PROCESSOS DE TRABALHO E PRODUÇÃO E O TERRITÓRIO
ENQUANTO RECURSO DAS EMPRESAS.
Este capítulo está divido em três partes principais e traz principalmente dados da pesquisa de campo. No primeiro momento discutiremos como foi realizada a etapa das entrevistas aos diversos agentes que participam da produção do vestuário. Em seguida como se dá o processo de trabalho e produção nas facções de costura, apresentando a tipologia e topologia das empresas e a dinâmica econômica que a atividade trouxe para o estado, em especial o Seridó Potiguar.
A pesquisa revelou que a realização da etapa de costura provocou novas interações espaciais com outros lugares, principalmente a partir do comércio de máquinas de costura, e também passou a se constituir como especialização produtiva em muitos municípios e consequentemente como principal fonte de empregos formais na região.
Verificou-se também uma tessitura marcada por relações verticais das grandes indústrias de confecções para com as facções de costura. Estas, tendo apenas um ou dois clientes, acabam ficando a mercê das decisões das grandes empresas, as quais, atuando a partir de uma lógica global podem facilmente e a qualquer momento transferir a etapa de costura para lugares que apresentem melhores condições de lucro para as mesmas.
4.1 Considerações sobre a pesquisa de campo
Conforme anunciado na introdução deste trabalho, a atividade de campo consistiria em entrevistas a secretarias de estado, em especial a SEDEC; ao SEBRAE Natal, que coordena o programa Pró-Sertão; às empresas que participam do programa terceirizando parte de sua produção; aos proprietários das facções de costura e funcionários que trabalham nas mesmas. Na prática, não conseguimos realizar entrevistas com nenhum representante do SEBRAE Natal, nem com representantes das indústrias que terceirizam a etapa de costura, apesar das várias tentativas de contato por e-mail e telefone para agendamento. O quadro 07 resume o cronograma de entrevistas realizado.
136 QUADRO 7: CRONOGRAMA DAS ATIVDADES DE CAMPO
ATIVIDADES DE CAMPO
AGENTES ENVOLVIDOS DATAS (2017)
ENTREVISTAS A REPRESESNTANTE DA SEDEC 06 DE JULHO TENTATIVAS DE ENTREVISTA A
REPRESENTATANTE DO SEBRAE NATAL
03 E 04 DE JULHO; 16 DE OUTUBRO E 08 DE DEZEMBRO. ENTREVISTA A REPRESENTANTE DO SEBRAE
(SANTA CRUZ) 31 DE JULHO
TENTATIVA DE ENTREVISTA A REPRESENTANTE DA GUARARARAPES E HERING 15 DE SETEMBRO; 30 DE OUTUBRO; 14 DE NOVEMBRO; 06 DE DEZEMBRO; 13 DE DEZEMBRO.
ENTREVISTA AOS PROPRIENTÁRIOS, GERENTES E FUNCIONÁRIOS DE FACÇÕES DE COSTURA:
NATAL 18 E 19 DE JULHO
PARNAMIRIM 20 E 23 DE JULHO
SÃO JOSÉ DE MIPIBU 24 DE JULHO
VERA CRUZ 25 DE JULHO
SANTA CRUZ 26 DE JULHO
ACARI 09 DE AGOSTO
SÃO JOSÉ DO SERIDÓ 11 DE AGOSTO E 13 DE
SETEMBRO
PARELHAS 16 DE AGOSTO
JARDIM DO SERIDÓ 17 DE AGOSTO
CEARÁ-MIRM 30 DE AGOSTO
CRUZETA 12 DE SETEMBRO
SÃO VICENTE30 13 DE SETEMBRO
JUCURUTU 15 DE SETEMBRO
LAJES PINTADAS 19 DE SETEMBRO
SÃO FRANCISCO DO OESTE 18 DE OUTUBRO
Fonte: pesquisa de campo, 2017.
A etapa da pesquisa de campo correspondente a realização de entrevistas junto aos proprietários das facções de costura ocorreu entre junho e outubro de 2017, em 15 municípios do estado, sendo 4 da mesorregião Leste Potiguar, 3 da Mesorregião Agreste Potiguar, 6 da Mesorregião Central Potiguar e 2 da Mesorregião Oeste Potiguar, conforme o mapa 16.
30 Não foi feita uma visita propriamente dita às empresas que atuam em São Vicente. As unidades produtivas que
atuam no município fazem parte de um mesmo grupo empresarial que controla 11 facções de costura. Nesse caso, a entrevista foi realizada na sede do grupo em São José do Seridó, em que obtivemos dados das unidades localizadas em São Vicente. Consultar: https://www.grupocmedeiros.com/ .
