2. L'INADEQUATION DU COMMERCIUM
2.3. L'insuffisance du commerce
2.3.2. Relation sans cause et logique associative de l'imagination
Pertencer a uma comunidade religiosa pode não ser tão fácil se uma pessoa é casada com outra não pertencente à mesma tradição religiosa. As comunidades tendem a reforçar a idéia de que todos os que compõem a família devem ser membros da mesma tradição religiosa. Há uma rejeição aos casais mistos, uma rejeição não explícita, que pode ser, ou é, muitas vezes, inconsciente. Esta é uma forma de preservar a própria cultura.
É importante, ao se falar de religião, distinguirem-se as duas entidades presentes no termo: a instituição religiosa, com sua estrutura organizacional e doutrinas; outro aspecto ou nível da religião é a comunidade religiosa, com suas tradições informais. As tradições informais não são sistematizadas, mas são transmitidas de geração em geração e podem ser mais poderosas que as tradições formais.
Para entendermos essa tradição informal, vamos recorrer a Clifford Geertz (2009), o qual discorre sobre o senso comum como aquele conhecimento empírico e não sistemático, passado lentamente de uma geração a outra. O autor considera também que o senso comum é compreendido como um sistema cultural pela sua forma, e não pelo conteúdo. O conteúdo do senso comum é heterogêneo, isto é, pode variar de sociedade para sociedade, podendo também variar dentro de uma mesma sociedade. Mas o que distingue o senso comum são os “sons e os vários tons geralmente reconhecidos como pertencentes ao senso comum” (GEERTZ, 2009, p. 140).
Como sistemas culturais, o bom senso enreda o indivíduo na teia de premissas do grupo social a que pertence, premissas essas que pretendem direcionar a vida do sujeito e, nesse sentido, podem ser tão autoritárias quanto qualquer outro sistema cultural formal, como as ciências, por exemplo. “O senso comum tem a pretensão de ir além da ilusão para chegar à
verdade, ou, como costumamos dizer, chegar às coisas como elas realmente são” (GEERTZ, 2009, p. 128).
Para entendermos que tons são esses que nos fazem reconhecer o bom senso, Geertz os chamou de “quase-qualidades”, uma vez que ele reconhece não serem os melhores termos para qualificar o senso comum, mas que nos ajudarão a nos acercar desse conceito. As quase- qualidades são a naturalidade, a praticabilidade, a leveza, a não metodicidade e a acessibilidade. Geertz também reconhece que as qualidades atribuídas ao senso comum não têm nenhuma relação com a questão em si, mas com aquilo que se atribui a ela. Ou seja, quando se atribui naturalidade a um tema eleito pelo senso comum, dá-se a ele um “ar de ‘isto é óbvio’, um jeito de ‘isto faz sentido’” (GEERTZ, 2009, p. 129); é assim que as coisas são. Este atributo da naturalidade não é intrínseco da questão em si, mas é depositado nela. Portanto, aquilo que é determinado pelo senso comum em um determinado contexto social pode apresentar-se de outra forma em outro contexto. Como exemplo deste ponto, Geertz descreve como três sociedades lidam de forma diferente com a questão da intersexualidade, e cada qual considera natural a forma de ver a questão. Os norte-americanos vêm com horror os intersexuais, os navajo os valorizam e os pokot os consideram de forma bastante causal(?). Assim também, em nossa sociedade é natural que pessoas se casem com outras da mesma cultura, ou, dito de outra forma, não é natural que pessoas se casem com pessoas de cultura diferente. “O bom senso não é aquilo que uma mente livre de artificialismo apreende espontaneamente; é aquilo que uma mente repleta de pressuposições [...] conclui” (GEERTZ, 2009, p. 127).
Geertz utiliza-se da negativa para explicar a “praticabilidade” do bom senso, isto é, a falta de bom senso. Ele diz que está é a característica mais facilmente observável porque
“[...] normalmente, quando dizemos que um indivíduo , uma ação, ou um projeto demonstram falta de bom senso, o que queremos realmente dizer é
que não são práticos. O indivíduo, mais cedo ou mais tarde, vai ter que despertar para a realidade, a ação está caminhando rapidamente para o fracasso e o projeto não vai funcionar” (GEERTZ, 2009, p. 132).
