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Nesse primeiro tópico, procura-se, a partir das observações realizadas por tais historiadores na introdução desse capítulo, ressaltar quais foram às implicações da Reforma Protestante de Lutero e Calvino para a consolidação de vez do nascente pensamento moderno ou conservação de vez da tradição enraizada no medievo-católico. Assim, tentando responder tal questão de “modernidade ou conservadorismo” buscaremos elementos e novos argumentos, desde a origem da filosofia cristã agostiniana, bem como de outras que se configuraram na sua seqüência, para, portanto, saber se a Reforma Protestante através do ideário de Liberdade individual do homem/cidadão, teve ou não, por um lado, objetivado, mutuamente a consolidação do pensamento moderno, ou por outro, a conservação da tradição cristã da Idade Média, bem como, acima de tudo, dado também, prioridade a uma em detrimento de outra. A análise se configura em nossa ótica em um dos principais objetivos do

140 MESQUIDA, Peri. 1994 p. 94. Hegemonia norte-americana e educação Protestante no Brasil: um estudo de

movimento de Reforma preconizado por esses principais reformadores da igreja no século XIV.

Dessa forma, pode-se observar nos estudos de Franco Cambi, ou melhor, em sua obra: História da Pedagogia, que este entende a Reforma protestante não como um ato isolado dentro da história da Europa do século XVI, mas que esta, foi sim um movimento já iniciado séculos antes e que teve seu ponto culminante exatamente no movimento levado a cabo por Lutero. Dessa forma, segundo esse mesmo autor:

Nos primeiros decênios do século XVI, os fermentos de renovação religiosa, que por diversas vezes agitaram o mundo da cristandade a partir do século XIII, explodem com toda carga rompente, dando lugar a um movimento de reforma político-religiosa comumente conhecido pelo nome de Reforma protestante”.141 (CAMBI, 1999, p. 246).

Segundo sua obra: Religião, Reforma e transformação social, de Trevor-Ropper,142 (1972, p. 142), o conservadorismo era bem marcante entre “os grandes doutores tanto da Reforma Protestante como da Contra-Reforma, bem como os seus numerosos sequazes clericais, que conservaram muito mais da tradição medieval do que estavam dispostos a admitir”. Assim sendo, recorremos a uma metodologia de retrospectiva na história do conhecimento filosófico/cristão, para tentarmos explicar essa tradição medieval, enraizada nas fundações143 do pensamento político moderno, através de um movimento progressivo de Reforma Doutrinária da Igreja (Reforma Protestante). Progressivo, porque segundo o autor o referido movimento “iniciou, sobretudo, com a corrente do Humanismo. Mas nos anos de luta, de guerra ideológica, o Humanismo em breve foi esmagado e a tradição medieval conservada” em detrimento à gênese da modernidade que iniciara na referida época, sobretudo, com a corrente do pensamento humanista e também com as idéias da própria Reforma.

Denomina-se filosofia cristã, em sentido histórico, aquela que influenciada pelo cristianismo, predominou no ocidente, principalmente na Europa, no período que vai do século I ao século XIV de nossa era. Nesse sentido, compreende duas épocas: a primeira que vai até o século V, conhecida como filosofia patrística; e a segunda, que vai dos séculos XI ao XIV, e que corresponde à chamada filosofia escolástica ou medieval.

141 CAMBI, Franco. História da Pedagogia. Trad. Álvaro Lorencini. São Paulo: Ed. Unesp. p. 246. 1999. 142 TREVOR-ROPER, H. R. Religião, Reforma e Transformação Social.Tradução de Maria do Carmo Cary. –

Ed. Editorial Presença, p. 142. 1972.

Assim, a complexidade central da filosofia cristã é a da conciliação das exigências da razão humana com a revelação divina. Assim, pois, o modo de abordar e solucionar a referida complexidade caracteriza as suas duas etapas e, mais particularmente, a constituição, evolução e dissolução da escolástica medieval. Nesse sentido, segundo vários estudiosos da pesquisa contemporânea, o berço da civilização ocidental se originou a partir das experiências de produção do conhecimento dos gregos/filósofos, no período cronológico, aproximadamente, seiscentos anos antes de Cristo.

