Partie I. Introduction g´ en´ erale
3. Probl´ ematiques concr` etes et ´ etat de l’art en statistique pour
3.2. Quelques m´ethodes d’analyse de donn´ees fonctionnelles
3.2.3. R´egression pour variables fonctionnelles
O termo ‘escala’ é principalmente associado ao seu uso para a cartografia, enquanto uma expressão numérica que dá conta da representação de um espaço em uma área diferente à original. Porém, a escala tomou novos significados além da representação matemática, abarcando subjetividades inerentes a um estudo espacializado.
Nesta temática, tem grande relevância as contribuições de Iná Elias de Castro, ao afirmar que a conceituação da escala apenas como um recurso matemático é insatisfatória, uma vez que, além da representação gráfica do território, o conceito de escala ganha novos contornos ao abarcar expressões representativas dos diferentes modos de percepção e de concepção do real. “Embora estas acepções sejam necessárias e adequadas aos problemas aos quais elas se propõem mensurar, a complexidade do espaço geográfico e as diferentes dimensões e medidas dos fenômenos sócio-espaciais exigem maior nível de abstração” (CASTRO, 2008, p. 11).
Ao tomar a dimensão subjetiva inerente ao conceito, a escala torna-se um termo polissêmico, tida como uma estratégia de aproximação do real, que pode ser entendida com uma problematização dimensional – inseparabilidade entre tamanho e fenômeno - ou fenomenal – complexidade dos fenômenos e impossibilidade de apreendê-los diretamente (CASTRO, 2008, p. 118).
Aqui, cabe a contribuição de Sandra Lencioni (2008, p. 17), que entende o termo escala de duas formas: topográfica (dimensão da superfície do terreno) e topológica (dimensão que toma em consideração os fluxos imateriais). Ao considerar, e valorizar, os fluxos imateriais e virtuais do território, Lencioni atenta para a questão de se considerar questões subjetivas associadas a um termo primariamente entendido como “puramente técnico”.
O autor Roberto Lobato Corrêa (2011, p. 41) já toma a conceituação de escala enquanto representação de diversas relações. Para ele, o conceito de escala envolve quatro acepções: 1) escala enquanto tamanho – economia de escala; 2) escala cartográfica – escala
numérica de mapa geográfico; 3) escala espacial – área de abrangência de um processo ou fenômeno; 4) escala conceitual – relações entre um objeto de pesquisa, os questionamentos e teorias pertinentes e sua representação. Para o presente estudo, o foco está nas concepções e derivações da relação entre a escala espacial e a escala conceitual.
Para entendimento do conceito de escala espacial, faz-se necessário compreender três assertivas principais: a) fenômenos, relações sociais e práticas espaciais mudam ao se alterar a escala espacial da ação humana; b) a base teórica que permite explicar ou compreender fenômenos, relações e práticas é alterada quando se muda a escala espacial, implicando a necessidade de teorias com distintos níveis de abrangência espacial; c) não há uma escala que a priori seja melhor que outra (CORRÊA, 2011, p. 42).
Assim, tem-se que estas três assertivas dão inteligibilidade ao conceito de escala espacial; associada a essas compreensões tem-se a escala conceitual, que se reporta a fenômenos e processos, assim como a representações cartográficas diferentes, mas são interdependentes, pois as ações que ocorrem em uma escala afetam a outra. No texto, Corrêa (2011, p. 43) cita a experiência de profissionais específicos que, ao articular diferentes escalas espaciais (local, regional, nacional, global), dão coerência aos seus objetivos de atuação.
É importante enfatizar que o objetivo não é escolher uma escala mais apropriada, mas procurar os ganhos obtidos ao fazê-las conversarem, já que cada escala vai trazer um significado próprio: “o fenômeno observado ganha um sentido particular de acordo com a articulação da escala de análise” (CASTRO, 2008, p. 120). Há uma variação de atributos dos fenômenos da grande e pequena escala, assim, ainda de acordo com Castro (2008, p. 127)
A informação factual, os dados individuais ou desagregados, os fenômenos manifestos, a tendência à heterogeneidade, a valorização do vivido são atributos dos fenômenos observados na grande escala, enquanto a informação estruturante, os dados agregados, os fenômenos latentes, a tendência à homogeneização e valorização do organizado são atributos dos fenômenos observados na pequena escala. Homogeneidade e heterogeneidade resultam da perspectiva de observação, fruto de uma escolha, que deve ser consciente e explicitada.
Portanto, pode se concluir que o fenômeno observado ganha um sentido particular de acordo com a articulação da escala de análise (CASTRO, 2008, p. 120), e o que é relevante ou faz sentido em uma escala não o é em outra (HARVEY, 2004, p. 108).
