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Questions soulev´ees par ces exp´eriences de rh´eologie

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1.2 Exp´eriences

1.2.4 Questions soulev´ees par ces exp´eriences de rh´eologie

A proposta assumida por esta tese toma a encarnação de Jesus, no “não lugar”, que aconteceu em Belém, uma pequena e pacata cidade na periferia do Império Romano e, a partir dali, tornou-se o centro de irradiação de um “novo lugar”.

De acordo com os padrões da época, a família de Jesus tinha uma condição relativamente humilde (Lc 2: 22-25), pois eles não pertenciam nem à elite sacerdotal e

295 Mensagem do Papa Francisco para o dia Mundial do Migrante e Refugiado 2015: Igreja sem

fronteiras, mãe de todos. Disponível em:

<https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/migration/documents/papa-francesco_ 20140903_world-migrants-day-2015.html>. Acessado em 16/06/19.

nem aos mandatários da hegemonia econômica, o que denotava sua categoria marginal. Tendo nascido e vivido em um lugar “marginal”, Jesus acabou criando um novo centro, constituído pelo encontro das fronteiras de diferentes mundos. Foi na “Galileia dos

Gentios”296

, lugar de superstição aos olhos da elite judaica, que Ele fez o convite aos seus vizinhos para “deixar tudo e o seguirem” (Mc 1: 20). Quase toda a sua vida pública foi exercida dentro desta minúscula região.

Iniciando seu ministério na Galileia297, região de passagem e de encontro com

culturas estrangeiras, Jesus fez, daquelas pessoas tidas como impuros, interlocutores de uma mensagem de salvação. Isto explica, em parte, porque Ele se tornou um galileu marginalizado. Não foi apenas porque residia longe de Jerusalém, mas – principalmente – porque buscou uma aproximação com pessoas de outras etnias e credos, o que era pouco aceito na visão da maioria dos grupos religiosos. Precisamente porque a Galileia foi um local de múltiplas rejeições é que Jesus assumiu ali um papel importantíssimo na incursão do plano salvífico. Por isto, o escândalo humano de Deus não começa necessariamente na cruz, mas na encarnação histórico-cultural do Verbo. Jesus, pois não apenas Ele se misturou ao marginalizados, mas assumiu tal condição ao nascer, viver e iniciar seu ministério naquele lugar.

Buscar-se-á entender que Jesus foi marginalizado tornando-se um Galileu por nascimento e depois iniciando sua vida pública em torno do Mar da Galileia, vivendo não apenas na periferia de uma cultura particular, mas numa zona de transição. Como um homem que esteve nas bordas e na periferia, optando por ser fronteiriço, inaugurou um espaço entre o divino e o humano, entre o presente e o futuro, em um ambiente que se tornou “não lugar”, cujo princípio sugere nem coerência hermética, nem incoerência, mas, sim a capacidade de abraçar a condição de estar na fronteira da vida.

296 O nome “Galileia das nações ou dos gentios” refletia uma variedade de expressões culturais e religiosas. Os habitantes desta região eram desprezados pelos judeus porque eram considerados ignorantes da lei, e também porque eram considerados impuros por causa de seu contato com outros povos circunvizinhos, especialmente em tempos remotos, quando viveram sob a influência do helenismo. Este pano de fundo multirracial fez com que se tornassem objeto de escárnio. Quando falavam o aramaico, com seu sotaque característico e dissonante, eram rapidamente identificados como pessoas rudes e de pouca instrução. O que deve ter ocorrido com Pedro, quando uma mulher, no pátio do Palácio de Caifás, perguntou se ele não era um dos seguidores do nazareno. Embora sua resposta fosse negativa, seu sotaque o denunciava, dizendo que ele também era um homem da Galileia (Mc 14: 66-68).

297 Por sua posição geográfica, a Galileia tornou encruzilhada e rota de passagem para diferentes povos. Lugar de múltiplas invasões (assírios, babilônios, persas, egípcios e macedônios) e sua distância do templo de Jerusalém fez com que seus habitantes fossem tidos como impuros, tornando-se fonte de desprezo para determinados segmentos do Judaísmo.

Ele não era apenas Jesus, mas Jesus de Nazaré, homem culturalmente situado, mas socialmente despossuído de bens. Sendo marginal em vários aspectos de sua vida, seja na sua inserção no ambiente urbano de Jerusalém, seja no que diz respeito ao seu papel como um pobre, que não tinha poder político e não estava ligado à cultura dominante. Ele fez a escolha de uma comunidade inclusiva, que estava aberta a uma pluralidade de experiências fronteiriças. Seu ministério contém uma originalidade.

Vivendo em uma condição marginal298 entre o humano e o divino, fez das pessoas

desprezadas “pedra angular” do Reino de Deus. Socialmente foi um pregador itinerante que desafiou as pretensões de superioridade religiosa em sua época, convivendo nas “margens da margem”.

