III. 2.3.4.2 Les échelles temporelles de la planification
III.3 UNE REVUE GENERALE DES OUTILS D’AIDE A LA PLANIFICATION ENERGETIQUE
Situando-se perifericamente no espaço geográfico brasileiro em relação ao sudeste do Brasil, Mato Grosso localiza-se no centro da América Latina. Dado a esta localização a Província esteve mais acessível aos espanhóis, via rio Paraguai, do que aos luso-brasileiros nos primeiros séculos da colonização. Para atingir o sertão mato-grossense os primeiros colonizadores portugueses partiam de São Paulo navegando o rio Tietê, parte do rio Paraná e adentrando os rios: Pardo, Coxim, Taquari, Paraguai, São Lourenço e por último o rio Cuiabá. Nesse trajeto os aventureiros, exploradores e desbravadores enfrentaram obstáculos naturais, como rios com fortes correntezas, quedas d’água, cachoeiras e os constantes ataques dos indígenas, além de conviver com as mudanças climáticas, os surtos de malária e as epidemias de cólera morbus.17
16 Segundo Norbert Elias, o Estado para viabilizar a manutenção e o exercício efetivo do monopólio da violência
física e do direito, afasta os elementos que concorrem com ele por essa dominação, sem contudo abrir rupturas profundas que o desestabilize. Assim, segundo o autor as lutas internas reforçam as interdependências entre os indivíduos e os grupos, determinando uma das dimensões que opera para a evolução do processo civilizador. ELIAS, op. cit., p. 140-162.
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Para um detalhamento do trajeto da Província de São Paulo à Província de Mato Grosso consultar: D’ALINCOURT, Luiz. Memória sobre a Viagem do Porto de Santos à cidade de Cuiabá. São Paulo: Martins, 1980. CLETO, Marcelino Pereira et all. Roteiros e notícias de São Paulo colonial. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1977. FONSECA, João Severiano da. Viagem ao redor do Brasil (1875-1878). Rio de Janeiro: Typographia de Pinheiro, 1880.
As duas Coroas, portuguesa e espanhola, disputaram a posse das terras mato-grossense durante longo período, o que ficou relativamente resolvido após ser firmado o Tratado de Madri entre Portugal e a Espanha, em 1750, estabelecendo como limite, o Rio Paraguai, desde o Iguareí à foz do Jauru e o Guaporé, da barra do Sararé para baixo (SOUZA, 1980, p.14). Logo em seguida a Coroa Portuguesa adotou medidas políticas de povoamento e proteção de suas fronteiras, contudo não cessaram as investidas espanholas sobre a região até o final do século XIX.
Como primeira medida de caráter militar, a Metrópole portuguesa construiu o Forte Coimbra (1775), o Forte Príncipe da Beira (1776) situada à margem direita do rio Guaporé, o presídio de Albuquerque (1778), e o de Miranda (1778). Além disso, promoveu-se a fundação das vilas de Cáceres, Albuquerque, Ladário e Corumbá. (GALLO,1983, p.14) Com a ocupação dos Fortes a Metrópole procurou resguardar seus domínios e também,
“[...] manter os espanhóis em seu território, impedindo sua expansão. Além de ocupar a terra e conter os inimigos, esses novos núcleos propiciaram o avanço da colonização, pois os fazendeiros, que até então assentavam propriedades apenas nas proximidades de Cuiabá, passaram a se estabelecer nas terras adjacentes às fortalezas, dedicando-se então à agricultura, pecuária e exploração dos recursos naturais”. (ESSELIN, 1994, p.143)
Para se compreender as dificuldades e os conflitos vividos pelos primeiros povoadores portugueses durante o processo de ocupação e desbravamento dos sertões no centro-oeste brasileiro, torna-se imprescindível situar o Pantanal Mato-grossense. Essa imensa planície que cobre parte do território dos atuais estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, composto pela bacia hidrográfica do Alto e Baixo Paraguai, o Pantanal, na época das cheias dos rios transforma-se numa das maiores planícies alagáveis em todo o continente americano.
É “quando os rios se avolumam, jogando suas águas nas baixadas, enchendo vazantes e corixos, baías e lagoas, transformando-se numa coisa só de água espraiada, semelhante a um mar doce em certas áreas” (PROENÇA, 1992, p.13) inundando parte das terras brasileiras, bolivianas e paraguaias (Cf. Figura 1) produz sérios problemas de locomoção e de aproveitamento das terras ao desenvolvimento da agricultura e da pecuária.
