Ao romperem temporariamente com a rotina e realizarem performances de identidades e papéis sociais não-hegemônicos, as mobilizações da sociedade civil organizada, como as manifestações, marchas, paradas, ocupações, são definidas por Jesus (2010, p. 64) como “ritos sociais” - uma forma de comunicação simbólica, com mensagens metafóricas que servem como indícios sobre os pensamentos e sentimentos dos atores. Jesus diz que a performance ritual dá distintividade a seus realizadores, tornando público quem são eles. As identidades são explicitadas de forma ritualizada, e a repetição do ritual tem, ainda, um papel pedagógico, transmitindo as ideias, crenças e representações do grupo que o realiza para a comunidade. A autora explica, ainda, que numa perspectiva psicossocial, considera-se que as pessoas que se organizam em grupos e protestam em nome de uma causa comum, podem
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estar fundamentadas em diferentes fatores, entre eles: sentimento de injustiça, eficácia de grupo, identidade social e afetividade. Toma-se, aqui, como referência, a eficácia de grupo, a identidade social e a afetividade para analisar a participação e a mobilização dos atores envolvidos, sobretudo dos estudantes da disciplina Ciência, Tecnologia e Sociedade.
Como já observado no tópico anterior, a turma passou, durante o planejamento, por um processo de desarticulações internas, dispersão de estudantes, esvaziamento dos grupos e desmotivação. No entanto, com a reestruturação da organização de grupos, assim como a proximidade de realização do evento, de acordo com relatos presentes nas entrevistas e nos relatórios, houve uma retomada da participação e da mobilização para que, no dia 29 de janeiro de 2014, a ação/intervenção “Um dia de Civilidade no Trânsito” fosse realizada (a data chegou a ser remarcada uma vez). Jesus (2010), ao falar sobre o fator “eficácia de grupo” diz que acreditar na capacidade do grupo em realizar seus projetos é o princípio fundamental da eficácia do grupo. De acordo com essa linha de pensamento, as pessoas se mobilizam socialmente porque têm a expectativa de que problemas relacionados a características grupais podem ser resolvidos com maior eficácia por meio da ação coletiva de um movimento social considerado eficiente.
Em relação à identidade social, a autora fala que as pessoas se percebem e são percebidas como integrantes de um grupo social - identificação essa relacionada às crenças dos indivíduos, seus sentimentos e comprometimento com o grupo. Assim, a participação é explicada pela formação de uma identidade coletiva, que estimula as pessoas a protestar em nome dos grupos sociais com os quais se identificam. Ou seja, as pessoas começam a participar mais quando passam a sentir, pensar e agir como membros efetivos de seu grupo, o que, por solidariedade, estimula-os a desenvolverem uma identidade politizada. Por fim, Jesus traz o fator afetivo, defendendo que a identificação com um grupo não é apenas cognitiva, mas também envolve aspectos afetivo-atitudinais com relação a esse grupo, seja se percebendo como membro dele ou como um “outro”, cuja identidade social é definida pela relação com o grupo.
Conforme relatos a seguir, percebe-se que estes fatores se mostraram presentes nas falas e registros documentais:
Adorei participar desse dia! Confesso que foi um processo bem desgastante, mas, ao ver a ação acontecendo sente-se uma plenitude muito grande! (DEPOIMENTO DE ESTUDANTE NO RELATÓRIO DO GRUPO CAPTAÇÃO RECURSOS).
Fiquei responsável pela distribuição de panfletos e adesivos, além de aplicação de questionários junto aos motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres. Neste dia, presenciei vários momentos marcantes, tanto de civilidade quanto de incivilidade.
Dentre os quais o que mais me marcou foi um discurso de um gari, ele disse: “Tomara que vocês consigam mudar a cabeça desse pessoal, semana passada meu amigo perdeu a perna enquanto varria a rua, a pessoa que atropelou ele está livre, ela disse que não parou no sinal porque não tinha faixa pintada. Você acha isso certo?” (DEPOIMENTO DE ESTUDANTE NO RELATÓRIO DO GRUPO DE CONHECIMENTO TÉCNICO).