Porém, as discussões sobre escala vão além das configurações relacionadas à representatividade por tamanho e nível do fenômeno. Para Howitt (1997, p. 52, tradução nossa), mais que por tamanho e nível, a escala deve ser tomada como relação e pode ser melhor compreendida dialeticamente em vez de hierarquicamente, usando como exemplo quando é abordada a escala nacional, cujo termo se aplica tanto para Singapura quanto para a Rússia, mas que, na prática, se tratam de questões bastante distintas. Além de se tratarem de estados nacionais com tamanhos muito diferentes, de área, população, produção econômica, também ocupam níveis distintos, relacionados a arranjos organizacionais, como formas de governo. Então, o que, de fato, está associado à escala nacional?
Segundo o autor, a partir do momento em que se toma a escala como relação, algumas lacunas são preenchidas, pois são consideradas as relações entre geopolítica, território, estrutura, cultura, história, ambiente etc. Segundo Valenzuela (2006, p. 130, tradução nossa), o conceito de escala como relação concentra a atenção na dinâmica das relações entre os elementos analisados e as hierarquias variáveis que alguns desses elementos adquirem, com importâncias relativas em diferentes níveis.
O geógrafo Javier Gutiérrez Puebla (2001, p. 95, tradução nossa) adiciona que, além de tamanho, nível e relação, a escala pode ser entendida como rede, uma vez que as redes não necessariamente coincidem com as áreas delimitadas e suas fronteiras tendem a ser porosas. Assim, uma ação local pode acessar uma rede global e vice-versa, implicando que os agentes não estão confinados a um nível estabelecido e que há a interação de agentes de níveis distintos.
A consideração de relações associadas e a expansão de fronteiras estabelecidas remete à discussão sobre o conceito de mobilidade, já abordado anteriormente, caracterizando uma grande afinidade entre os temas, que configuram novas perspectivas de tratar questões do mundo contemporâneo. A este respeito contribui Paasi (2004, p. 542, tradução nossa), que atenta para a mudança ocorrida nas relações decorrente da globalização e a maneira em que isso afetou a escala. Para o autor, as escalas também são historicamente condicionadas, podendo ser produzidas e destruídas ou transformadas através de práticas e conflitos sociais e políticos.
Portanto, há o entendimento de que o conceito de escala não é estanque e vai adquirindo novos significados de acordo com as relações, redes, práticas sociais, condições históricas, entre outras questões. Assim, a discussão sobre escala cabe em todos os fenômenos sociais, incluindo a mobilidade populacional. Conforme colocado por Gibson,
Ostrom e Ahn (2000, p. 226, tradução nossa), o estudo do fenômeno da migração humana muda conforme a escala abordada; padrões de migração intraurbana estão relacionados a variáveis como idade, escolaridade e renda familiar, enquanto migrações intraestaduais são explicadas por variáveis agregadas como demanda de trabalho e investimentos. Os autores apontam também sobre a importância em unir aspectos físicos e sociais nas escalas adotadas em estudos ambientais, em um claro viés interdisciplinar associado a tais estudos.
Faz-se importante pontuar que a dimensão escalar adotada não pretende caracterizar uma homogeneidade, portanto, em vez de se pensar em recorte escalar, as escalas devem ser tomadas como lentes, em que se parte “de uma escala em direção a outra seja no crescente ou no decrescente, acompanhando a dinâmica processual e as transformações qualitativas que o fenômeno sofre à medida que o observamos nas sucessivas escalas” (MARANDOLA JR., 2011, p. 12). Assim, Marandola Jr. (2011, p.12) atenta para a questão de que a “lente escalar” pode auxiliar a superação de dicotomias que trazem recortes escalares distinguidos entre macro e micro, desconsiderando as perspectivas dinâmicas e multidimensionais dos fenômenos. O esquema gráfico representando a tomada das escalas como lentes está apresentado na Figura 2.
Figura 2 – Representação gráfica das escalas como lentes. Fonte: extraído de Marandola Jr. (2011, p. 13).
O desafio em se tomar a escala como lentes está em contemplar distintos aspectos associados ao tema, não apenas mudar o recorte. Por isso, toma-se a multiescalaridade como uma abordagem metodológica no intuito de tratar das múltiplas questões relacionadas ao fenômeno da mobilidade populacional associada às Áreas Protegidas da região Norte do Brasil. No presente estudo, trabalha-se com a questão da escala macro e micro para se referir às bases de dados utilizadas para a obtenção de resultados. Porém, em uma tentativa de superar essa dicotomia, procura-se concomitantemente a compreensão das relações e da rede que age no contexto das Áreas Protegidas.