Pelos “caminhos navegáveis”, formado por essa rica bacia hidrográfica (Cf. Figura 2), a produção agro-pastoril era levada ao porto e às fazendas e vilas, mas, também era pelo porto que chegavam as novidades, as pessoas e as mercadorias consumidas pela população mato- grossense. Era através dos rios que a justiça se fazia presente e se estabeleciam os canais de
comunicação e informações que alimentavam os contatos familiares, políticos, comerciais, religiosos e culturais. Contudo, há que se ressaltar que nem sempre o Pantanal Mato- grossense pertenceu ao território da Coroa Portuguesa. Lutas pela posse da região entre espanhóis e portugueses perduraram muito tempo.
O que ficou parcialmente resolvido após o Tratado de Santo Ildefonso, assinado em 1777, quando então a região do Pantanal passou a fazer parte do território pertencente a Coroa Portuguesa. Espaço geográfico, o Pantanal Mato-grossense, dos antigos paiaguás e guaicurus, cenário das incursões dos combatentes brasileiros e paraguaios na época da Guerra do Paraguai, ficou mais conhecido por ter sido citado pelo militar Affonso d’Escragnolle Taunay (2000) como o pestilento pantanal em sua narrativa sobre a retirada da Laguna18, operação militar realizada por soldados brasileiros. Ressalto que a visão do autor sobre o Pantanal só tem sentido se considerarmos que naquela época os conhecimentos médicos ao tratamento da malária, febre amarela, beribéri e cólera morbus eram praticamente desconhecidos no Brasil.
O mais comum entre a população era associar as epidemias aos alagadiços e as matas, ou seja, ao meio ambiente. O alagamento proporcionado pelo “Complexo Pantaneiro” forçou os primeiros povoadores ora a se adaptarem ao meio utilizando recursos da navegação indígena para conhecer a região, ora recorrendo a esforços solidários na superação dos obstáculos naturais, o que foi fundamental no processo de integração de Mato Grosso ao território brasileiro. O Complexo do Pantanal foi denominado pelos espanhóis como “La Laguna de los Xarayes” com uma área aproximada de 168.000 km² foi rebatizado pelos portugueses como Pantanal Mato-grossense. Essa área pode ser identificada como uma
“[...] imensa planície inundável situada no interior da América do Sul, hoje denominada Pantanal, foi transformada em terras pertencentes à coroa espanhola pelo Tratado de Tordesilhas, no final do século XV. Originalmente era território de diversas nações e povos indígenas, entre outros, dos Guaranis, Payaguás, Guaxarapos e Xarayes. Já no início do século XVI passou a ser visitado por europeus devido à possibilidade de conter riquezas minerais ou fabulosos tesouros.” (COSTA, 1999, p.17)
18 A trajetória da coluna militar que marchou do Rio de Janeior até Laguna para expulsar os soldados de Solano
Lopes das terras mato-grossenses foi narrada pelo Visconde de Taunay em sua obra A Retirada da Laguna. Apesar da importância da obra de Taunay para literatura brasileira, não podemos perde de vista que se trata de uma narrativa romantizada pelo autor. Assim, a visão idílica ou satânica da natureza corresponde à visão de uma época específica.Ver TAUNAY, Alfredo d’Escragnolle. A Retirada da Laguna: episódio da Guerra do Paraguai. 7a ed. São Paulo: Ediouro, 2000.
Figura 1 - Mapa da região que abrange o Pantanal Mato-grossense, produzido por Jorge Adámoli. Escala: 1:3.000.000.