Percebi durante o projeto a importância de o grupo estar unido e que era necessário o envolvimento de todos para de fato acontecer a ação. Participei no dia da ação, e fiz panfletagem, segurei faixa, distribui água para os colegas e me envolvi bastante. Não é tão difícil fazer uma ação social na qual podemos melhorar certa situação da nossa sociedade. Confesso que foi difícil, mas gratificante e que esta experiência seja a primeira de muitas outras que vamos desenvolver em nossas vidas. (DEPOIMENTO DE ESTUDANTE NO RELATÓRIO DO GRUPO DE COMUNICAÇÃO).
Neste dia especificamente em que aconteceu a ação, pude perceber a interação entre todos os alunos envolvidos, algo que não acontecia em aula. Foi um aprendizado gratificante sobre gerir, mobilizar e fazer acontecer, mesmo quando não havia um direcionamento pré feito. A determinação, a união e o comprometimento fizeram a diferença entre todos os alunos. (DEPOIMENTO DE ESTUDANTE NO RELATÓRIO DO GRUPO DE COMUNICAÇÃO).
A ação em si consistiu em realizar mobilizações com faixas e cartazes em semáforos de três pontos considerados críticos no trânsito de Salvador: na Avenida Antônio Carlos Magalhães (no semáforo em frente ao Shopping Iguatemi), na rua Reitor Miguel Calmon (em frente à Escola de Administração da UFBA) e na Praça da Piedade. Nesses locais, os participantes, devidamente identificados pelas camisas da campanha, se concentraram, interagindo com motoristas através da distribuição de materiais educativos como folder, panfletos, adesivos e algumas camisas. Esquetes teatrais, apresentadas pelo grupo Cereja Criativa, buscaram chamar a atenção e conscientizar motoristas e pedestres. Também foi realizada uma pesquisa com motoristas, a partir do questionário elaborado no processo de planejamento do evento. Além dos estudantes e professores da Escola de Administração, foram mobilizados parceiros e voluntários, que também constituíram as equipes no dia da intervenção, tais como o Esquadrão Águia da Polícia Militar, alunos do curso de Trânsito e Transporte da Escola Politécnica da UFBA, prepostos da Transalvador e do DETRAN – este último, disponibilizou a sua Unidade Móvel para visitação no local.
O dia da realização do projeto foi bem proveitoso, a separação das turmas para abrangerem certas localidades obteve uma resposta positiva. A reação das pessoas ao verem a mobilidade foi bem surpreendente, a grande maioria apoiou totalmente a causa, principalmente os pedestres e ciclistas. Os principais atores a serem impactados, no caso os motoristas, reagiram de acordo como esperávamos, alguns estavam causando infrações e deram desculpas para suas causas, outros nos parabenizaram pela mobilidade, e alguns reagiram negativamente, como já era de se esperar. (DEPOIMENTO DE ESTUDANTE NO RELATÓRIO DO GRUPO COMUNICAÇÃO).
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Schmitz e outros (2013) citam Beard e Wilson (2010) para destacar que o aprendizado oriundo da experiência é uma das formas mais fundamentais e naturais de aprendizado disponível a todas as pessoas. Por esse motivo, os conceitos de experiência e aprendizado parecem entrelaçados e inseparáveis – a experiência “impregna” todas as formas de aprendizado. Para esses autores, o engajamento ativo é um dos princípios básicos da aprendizagem experiencial, que envolve a pessoa como um todo, seus pensamentos, sentimentos e atividades físicas. A ocorrência da ação/intervenção foi uma experimentação real de quais desafios e situações, ao longo de um processo de erros e acertos, podem-se colocar à frente de uma mobilização social numa cidade como Salvador.