou a encontrar maior permeabilidade na academia brasileira e a fundação do gEM significou um vanguardismo da enfermagem brasileira, ao assumir como responsabilidade pesquisar sobre a saúde sexual e a saúde reprodutiva da mulher, sob a perspectiva de gênero e feminista. Neste sentido, falar da trajetória do gEM é falar de um trabalho realizado por mulheres que se sentiam desa-

2 segundo Pinto (2003, p. 79): “as eleições de 1982 haviam dividido as militantes feministas em dois grandes grupos, as peemedebistas e as petistas”.

3 o Conselho nacional dos direitos da mulher (Cndm) capitaneou uma ampla campanha nacional pelos direitos das mulheres na nova Constituição, através de uma campanha nacional com os lemas Constituinte para valer tem que ter palavra de mulher e Constituinte para valer tem

que ter direitos da mulher. no final de 1986, o Cndm organizou um grande encontro nacional

em Brasília, no Congresso nacional, para o qual se deslocaram centenas de mulheres de todas as regiões do país e no qual foi aprovada a Carta das mulheres brasileiras aos constituintes. em março de 1987, quando da inauguração do Congresso Constituinte, esta Carta foi entregue pela Presidente do Cndm, sra. Jaqueline Pitanguy, ao deputado Ulisses Guimarães, Presidente do Congresso nacional. a partir de então, teve início um grande movimento de luta pelos direitos das mulheres na Constituição, que ficou conhecido como O lobby do batom, que foi um movimento de sensibilização dos deputados e senadores à relevância de considerar as demandas das mulheres para a construção de uma sociedade guiada por uma Carta magna verdadeiramente cidadã e democrática. Com a promulgação da Constituição, em outubro de 1988, as mulheres conquistaram a maioria expressiva de suas reivindicações. <http://www. cepia.org.br/images/nov089.pdf>. acesso em: 14 ago. 2009.

fiadas cotidianamente a construir um conhecimento num terreno em que as investigadoras situam-se num mesmo plano crítico que o objeto de estudo, onde os limites entre sujeito e objeto de pes- quisa são tênues, fluidos e muitas vezes imperceptíveis: o campo dos estudos sobre mulheres, gênero e feminismo.

Se por um lado o entrelaçamento entre o sujeito e o objeto de pesquisa é percebido com desconfiança por cânones da academia, por outro lado favorece a produção de um conhecimento científico engajado e construído por mulheres, a partir da experiência das próprias mulheres e para as mulheres. Dessa forma, resgatar a experiência do gEM também significa falar de experiências de mulheres que, como professoras ou estudantes, foram capazes de se aglutinarem em torno de uma pauta comum e transformá-la em uma experiência política, numa evidente demonstração de que a partir da incorporação da máxima feminista de que “o pes- soal é político” torna-se possível a adoção de uma objetividade científica ressignificada, na produção de um conhecimento com- prometido com a causa das mulheres.

A recuperação histórica da experiência do gEM também sig- nifica investigar seu impacto na vida pessoal e profissional de suas protagonistas, assim como as transformações que a práxis de suas pesquisadoras vêm promovendo no ensino, pesquisa e extensão no âmbito da enfermagem.

Este capítulo busca recuperar, sem a ilusão de esgotar, a his- tórica experiência da militância do feminismo acadêmico nos dez primeiros anos do gEM4 (1987-1997). Esta recuperação ultrapassa

a quantificação do número das pesquisadoras envolvidas, as pes- quisas realizadas, os artigos publicados, as ações coletivas pro- 4 Para rever estes momentos e fazer um análise mais crítica ao que tem sido o Gem, analisa-

se em alguns momentos, esta trajetória junto ao núcleo de estudos interdisciplinares sobre a mulher (neim) da Faculdade de Filosofia e Ciências humanas da Universidade Federal da Bahia (FFCh/UFBa) uma vez que este grupo o influenciou decisivamente e cujas histórias são entrelaçadas em muitos momentos, como este de avaliação e de repensar as suas trajetórias.

movidas por meio da extensão universitária e as aulas proferidas sobre a temática da saúde da mulher: incorpora as vozes de suas idealizadoras e protagonistas sobre como atuaram para responder às necessidades de transformação da abordagem da saúde da mu- lher na academia e nos serviços de saúde demandadas, especial- mente, pela implementação do PAISM.5

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