A compreensão dos factores determinantes da formação dos hábitos alimentares na infância torna-se decisiva para uma intervenção efectiva na manutenção de um padrão alimentar saudável. Neste período da vida, a família surge como uma referência indispensável, por se assumir como princípio que é no espaço familiar que as necessidades básicas são satisfeitas, ensinadas e aprendidas, particularmente no que diz respeito à alimentação e padrões de consumo.
Neste processo concorrem factores de regulação fisiológica e factores ambientais múltiplos, como o contexto cultural e socioeconómico da família, os seus hábitos e comportamentos face à alimentação e outros, funcionando os pais ou cuidadores, como mediadores e modelos desta aprendizagem (Valle & Euclydes, 2007). A capacidade da criança para gerir a ingestão alimentar exige desta forma, estratégias que harmonizem as informações fisiológicas do meio interno, com as exposições nutricionais do ambiente exterior, num processo que se inicia em completa dependência e evolui para a autonomia de forma progressiva.
De entre os determinantes fisiológicos da escolha alimentar destaca-se a sensação de fome e saciedade que no passado a fisiologia apontava como principais responsáveis pela alimentação, emergindo, após os estudos de Pavlov, o papel da aprendizagem/condicionamento na ingestão alimentar.
É hoje mundialmente aceite que uma alimentação equilibrada envolve a ingestão de uma variedade e proporcionalidade de alimentos, o que implica o contacto e habituação a novos alimentos e sabores. Essa habituação constitui num dos processos primários de aprendizagem, que demonstra desde cedo que a experiência tem um papel fundamental na formação dos padrões de aceitação ou recusa de certos alimentos (Birch, 1999). Estas experiências alimentares precoces têm assim uma influência decisiva, não só e especificamente nos padrões alimentares, mas igualmente no desenvolvimento socio-emocional da criança e na qualidade da relação pais-filhos. Isto porque se admite que um dos principais focos de interacção entre pais e filhos nos primeiros anos de vida da criança é, no geral, o momento da refeição, iniciando-se este processo com a amamentação (Ramos & Stein, 2000). Estudos recentes identificaram como influência mais remota o período intra-uterino, demonstrando que os filhos tendem a aceitar melhor os alimentos consumidos pela mãe durante a gestação, conduta que tende a repetir-se mais tarde enquanto estilo alimentar do grupo social (Sullivan & Birch, 1994).
Tal como outras habilidades sensoriomotoras, a alimentação é uma habilidade que amadurece durante o processo de crescimento dos primeiros anos de vida. (Ramsay, 2004)
O acto de alimentar acarreta uma alta carga emocional para a mãe, cuja responsabilidade primária, aos olhos da família, da sociedade e da cultura que a cercam, é garantir o crescimento e o bem-estar inicial de seu bebé. Quando a mãe se sente capaz de responder aos sinais da criança, diferenciando o significado dos seus apelos e actuando de forma consistente, ajuda o bebé a organizar-se perante as diferentes necessidades, como é o caso da sensação de fome e saciedade. Esta interacção constitui um pressuposto determinante de relações estáveis e satisfatórias (Gomes- Pedro et al., 2005).
Durante a amamentação, a expressão oro facial do bebé é interpretada pelos pais como resposta de prazer ou insatisfação, originando respostas nos pais, num sistema de interacção e de aprendizagem recíproca sobre o processo alimentar e sobre outros comportamentos da criança.
O desenvolvimento do paladar, enquanto experiência ligada ao sabor, inicia-se durante a amamentação, dadas as características sensoriais diversas do leite materno, que sofre modificações na sua composição à medida que a lactação progride. Esta característica tem sido associada à melhor aceitação dos alimentos complementares no tempo oportuno (Giugliani & Victoria, 2000).
Aquando da introdução da diversificação alimentar, inicia-se a aprendizagem de novos sabores e consistências, acompanhados frequentemente por sentimentos de stress e ansiedade por parte dos pais. Características da mãe e da família e expectativas sobre o tamanho da criança e tipo de alimentos a utilizar, estão habitualmente na base desta preocupação.
Neste período, a criança está preparada para a variedade, componente essencial a uma dieta de qualidade. Através da ingestão repetida e variada, que lhe permite conhecer os diferentes sabores, a criança exercita o seu paladar, aprendendo a gostar e a associar os sabores com a reacção afectiva do contexto social e com a própria satisfação fisiológica da alimentação.