Antes de entrar na definição da multiescalaridade em si, em uma tentativa de legitimá- la enquanto um método válido, faz-se um paralelo com a abordagem dos métodos mistos. Segundo Johnson e Onwuegbuzie (2004, p. 15, tradução nossa), através dos métodos mistos permite-se análises que misturem especificidades dos métodos quantitativos e qualitativos, porém não enquanto algo que vá substituir essas abordagens, mas como um possível novo caminho com potencialidade para agregar os aspectos positivos e minimizar os negativos de cada método posto, colocando sempre a postura de diálogo para que isso ocorra e tendo em vista as dificuldades endógenas e exógenas apresentadas. Este paradigma se faz necessário uma vez que muitos pesquisadores precisam complementar um método com outro a fim de facilitar a comunicação, incentivar a colaboração e promover uma “pesquisa superior”.
Assim, o princípio fundamental dos métodos mistos é que o pesquisador deve buscar coletar dados múltiplos, utilizando diferentes estratégias, abordagens e métodos de maneira que o resultado utilize a complementaridade das “forças” de cada método. Se os resultados são corroborados entre as diferentes abordagens, então tem-se maior credibilidade na conclusão obtida. Se os resultados se mostram conflitantes, o pesquisador tem maior conhecimento e é capaz de modificar as interpretações e conclusões de acordo com o método (JOHNSON; ONWUEGBUZIE, 2004, p. 19, tradução nossa).
Acredita-se que a abordagem multiescalar tem as mesmas condições e préstimos que os métodos mistos, uma vez que a proposta aqui colocada visa justamente utilizar a potencialidade e refletir a inaptidão de cada escala tida. Pode-se agregar o conceito da espacialidade diferencial, de Yves Lacoste (1988, p. 37), no qual o autor, como já colocado aqui por outros autores, atenta para a questão de que a compreensão de um fenômeno vai variar conforme a escala utilizada, uma vez que certos fenômenos somente são apreendidos
ao se considerar extensões grandes, enquanto outros só podem ser captados por observações muito precisas sobre superfícies. A mudança de escala transforma a problemática que se pode estabelecer e os raciocínios que se possa formar, correspondendo a uma mudança no nível de conceituação reduzidas.
Os ganhos obtidos para a ciência ao se considerar distintas escalas também são colocados por Marandola Jr. e Hogan (2007, p. 195), já que,
Quanto às metodologias e escalas de análise múltiplas, estas ainda têm sido pouco incorporadas às pesquisas. [...] o desenvolvimento de metodologias quanti-quali e de múltiplas escalas seriam de grande valia para ampliar a capacidade analítica e permitir um olhar mais refinado, principalmente em microescalas [...] Discutir e incorporar as aplicações já realizadas neste campo também são fundamentais para tal construção.
A transformação da problemática de acordo com a mudança de escala também é indicada por Lencioni (2008, p. 19), afirmando que a multiescalaridade, ao levar em conta as naturezas diferentes de cada escala, possibilita conciliar as escalas topográfica e topológica, uma material outra imaterial, unindo a questão territorial com suas virtualidades. Assim, agrega-se as relações (HOWITT, 1997) e as redes (PUEBLA, 2001) associadas a cada dimensão escalar tomadas na presente pesquisa, através da multiescalaridade.
Esta interpretação caracteriza a multiescalaridade enquanto um modo de fazer/método interdisciplinar, pois transpassa métodos e objetos de diferentes ciências. Como colocado por Silva Júnior e D’Antona (2013), a postura de estranhamento e de disposição ao diálogo pode trazer maior riqueza na tessitura teórica, na prática metodológica e na construção deste paradigma sempre em construção que é a interdisciplinaridade, mesmo que traga também desconfortos.
Assim, propõe-se a ilustração da multiescalaridade, enquanto um modo de fazer- pensar interdisciplinar, como apresentado na Figura 3.
Figura 3– Representação gráfica da prática interdisciplinar dentro da multiescalaridade. Fonte: elaborado pela autora.
A respeito da importância e dos ganhos ao se tomar a abordagem multiescalar, faz- se necessário citar o estudo de D’Antona; Cak e VanWey (2007, p. 89), que, ao buscar caracterizar as mudanças na cobertura da terra ocorrida em municípios da Amazônia, utiliza- se da conceituação dos efeitos de escala em uma pesquisa situada na dinâmica entre população e ambiente. Para os autores, existem distintas motivações e uma multiplicidade de agentes que se manifestam de maneiras diferentes conforme o nível de agregação territorial. “Isoladamente, cada um dos níveis de agregação proporciona uma fotografia incompleta que pode levar a erros de interpretação. Tal preocupação, aqui relativa à análise das mudanças na cobertura da terra, pode e deve ser estendida para outros estudos do grande tema População e Ambiente” (D’ANTONA; CAK; VANWEY, 2007, p. 89).
