Neste tópico, apresento os trabalhos que necessitaram de reuniões, ensaios e uma produção mais apurada.
Uma das ações mais importantes foi realizada no mês de junho, durante as festividades de São João. Com o intuito de aproveitar a presença de filhos da cidade que moram em outras localidades e que neste período passam as férias em Itambé, resolvemos, eu e alguns amigos, preparar algo que revivesse alguma tradição dos festejos juninos que havia fi- cado no passado. Assim, nasceu a ação Quem vai se casar?17
(Figuras 11 e 12)
O casamento na roça é uma tradição que os itambeenses sempre cultivaram: tanto como encenação realizada por alu- nos nas festas juninas das escolas, mas também como ceri- mônia de casamento de alguns casais que resolvem se unir deste modo. Organizar uma festa com fartura de comidas e bebidas típicas ao som de um bom forró pé de serra é o sonho de muitos noivos e noivas, tanto da zona rural como da zona urbana.
Já com a cidade movimentada para o São João, convidei Rita Alves, que já havia casado uma filha na fazenda da família, durante o São João, para nos ajudar. O convite se estendeu para suas filhas. Foram convidados também membros da comunidade de São José Operário e a entrevistada pela pes- quisa Jandira Mendes, que já havia externado o desejo de participar de alguma ação ligada aos festejos juninos.
17 Elenco: Cíntia Gusmão, Samile Alves, Susele Alves, Rita Alves, Jandira Mendes, Manoel Dias, Graziele Lemos, Amélia Sampaio, Marcelo Sousa Brito e Dejalmir Melo.
Figura 11 - Ação: Quem vai se casar? Na foto, Dejalmir Melo, Graziele Lemos e Jandira Mendes ao fundo.
No primeiro encontro, várias pessoas compareceram com o desejo de discutir o São João de hoje na cidade e as mu- danças que este festejo sofreu, perdendo um pouco de suas características principais, que era de reunir os filhos da terra em suas casas, ruas e praças para viverem dias de festa e de reencontro, quando toda a cidade se transformava em uma grande família, como descreve o morador Evandro, no pri- meiro capítulo, e para quem houve, também, um monopólio do desenvolvimento econômico.
Cada participante emitia sua opinião ou lembrança dos fes- tejos juninos de sua infância, ou relembrava um São João marcante em sua vida, emitindo opiniões que eram compa- radas com as respostas dos entrevistados da pesquisa quan- do questionados sobre as manifestações culturais da cidade. Enquanto isso, nós íamos definindo os personagens: o noivo, a noiva, os pais da noiva, os pais do noivo, a amante, o padre, o bêbado, as beatas etc.
Para esta ação, dois ensaios foram realizados. O mais impor- tante nestes encontros era a discussão gerada em torno do assunto. Todos queriam, de alguma forma, opinar sobre a situação atual da festividade mais importante da cidade. Era consenso entre todos que a modernização da festa afastou muitos filhos da cidade que moram em outras localidades.
Figura 12 – Ação: Quem vai se casar?
O fato é que alguns moradores não participam mais da festa, que deixou um pouco de lado o encanto que era caracterís- tico deste festejo. Então resolvemos voltar ao passado, mas com a vontade do presente, de manter viva esta tradição. Fomos às ruas, imbuídos do desejo de resgatar esta ludici- dade adormecida. Desse modo,
[...] a cultura de massa poderia adquirir novos significados, extrapolando a adjetivação de standardizada, rudimentar, conformista e alienante, para ser entendida como uma chan- ce para o resgate do sentido lúdico dos encontros e da festa. (SERPA, 2007, p. 115)
Pensando assim, na manhã do dia 26 de junho de 2010, 12 pessoas compareceram para a caracterização que misturava o rural com o urbano, já que, hoje em dia, não existe muita diferença entre um e outro na forma de se vestir. As mu- lheres usavam vestidos longos de festa e chapéu de palha na cabeça e os homens trajavam calça e camisa bordados com alguns remendos coloridos. Já a noiva usava um vestido branco, curto e cheio de babados coloridos, e um buquê de flores colhidas na casa vizinha.
O cortejo seguiu o percurso acompanhado por um carro de som tocando Luiz Gonzaga, passando pela Praça São Se- bastião, seguindo para a Praça da Bandeira, entrando na Alameda e chegando na feira livre, localizada na Praça San Filli, local onde se realizam os festejos juninos. Durante todo este percurso, vários moradores iam se infiltrando e acom- panhando o cortejo com muita animação. (Figura 13).
Figura 13 - P er cur so da Ação Quem v ai se casar? Autoria: L eonardo Dias Af
Para finalizar a ação, retornamos ao ponto inicial, revivendo outra tradição: passar de casa em casa perguntando se São João havia passado por ali; se a resposta fosse positiva, era o sinal de que todos estavam convidados a entrar para comer e beber com aquela família. Neste dia, passamos nas casas dos moradores Vera Amorim e Amaury Gusmão, que receberam a equipe com mesa farta. Conversando com os participantes da ação, era consenso à alegria que este evento proporcio- nou, estimulando em todos o desejo de reviver esta tradição todos os anos, agregando mais participantes, circulando por outros pontos de Itambé e visitando um maior número de moradores, levando a festa para toda a cidade.
Castro (2008, p. 34), em sua pesquisa sobre a espetaculari- zação e a reinvenção do lazer festivo no espaço urbano, de- dicou boa parte de seu estudo à importância da casa nestes festejos. Era nas casas, onde tudo começava e onde todos se encontravam sob o calor da fogueira:
A fogueira acesa na porta da casa era um indicativo de que naquela residência comemorava-se o São João e, portanto, se oferecia comidas e bebidas típicas para degustação tan- to de pessoas com estreitas ligações familiares ou afetivas como também para visitantes que fazem parte do circulo de amizades dos donos da casa. [...] As comidas típicas, ofereci- das até os dias de hoje, correspondem ao que era produzido em meados de junho: amendoim, milho, laranja, além de uma diversidade de pratos preparados com milho, como pamo- nha, canjica, bolos, entre outros, além do licor de jenipapo e maracujá.
Quem vai se casar? lançou mão do imaginário popular ligado
aos festejos juninos para que um cortejo de pessoas saídas de um casamento fictício pudesse levar cor e alegria para as
ruas da cidade. Ali, todos os elementos de um festejo junino estavam presentes: o casamento, a quadrilha, a música, a alegria, a interação com os moradores e o encontro de ge- rações em função de uma tradição tão importante para os moradores de Itambé.