Contudo, quando as crianças estão a adquirir novas habilidades e são desafiadas por novos alimentos ou novas expectativas em relação às refeições, revelam comportamentos típicos e cerca de 25% a 30% apresentam mesmo problemas alimentares, habitualmente moderados e transitórios (Linscheid, Budd & Rasnake, 1995), como citado em Black & Hurley (2007). Justificações fisiológicas e psico-emocionais estão na base destes comportamentos alimentares, evidenciados por esforços de autonomia e independência, à medida que as crianças tentam fazer as coisas sozinhas, assim como pelas suas particularidades de temperamento e capacidades de regulação (DeGangi, Porges, Sickel & Greenspan, 1993, como citado em Ramsay, 2004).
Por outro lado, o crescimento sendo dinâmico e contínuo apresenta características específicas em cada fase, como de ganho acelerado, como é o caso do período intra-uterino, primeiro ano de vida e início da puberdade; de desaceleração, que acontece do primeiro ao segundo ano de vida e final da puberdade; e fases de menores ganhos, do segundo ano de vida até ao início da puberdade. Esta última fase acompanha-se habitualmente de diminuição do apetite e neste
45 contexto é designada de anorexia fisiológica (Portugal, DGS, 2005c). Para descansar os pais, alguns marcos permitem obter de forma rápida, valores médios da estatura e do peso nos períodos de maior crescimento da criança nascida de termo: esta duplica o peso de nascença entre os 5-6 meses, triplica ao ano de idade e quadruplica aos 2 anos. Relativamente à estatura, aumenta cerca de 50% aos 12 meses, duplicando até aos 4 anos. Aos 2 anos de idade a criança terá cerca de metade da sua estatura adulta (Carmona da Mota, 2002).
Assim, o comportamento alimentar durante os primeiros 5 anos de vida está associado fortemente a estas características de crescimento, necessitando de respostas que respeitem, por um lado o crescimento e desenvolvimento intenso dessa fase da vida, nomeadamente em requisitos de qualidade, quantidade, frequência e até consistência, mas por outro que respeitem as características inconstantes desse processo, o que implica uma adequação das atitudes e práticas alimentares, perante as diferentes fases de apetite e preferências que lhe estão habitualmente associadas.
A partir do segundo ano de vida, a criança distrai-se facilmente à mesa, principalmente se houver demasiados estímulos e, devido à sua enérgica percepção, começa a escolher o que vai comer (fase selectiva). É durante este período que os pais, preocupados com o estado ponderal, tendem a oferecer apenas os alimentos que a criança aceita, o que conduz a pratos pouco variados (Macedo, 1999). Para adequar a fase de desenvolvimento ao comportamento alimentar é importante que a família continue a oferecer a refeição completa, mesmo perante situações de recusa e, sem forçar para que coma, mantenha todos os alimentos no prato.
Entre os 3 e 4 anos são habituais as manias e os caprichos, associar o sabor com o aroma, consistência e cor, fazer birras e excluir por exemplo a cor verde, ou exigir que os alimentos sejam servidos separados, sem se misturarem uns nos outros, ou mesmo recusar, por sistema, novos itens alimentares. A recusa em experimentar alimentos novos (neofobia) e optar por ingerir apenas os alimentos preferidos é característica da infância e tem como resultado uma dieta monótona, limitada e pouco diversificada, típica dos “picky eaters” ou “esquisitos” (Pliner & Loewen, 1997). Porém, a investigação tem revelado que a exposição repetida pode reduzir a neofobia alimentar: Birch, McPhee, Shoba, Pirok & Steinberg (1987), num estudo realizado com crianças em idade pré-escolar, verificaram que os alimentos não devem ser apenas percebidos visualmente, ou pelo odor, é necessário prová-los, mesmo que em pequenas quantidades, para que se produza a sua aceitação. Os autores verificaram que perante um novo sabor, a aceitação do alimento pode ocorrer somente após 12-15 apresentações, o que muitas vezes determina a desistência dos pais, justificando que a criança não gosta.
Portanto, nesta fase, os pais devem manter-se firmes em servir e manter os alimentos no prato e estratégias como envolver as crianças na confecção das refeições pode ser um incentivo para melhorar as suas escolhas, uma vez que nesta idade a criança gosta de ajudar a cozinhar, a
arrumar e a levantar a mesa. A partir dos 5 anos, a exposição à publicidade e ao ambiente exterior à família tende a ter um impacto importante nas suas escolhas (Fisher & Birch, 2002).