137 Mapa 16: Rio Grande do Norte: Municípios em que foi realizada atividade de campo (2017).
138 Essa etapa iniciou-se em Natal. Num primeiro momento tentamos estabelecer contato com os empresários ligando para o número de telefone disponível na ficha de cadastro da empresa no Guia Industrial FIERN, confirmar a existência da atividade econômica e agendar a data para a entrevista. No entanto, tal estratégia não foi eficaz.
A maior parte dos números de telefone indicada não funcionava. Nos poucos casos em que conseguimos realizar a ligação, os funcionários ou proprietários que nos atendiam negavam-se a agendar entrevista e omitiam informações sobre a empresa. Diante da dificuldade, resolvemos mudar de abordagem e visitar diretamente as empresas sem nenhum aviso prévio, utilizado como referência o endereço fornecido na ficha cadastral da FIERN.
Essa estratégia foi mais eficaz, e ao todo conseguimos realizar entrevistas que contemplam um total de 66 facções de costura. No entanto, o número ficou bem abaixo do objetivo final, como apresentado na introdução deste trabalho, de alcançar 108 facções de costura. Mas isso justifica-se por diversos fatores.
O primeiro está relacionado à própria veracidade dos dados disponibilizados no Guia Industrial. Além do número de telefones que não funcionavam, havia muitos estabelecimentos com endereço incorreto, muitas vezes com o CEP apontando para um dado lugar, enquanto o número do CNPJ indicava outro31.
Tal imprecisão em relação aos dados pode resultar do preenchimento errado das informações por parte dos empresários no momento do cadastro na FIERN. A pesquisa de campo em Parnamirim, por exemplo, revelou um problema quanto ao endereço de uma facção. Chegamos num endereço indicado pelo guia industrial, que tratava-se de uma residência e não um galpão de costura. O morador nos informou ter cedido seu endereço a um amigo para cadastrar o CNPJ da empresa, que na verdade localizava-se no município de Monte Alegre, e que a mesma confeccionava fardamentos e roupas sob medida.
O segundo fator refere-se à própria dinâmica da atividade econômica estudada, que apresenta rápidas transformações. Nesse sentido, encontramos um grande número de facções de costura fechadas. Em Natal, por exemplo, visitamos um endereço que o guia industrial indicava como uma facção de costura. Assim como em Parnamirim, tratava-se de uma residência. O morador confirmou que ali funcionava uma facção de costura, mas que cerca de dois anos antes a moradora e proprietária do estabelecimento havia transferido as atividades
31
Com o número do CNPJ disponível é possível encontrar o endereço da empresa a partir de uma rápida pesquisa na Internet. Nesse sentido, vimos que em muitos casos o CNPJ indicava um endereço, enquanto o CEP indicava outro. Em dois casos, indicavam até diferentes municípios. A consulta ao CNPJ para descobrir o endereço também foi necessária por que muitas cidades pequenas do interior tem apenas um CEP para todo o município, o que dificultava encontrar a localização exata das facções.
139 para o município de Vera Cruz, no agreste potiguar.
Consultando os dados das empresas atuantes em Vera Cruz, vimos que uma delas tinha como gerente o mesmo nome indicado na facção de Natal. No entanto, ao realizarmos o campo em Vera Cruz encontramos o referido estabelecimento fechado. Vizinhos nos informaram que a empresa havia encerrado as atividades no final de 2016.
O quadro 08, que sintetiza o que foi encontrado na atividade de campo, mostra que das 149 empresas listadas no guia industrial, 28 tinham encerrado suas atividades no momento da nossa visita de campo. Na mesorregião leste, as 13 empresas que haviam encerrado suas atividades correspondiam a 40,6% do total de estabelecimentos contados a partir do guia Industrial.
Quadro 08: Dados da pesquisa de campo32
MESORREGIÃO NÚMERO DE FACÇÕES QUE OBTVEMOS DADOS NÃO É FACÇÃO DE COSTURA FACÇÕES FECHADAS NÃO CONCEDERAM ENTREVISTA NÃO VISITADAS LESTE POTIGUAR 5 4 13 8 3 AGRESTE POTIGUAR 6 0 3 0 5 CENTRAL POTIGUAR 53 1 12 11 27 OESTE POTIGUAR 2 0 0 0 7 TOTAL DE EMPRESAS 66 5 28 19 42
Fonte: pesquisa de campo, 2017.
