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Alberto tomou para si o encargo de explicar os quatro sentidos com os quais eram entendidos o sujeito da metafísica, a saber, como filosofia primeira, ciência da causa primeira, o estudo do ser enquanto ser e o estudo de Deus. Sua fonte principal é nomeadamente Aristóteles, o qual tratou da ciência do ser enquanto ser mas não lidou diretamente sobre a noção do sujeito desta ciência, nem mesmo das causas do ser. Na tradução latina do grego, muito provavelmente utilizada por Alberto, a Media , já

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encontramos a ocorrência da palavra subiectum 196 no sentido de tema ou assunto específico de uma determinada ciência e cuja tradução podemos estipular por “sujeito”, no sentido de “tema”, “objeto”, “assunto”, “campo” ou “âmbito de investigação”. O sujeito seria algo por assim dizer buscado dialeticamente ao longo do texto da Metafísica de Aristóteles . Alberto não utiliza o termo obiectum com o sentido de 197 âmbito de investigação de uma ciência . 198

Alguns intérpretes contemporâneos 199 trataram do sujeito da metafísica tendo como base um excerto do seu comentário à Física de Aristóteles. O contexto no qual se insere o trecho que pretendemos analisar trata dos fundamentos da ciência física ( De praelibandis ante scientiam ). No capítulo terceiro, considera o sujeito da ciência natural ( Et est digressio declarans subiectum scientiae naturalis ). Para cumprir seu propósito, Alberto julga necessário evocar a discussão entre Averróis e Avicena sobre o sujeito da metafísica:

Há uma outra crítica que Averróis faz de Avicena que é ainda menos apropriada do que a que acabamos de mencionar. Para Avicena, diz-se a verdade quando diz que a mesma coisa não é tanto procurada em uma ciência quanto pressuposta nela e que, uma vez que Deus e as substâncias separadas ou as formas são procurados na filosofia 196 Huiusmodi quidem et tales acceptiones de sapientia et sapiente habemus. Istorum autem Omnia quidem scire, universalem scientiam maxime inesse necesse est; hic enim omnia novit subiecta (Arist.,

Metaph. , 982a16).

197 Para Aubenque (1991, p. 31) dado o caráter dialético – no sentido de não sistemático – do texto e por estar na ordem do descobrimento daquela ciência “buscada” por Aristóteles.

198 “Ista autem alia reprehensio, qua reprehendit Averroes Avicennam, minus congrua. Dicit enim avicenna verum, cum dicit non idem esse quaesitum in aliqua formas separatas esse quaesitas in prima philosophia et ideo non vere suppositas in ipsa et ideo non esse subiectum primae philosophiae, quod nescio, quare Averres rephehendit, cum ipsum si necessarium, quod dixit Avicenna. Scimus enim, quoniam ens est subiectum primae philosophiae, et divisiones et passiones entis esse, quae in prima philosophia tractantur, scilicet per se et per accidens et per potentiam et actum et unum et multa et separatum et non-separatum” (Alb., Phys ., I, 3, 18. p. 76, 37-49). Diante da divergência entre Averróis e Avicena sobre o sujeito da filosofia primeira, comenta Storck (2010, p. 152): “a passagem acima resume perfeitamente bem a posição de Alberto. Para que a metafísica possa satisfazer os requisitos de cientificidade, ela deve ter uma certa estrutura. Deve, notadamente, possuir um subiectum ou sujeito próprio de investigação acerca do qual prova seus teoremas. Essa estrutura, todavia, somente é possível se o ens inquantum ens for o sujeito dessa ciência e se a existência de Deus for algo passível de ser provado. Ademais, a metafísica é a ciência suprema não apenas porque prova que Deus existe, mas ainda porque demonstra os princípios das demais disciplinas” (Storck, 2010, p. 152). Storck entende a posição de Alberto como uma “ontologia” e que estrutura adequadamente a metafísica em sua distinção com a teologia e as demais ciências. Ademais, ele entende que a posição de Avicena é aquela seguida pelo dominicano.