Os gregos/filósofos daquela época usavam o ócio para produzirem conhecimento a beneficio próprio, mas também, principalmente, para consolidar a gênese do saber/científico ainda embrionário e, dessa forma, substituíram o mito - único método narrativo de explicação dos fenômenos de até então - pela ciência, ou melhor, pela forma de pensar e refletir sobre a existência natural e sobrenatural dos fenômenos, pois, através do pensamento filosófico, bem como de suas reflexões e curiosidades, foi-lhes permitido chegar, à filosofia fenomenológica, que é o estudo dos fenômenos configurados na bipolaridade amizade/sabedoria, de cunho/científico, para assim, se chegar ao pleno conhecimento existencial dos fenômenos e não ficarem mais, a mercê daquele método, arcaico e único, sem caráter de inteireza e fidedignidade, encontrado nas narrações e explicações mitológicas desse período.

A Grécia antiga já se via diante de várias tendências do conhecimento, tendências essas que vinham se opor mutuamente, denominadas de correntes filosóficas. Cada qual se confrontava à outra, no que se refere ao predomínio de uma abordagem, que fosse fidedigna e íntegra, no âmbito das discussões epistemológicas do conhecimento. Assim sendo, as abordagens argumentativas que mais se conflitaram, nessa referida época, eram as da razão em detrimento às da emoção. As abordagens filosóficas da razão prevaleceram às filosóficas da emoção, sob o forte argumento racional vigente desse período, de que a razão deve controlar a emoção.

Grande parte dos pensadores daquela época preparou terreno para o nascimento de outros filósofos, sobretudo, após o período da vinda de Cristo ao mundo e estes procuraram seguir o mesmo raciocínio dos anteriores, ou seja, do predomínio de controle da razão em detrimento da emoção, mas, com uma nova roupagem que acabara de iniciar, isto é, a roupagem dos ensinamentos de Cristo e, assim sendo, aquela nova geração de pensadores se constituiu nos conservadores/continuadores das abordagens filosóficas hegemônicas do período antes de cristo e precursores de uma nova e revolucionária era na história das sociedades humanas, denominada Era de Cristo. Nesse sentido, levantaram-se grandes

filósofos/teólogos nos templos144, como Clemente de Alexandria, Irineu, Tertuliano e Orígenes, que seguindo o notável exemplo de Cristo e dos Apóstolos, se configuraram naquele cenário como os grandes mestres da Igreja primitiva, enfrentando perseguições de fora e heresias de dentro, mas, mesmo assim, sistematizaram e defenderam a doutrina cristã, conseguindo vários adeptos para o cristianismo.

Naquele período havia muita ênfase dada ao Credo dos Apóstolos como instrumento pedagógico para uma simples apresentação e resumo da fé. A escola catequética de Alexandria, sob Clemente (150-215) e seu sucessor, Orígenes (185-254), começou a formular uma “Paidéia145 Cristã”, com os ensinos do cristianismo nos termos da filosofia e cultura gregas. Essa escola catequética enfatizou a importância da doutrina, ou seja, o aspecto cognitivo da fé, estabelecendo, pois, uma relação “direta e indireta” entre fé e razão. Assim sendo, nos três primeiros séculos vigorava uma forte Educação Cristã. Mas os anos foram passando, o cristianismo foi declarado a religião oficial pelo Imperador Constantino e, em seguida, houve o que chamamos de Idade Média.

Ao começar a Idade Média, o triunfo absoluto do cristianismo se estabeleceu sob a égide da aliança entre fé e razão apregoada pelas idéias filosóficas de Santo Agostinho. Assim sendo, para o pensamento embrionário dos humanistas/renascentistas daquela época, essas duas categorias do conhecimento - fé e razão - eram extremamente díspares e complexas e, dessa forma, jamais poderiam se aliar, pois, a segunda, epistemologicamente, se confrontava com a filosofia agostiniana e com o próprio cristianismo nascente. Entretanto, para Santo Agostinho e para a corrente Cristã que nascera, não o era; pelo contrário, as duas se complementavam mutuamente e, nesse sentido, o cristianismo se consolidou como religião universal em detrimento a todas as religiões rivais da época, em virtude de tal aliança epistemológica, bem como, da forte corrente cristã que cada vez mais se solidificava naquele contexto e, principalmente, de sua plena convicção, preconizada nos argumentos teológicos da filosofia cristã, de que a segunda deveria subordinar-se à primeira.

