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FONTE: Autor.

Segundo o diagrama acima, a Igreja-Sede é o “centro-nervoso” de um determinado Campo, pois é nela que se concentra toda a administração do mesmo e, é para onde os recursos devem ser encaminhados. De lá são direcionados os “obreiros” que estarão à frente das igrejas-filiadas (sejam elas as sub-sedes/setores, ou mesmo as congregações), as permissões de compra de novos terrenos ou “bens diversos”, reformas das igrejas, ou mesmo a abertura de novas igrejas. Nada pode ser feito sem o aval da presidência e sua diretoria, por isso mensalmente cada igreja-filial deve prestar contas do dinheiro arrecadado naquele mês a uma comissão de contas, previamente estabelecida pela Diretoria do Campo.

Dependendo do tamanho do Campo e a distância onde estejam localizadas suas igrejas-filiais, a sub-sede/ou regional passa a exercer uma função parcialmente autônoma, principalmente para resolver determinadas situações administrativas que surgirem. Mas ainda sim, devem comunicar a igreja-sede suas ações e muitas vezes

108 A mulher é proibida de usar calças e maquiagem, os homens de usa bermudas e praticar

esportes, podendo até mesmo proibir a posse de aparelhos de televisão. Esses campos podem ser encontrados na região Centro-oeste brasileiro, como no Estado de Goiás, por exemplo.

aguardar a aprovação daquilo que pretendem realizar. Mas esse modelo possibilita que novos Campos sejam criados através de um processo de emancipação (FAJARDO, 2015), ora pacificamente, ora por meio de uma tensão entre o corpo diretivo do Campo e o grupo de igrejas, ou mesmo o “obreiro” que lá esteja. No caso de uma emancipação pacifica, pudemos constatar que muitas vezes ocorre quando por decisão do Pastor-presidente se resolve emancipar um “setor”, ou conjunto de igrejas, para que seu filho (ou parente, ou amigo em casos raros) se torne um Pastor-presidente. Não existindo regras prévias para a emancipação, sendo ela muito mais uma articulação do próprio Pastor-presidente. Um exemplo disso é o caso da ADMM em Resende – RJ, que em 2014 foi emancipado pelo Pr. Davi Cabral em favor do seu filho o Pr. Davi Cabral Junior109.

Neste momento se faz necessário também compreender como se dá a formatação hierárquica que este movimento adquiriu, uma vez que esse modelo define quem são os “detentores legais” dos “bens escassos” (patrimônio, renda, prestígio, etc) tão disputados atualmente e os que estão em condição de dominação e suas práticas. Assim, ela é de fundamental importância, pois ajuda a relevar os papéis e as dinâmicas sociais atuais que envolvem a ADMM, constituindo-a como um agente social produtor de diferentes relações sociais.

c) a formatação hierárquica da organização, ou “Governo da Igreja”.

No Brasil encontramos formas bem específicas de como uma igreja organiza sua hierarquia (CORREA, 2013), pode-se encontrar igrejas com modelos denominados de episcopais, congregacionais e presbiterais. Essas formas de organização hierárquica expressam em muito as questões particulares de cada seguimento como, por exemplo, o poder e a dominação dentro delas. Também o tipo de teologia que a determinada igreja e seus membros professam em relação ao exercício do poder. Assim, como ela tende em alguns momentos a se adequar também ao contexto histórico-social (BERGER; LUCKAMANN, 2004) onde ela está geograficamente inserida, ela tem a possibilidade de ganhar novos contornos. Mas como se processa a forma de organização das igrejas ADMM?

Primeiramente, como já mencionado nesta pesquisa, as ADs no Brasil, em especial a ADMM tem um formato episcopal com a figura do Pastor-presidente, no topo da hierarquia. Junto a ele, encontramos um quadro administrativo de especialistas que lembra muito o modelo presbiteral (ver Tabela 2), ajudando o mesmo, a garantir não só o monopólio, mas também a manutenção do poder e da dominação por parte desse grupo, que pode ser definido nas ADs como a Diretoria do Campo, ou Mesa Diretora da CONAMAD. Cabral (2002) em seu livro intitulado de “Assembleias de Deus: a outra face da história”, lançado no ano de 1997 (hoje já está em sua 3ª edição), busca trazer a história das ADMM por um olhar do próprio Ministério de Madureira. Neste livro o escritor que também é um dos pastores- presidentes e membro da diretoria da CONAMAD explica como se dá o modelo hierárquico ou como ele mesmo denominou de “governo da igreja” da ADMM:

[...] no Brasil, prevalece na grande maioria (principalmente nas Assembleias de Deus – Ministério de Madureira), um sistema hegemônico e equilibrado das três formas: a) Episcopal – uma Sede e uma Convenção Nacional (CONAMAD – Convenção Nacional das Assembleias de Deus – Ministério de Madureira), administra a estrutura denominacional, inclusive incumbindo-lhe a designação dos pastores das Igrejas locais; b) Presbiterial110 – é o conjunto de seus ministros (ou presbíteros)111, que toma as decisões pela Convenção Nacional, reunidos em Assembleias Gerais Anuais (ordinárias e extraordinárias), e no âmbito das igrejas locais, nas reuniões ministeriais mensais (onde participam seus ministros e oficiais, para apreciarem as questões locais); c) Congregacional – todos os assuntos locais, decididos pelos ministros e oficiais necessitam ser homologados pela Assembleia Geral Mensal, dos membros da igreja local no templo sede, para que tenha validade (nas Assembleias de Deus a igreja local é estabelecida em um município, setor, ou região eclesiástica, constituída de uma sede e várias congregações), estabelecendo-se desta forma um salutar equilíbrio, para se conter excessos tão prejudiciais [...] (CABRAL, 2002, p. 91)