Perante os comportamentos referidos, tentativas dos pais (sobretudo da mãe) em aumentar a ingestão de nutrientes, alimentando a criança mais frequentemente ou forçando a ingestão, tendem a resultar em experiências stressantes para ambos. Embora esses esforços possam inicialmente funcionar bem para a manutenção ou para um bom ganho de peso, tendem a tornar-se ineficazes com o tempo, e passam a prevalecer interacções desajustadas e gestão inadequada do comportamento nas horas da refeição.
Estratégias de excessivo controlo externo, como o incitamento a comer, o ritmo da alimentação, a restrição de certos alimentos e forçar ou coagir a criança a comer, resultam habitualmente em reacções de oposição, diminuindo a preferência da criança por esses alimentos (Birch et al., 2001; Faith et al., 2004). Estas práticas alimentares controladoras têm sido associadas a uma menor capacidade de auto-regulação da criança, podendo impedir o autocontrolo, responsável pela sensação de fome e saciedade, com implicações no comportamento alimentar e elevando o risco de obesidade futura (Birch et al., 2001). Também a utilização dos alimentos como recompensa ou castigo, tem sido associada a efeitos adversos nas suas preferências e mais tarde a perturbações do comportamento alimentar e obesidade, pois levam as crianças a associar a sensação de saciedade com situações de frustração e conflito (Black & Hurley, 2007).
De facto o efeito/consequência pós-ingestão tem sido considerado como um bom preditor da aceitação dos alimentos quando esta consequência é positiva, ou de aversão quando esta consequência é negativa (Ramos & Stein, 2000). Este processo recíproco constitui a base para a vinculação emocional, ou apego entre crianças e pais, essencial para um funcionamento social saudável. Havendo uma ruptura nesta comunicação, caracterizada por interacções inconsistentes e não responsivas, o vínculo pode não se consolidar e a alimentação pode tornar-se uma ocasião para disputas perturbadoras.
Tal como os estilos educativos parentais, os estilos alimentares reflectem o padrão inter- relacional que ocorre durante as refeições entre pais e crianças (Baumrind e Rearing, 1989) como citado em Black & Hurley (2007), e que descreve quatro estilos alimentares parentais:
sensível/responsivo, controlador, tolerante e negligente. O primeiro, protector e estruturado está
associado ao estilo parental autoritativo, característico dos pais/cuidadores que estabelecem com a criança uma relação com solicitações claras e interpretação recíproca durante as refeições. Pelo contrário, o estilo controlador, apesar de estruturado é pouco protector, típico dos pais autoritários e que utilizam estratégias exigentes ou restritivas para controlar as refeições. O estilo negligente distingue-se do tolerante pela pouca ou nenhuma reciprocidade entre cuidador e criança durante a
47 refeição, ambiente negativo e ausência de estrutura ou de rotina de alimentação. Apesar de diferentes, ambos os estilos permitem que as crianças tomem todas as decisões sobre as refeições, nomeadamente quando e o que vão comer (Hughes, Power, Orlet Fisher, Mueller, & Nicklas, 2005). Sem a orientação dos pais, as crianças tendem a fazer escolhas pouco saudáveis, dada a sua predisposição para preferir sabores doces e salgados e não por alimentos variados e equilibrados nutricionalmente (Birch, 1999). O contacto com alimentos calóricos, promove uma consequência fisiológica de saciedade, que associada ao sabor, aumenta a sua aceitação e preferência (Ramos & Stein, 2000), o que está na base da apetência por este tipo de alimentos denominados fast-food.
Por tudo isto, o contexto ambiental onde as refeições ocorrem constitui um factor determinante na aprendizagem alimentar. Disfrutar das refeições em família, na presença dos irmãos, amigos e dos pais que lhe servem de modelos e que a elogiam ou chamam à atenção para o comportamento à mesa, influencia positivamente a experiência alimentar por parte da criança.
Assim, esta partilha à mesa, as características socio-culturais da família no que respeita à alimentação, os seus conhecimentos de nutrição, a selecção e tipo de confecção dos alimentos caracterizam o padrão alimentar familiar e têm sido reconhecidos como tendo uma influência importante nas escolhas e padrões alimentares da criança e consequentemente no seu peso (Fisher & Birch, 1995).
Identificar as características e padrões alimentares da família tomou uma nova dimensão face ao aumento da incidência do excesso e peso na infância verificado nas últimas décadas. Contextualizar a dimensão desta problemática no mundo e em Portugal é o objectivo do capítulo seguinte.
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