É evidente que as terras alagadas complicavam a vida daqueles que não conheciam as áreas inundáveis do Pantanal. Mas, para os primeiros habitantes da região, os indígenas, essa natureza não tinha mistérios:
As cheias produzidas pelas chuvas, nos meses de novembro a março, em especial no rio Paraguai, obrigaram os grupos humanos a se adaptarem as constantes oscilações climáticas. Os primeiros habitantes da região, os indígenas, sabiam como lidar com essa paisagem diluviana. O alagado, no tempo da enchente, se constitui num imenso lago raso, no qual sobressaem arbustos esparsos, ipês de todas as cores e colônias de palmeira carandá. Nas águas paradas a vegetação aquática, enraizada ou flutuante, forma um tapete verde, sob o qual se criam milhões de moluscos, peixes, jacarés e outros animais. Os poucos terrenos que sobressaem das águas aparecem, de forma muito visível, como capões ou ilhas de mato, que têm, no centro, grandes árvores copadas e, ao redor, uma coroa densa de palmeiras de acuri. Esses capões foram e continuam sendo os únicos espaços reservados ao homem durante o tempo da enchente; todo o resto é dominado por animais nativos. No tempo dos índios, esse era um período de grande fartura para o homem, que se instalava nos capões e, de canoa, recolhia o que precisava da fartura das águas, que o cercavam por todos os lados. Havia abundância nas cheias. Mas assim como a riqueza se formava, assim desaparecia: quando os campos secavam, os recursos desapareciam e, antes que as canoas ficassem encalhadas, era preciso migrar. (SCHMITZ, 2000, p. 149-150)
O processo de adaptação nos primórdios da colonização dessas fronteiras abertas contou com os indígenas como aliados úteis, pois o conhecimento das forças naturais, características do complexo pantaneiro, contribuiu para que os povoadores superassem os obstáculos, cujo resultado implicou na aceleração do processo de culturalização da
natureza.19 Adaptando-se ou modificando o espaço físico, os agrupamentos formados por exploradores que se instalaram na região “inventaram” os meios necessários para realizarem suas atividades produtivas em meio às águas do Pantanal, não sem grandes dificuldades de superação, posto que a adaptação é um processo de escolhas onde se fabricam os mecanismos necessários que visa, sobretudo, suprir as necessidades de sobrevivência. E, sobreviver era também fustigar o ataque de nações indígenas que lutavam para defender suas terras das investidas dos colonizadores e aventureiros estrangeiros.
19 A culturalização da natureza decorre das diferentes ações produzidas pelo homem com objetivo de criar
espaços geográficos voltados ao trabalho. Modificando-se, incorporando e registrando a ação humana a natureza adquire novas feições, que correspondem a determinado momento histórico, assim ‘torna-se cada dia mais culturalizada, mais artificializada, mais humanizada.” Ver SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado. 5a ed. São Paulo: Hucitec, 1987, p. 89.
Figura 2 – Mapa dos principais rios que compõem a bacia Hidrográfica do Pantanal mato-grossense e subdivisão das regiões, adaptado de Silva et al. (1998). Fonte:http://www.scielo.br/img/fppe/rbb/v23n2/n2a04i01.jp
Os conflitos com os autóctones fazem parte do processo de formação da sociedade mato-grossense desde que os primeiros luso-brasileiros penetraram na região. A falta de mão- de-obra nos engenhos e a busca por metais preciosos levaram os bandeirantes paulistas e aventureiros a adentrarem-se pelos sertões para apresar os indígenas e vendê-los aos senhores de engenho como mão-de-obra cativa. Embrenhando-se pelas matas esses primeiros colonizadores, iam vencendo as distancias e traçando novas rotas de acesso ao centro-oeste brasileiro, o que ajudou a expandir as fronteiras agrícolas e jurídicas da Monarquia portuguesa.
Nas últimas décadas a historiografia brasileira ampliou as noções explicativas sobre a dinâmica do povoamento do interior brasileiro em áreas cujas atividades da pecuária extensiva tiveram papel determinante nas relações conflituosas pelo apossamento das terras. 20
Em Mato Grosso esse processo se intensificou a partir da metade do século XVIII com o declínio da mineração e a aprovação da Lei de Terras (1850), cujo “objetivo principal, que tanto afetou as comunidades indígenas, foi o de criar um mercado de trabalho de não- proprietários”. (RICUPERO, 2004, p.147). Apesar da resistência dos autóctones, os criadores de gado, muares e caprinos dilataram as fronteiras avançando sobre as terras indígenas. Na visão dos colonizadores “os índios seriam indolentes, brutos, ferozes, cruéis e antropófagos. Como nômades, não teriam direitos sobre as terras em que habitavam, das quais não podiam ser proprietários”. (LINHARES, 1996, p.140). Assim, nada mais natural do que tomar posse de suas terras ao mesmo tempo em que se colocavam a “domesticá-los” através das missões jesuíticas e salesianas, as quais financiadas pelo poder público ensinavam aos índios a língua e a cultura do homem civilizado.
