• Aucun résultat trouvé

Raffinement par la subdivision d’une face

5.2 Positivité du jacobien

5.2.4 Raffinement par la subdivision d’une face

A representação dos jovens militantes traz também um grupo resignado diante da morte de muitos companheiros e já preparados para a derrota iminente. Construídas décadas depois do período da ditadura militar, algumas películas representam os grupos militantes como já conscientes da prisão que os aguardava, como se os jovens destemidos estivessem se lançando em uma guerra em que já soubessem que não havia possibilidade de vitória.

Como sabiam os guerrilheiros que a mais ousada ação direta feita no Brasil, no caso do sequestro do embaixador norte-americano, não encurtaria o governo militar? Como saberiam os guerrilheiros rurais que os focos de guerrilha no Araguaia e no sertão da Bahia não levariam à revolução brasileira? O derrotismo presente nas considerações feitas pelos personagens envolvidos com a luta armada não condizem com o contexto e o lugar social em que os militantes se encontravam, convictos de que suas ações eram passos rumo à queda do regime dos generais e o início da revolução brasileira.

Os cineastas que produziram nos anos 90, vivendo em meio ao período de desmobilização política e do “fim das ideologias”, trazem a impotência como uma marca dos personagens que lutam contra os interesses políticos das mais altas esferas de poder do País. Os destemidos e obstinados personagens saem mortos, como é o caso de Joaquim Bolívar e Lamarca, desiludidos como o personagem Gustavo de O Príncipe, ou resignados, como no caso de Paulo do filme de Bruno Barreto.

As considerações feitas às ações de guerrilha pelos personagens dos filmes que tratam do tema trazem toda a tristeza de uma guerra que está perdida dede o início. É fundamental destacar que a noção de que as ações armadas iriam fracassar são construídas muito depois dos acontecimentos narrados, mas assim como Fernando Gabeira em seu livro, os filmes trazem a representação dos guerrilheiros já desiludidos e resignados. Segundo Noritomi,

É isso que de fato se observa quando vemos nos filmes as ponderações que os diversos protagonistas fazem de suas ações guerrilheiras, geralmente discutindo-as segundo a polarização entre irracionalidade e racionalidade, a posição romântica e isolada e a contenção pensada121.

Em O Que É Isso Companheiro? há uma cena em que Maria e Paulo, já após a bem sucedida captura do embaixador norte-americano, conversam em um aparelho de forma entristecida. Entre uma colherada e outra de sopa, Maria diz: “Dizem que no último disco do Gil, parece que ele

grita a palavra Marighella. No meio de uma canção”. Paulo pergunta: “E

daí?”. Maria responde: “E daí que eu acho isso uma coisa importante. É o

nome de um líder revolucionário nosso dentro da música popular brasileira. Eu acho isso uma coisa importante!”, Paulo questiona se o boato é verdadeiro e Maria responde que “parece que você tem que ouvir o disco de

trás pra frente que dá pra ouvir a palavra Marighella direitinho!”. Paulo diz à Maria que ninguém ouve um disco de trás pra frente e completa: “Foi um

sonho que não deu certo. A gente tá falando pro vento. Ninguém quer ouvir o que a gente tem pra dizer. Seu nome não é Maria. É Andréia”. A cena continua com o choro da personagem Maria.

Nesse ponto do filme, os participantes continuam se escondendo da polícia, até porque a ação de captura foi bem sucedida e os participantes continuam no Brasil. O mais complicado é entender como, após empreenderem uma ação direta pioneira, que serviu de exemplo para outros grupos guerrilheiros, os personagens estariam desiludidos com os rumos da luta armada. Os momentos que se seguiram à captura do embaixador foram sim de endurecimento da repressão, mas os objetivos do MR-8 haviam sido alcançados com a captura. Nessa cena a personagem Maria é ridicularizada por continuar acreditando em histórias duvidosas. A risibilidade da personagem Maria contrasta com a maturidade e racionalidade de Paulo, que mostra inclusive que a guerra fora perdida ao chamar Maria pelo seu nome verdadeiro.

Sobre essa visão crítica do personagem Paulo/Gabeira no filme e no livro que o inspirou, Daniel Aarão afirma que ela foi

(...) amadurecida coletivamente no longo exílio, é retrospectivamente localizada no fogo mesmo dos acontecimentos, concentrando-se no personagem principal. E, assim, Gabeira/guerrilheiro ressurge deslocado da ingenuidade ambiente, reescrito pelo autor com uma superconsciência das tragédias que haveriam de vir. Essa atitude distanciada, crítica, irônica, a maioria dos leitores a desejava, e assim foi possível reconstruir o passado se se atormentar com ele122.

Em Ação Entre Amigos, o diálogo entre Lúcia e Miguel é importante na percepção dessa análise crítica da guerrilha feita pelos próprios guerrilheiros. Ao contar para Miguel sobre a gravidez é iniciado um diálogo

122 REIS FILHO, Daniel Aarão. Um Passado Imprevisível: a construção da memória da

esquerda nos anos 60. IN: Versões e Ficções: o seqüestro da História. São Paulo: Editora Perseu Abramo, 1997 P. 35

sobre as dificuldades de se ter um filho e se dedicar às ações armadas ao mesmo tempo. Lúcia lhe pergunta: “Você já pensou me desistir?”. Ao que é respondida por Miguel: “(...) Agora não dá para desistir. Você se esqueceu

que nós assumimos um compromisso?”. Lúcia então replica: “Compromisso

com quem? Com a história? Com o povo? Miguel, o povo nem sabe o que a gente tá fazendo. Miguel, acorda, é um sacrifício inútil continuar lutando (...) Só tô sendo racional. Essa é uma guerra perdida.

Ocorre aí uma diferenciação entre Miguel, um rapaz que afirma ter assumido um compromisso com o qual não pode se desligar, um compromisso cego e irracional em contraponto com a leitura crítica da situação da luta armada no Brasil feita por Lúcia, que agora mãe, assume uma postura de racionalidade, criando assim a impressão de que os jovens que haviam assumido o compromisso cego com a luta armada, como Miguel, não tinham a calma e lucidez que uma mãe de família deveria ter, caso agora de Lúcia.

Os acontecimentos da resistência à ditadura militar são assim tratados como erros juvenis ou como feitos heroicos de indivíduos, que eram bastante bem intencionados, mas foram pelo caminho errado, no caso de Lamarca. Para o caso do filme de Bruno Barreto, mas que pode ser estendido para as outras películas, Ismail Xavier afirma que na representação da guerrilha nos filmes, há uma vontade de esquecimento que “se faz presente numa geração que viveu os anos 60-70 na oposição e agora, estando na situação, se ofende com a acusação de que está invertendo a pauta de seus valores sociais”123.

123 XAVIER, Ismail. A ilusão do olhar neutro e a banalização. Revista Praga, no. 3,

É preciso não esquecer a gênese do modelo excludente, hoje triunfante, o qual tem dado prosseguimento com muita competência à estratégia do esquecimento: ele é fruto de conluio bem-sucedido do neoliberalismo com a Doutrina de Segurança Nacional, da burguesia associada ao capital multinacional e seus tecnocratas com os militares.

(Heloisa Amelia Greco)

Documents relatifs