Assim, se caracteriza o efeito de escala, enquanto um aspecto que altera a apreensão do fenômeno estudado de acordo com a escala utilizada, uma vez que aquilo que é captado na escala macro pode não o ser na escala micro, e vice-versa.
Posto que tanto as forças tidas como macro (por exemplo, a cultura, o governo, a economia) quanto aquelas definidas como micro (por exemplo, atributos da unidade doméstica, o conhecimento de pequenos proprietários rurais e os modos como tomam decisões) afetam o uso da terra e da água – e, consequentemente, devem ser entendidos como fatores de mudanças
ambientais –, torna-se necessário a constituição de um referencial teórico- metodológico que dê conta das variações entre escalas (HOGAN, 1991). Reflexões como as de Carr; Suter e Barbieri (2006) têm mostrado como a discussão das questões da escala é importante em estudos de População e Ambiente, algo que até mesmo grandes agências como a NASA e os projetos ligados à compreensão de mudanças ambientais globais reconhecem (D’ANTONA; CAK; VANWEY, 2007, p. 93).
Os resultados obtidos no estudo desenvolvido pelos autores apontam para a não prevalência de um nível de agregação sobre os demais, mas para a importância de utilizar a análise multiescalar no sentido de aproveitar as potencialidades oferecidas por cada escala. “A análise macro pode falhar ao incluir subconjuntos e processos muito distintos em uma mesma unidade analítica, gerando resultados que não se aplicam exatamente a nenhum caso particular. Restringir os estudos a uma escala pode proporcionar uma visão equivocada dos processos analisados na escala estudada; uma visão que não se pode aplicar a outras escalas” (D’ANTONA; CAK; VANWEY, 2007, p. 106).
Em uma dinâmica tão peculiar como a que envolve os impactos da ação humana sobre (e por causa de) as áreas de floresta, entende-se que a escala macro dá conta de indicar resultados muito importantes, porém não suficientes para captar especificidades que são fundamentais para o entendimento de questões pontuais. Como afirmado pelos mesmos autores (D’ANTONA; CAK; VANWEY, 2007, p. 109), “o entendimento em múltiplas escalas é necessário para que se perceba a multiplicidade de agentes e as suas motivações, além de ser uma estratégia para aproveitar os dados secundários existentes e os conhecimentos locais, ou específicos, na busca da superação das deficiências das diversas fontes de informações”.
Uma vez que, ao se mudar a escala espacial altera-se também a base teórica, é possível explicar ou compreender fenômenos, relações e práticas, implica-se a necessidade de teorias com distintos níveis de abrangência espacial (CORRÊA, 2011). Ao passar por distintas escalas espaciais e conceituais (CORRÊA, 2011) e pela associação das escalas topográficas e topológicas (LENCIONI, 2008) – na perspectiva da multiescalaridade – tem- se a “prática” da interdisciplinaridade, uma vez que se perpassa por distintos métodos, objetos e marcos teóricos das mais variadas ciências disciplinares.
A relevância do uso da multiescalaridade em um estudo que envolve mobilidade populacional é colocado por Barbieri (2007, p. 228), ao afirmar que a implicação de literaturas que abordem essas dinâmicas “tem sido a falta de dados adequados e, até recentemente, de metodologias de análise multiescalares da mobilidade populacional e sua
relação com fatores ambientais, o que dificulta capturar a natureza complexa dos determinantes da mobilidade populacional, que operam em escalas e níveis variados”.
Assim, em uma pesquisa que se presta a analisar as mobilidades associadas às Áreas Protegidas da região Norte, acredita-se que o melhor caminho seja através da associação de escalas diferentes, possibilitando distintas e complementares leituras de um mesmo fenômeno. Esta conclusão traz à tona os benefícios para o desenvolvimento científico tidos ao se ultrapassar certas barreiras, lembrando que o homem é um ser complexo e naturalmente nãodisciplinar. Portanto, para (tentar) dar conta da complexidade dos fenômenos sociais, visando aproveitar os benefícios que cada escala pode oferecer, foi utilizada a leitura multiescalar, que permite libertar de uma visão de uma única natureza, de um único referente (LENCIONI, 2008), baseando-se nos préstimos da interdisciplinaridade para a ciência.