Em Mato Grosso não faltaram às práticas de aldeamento objetivando apaziguar o elemento indígena, haja vista que sem a estabilidade econômica os fazendeiros, comerciantes, burocracia jurídica e administração o projeto de ocupação e desenvolvimento de Mato Grosso ficava comprometido. Nessa perspectiva, os interesses econômicos dos proprietários rurais, que não hesitavam em “exterminar” populações inteiras, se sobrepuseram aos direitos costumeiros dos usos das terras. Muitos dos indígenas, posseiros, ex-escravos se rebelaram contra as práticas violentas empregadas por fazendeiros, o que em muitos casos terminou em
20 A historiadora Maria Yedda Leite Linhares analisou os fatores que contribuíram para o apossamento das terras
no sertão sanfranciscano e pernambucano, cujas fronteiras abertas foram sendo ocupadas pela expansão da fazenda de gado. Processo que segundo a autora traduz “não apenas uma determinação de natureza econômica e prática, [...] como também, e, sobretudo política [...]”. LINHARES, Maria Yedda Leite. Pecuária, alimentos e sistemas agrários no Brasil (séculos XVII e XVIII). Revista Tempo, UFF/Relume Dumará, v. 1, n. 2, p. 132- 150, 1996.
crimes de homicídio e ofensa física grave. Nesse sentido, os argumentos para o avanço das fronteiras agrícolas e pecuárias respondiam ao direito de conquista e quando necessário justificavam-se as “guerras justas”21 e violentas como meios e fins na apropriação das terras.
Em seu texto sobre a questão das “guerras justas”, Emanuel Araújo (2004) pontuou que estas serviam como justificava a ação de colonização e ao apresamento dos índios e, caso ocorresse resistência por parte daqueles, o extermínio total era a solução mais plausível ao problema, o que ampliou as dimensões do “genocídio indígena”.
Duas questões vinculam esta problemática à economia local: a primeira trata do apossamento das terras por uma elite que visava, sobretudo, à expansão da pecuária; e a segunda refere-se às lutas entre brancos e índios na ocupação do espaço geográfico em Mato Grosso:
A legislação do Reino, desde o princípio, aparentemente protegia os indígenas. Aparentemente, porque sempre oscilou entre o interesse dos colonos, ávidos de escravos, e a intenção missionária dos religiosos, que tentavam integrar os índios ao mundo dos brancos. Mas, sempre houve a brecha da ‘guerra justa’, isto é, os beneplácitos oficiais ao extermínio e ao apresamento no caso de os nativos interporem-se de algum modo ao projeto econômico ou político da colonização, por exemplo, ocupando terras cobiçadas para a agricultura ou resistindo ao avanço dos brancos. (ARAÚJO, 2004, p.18)
Apesar dos muitos conflitos entre brancos e índios, estes não impediram às alianças firmadas entre grupos indígenas, bandeirantes e aventureiros nas lutas contra os espanhóis, o que não deixou de ser decisivo na ocupação das terras mato-grossenses e legitimação da posse do território brasileiro pela Monarquia portuguesa. Segundo Perrone-Moisés (1998, p. 120) “os índios aliados e aldeados são encarregados de defender as vilas e plantações dos ataques
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Nas palavras de Emanuel Araújo esta foi uma “história feita a ferro e fogo, sem trincheira, sem piedade, sem dar fôlego à ‘rebeldia’ dos primitivos moradores da terra até que os sobreviventes, ‘constrangidos da necessidade’, viessem ‘pedir misericórdia’”. ARAÚJO, Emanuel. A ferro e fogo: formas de violência no Brasil colonial. IN: CANCELLI, Elizabeth (org.). Histórias de violência, crime e lei no Brasil. Brasília, DF: UnB, 2004. Em outra perspectiva consultar a análise de Pedro Ignácio Schmitz, sobre a região do Pantanal, em especial a bacia do Alto Paraguai, onde o pesquisador constatou a existências de 175 sítios arqueológicos que esboçam a “primeira história do povoamento, [...] o mais antigo data de 6000 a. C.” Populações indígenas como paiaguás, guarajapos, guatós, guaicurus, guanás, etc, sobreviveram, segundo o pesquisador até o fim do século XIX, “quando , por ocasião da guerra do Brasil com o Paraguai, elas se desestruturam completamente”. SCHMITZ, Pedro Ignácio. Pescadores-caçadores-coletores do Pantanal do Mato Grosso do Sul – Região de Corumbá. IN: TENÓRIO, Maria Cristina (org). Pré-história da terra Brasilis. Rio de Janeiro: UFRJ, 2000, p.149-156. WUST, Irmhild. As aldeias dos agricultores ceramistas do centro-oeste brasileiro. IN: TENÓRIO, id., p. 321-337.
do gentio e as fronteiras dos ataques dos inimigos europeus. Povos estratégicos são as barreiras vivas à penetração de inimigos de todo tipo” nos sertões despovoados.
