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Physiopathologie de la crise blastique

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Além do tema da função continente, Bion também confere à noção de espacialidade psíquica a dimensão clínica ao imaginá-la em sua dimensionalidade, ou melhor, em suas dimensionalidades, uma vez que, como vimos, ele a concebe em estado de transformação: o bidimensional e o tridimensional, segundo o nível de estruturação psíquica.

Na verdade, para sermos precisos, esse não é um tema a que Bion tenha se dedicado especificamente. Vimos que a questão das dimensões da espacialidade psíquica comparece, em suas elaborações, atrelada à capacidade de pensar, como organizadora das experiências do indivíduo e, nessa medida, representa um parâmetro do funcionamento mental (Meltzer, 1975/1979: 198).

Diz Bion: “Postulo, pois o espaço mental como coisa-em-si, incognoscível, embora se represente por pensamentos” (Bion, 1970/1991:21).

Para Bion, a realização do espaço tridimensional possui o caráter restritivo do pensamento no que ele demarca um campo (Anzieu, 1993/1998: 48), o pensar sendo o “equipamento” que oferece as coordenadas:

O paciente A carece, pois, de equipamento que lhes propicie delinear a realização do espaço mental. Tem posição análoga ao geômetra que aguarda que se inventem as coordenadas cartesianas para elaborar a geometria algébrica (Bion, 1970/1991: 22).

A identificação projetiva, “por falta da concepção de continentes dentro do que ocorra a projeção” (Bion, 1970/1991: 22), se realiza, para o analista, como um espaço bidimensional, mas seria experimentada pelo indivíduo como ausência de espaço mental. Ou seja, o espaço mental é um espaço continente. A ausência de uma estrutura continente representa a não constituição de um espaço mental.

(...) sem imagens visuais que preencham funções de sistema de coordenadas... Sente- se aí a realização mental de espaço como imensidade tão ampla que não se representa mesmo pelo espaço astronômico que, em verdade, é não representável (Bion, 1970/1991: 22).

Desse modo, em termos de Bion, se adotarmos a perspectiva da experiência do indivíduo, seria uma imprecisão falar em espaço psíquico bidimensional visto que não há ainda espaço psíquico. No entanto, em termos teóricos, e dada a diversidade dos fenômenos clínicos, essa nomenclatura é

pertinente. Em nosso benefício, ressaltamos que isso confere maior evidência ao tema do continente psíquico como elemento psicanalítico.

Se retornarmos rapidamente ao “mito de referência”, vemos que o Eu de origem ainda não possui uma concepção de continentes, de espaços com configuração tridimensional onde possa projetar suas emoções insuportáveis e seus objetos maus. A descoberta de Bion em relação à proposição de Melanie Klein, é que a identificação projetiva é um mecanismo específico desse estado psíquico e que não implica a concepção de continente. Cabe à mãe acolher essas projeções dispersas e sem forma, transformá-las e devolvê-las como coordenadas para uma reorganização do espaço psíquico em tridimensional, além do que, oferecendo à criança a experiência de um espaço continente. É a introjeção do processo de rêverie o que constrói o espaço mental como um corpo com volume.

As proposições de Bion a respeito da representação de um espaço psíquico tridimensional realizam as intuições de Freud: “O espaço pode ser a projeção da extensão do aparelho psíquico. Nenhuma outra derivação é possível” (Freud, 1941[1938]/1987: 335).

Isso é o mesmo que dizer que o processo de construção do espaço, como estrutura cognitiva, é solidário ao processo de constituição do Eu e à possibilidade da abstração simbólica (Mano, 2004).

Desse modo, descobre Bion – e essa foi uma de suas grandes contribuições à clínica psicanalítica – na constituição do psiquismo torna-se indispensável a compreensão do espaço mental como tridimensional, como espaço continente. Ele, no entanto, se interessa pelo gênese da capacidade de pensar, mas não pelo Eu; pela função continente, mas não pela estrutura continente. Não é apropriado, no que diz respeito à sua teoria, falarmos de envoltório psíquico, como, por exemplo, dizemos a partir da Segunda Tópica freudiana. A nosso ver, quando Bion aborda a questão das dimensionalidades do espaço psíquico, ele mais chama a atenção para a natureza de um problema do que oferece respostas, dando a seus herdeiros, em suas palavras “uma chance de preencher a lacuna deixada por [ele]” (citado por Francesca Bion apud Grotstein, 2007/2010: 24).

Meltzer, Anzieu e Frances Tustin seguem nesse sentido, e a perspectiva que adotam complementa a de Bion, ao criarem elos de ligação que integram,

cada um à sua maneira, as dimensionalidades do espaço psíquico como parâmetro do funcionamento mental, a organização narcísica, a perspectiva estrutural e a experiência subjetiva. As elaborações desses autores, e a eles agregamos Esther Bick, revelam a pertinência clínica do tema em relação à constituição narcísica e aos processos de separação Eu/não-Eu.

O trabalho com crianças autistas (ou sua consideração), que nos remete aos primórdios da constituição psíquica, sensibiliza esses autores para a dimensão espacial da existência: angústias de esvaziamento, de cair em um espaço sem fim, de turbilhonamento, se apresentam como manifestações clínicas diferentes de outras, também de cunho narcísico como, por exemplo, a angústia de fragmentação.