Precisamos fazer alguns apontamentos desta fala, convergindo com as entrevistas realizadas para esta pesquisa. O primeiro apontamento a se fazer é que somente na ADMM a Convenção tem “o poder” de interferir na gestão de um Campo e concomitante na gestão de um Pastor-presidente (apesar de nas entrevistas podermos perceber que isso não é garantido, pois depende em muito do prestígio deste Pastor-presidente com a diretoria instituída frente ao Campo que preside e ao mesmo tempo dentro do ministério). Isso fica claro na exposição feita no estatuto da

110 Copiando na íntegra do texto original.

111 No caso das ADs no Brasil apenas os pastores, evangelistas e missionários tendem a ter o direito

CONAMAD, em seu Art. 3º, que fala sobre a função da Convenção, que se pode identificar nos parágrafos XIV, XV e XVI, dizendo que a mesma tem o poder de supervisão sobre as igrejas-filiadas, as Convenções Estaduais e sobre os ministros que são compostos por pastores, pastoras112, evangelistas, missionários(as). Neste último caso exercendo ações disciplinares sobre os mesmos.

Dessa forma se diferenciando das ADs ligadas a Missão, pois uma Igreja- Sede é um Ministério autônomo localizado em uma determinada região do país e a CGADB não tem poder de interferir no dia-dia do mesmo. Por este motivo a CGADB pode ser enquadrada como uma associação de pastores,

na prática ela (a CGADB) é uma associação que se caracteriza pela força dos pastores associados individualmente em suas convenções estaduais, caracterizando-se, portanto, como uma associação de pastores (CORREA, 2013, p.115).

Sendo o principal papel da CGADB de tentar manter aquilo que podemos denominar de uma “identidade assembleiana” (ALENCAR, 2013)113. O segundo apontamento que fazemos é sobre a forma indicada como presbiteral, na qual todos os considerados ministros, em tese teriam a “mesma voz”. Em uma das entrevistas, o Pr. C-B relatou que as decisões muitas vezes já vêm “prontas”, sendo elas decididas pelas comissões escolhidas para apreciar o determinado tema e exposta ao auditório somente na hora da votação. A mesma é feita pela forma de aclamação, ou seja, quando o presidente da assembleia diz “os que discordam da decisão se levante”.

Na fala de nosso entrevistado, fica explicito que mesmo discordando ninguém tem “coragem” de contrariar o que já foi decidido, pois muitas vezes esse ato pode representar uma afronta aos “líderes espirituais” da instituição. Na fala do mesmo, transpareceu a ideia de que existem represálias aos “não concordantes” e

112 Com exceção das ADs independentes (que ou tem Convenção própria, ou são ministérios que

vivem fora das suas grandes Convenções), somente a CONAMAD aceita e consagra mulheres como pastoras. Porém o que se pode verificar que as pastoras em sua esmagadora maioria são mulheres dos pastores-presidentes, revelando a posse de um “capital religioso” (BOURDIEU, 2013) de diferenciação entre os demais membros da organização religiosa.

113 Sobre a forma de organização da ADMM e da ADMB Fajardo analisa como se dá na prática a

forma de organização de dois dos principais ministérios das ADs no Brasil, Belém e Madureira. Destacando como se organiza o campo religioso assembleiano na cidade de São Paulo, o autor busca compreender essa dinâmica a partir da investigação desses dois “ramos”, uma vez que, a diversidade dos ministérios assembleianos e suas atualizações acompanham as dinâmicas de nossa sociedade. Assim ele tem como premissa “que a expansão das ADs na cidade se complementa ao processo de ministerialização”, o qual para se compreender primeiro se deve “conhecer quais os principais agentes assembleianos ali estabelecidos, bem como suas estruturas organizativas” (FAJARDO, 2015).

constatamos que essas represálias seriam dadas da seguinte forma, o mesmo seria designando a uma igreja em um local precário, ou mesmo ficar em uma espécie de “geladeira” (Entrevista em áudio, gravada no dia 01/08/2016). Por último, em relação à exposição e “homologação” de determinado assunto pelos “membros comuns”; em nossa pesquisa fizemos diversas visitas a ADBRÁS, em diferentes reuniões e eventos. E em nenhum momento percebemos, ou vimos essa interação e, os próprios entrevistados deixaram muito claro que as decisões vêm de cima para baixo, sem muito que fazer, apenas deve-se aceitar o que já foi decidido.

Então a fala do autor sobre essa colocação das três formas de “governo da igreja” trazer “um salutar equilíbrio” (CABRAL, 2002, p. 91) não se sustenta, pois refletem uma opinião, ou mesmo interesse de ocultar essa forma de “autoritarismo” velado da “classe dirigente” da instituição. O diagrama abaixo nos ajuda a melhor compreender como é a composição social atual da ADMM. Daí comparando com a fala de Cabral, poderemos não apenas ver a realidade, mas tecer uma crítica naquilo que denominamos anteriormente de “linguagem organizacional” (BERGER; BERGER, 2004).

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