Esta expressão “profeta marginal”299

remonta à ação o seu ministério, bem como à natureza parabólica desta perícope, em Nazaré quando entrou na Sinagoga (Lc 4: 18- 19), citando o livro do profeta Isaías, disse: “O Espírito do Senhor está sobre mim, Ele me consagrou” (Lc 4: 18). O texto anuncia chegada do “Ano da Graça do Senhor”, que se cumpre em Jesus, aquele que é capaz de trazer a Boa Notícia aos pobres, a liberdade aos prisioneiros e a visão aos cegos.

Afirma John Meier:

Jesus, o leigo pobre transformado em profeta e mestre figura religiosa originária da Galileia rural, sem credenciais, encontrou a morte em Jerusalém, pelo menos em parte, por se chocar com a classe dos sacerdotes urbanos ricos e aristocráticos. Para estes, um leigo pobre dos campos da Galileia, com doutrinas e reivindicações perturbadoras, era um marginal, tanto no sentido de ser perigosamente contra o sistema, como carecer de uma base de poder capital. Assim, poderia ser varrido para o lixo da morte sem maiores problemas300.

Jesus não se apresentava como um homem dotado de cidadania romana, grega ou membro da elite judaica, mas, sim, e apenas como um nazareno, filho do carpinteiro, numa pequena e despretensiosa aldeia localizada na periferia da civilização romana. Politicamente manteve-se entre a colônia e o império; culturalmente entre os romanos e

298 Nos modernos estudos sociológicos, a palavra marginal frequentemente é aplicada a pessoas pobres, do meio rural, que migram para as cidades, mas que não se integram bem na cultura urbana dominante. Tal analogia pode se atribuída a Jesus que viveu esta condição fronteiriça.

299

Jesus segue os passos narrativos dos peregrinos que o antecederam; Abraão e Moisés, passando por Esdras e Neemias. Essa odisseia tematizada no Êxodo e no Exílio é retirada da história de Jesus e a sua práxis. Sobre esta temática ler MEIER, J. Um Judeu Marginal: repensando o Jesus Histórico. Rio de Janeiro: Imago, 1993.

os demais povos circunvizinhos; linguisticamente entre o aramaico e o grego; religiosamente entre judeus e gentios.

Jesus nasceu, viveu e morreu como um homem errante em seu tempo. Isto não eliminou a sua condição histórica: um judeu da Palestina do Primeiro Século. Por que isto é importante? Qual seria o significado de uma Teologia da Galileia para repensar uma perspectiva marginal do “não lugar”? Tentar entender os discursos e a ação de Jesus, sem conhecer o imperialismo romano que determinava as condições de vida da Palestina, seria como procurar compreender a vida de Sepé Tiaraju (herói guarani missioneiro rio-grandense) sem compreender o contexto de massacre e dizimação dos “povos originários” do sul da América Latina. Esta postura foi amplamente debatida desde a década de setenta pela Teologia da Libertação, uma vez que a marginalização desta região foi comparada a outros povos que passaram pelo mesmo contexto de exclusão na contemporaneidade.

Quando se aborda essa realidade, que envolve a vida marítima no contexto de marginalização do “não lugar”, é necessário ter uma visão ampla. No entanto, não se pode ocultar o lugar teológico onde os fatos ocorrem, isto é, toda ação local em uma perspectiva abrangente que faz eco ao chamado de Deus. Esta é, por sinal, a grande

tradição do Êxodo301, quando um povo experimentou uma relação com um Deus que

não tem morada fixa. Um Deus que passa sobre a terra e só pode ser conhecido por alguém que esteja disposto a “colocar-se a caminho” com Ele.

301 Não é objetivo nesta tese fazer uma exegese ou uma hermenêutica sobre o Êxodo. Tomamos o texto em sua forma descrita na Sagrada Escritura. Porém, considero importante situar a discussão sobre o tema, de forma que evite incorrer em uma leitura simplista. Cabem então situar pelo menos duas ponderações: a primeira diz respeito a uma compreensão que toma a história de Israel, começando no Êxodo como o primeiro ato de Deus, depois a provisão do deserto, a conquista, a realeza e libertação do exílio.

Nessa visão, é como se a existência de Israel tivesse começado no Egito; e o Êxodo foi o evento crucial que não só criou Israel, mas também o arruinou de seu passado mítico e o iniciou em uma trajetória histórica. Aceitar de forma literal esse pressuposto significa negligenciar o fato de que a história do Êxodo faz parte de uma narrativa bíblica maior que está em continuação com outros textos. Em outras palavras, a história de Israel faz parte de uma história mundial, com implicações e diálogos com as tradições e culturas circunvizinhas.

O segundo impasse resulta ler o Êxodo simplesmente como um manifesto político ou como guia devocional. E finalmente, um terceiro seria desconsiderar por completo a narrativa dizendo que ela não passa pela afirmação fictícia do passado, criações literárias ou retrocessos de eventos posteriores na vida de Israel. O Êxodo é historiografia teológica, mas isso não significa que não seja história.

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