Essa nova religião adequou a filosofia grega à sua doutrina, que por ora dominava o mundo medieval nascente, através de seus padres filósofos e de seus principais adeptos, como por exemplo, os grandes mestres, acima mencionados. Toda a pompa e cerimônia da corte

144 Lugar onde Cristo se reunia com seus apóstolos e com os doutores das leis para discutirem acerca das leis das

terras, bem como das divinas.

145 Paidéia é uma palavra grega que tem como raiz paîs, que significa “criança” Paidéia, entretanto, refere-se à

instrução ou educação da criança. No sentido mais amplo, os gregos entendiam Paidéia como processo total de desenvolvimento e crescimento. Talvez a melhor tradução fosse “educação”, como se vê em 2 º Timóteo 3.16. Era um conceito importante na cultura grega e a palavra ocorre com freqüência no NT. (Veja o artigo de Bertram sobre o verbete no Theological Dictionary of the New Testament. Vol. V, pp. 596-625.).

entraram na Igreja, sob a própria confissão de que a fé cristã era demasiadamente forte para ser eliminada pela perseguição herética da razão. A filosofia dos padres da Igreja surgida a partir principalmente, do século II, conhecida também como Patrística, tinha como seu grande objetivo combater as heresias e justificar a fé, defendendo assim, o cristianismo nascente. Segundo alguns filósofos, começa aí uma longa aliança entre razão e fé que vai se consolidar por toda a Idade Média.

Convém observar que somente alguns séculos mais tarde é que os pensadores cristãos vão tomar consciência dos textos filosóficos de Platão e de toda a obra de Aristóteles que haviam sido conservados e traduzidos pelos filósofos Árabes. Os textos e fragmentos que chegaram ao conhecimento dos primeiros padres filósofos foram obras dos filósofos neoplatônicos e algumas obras de Aristóteles.

Como mencionado anteriormente, o grande nome da Patrística foi Santo Agostinho. Nesse sentido, vale a pena ressaltar essa discussão novamente, para se buscar novos elementos que possam nos ajudar a responder a questão formulada pela historiografia nesse subtítulo - Modernidade ou Conservadorismo – referente a uma análise da proposta de reforma religiosa, baseada nos aspectos da nova concepção de homem, bem como de sua ação no mundo que teve seu despontar no final da baixa Idade Média e seu ponto culminante após o Renascimento Europeu, em que se configurou o berço da modernidade e o início do movimento levado a cabo por Martinho Lutero, a Reforma Doutrinária da Igreja.

Por um lado, esse movimento procurou se adequar à corrente predominante do pensamento humanista de tal época, pautado, exclusivamente pela ação da razão - que era a vertente que valorizava a construção do homem em todos os sentidos, renegando, pois, as construções da tradição conservadora nas sociedades humanas do passado que se fundamentava, tão somente, na vertente da fé como verdade única e absoluta sobre todas as coisas – e também, por outro lado, fielmente procurou manter as tradições da igreja primitiva, bem como do pensamento cristão, enraizadas, sobretudo, no medievo católico da primeira Idade média.

Santo Agostinho, através de sua vasta produção literária, figurou como principal influenciador das reformas protestantes de Lutero e Calvino no século XVI. Tal pensador marcou mais profundamente a especulação cristã. Sua profunda cultura humanista (foi professor de retórica antes de sua conversão ao cristianismo) tornou-o sensível aos grandes temas que preocuparam o ser humano em todos os tempos: o bem e o mal, a liberdade, o destino humano, a história e a sociedade. Várias de suas obras figuram no rol das mais importantes da literatura universal, como os Solilóquios, as Confissões e A cidade de Deus.

Esta última, em particular, influenciou decisivamente os rumos políticos e as práticas sociais da cristandade medieval.

No campo da filosofia cristã, Santo Agostinho supera definitivamente as vacilações, as dúvidas e as desconfianças em relação à possibilidade de dar acolhida, no cristianismo, à filosofia antiga, inclinando-se decididamente pela posição dos Santos que eram as autoridades da época. Manifesta também sua preferência pelo platonismo, considerando-o a mais pura e luminosa filosofia da antiguidade, embora o seu conhecimento direto de Platão se reduzisse ao Timeu (sobre a história do mundo, o cosmos, a alma) e o Fédon (ou, Da Imortalidade da alma), predominando, portanto, no referido estudo de Platão, somente as fontes secundárias.