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primeira, eles não podem, por isso mesmo, ser verdadeiramente desse modo pressupostos nela e não podem ser o sujeito da filosofia primeira. Além disso, ignoro porque Averróis critica Avicena, uma vez que o que Avicena diz é necessariamente isto. Para nós, sabemos isso: uma vez que o ser é o sujeito da filosofia primeira, as divisões e as propriedades dos sujeitos são tratadas na filosofia primeira, ou seja, per se , e, acidentalmente, potência e ato, unidade e multiplicidade, e separado e não separado. E, uma vez que a diferença é propriedade separada do ser, não pode “em si” ser o sujeito. Além disso, quando o metafísico é chamado posicionar-se sobre a causa das coisas separadas, “separado” não é entendido na forma na qual as inteligências são separadas, mas entende-se aquelas coisas que são separadas em sua definição e modo de existência. Estas, aliás, são as coisas que são consideradas em sua

quididade simples, como dissemos no proêmio deste livro . 200

Convém desde logo acentuar que o sujeito determina a especificidade de tratamento e a estrutura pela qual uma ciência cumpre sua finalidade. Para Alberto,

Toda ciência é de algum gênero de sujeito, sobre o qual são provadas as divisões e das quais considera as partes e as diferenças. Este sujeito em toda ciência natural, sem dúvida, é o corpo móvel, que está submetido ao movimento . 201

Toda ciência possui sua especificidade no sujeito. Se a física é uma ciência, esta deve possuir um sujeito. Neste caso, seria o corpo móvel em oposição a possíveis sujeitos não corporais e imutáveis. A clareza acerca da essência do que é considerado é imprescindível para a determinação do sujeito de uma ciência. Desse modo, ainda na Física , Alberto também apresenta com clareza a ordem das ciências teóricas segundo as essências que são consideradas no âmbito de investigação de cada uma. Ele então compara a física com a metafísica:

200 Ista autem alia reprehensio, qua reprehendit Averroes Avicennam, minus congrua. Dicit enim avicenna verum, cum dicit non idem esse quaesitum in aliqua formas separatas esse quaesitas in prima philosophia et ideo non vere suppositas in ipsa et ideo non esse subiectum primae philosophiae, quod nescio, quare Averroes rephehendit, cum ipsum si necessarium, quod dixit Avicenna. Scimus enim, quoniam ens est subiectum primae philosophiae, et divisiones et passiones entis esse, quae in prima philosophia tractantur, scilicet per se et per accidens et per potentiam et actum et unum et multa et separatum et non-separatum. Et cum separatum sit differentia et passio entis non potest esse subiectum. Et cum dicitur, quod metaphysicus est de separatis, non intellegitur de separatis hoc modo, sicut intelligentiae sunt separatae, sed intellingentur de his quae separate sunt per diffinitionem et esse. Haec autem sunt, quae in quiditatibus simplicibus considerantur, sicut diximus in istius libri prooemio (Alb., Phys ., I, 3, 18, p. 76, 37-56).

201 Omnis scientia est alicuius generis subiecti, de quo probantur passiones et cuius considerat partes et differentias. Hoc autem in omni scientia naturali absque dubio est corpus mobile, prout motui subicitur (Alb., Phys ., I, 1, 3, p. 5, 23-27).

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Entre aquelas partes existe a primeira na ordem das coisas, que é universal e trata do ser enquanto ser, que não é concebida com movimento e matéria sensível segundo si mesmo e segundo os seus princípios, nem segundo o ser, nem segundo a razão. Esta é a filosofia primeira que é chamada de metafísica ou teologia . 202

Ao lado da primazia do sujeito que é separado da matéria, a subordinação de princípios da matemática e da física em relação à metafísica, também garante a primazia desta ciência . Este ponto será aprofundado no segundo capítulo da tese. A metafísica 203 é também a ciência universal, porque especula o ser enquanto ser, de um modo mais geral, capaz de tocar em todos os seres existentes, mas de um modo que não está também restrito às partes dos seres, como o fazem as demais ciências, mas na sua totalidade ou na sua essência . Também aprofundaremos esse aspecto no próximo 204 subtítulo.

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