Atualmente a historiografia brasileira vem apresentando avanços sobre a problemática da mescla cultural22 surgida das interações entre brancos, índios e negros no decorrer da colonização brasileira. Além disso, ampliou-se o conhecimento sobre as práticas de “aldeamento” dos índios enquanto mecanismo de expropriação de terras perpetrado pela Coroa portuguesa e pelos aventureiros, o que intensificou o processo de desenraizamento dos primeiros habitantes da terra Brasilis.
Todavia, não se pode descartar que o objetivo primordial dos colonizadores foi o de avançar as fronteira abertas sobre o território ocupado pelos índios,23 utilizando como tática o apaziguamento, propósito adequado à política assimilacionista efetivada pela Coroa portuguesa. Essa prática trouxe resultados negativos, em especial às populações indígenas que tiveram que refazer seus antigos hábitos e costumes, modificando em parte a identidade cultural da coletividade.
Os registros oficiais apontam que além dos conflitos, outras conseqüências contribuíram para aprofundar este quadro. Referimo-nos a transmissão de doenças e moléstias que minavam as defesas orgânicas e psicológicas dos índios que somados ao processo de integração aos costumes dos homens “civilizados” debilitavam as resistências físicas. Isto tanto ocorreu pelo processo natural de aproximação com os “civilizados” como pela violência física, financeira e psicológica empregada amplamente.
Outra questão abordada pela historiografia concernente ao processo de desenraizamento das populações indígenas mostra que persistiu em Mato Grosso, século XX adentro, o recurso à violência, a catequese e os aldeamentos. Embora estes instrumentos de controle tenham apresentados alguns resultados positivos como a interação pacífica, o mais comum era que os índios recorressem aos ataques, fugas, e lutas como forma de preservarem seus valores culturais e sociais, o que gerou conflitos de interesses de ambas as partes.
22 Ronald Vainfas mapeou, em seu artigo, os autores que procuraram explicar a questão da miscigenação étnica
ou mescla cultural no decorrer do processo de colonização portuguesa. Segundo o autor as pesquisas sobre a problemática da mestiçagem ou mescla cultural poderiam revelar as muitas representações criadas com o propósito de acentuar a estratificação social. Ver VAINFAS, Ronaldo. Colonização, miscigenação e questão racial: notas sobre equívocos e tabus na historiografia brasileira. Revista Tempo, UFF, v. 4, n. 8, dez. 1999, p. 2-6.
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Sobre aldeamento indígena ver: ALMEIDA, Maria Regina Celestino. Os índios aldeados: história e identidades em construção. Revista Tempo, UFF, Rio de Janeiro, n.12, p. 51-71. PERRONE-MOISÉS, Beatriz. Índios livres e índios escravos: os princípios da legislação indigenista do período colonial (séculos XVI a XVIII). IN: CUNHA, Manuela Carneiro da. História dos índios no Brasil (org.). São Paulo: Companhia da Letras, 1998, p.115-172.
No período da mineração, iniciada no séc. XVIII, as relações de apaziguamento e conflitos entre portugueses e índios se tornaram mais intensas. Data dessa época o avanço das fazendas de gado sobre as fronteiras abertas, cuja dimensão política buscava “assegurar a ocupação do território pela Coroa, naqueles primeiros séculos da colonização, ao mesmo tempo em que se mantinha como elo do padrão de acumulação, então vigente”. (LINHARES, 1996, p.8) A busca por metais em todo o território brasileiro levou as descobertas das minas de ouro em Cuiabá e Vila Bela, respectivamente 1717 e 1734. O relato de João Severiano da Fonseca (1880, p.141) nos fornece uma visão das formas como se desenvolvia o trabalho na mineração:
Inúmeras são as minas que os sertanistas encontraram, ou descobriram os garimpeiros, - sem outras fadigas quais de suas venturosas viagens, sem mais esforço que o de catarem o ouro, e sem outras máquinas senão os mais rudimentares e primitivos instrumentos do labor.
Em Mato Grosso, tal como ocorreu em Minas Gerais, o descobrimento atraiu a atenção da administração colonial e dos habitantes de outras localidades, dentro e fora da Colônia. Aventurando-se pelos sertões, apropriando-se das terras, homens solitários ou com famílias, buscaram enriquecer na “cata” ao ouro e aos diamantes.24 O dinamismo econômico e social produzido pela mineração intensificou o aumento populacional na região centro-oeste.
O movimento minerador intensificou o afluxo de pessoas e contribuiu para o