Em Parnamirim, por exemplo, das 9 empresas cadastradas, 6 estavam fechadas. Em São Jose de Mipibu, também na mesorregião Leste, haviam duas empresas cadastradas, mas o campo revelou que as duas haviam fechado. No entanto, moradores deste município nos informaram da existência de outra empresa que também realizava atividade facção. Chegando ao endereço informado nos deparamos com um grande galpão industrial.
Os funcionários afirmaram tratar-se de uma empresa que produzia marca própria, realizando outras etapas da produção do vestuário como o corte, e, além disso, costurava para a Guararapes Confecções. Mas os mesmos não concederam entrevista. Pesquisamos a empresa no Guia industrial, e sua ficha a colocava dentro do grupo de “confecção de artigos do vestuário e acessórios”, com mais de 100 empregados.
Além disso, tem-se a mudança constante do CNPJ das empresas. Novamente em Vera
32 O número total de facções ultrapassa as 149 listadas no guia industrial FIERN (chega a 160), uma vez que
140 Cruz encontramos um estabelecimento que já havia trocado de CNPJ e nome fantasia por três vezes num período de 10 anos. Dos três CNPJs, dois ainda constavam ativos.
Figura 7: Fábrica da RMNor desativada em Parnamirim/RN
Fonte: pesquisa de Campo, 2017.
Figura 8: fábrica da RMNor (esquerda) e galpão de facção (direita) que prestava serviços para a mesma desativados - Parnamirim/RN
Fonte: pesquisa de campo, 2017.
Alguns empresários afirmaram que em momentos de crise encerravam as atividades dos estabelecimentos e quando há maior demanda pelos serviços de costura reabrem a facção com CNPJ e novo nome fantasia. Por isso, encontramos facções cujo nome não estava no cadastro industrial, mas que já atuavam por muitos anos. Mas também localizamos empreendimentos novos (2 em Jardim do Seridó e 1 em São José do Seridó) que não
141 constavam no guia industrial e não resultavam da reabertura de antigos estabelecimentos. Tudo isso dificulta contabilizar o número real de empresas, de modo que as informações contidas no quadro 5, apresentada no capítulo 1, acabam por ser imprecisas.
O terceiro fator envolve a natureza das empresas encontradas. Das 149 empresas listadas, 5 não eram facções de costura, das quais 4 localizavam-se na mesorregião leste. Duas realizam a confecção de fardamentos, outra costura roupas sob medida. Uma empresa, embora pudesse ser classificada como facção de costura de acordo com a classificação do IBGE não se enquadrava nos requisitos da pesquisa (nesse caso ela não é terceirizada, pertence a uma indústria que tem marca própria). E uma empresa que dominava todo o processo produtivo (figuras 9 e 10), desde o desenho do modelo de vestuário, o corte do tecido e venda ao cliente. A empresa tem marca própria e é especializada em roupas para eventos religiosos, não se configurando, por tanto, como uma facção de costura.
Figuras 9 e 10: empresa de Natal que tem marca própria e realiza todas as etapas produtivas.
Fonte: pesquisa de campo, Natal, 2017.
Por fim, um expressivo número de funcionários e proprietários não nos concederam entrevistas, constituindo-se esse o quarto motivo para não atingirmos o total de 108 entrevistas. Nesse caso especifico a maior parte das negativas ocorreu principalmente na mesorregião Leste e alguns casos também na mesorregião central. Mas de modo geral, proporcionalmente em relação ao total de empresas cadastradas, houve maior receptividade em relação a nossa pesquisa nessa última, enquanto na mesorregião Leste o número de negativas correspondeu a 25% dos 32 estabelecimentos classificados previamente como facções de costura.
De todo modo, considerando a soma dos empresários que nos concederam entrevista, o número de facções de costura fechadas (comprovadas quando nos dirigimos aos endereços disponibilizados pelo guia industrial), aqueles que não são facções (comprovado a partir do campo) e os que não nos concederam entrevistas, visitamos endereços correspondente a 112
142 empresas em todas as mesorregiões do estado.
Houve, evidentemente, municípios com registro de facções em que não realizamos campo. Mas gostaríamos de salientar que a visita a tais lugares acabaria por constituir uma espécie de censo das facções de costura no RN, o que não é objetivo deste trabalho. Ademais, consideramos que as informações coletadas são suficientes para a análise a que nos propomos. Além disso, temos que ressaltar os recursos financeiros limitados para a realização da pesquisa. Outro ponto é a dificuldade de deslocamento mesmo entre municípios vizinhos, especialmente na mesorregião Oeste, com escassa oferta de transporte coletivo. Nessa mesorregião fizemos apenas duas entrevistas, sendo que a mesma dispõe de 8 facções de costura, segundo dados do Guia industrial. No entanto, os mesmos estão dispersos em 6 municípios, o que acabou inviabilizando nosso deslocamento em função das dificuldades já citadas.