Sua trajetória intelectual, antes de chegar ao cristianismo, passa pelo maniqueísmo146 e termina no platonismo, largamente influenciado pelo ceticismo da Nova Academia. Daí o seu empenho, após a conversão, em superar o ceticismo daquela escola como incompatível com a verdadeira doutrina de Platão, atribuindo a Antíoco, filósofo ceticista da nova era medieval, a responsabilidade de ter profanado o platonismo ao introduzir nele elementos estóicos. Eis, portanto, a razão da referida responsabilidade, que Santo Agostinho atribui a Antíoco.

Antíoco, depois de freqüentara escola do acadêmico Filon, e de Estóico Mnesarco, entrou como auxiliar e membro na Antiga Academia, então vazia de defensores e segura pela inexistência de inimigos, introduzindo nela não sei que funesta doutrina tomada das cinzas do estoicismo, profanando assim os ensinamentos de Platão. Porém Filon, retomando as mesmas armas, resistiu até sua morte, tendo o nosso Túlio destruído o que restou, não admitindo que fosse manchado ou arruinado o que tanto amou em vida. Por isso, não muito depois dessa época, serenada toda a obstinação e pertinácia, e removidas as nuvens do erro, a verdadeira doutrina de Platão, que é a mais pura e luminosa da filosofia, voltou a brilhar, sobretudo em Plotino, filósofo platônico tão semelhante ao mestre que se pensou que ambos tivessem convivido, embora, pela distância do tempo que os separa, seja preferível dizer que aquele reviveu neste”.147 (CONTRA ACADÊMICO, 1996, p.18)

Assim, para superar aquela funesta doutrina do estoicismo, implantada por Antíoco, quando foi auxiliar e membro na antiga academia, Agostinho retoma a dicotomia platônica referente ao mundo sensível e ao mundo inteligível das idéias e substitui este último pelas idéias divinas. Segundo a teoria da iluminação, o homem recebe de Deus o conhecimento das verdades eternas: tal como o sol, Deus ilumina a razão e torna possível o pensar concreto.

146 MANIQUEÍSMO é uma Religião dualista do século III, fundada por Mani, que fundiu elementos persas,

cristãos e budistas numa nova religião de destaque. Ela foi combatida no Ocidente tanto pela igreja cristã quanto pelos imperadores romanos como uma heresia cristã virulenta. A oposição foi especialmente forte na África sob o comando de Agostinho, que durante nove anos havia sido um ouvinte. Agostinho desafiava o maniqueísmo, ao negar o apostolado de Mani e ao condenar a rejeição da verdade bíblica por este.

Santo Agostinho vai influenciar diretamente toda a filosofia medieval, principalmente os seis primeiros séculos subseqüentes. Somente no século IX é que se desenvolve no seio da filosofia cristã, uma outra escola filosófica, denominada Escolástica, que teve seu apogeu no século XIII e começo do XIV, quando entra em decadência. A Escolástica148 mantém a aliança entre a razão e a fé, sob aquela máxima de ser sempre considerada a “serva da teologia”.

O pensamento de Santo Agostinho deixou formulada e sistematizada a indicação de um norte para a solução dos conflitos epistemológicos, das relações entre a Razão e a Fé, que será o problema fundamental da escolástica medieval. Ao mesmo tempo demonstra claramente sua vocação filosófica na medida em que, ao lado da fé na revelação, deseja ardentemente penetrar e compreender com a razão o conteúdo da mesma. Entretanto, defronta-se com um primeiro obstáculo no caminho da verdade: a dúvida cética, largamente explorada pelos acadêmicos. Como a superação dessa dúvida é condição fundamental para o estabelecimento de bases sólidas para o conhecimento racional, Santo Agostinho, antecipando o cogito cartesiano, apelará para as evidências primeiras do sujeito que existe, vive, pensa e duvida. Assim, pois, o mesmo se expressa sobre as conjecturas desse referido projeto:

Mas para dar a conhecer rapidamente o meu projeto, qualquer que seja a sabedoria humana, vejo que ainda não a alcancei. Contudo, como ainda estou com 33 anos de idade, julgo um dever não desesperar de poder alcançá-la um dia, pois, tendo desprezado os bens que os mortais mais apreciam, decidi consagrar-me à sua investigação. E como os argumentos dos acadêmicos constituíam um sério obstáculo para o meu objetivo, fortaleci-me contra eles com esta discussão, pois ninguém duvida que uma dupla força nos impele à busca do conhecimento: a autoridade e a razão. Para mim é certo que nunca devo afastar-me da autoridade de Cristo, pois (não) encontro outra mais firme. Quanto às questões que devem ser investigadas criticamente pela razão – pois me encontro em tal situação que, a respeito de tudo o que seja verdadeiro, desejo impacientemente não apenas aceitar pela fé, mas também compreender pela razão – espero encontrar entre os platônicos o que não esteja em contradição com a nossa fé.149 (CONTRA ACADÊMICO, 1996, p.20)

147 Contra acadêmico, s/d.: III. In: REZENDE, Antônio (org.). Curso de Filosofia. - Rio de Janeiro: Zahar, p. 18.

1996.

148 Escolasticismo era uma tendência filosófica, teológica e metodológica que foi desenvolvida durante o período

medieval. Esta abordagem insistia num sistema claro e definitivo, ou seja, uma síntese de idéias ou doutrina. Havia grande influencia dos sistemas de lógica derivados dos gregos (especialmente Aristóteles) e romanos e muita confiança na razão humana. Após a sistematização, exigia-se uma pura memorização do conjunto de dogmas.

149 Contra acadêmico, s/d.: III. In: REZENDE, Antônio (org.). Curso de Filosofia. - Rio de Janeiro: Zahar, p. 20.

Em relação ao Platonismo, o posicionamento de Santo Agostinho não é meramente passivo, pois o reinterpreta para conciliá-lo com os dogmas do cristianismo, convencido de que a verdade entrevista por Platão é a mesma que se manifesta plenamente na revelação cristã. Assim, apresenta uma nova versão da teoria das idéias150, modificando-a em sentido cristão, para explicar a criação do mundo.

A evolução de Santo Agostinho não terminara logo após a sua conversão ao cristianismo. Pois, mal instruído sobre a fé que abraçava, restava-lhe conhecê-la melhor e depois, por sua vez, ensiná-la. Nesse sentido, isso devia ser a obra de toda a sua vida, mas, se nos ativermos às suas idéias151 filosóficas, poderemos dizer que Agostinho viverá do patrimônio neoplatônico acumulado no primeiro entusiasmo dos anos 385-386. Nunca o aumentará; utiliza-lo-á com cada vez menos boa vontade à medida que envelhecer; mas toda a sua técnica152 filosófica provirá dele. Dessa forma, será uma diferença radical que distingui- lo-á, porém, dos neoplatônicos, desde o mesmo dia da sua conversão.

Uma má influência que tivera antes de se converter ao cristianismo, fez com que os maniqueístas lhe prometessem levá-lo à fé nas Escrituras pelo conhecimento racional, ou seja, da razão à fé. Todavia, Santo Agostinho, ao contrário desse pensamento humanístico, propor- se-á, a partir de então, alcançar pele fé nas Escrituras, a inteligência do que elas ensinam, ou seja, da fé à razão. Sem dúvida, um certo trabalho da razão deve preceder o assentimento às verdades de fé. Muito embora estas não sejam demonstráveis, pode-se demonstrar que convém crer nelas, e é a razão que se encarrega disso. Portanto, há uma intervenção da razão que precede a fé, mas há uma segunda, que a segue.

A partir desses acontecimentos, o pensamento de Aristóteles volta a predominar entre os filósofos contemporâneos daquela época, através do principal tópico de seu livro - a Metafísica153. Dessa forma, nota-se que havia de aparecer em meio a eles - o otimismo metafísico em que essa doutrina da criação se inspira. Por mais profundamente que tenha sofrido a influência do platonismo, Agostinho não admitiu um só instante que a matéria fosse

150 REZENDE, Antônio (org.). Curso de Filosofia. - Rio de Janeiro: Zahar, 1996. 151 Ibidem.

152 REZENDE, Antônio (org.). Curso de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.

153 É o ramo da filosofia que estuda a natureza ulterior da realidade. O termo deriva da prática de os

comentaristas chamarem o livro de Aristóteles sobre tais tópicos a Metafísica, porque veio depois, (meta) do

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