Ou seja, os preceitos que orientam a ação, o comportamento, a atitude vêm de uma sabedoria vivenciada e testada por gerações. Se bem que a “praticalidade” do bom senso, e também sua “naturalidade” são qualidades que o próprio bom senso outorga aos objetos, e não que os objetos outorgam ao bom senso (GEERTZ, 2009, p. 134).
Disso decorre que, em casamentos interculturais, há uma expectativa de que venham a fracassar porque vão contra o bom senso. Na experiência da autora, em contato com casais em relações interétnicas, outras inter-religiosas, que vieram a se separar e com pessoas de suas relações pessoais, surge a seguinte fala “isto não podia dar certo mesmo” ou “deveria se casar com alguém da mesma religião” Mais que expectativa pode ser um desejo inconsciente de que a união fracasse e de que o próprio fracasso se torne uma confirmação de que aquele projeto era contrário ao que determina o bom senso.
Geertz chama de leveza aquela qualidade que lembra as pessoas daquilo que já sabem. “O mundo é aquilo que uma pessoa bem desperta e sem muitas complicações acha que é” (GEERTZ, 2009, p. 135). O senso comum apresenta-se sem sutilezas ou dissimulações. Não precisa ser descoberto ou interpretado. É a “obviedade do óbvio”, como diz Geertz. Essa obviedade ou leveza, para usar o termo escolhido pelo autor, não está na questão, mas nos olhos de quem vê. Geertz (2009, p. 136) diz: “Comecei a perceber que até as coisas que são mais evidentes só são evidentes aos olhos dos que as estão vendo.”
Geertz (2009, p. 137) diz que “o saber do bom senso é, descaradamente e ostensivamente, ad hoc”, isto é, o saber do senso comum não é universalizado. Não é um saber construído metodologicamente orientado, mas uma verdade cunhada para uma questão específica. Para designar essa qualidade do senso comum, Geertz usa a expressão ‘não metodicidade’. Ele diz que o bom senso vem “na forma de epigramas, provérbios, obter dicta,
piadas, relatos, contes morals – uma mistura de ditos gnômicos – e não em doutrinas formais, teorias axiomáticas, ou dogmas arquitetônicos” (GEERTZ, 2009, p. 137). Há ainda outras formas em que o senso comum é expresso, mas sempre aparece como uma sentença imperativa.
A última quase-qualidade, afirma Geertz (2009, p. 138), “surge como uma conseqüência lógica das outras na medida em que estas são reconhecidas. A acessibilidade é simplesmente a presunção, na verdade a insistência, de que qualquer pessoa, com suas faculdades razoavelmente intactas, pode captar as conclusões do bom senso, e, se estas forem apresentadas de uma maneira suficientemente verossímil, até mesmo adotá-las.” Não há como alguém, em sã consciência, em princípio, escolher qualquer outro caminho que não aquele ditado pelo senso comum.
“O bom senso representa o mundo como um mundo familiar, que todos podem e devem reconhecer, e onde todos são, ou deveriam ser, independentes.” (GEERTZ, 2009, p. 139) Entretanto, o bom senso, ao determinar “como as coisas são”, estreita a visão de forma que não se possam ter outras perspectivas. Isso diminui a ansiedade, protege das dúvidas, mas não torna as pessoas independentes. Ao contrário, as pessoas tornam-se submetidas às determinações do senso comum, que são tomadas como uma verdade irrefutável.
Em resumo, o senso comum
pode ser questionado, discutido, afirmado, desenvolvido, formalizado, observado, até ensinado, e pode também variar dramaticamente de uma pessoa para outra. Em suma, é um sistema cultural, embora nem sempre muito integrado, que se baseia nos mesmos argumentos em que se baseiam outros sistemas culturais semelhantes: aqueles que os possuem têm total convicção de seu valor e de sua validade. Neste caso, como em tantos outros, as coisas têm o significado que lhes queremos dar (GEERTZ, 2009, p. 116).