Do mesmo modo, a valorização clínica dos estágios primários do processo de separação Eu/não-Eu, posta em cena pela própria situação da utilização dos mecanismos de identificação projetiva, mas também, e de modo relevante, por outros autores – como, por exemplo, Winnicott e Anzieu – revelou outros aspectos vinculados ao processo de separação. Eles ampliaram a abordagem de Bion a respeito das dimensões do espaço psíquico, ao considerarem o lugar que o próprio corpo ocupa na construção do espaço psíquico. Esses desdobramentos foram colocando em relevo os aspectos estruturais da construção do espaço psíquico.

Nossa proposta de Clínica do Continente tem como pressuposto de base essa estreita relação entre o modo de funcionamento mental e a configuração do espaço psíquico, tal como nos ensina Bion, mas também os aspectos estruturais dos processos de constituição do espaço psíquico e do Eu. No Capítulo III, à medida que trabalharmos os processos de constituição do Eu, vamos, inevitavelmente, nos dedicar ao tema da construção do espaço psíquico. Dada a relevância da questão, queremos adiantar algumas elaborações de Anzieu (1990) acerca das configurações espaciais, que nos parecem de extrema clareza.

Anzieu baseia-se na física para um rápido estudo comparativo das superfícies abertas e fechadas que constituem, respectivamente, o espaço bidimensional e o espaço tridimensional. Segundo ele, uma superfície fechada é, em geometria, entendida como envelopamento e continência de um volume. Esse tipo de superfície divide o espaço em dois – interior e exterior – que se

tornam, pelo menos relativamente, independentes, podendo, portanto, funcionar segundo regimes diferentes. Além dessa relação de continência, o espaço tridimensional caracteriza-se também pela inclusão da dimensão de profundidade. Essa terceira dimensão é o que possibilita falar de um ‘aqui’ e um ‘lá’, delimitando uma extensão com uma direção privilegiada em que o ‘lá’ constitui o polo absoluto da posição espacial (Sami-Ali, 1974/2001: 42). Desse modo, uma forma fechada apenas irá configurar um espaço tridimensional se nela incluímos a terceira dimensão. Esta configuração espacial implica a possibilidade de polaridade e simetria – por exemplo, um aqui / um lá, um estar dentro / um estar fora – e a noção de volume; logo, também a possibilidade de armazenamento de conteúdos.

Vale ressaltar a diferença entre uma forma fechada com profundidade e a representação de uma superfície fechada, que pode ser, por exemplo, o desenho de um círculo no papel, que só será representação de volume se já houver uma concepção de volume.

Se a superfície é aberta, o espaço é bidimensional e sua configuração se altera completamente. Perde-se a possibilidade de continência (não há mais um dentro e um fora), de volume, de relevo, e há um enorme empobrecimento das possibilidades de simetria. Há um achatamento, um nivelamento de tudo o que nela se apresenta, provocando deformações. Podemos entender que uma superfície, tal como configurada pela bidimensionalidade espacial, implica ainda o limite, um limite que divide o espaço em dois. Talvez possamos imaginar que seja um limite sem demarcações, que se estende ao infinito.

Vemos que em geometria a configuração espacial é determinante das configurações e das relações dos objetos que nela se apresentam. Devemos então considerar que a configuração da espacialidade psíquica e a experiência de Eu como forma aberta ou espaço continente, são igualmente determinantes das configurações dos elementos psíquicos e organizadoras do modo de experimentação das sensações e emoções; do jogo pulsional e afetivo do indivíduo, das relações objetais e do próprio Eu.

Desse modo, diz Meltzer, (1975/1979), que a experiência em um mundo bidimensional é reduzida a objetos finos como uma folha de papel, carentes de interior. Ele exemplifica com o caso de uma criança que um dia desenha de um lado da folha de papel uma casa toda ornamentada vista de frente e, do outro

lado, a parte de trás de uma taberna. Conclui: “Assim a criança demonstrou sua vivência de um objeto bidimensional: quando se entra pela porta da frente, simultaneamente sai pela porta de trás de um objeto diferente. É em realidade, um objeto sem interior”(Meltzer, 1975/1979: 31).

Em um mundo sem continência, a mãe, por exemplo, é experimentada como aberta, resistente à penetração, sem substância nem possibilidade de conter os conteúdos que nela seu filho projeta; como se fosse uma folha de papel onde as aflições que o bebê lhe comunica “entram por um ouvido e saem por outro” (Meltzer, 1975/1979). Daí a intensificação da identificação projetiva, com um movimento insistente de intrusão.

Além disso, acrescenta Meltzer:

... o self que está vivendo em um mundo bidimensional vai ficar empobrecido tanto em memória como em desejo ou em previsão. Suas experiências não poderão resultar na introjeção de objetos ou na modificação introjetiva dos objetos já existentes (Meltzer, 1975/1979:199)

Em termos de separação Eu/não-Eu, Meltzer (1975/1979), diferentemente de Bion, propõe que a bidimensionalidade psíquica corresponde a um estado em que predomina a identificação adesiva, em que o objeto só ‘existe’ aderido à superfície do corpo do indivíduo; que a identificação projetiva “é, por excelência, o mecanismo da identificação narcísica em um mundo tridimensional” e é o que permitiria levar a vida mental para fora do narcisismo (Meltzer, 1975/1979:2001). A tetradimensionalidade psíquica inscreveria o indivíduo fora das identificações narcísicas e a unidimensionalidade corresponderia ao mundo enclausurado do autista.

I.2.4 – Uma clínica do continente ou uma clínica da função

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