Após esclarecidas essas questões seguiremos com a análise dos resultados da atividade de campo.
4.2 O trabalho e a produção nas facções de costura
O SEBRAE estabelece dois tipos de facções de costura: tecido de malha e tecido plano. De acordo com Piccinini (2015) eles diferenciam-se pela forma em que os fios são interligados geometricamente: “os tecidos planos são artigos produzidos em tear e formados pelo entrelaçamento perpendicular alternativo, por no mínimo, dois grupos de fios, os de urdume e os de trama”. Já o tecido de malha é formado a partir de “laçadas de fios com a ajuda de agulhas finas e pontiagudas. O entrelaçamento e a formação contínuos de novos laçados produzem os tecidos de malha” (PICCINNI, 2015, p. 49). Nas figuras 11 e 12 podemos visualizar como é a estrutura dos mesmos.
Figura 11: estrutura de tecido plano
143 Figura 12: estrutura de tecido de malha
Blog Marisanta, 2012.
De um modo geral o tecido plano costurado nas facções refere-se principalmente ao jeans (calças, bermudas, jardineiras) e a camisa social. Enquanto o tecido de malha diz respeito a camisas e blusas, chamadas pelos empresários do setor como “modinhas”. O estudo da FIERN sobre as potencialidades de crescimento das facções apresenta uma definição sobre esse tipo de produto: “Há, ainda, potencial de desenvolvimento da “modinha” produtos que entram na moda em curto espaço de tempo, ditados pelo uso de atores de novelas – levados ao mercado com grande rapidez para acompanhar a velocidade das mudanças de gosto” (FIERN, 2015).
Os empresários preferem trabalhar com o tecido plano, principalmente por que o mesmo tem maior valor por peça. No campo, por exemplo, empresários relataram receber R$7,00 em média para costurar uma calça jeans, enquanto por uma blusa ou camiseta o valor pago é cerca de R$ 2,00 a R$ 3,00. Mas esse caso diz respeito apenas aos que trabalham para a empresa Hering, que faz o pagamento por peça. Já a Guararapes faz o pagamento por tempo de produção.
A figura 13 apresenta um modelo de facção de costura para tecido plano pensado pelo SEBRAE. O exemplo mostra o layout de uma unidade montada para ter 32 funcionários, sendo 28 costureiros, um responsável pelo suprimento, um chefe de produção, um auxiliar administrativo e um mecânico. O investimento necessário para o empreendimento seria em 2013 de R$ 117.422,00 envolvendo desde a compra de máquinas, mesas, cadeiras, computador, extintores, etc. Incluído neste valor estão também os serviços de consultoria, capacitação, licenciamento ambiental, formalização e reserva de capital de giro (SEBRAE, 2013).
144 Figura 13: Layout de facção tipo Tecido Plano
Fonte: SEBRAE, 2013.
Já a figura 14 apresenta o layout elaborado para uma facção tipo tecido de malha equipada para 36 funcionários, dos quais 32 costureiros, um mecânico de máquinas, um auxiliar administrativo, um trabalhando no suprimento e outro como chefe de produção. No entanto, a montagem da mesma exigia de acordo com o SEBRAE um investimento um pouco maior que a do outro tipo de produção, chegando a R$ 151.302,00 para o ano de 2013 (SEBRAE, 2013).
Essa diferença pode ser explicada, dentre outros fatores, pelo maior número de funcionários e consequentemente maior investimento em máquinas de costura. Outro fator a considerar diz respeito ao tipo de máquina utilizada. A empresa que adota o tipo malha utiliza
145 4 tipos de máquinas: Overlock, galoneira, botoneira e caseado, tendo as duas primeiras o maior número de unidades.
Figura 14: Layout de Facção Tecido malha
Fonte: SEBRAE, 2013.
Enquanto a facção tecido plano emprega uma maior diversidade de máquinas, com 6 tipos ao todo: Costura reta, Overlock, interlock, botoneira, caseado e travete. No entanto, ela utiliza mais intensamente a máquina de costura reta, que tinha menor preço médio na época: (R$ 1.500,00) inferior à máquina overlock (R$ 1.900,00) e a galoneira (R$ 3.300,00). Além disso, a quantidade necessária para capital de giro da facção Malha (R$ 27.000,00) é maior do que a apontada para o tipo plano (R$ 20.000,00).
