Retomamos neste capítulo estudos sobre as vogais do PB e do polonês cujas análises oferecem contribuição fundamental para a compreensão do sistema vocálico de cada língua do ponto de vista fonológico e fonético e, portanto, para a análise dos dados deste estudo. O capítulo apresentou também uma descrição dos fones vocálicos registrados para o polonês falado em Áurea e na Serra e discutiu resultados de estudos sobre processos de variação fonético-fonológica presentes em variedades do português de contato com polonês.
A partir da caracterização das vogais do português e do polonês, identificamos diferenças entre os segmentos presentes em cada sistema, como a ausência de ditongos decrescentes orais no sistema fonológico do polonês, segmentos presentes no PB. Os dois sistemas se diferenciam também pela presença de vogais médias altas /e, o/ no português e sua ausência no polonês, diferença que entendemos estar diretamente relacionada ao processo variável de abaixamento das vogais médias /e, o/ tônicas e pretônicas em variedades do português de contato com o polonês, conforme explicitamos na Introdução deste estudo.
Os resultados da análise acústica das vogais orais tônicas no polonês apresentada por Majewski e Hollien (1967) atestam a presença de seis segmentos vocálicos orais, [i, , ɛ, a, , u]. Vimos, no entanto, que há uma diferença na literatura consultada quanto à presença do alofone [e], pois, segundo Jassem (2003), /ɛ/ realiza-se como [e] entre consoantes palatais, embora esse aspecto não seja apresentado em outras descrições do polonês.
Considerando-se os resultados de descrições acústicas das vogais orais tônicas para diferentes variedades do PB (LIMA, 1991; PEREIRA, 2001; MORAES; CALLOU; LEITE, 1996; RAUBER, 2008; ESCUDERO et al., 2009; MEIRELLES, 2011; MIRANDA; MEIRELES, 2012), identificamos aspectos fundamentais para o desenvolvimento da análise acústica dos dados da amostra considerada no presente estudo. Constatamos que a análise de F1 e F2 é suficiente para caracterizar as vogais orais tônicas e verificamos que nenhum dos estudos resenhados menciona a existência de processo de abaixamento das vogais médias [e, o] em pauta tônica. Somente o estudo de Pereira (2001), referente a dados de Florianópolis,
registra os pares de vogais médias [e, ɛ] e [o, ɔ] ocupando pontos relativamente próximos no espaço acústico, no entanto, conforme mencionado, a proximidade se deve à elevação considerável das médias baixas [ɛ, ] e não à produção de [e, o] com abaixamento, processo que, conforme mencionamos, parece restringir-se a variedades do português em contato com o polonês.
Quanto às características fonéticas dos ditongos, tendo em vista a alteração do gesto articulatório inerente à sua produção (LADEFOGED; MADDIESON, 1996), a proposta Kent e Read (1992) é de que as medições de F1 e F2 em ditongos sejam efetuadas nas duas porções que os compõem, núcleo e glide, a partir das quais é possível identificar a trajetória dos segmentos no espaço acústico. Esse método será utilizado na análise dos dados de ditongos do presente estudo, conforme explicitaremos detalhadamente no Capítulo 4, referente à Metodologia.
Ainda no que se refere aos ditongos, estudos sociolinguísticos descrevem a produtividade e os condicionamentos da realização variável da monotongação de /ai, ei, ou/ em diferentes variedades do português gaúcho (CABREIRA, 1996; AMARAL, 2005; TOLEDO, 2011). Os resultados desses estudos relacionam-se à análise empreendida nesta tese especificamente com relação aos ditongos /ei/ e /ou/, segmentos em que se registra abaixamento variável da vogal resultante de monotongação, conforme exemplos apresentados por Vieira (1998) para dados de bilíngues português-polonês do Paraná. As análises acústicas de ditongos para diferentes variedades do PB mostram que a realização monotongada de /ei/ e /ou/ apresenta variação em sua constituição acústica, podendo apresentar-se semelhantemente à vogal simples, [e, o], respectivamente, ou com forma intermediária, semelhante ao ditongo (CRISTOFOLINI, 2011; HAUPT; SEARA, 2012; BARBOSA; MADUREIRA, 2015). No que se refere ao ditongo [ej], Barbosa e Madureira (2015) registram que, em vista da presença do glide, a vogal desse ditongo é mais anterior do que a vogal [e] em dados do PB, característica cuja compreensão é relevante para a análise dos dados da presente tese, conforme será apresentado no Capítulo 5, seção 5.2. Os autores observam também que podem haver diferenças na composição formântica ao se comparar o monotongo e a mesma vogal quando núcleo de ditongo oral, discussão com a qual o presente estudo contribui, tendo em vista que analisa dados de vogais médias [e, o] e dos ditongos [ej], [ew], [oj] e [ow].