Outra diferença importante está no faturamento bruto e na taxa de lucro líquido projetada para os dois tipos de produção. Para facção tipo tecido plano esperava-se um faturamento bruto mensal de pouco mais de R$ 54 mil no primeiro ano de atividade, com
146 lucratividade de 9% do valor do faturamento bruto. Já a partir do segundo ano a taxa de lucro deveria dobrar, para 18% do faturamento bruto. Para a empresa que atuasse com tipo malha, o faturamento esperado era de pouco mais de R$ 62 mil por mês, mas com maior percentual de lucro líquido: de 12% no primeiro ano, chegando a 21% do faturamento bruto a partir do segundo ano (SEBRAE, 2013).
A simulação do SEBRAE para montagem de facções também estipulou o tempo de retorno do investimento para os empresários, sendo de aproximadamente 23 meses para o tipo tecido plano e 20 meses para o tipo malha.
Para ambas as simulações o SEBRAE utilizou como referência o pagamento por tempo de produção, equivalente na época a R$ 0,28 por minuto pago ao empresário dono da facção. O aumento da taxa de lucratividade seria decorrente principalmente pelo crescimento da eficiência do trabalhador adquirida com o tempo, o qual passaria a costurar numa velocidade maior, já que o modelo não contempla aumento do número de funcionário no período. (SEBRAE, 2013).
Como não foi possível à realização de entrevista com representante do SEBRAE e das indústrias que contratam facções, não conseguimos identificar o que explica a diferença esperada de lucratividade, tendo em vista que o modelo apresentado previa o mesmo percentual de aumento de eficiência dos empregados dos dois tipos de facção. Na atividade de campo, os empresários se mostravam evasivos em relação a essas questões, de modo que também não foi possível saber se as taxas de lucro líquido estipuladas foram alcançadas. De todo modo, embora outros pontos do texto do SEBRAE apontem os riscos relativos à atividade, como diminuição do fornecimento de peças em decorrência de crises ou período de sazonalidade na produção, esses fatores não foram considerados para o cálculo do faturamento bruto33. Na atividade de campo, identificamos que a sazonalidade é comum ao setor. Embora varie conforme a empresa que contrata os serviços de costura, os meses de julho, dezembro, janeiro e fevereiro a produção diminui drasticamente ou para por completo. Já a simulação do SEBRAE apontava um crescimento contínuo do faturamento bruto ao longo de todos os meses de um ano, em decorrência do aumento da eficiência dos funcionários. Mas como aumentar o faturamento sem produção?
Outra questão diz respeito aos investimentos. O documento do SEBRAE estimulava a compra de máquinas novas, mas conforme será observado mais adiante no texto, é comum a utilização de máquinas usadas, mesmo para empresários que abriram suas empresas mais
33 Para mais informações consultar os documentos Facção Tecido Malha, e Facções Tecido Plano publicados
147 recentemente, o que deve diminuir o gasto total na compra de maquinário. Além disso, também é expressivo o número de empresas que costuram os dois tipos de tecidos, o que leva a necessidade de adquirir maquinário mais diversificado.
Apesar das diferenças mencionadas entre o tipo de facção, o processo produtivo é praticamente idêntico e ocorre em cinco etapas: recebimento da matéria-prima; separação e distribuição; alimentação dos postos de trabalho; montagem e acabamento; e expedição (SEBRAE, 2013).
A matéria-prima é recebida junto com uma ordem de produção (OP), que informa a quantidade de peças e o passo a passo para a costura do vestuário. Em seguida, elas são transferidas para a mesa de separação e distribuição, que constituiu a segunda etapa, a partir da qual as diferentes partes (bolsos, botões, golas, mangas, partes da frente e trás) são separadas.
Figuras 15 e 16: Recebimento da matéria-prima e ordem de produção
Fonte: pesquisa de campo, Jardim do Seridó, 2017.
Figura 17: Separação e distribuição: peças Figura 18: mesa de distribuição cortadas prontas para distribuição
148 Depois elas são distribuídas para os postos de alimentação, ou seja, os costureiros que pregam os botões recebem suas respectivas partes, os que unem a peça também (partes da frente e trás), bem como os que pregam as golas, os que costuram as mangas etc. Tudo dependendo da peça que se deve costurar.
Então começa o processo de montagem e acabamento, ou a costura, em que o vestuário é montado. De um modo geral, a peça de roupa deve “circular” pela fação. Na montagem de uma camisa social, por exemplo, um primeiro costureiro une as duas partes