Quanto às características das vogais nasalizadas, as descrições de Sousa (1994), Seara (2000) e Barbosa e Madureira (2015) referentes às fases das vogais nasais, fase oral, fase nasal e fase de murmúrio, são relevantes para a análise das vogais nasais realizada neste estudo,
conforme abordaremos detalhadamente no Capítulo 4. Outra característica importante para a caracterização das vogais nasais diz respeito ao resultado obtido por Sousa (1994) de que as vogais [e] e [õ] apresentam F1 mais alto do que as vogais orais [e] e [o]. Complementarmente, conforme o estudo de Seara (2000), a vogal [e] mostra diferenças significativas tanto em F1 quanto em F2, de modo que é mais baixa e mais anterior do que a sua contraparte oral. O entendimento dessas características também é relevante para a discussão dos resultados do estudo acústico das vogais médias tônicas deste estudo, apresentada no Capítulo 5, seção 5.2.
No que se refere à variação das pretônicas, os principais resultados de estudos sociolinguísticos sobre o alçamento variável das vogais médias pretônicas por harmonia vocálica no sul do Brasil (BISOL, 1981; SCHWINDT, 1995, 2002; CASAGRANDE, 2004; SILVA, 2012; FERNDANDES, 2014) mostram que se trata de um processo fonético de natureza neogramática, de uso moderado, que apresenta principalmente condicionamentos de natureza linguística. Os resultados dessas pesquisas fornecem as hipóteses para a análise do alçamento das vogais médias pretônicas por harmonia vocálica na fala dos descendentes de poloneses, tanto com relação ao papel de variáveis linguísticas, como contiguidade, tonicidade, homorganicidade, atonicidade, nasalidade, contexto precedente e seguinte, localização morfológica, quanto ao papel das variáveis extralinguísticas faixa etária, sexo e escolaridade, conforme será explicitado no Capítulo 4, Metodologia.
No que se refere à presença de vogais médias baixas pretônicas, os estudos sociolinguísticos sobre dados de fala de variedades do norte (FREITAS, 2001) e nordeste do Brasil (SILVA, 2009) mostram que a harmonização vocálica é atuante para a emergência de vogais médias baixas, médias altas, e de vogais altas em pauta pretônica. Os resultados desses estudos permitem a formulação de hipóteses referentes aos condicionamentos do processo de abaixamento das vogais médias pretônicas na fala de descendentes de poloneses analisado nesta tese, especificamente quanto ao papel da vogal da sílaba seguinte, das consoantes adjacentes e da atonicidade da vogal pretônica, conforme será explicitado detalhadamente no Capítulo 4, referente à Metodologia.
A descrição das vogais do polonês falado em Áurea e na Serra do ponto de vista da fonética articulatória, realizada a partir de uma lista de 210 palavras, permitiu verificar a ocorrência de 14 fones vocálicos para o polonês de Áurea e de 17 fones vocálicos nos dados em polonês da Serra. A diferença quanto ao número de segmentos entre os dados de cada comunidade se deve à presença, nos dados de polonês da Serra, da vogal alta anterior frouxa [], da vogal média alta anterior abaixada [e], e da vogal alta posterior frouxa [], segmentos
que não foram registrados para os dados de Áurea. Na fala de ambos os informantes, verificamos a presença de vogais médias altas [e, o] e da vogal média alta com nasalização [e], registro que permite entender que a variedade do polonês falada em Áurea e na Serra sofre influência da estrutura sonora do português quanto à realização das vogais médias.
A partir dos resultados de dois estudos sobre variedades do português de contato com o polonês (DRUSZCZ, 1983; VIEIRA, 1998), vimos que nessas variedades, conforme os autores, ocorrem diferentes processos fonético-fonológicos motivados pelo bilinguismo português-polonês, entre os quais a realização variável das vogais médias altas /e, o/ como médias baixas [ɛ, ], principalmente em pauta tônica. Confome mencionamos na Introdução, esses estudos registram a realização variável entre os pares de vogais médias tônicas na fala de bilíngues português-polonês, no entanto, não realizam análise quantitativa da produtividade e dos condicionamentos do processo. Entende-se, nesse sentido, que, considerando-se esses registros de abaixamento das vogais médias /e, o/ e a verificação de que o polonês e o português diferenciam-se quanto às vogais médias altas /e, o/, presentes no PB e ausentes no polonês, faz- se necessária a realização de análise sociolinguística do processo de abaixamento, empreendida nesta tese.
3 VARIAÇÃO LINGUÍSTICA E LÍNGUAS EM CONTATO
O presente estudo descreve e analisa processos linguísticos variáveis em dados de fala provenientes de comunidades gaúchas que vivenciam situação de contato entre o português e o polonês. Com o objetivo de apresentar os pressupostos teórico-metodológicos que fundamentam a pesquisa, este capítulo subdivide-se em duas seções principais: na seção 3.1 explicitamos os fundamentos da Sociolinguística Variacionista e da Sociofonética; na seção 3.2 discutimos os conceitos fundamentais sobre Bilinguismo e Línguas em Contato.