A celebridade caía bem ao veio artístico dos gatunos profissionais do Rio no final do século XIX, possivelmente deu para perceber isso no capítulo anterior. Eles eram figuras públicas e não causa surpresa o fato de estarem sempre preocupados em cultivar a própria imagem e saber o que se publicava a respeito de si e de seu grupo na imprensa e na literatura. Essa característica, porém, nunca deixou de intrigar os observadores. Estes tinham sempre algo a dizer sobre os “desejos de exibição pública” dos doutores do crime.520
Como nota Diego Galeano, isso não acontecia só no Brasil e chegou a ser abordado numa perspectiva psicológica pelo criminologista europeu Rudolph Reiss e seu mentor, Alexandre Lacassagne, um dos principais expoentes da sociologia criminal no período.521 Mas talvez houvesse algo mais social, aprendido e calculado nessa relação com a publicidade do que dava a entender a imagem do gatuno acometido por uma patológica “hipertrofia do eu”.522 A articulação desse tema dentro de fora das memórias de Dr. Antônio é um bom e exemplo disso.
Ele teria afirmado que quando foi preso no interior de São Paulo em 1894, os fazendeiros da região, iam visita-lo atraídos pelo seu retrato, divulgado com a informação de que se encontrava preso na cidade. Ao chegarem na prisão, aqueles homens abastados conversavam e riam à vontade, dando ao gatuno dinheiro suficiente para ele mandar sempre trazer comida de fora e ainda ter uns trocados quando foi posto em liberdade.523
Esse tipo de coisa não era raro pelo Brasil afora e lembra as risadas dos visitantes que Dr. Anísio recebeu na Casa de Detenção do Recife em 1909, mencionadas no capítulo I. Mas, para além das visitas em si, tanto neste caso quanto no outro é preciso entender o significado da colaboração dos gatunos na publicação jornalística que as noticiou. Seja Dr. Anísio ao responder aos entrevistadores, fornecendo material para a reportagem subsequente, seja Dr. Antônio ao viabilizar (ou mesmo elaborar) a menção ao contato
520 Diego Galeano. Criminosos viajantes, p.237. 521 Idem.
522 Elísio de Carvalho. “Literatura das prisões – I – os poetas”. A Illustração Brazileira (RJ), nº 107 –
01/11/1913, p.369 (HDB).
523 “Memórias de um ‘rato de hotel’. O ‘Dr. Antônio’ narra a sua vida – XXVIII A minha prisão em S.
com os fazendeiros quando preso em São Paulo, havia um notável esforço para apresentar-se como alguém tratável, pitoresco, até agradável.
Isso, quem sabe, tornaria mais tragável a ideia de os gatunos serem um fenômeno civilizacional, menos ofensivos do que outros criminosos, a qual, aliás, é explicitamente proposta nas memórias de Dr. Antônio.524 Nesse sentido, as referências aos aspectos editoriais das publicações literárias deles feitas no capítulo anterior, como especulações sobre quem iria prefaciar uma obra, críticas sobre a qualidade de outra, etc. talvez também favorecessem a uma percepção a respeito dos experts da gazua e do conto como pessoas com quem se podia negociar e discutir, quase homens de letras.
Na época em que apresentava aquele trecho das memórias de Dr. Antônio referente a seus tempos em São Paulo, por exemplo, a Gazeta de Notícias não perdia nenhuma oportunidade de reiterar tanto a popularidade do autor quanto o vínculo contratual dele com o jornal:
Foram ontem encontrados, na rua do Carmo e estão à disposição de quem se mostrar seu proprietário, vários papéis escritos à máquina, em que se encontra a cópia do último capítulo das memórias do “Dr. Antônio”, publicada ontem. O sucesso das memórias do célebre rato de hotel é tal, que há gente que se exercita em copiar os seus escritos! Devemos dizer, entretanto, que é absolutamente interdita a reprodução em qualquer jornal das memórias do “Dr. Antônio”, que lhe pertencem de todo. O “Dr. Antônio” cedeu apenas à “Gazeta de Notícias” a publicação da sua confissão – única no gênero.525
Estava dado o recado, as “memórias” eram muito populares, Dr. Antônio era uma celebridade, mas estava comprometido com um único veículo da imprensa e não todos. Essa, portanto, não seria uma publicidade feita inteiramente à revelia daquele cuja trajetória era revelada, havia aí um território por ele conquistado, o qual talvez pudesse vir ao encontro de necessidades muito práticas, sobretudo na eventualidade de uma prisão. Não digo que todos os gatunos tivessem isso em mente ao darem asas a quem queria fazer dinheiro com as suas figuras, mas tudo indica que esse frequentemente foi o caso. Dr. Antônio, por exemplo, usava espaço na Gazeta de Notícias para protestar contra o que considerava uma injustiça sofrida em uma condenação ocorrida não em histórias passadas a serem narradas nas suas “memórias”, mas sim naquele exato momento em que elas eram publicadas.
Ao remeter uma carta ao jornal no final de 1911, o gatuno demonstra saber a natureza da sua legitimidade como interlocutor, reforçando-a antes de passar à plena
524 Dr. Antônio. Memórias de um rato de hotel, p.257.
525 “As memórias do ‘Dr. Antônio’ – o sucesso das revelações do célebre rato de hotel”. Gazeta de Notícias,
queixa contra o que as autoridades vinham fazendo contra ele: “Ilmo. Sr. redator da ‘Gazeta de Notícias’ – Prontamente e da melhor vontade acedi ao pedido da ‘Gazeta’, a fim de fornecer apontamentos e escrever acerca do meu passado. Relatei minuciosamente os fatos e crimes com todas as peripécias e consequências decorrentes; a ‘Gazeta’ própria é testemunha de que nunca me queixei das penas a que fui condenado”. E só então tratou do caso particular que denunciou como arbitrário.
Essa estratégia, é claro, não passava despercebida aos jornais e muitas vezes gerava reações indignadas, como quando A Imprensa fez ponderações sobre o apreço de Afonso Coelho pelas notícias a respeito de seus atos, “certo de que poderão ser de futuro uma atenuante de seus crimes. (...) Custe o que custar quer ser um notável”.526 Por isso tinha repórter que às vezes cismava e não colocava o nome de ninguém nas reportagens, achando que “os gatunos são muito capazes de roubar unicamente para lerem os seus nomes nos jornais”.527 Inclusive, para a Notícia, Arthur Perdigão, gatuno ator e colega de cela de Dr. Anísio, se ufanava “de ver o seu nome publicado diariamente em todos os jornais, embora com os qualificativos mais infamantes”.528
O que parecia uma infâmia aos olhos do repórter, porém, poderia ser apenas fama aos de um gatuno, afinal de contas ele sabia que outros entre seus pares poderiam estar lendo aquela mesma edição de jornal e, admirado, entrando em contato pela primeira vez com suas aventuras.529 Dr. Anísio certamente conheceu gente da sua profissão através da imprensa em algum momento, pois ela era a sua companheira inseparável dentro e fora das prisões.
Assim que ele foi capturado em Recife em fevereiro de 1909, foi dito que “em seu poder se encontrou uma carteira contendo recibos e retalhos de jornais desta e de outras capitais”.530 Dr. Anísio dava um enorme valor a essa carteira com papéis e jornais, por isso logo depois da prisão redigiu uma petição ao chefe de polícia do estado de
526 “Afonso Coelho”. A Imprensa, 19/02/1899. Outro gatuno que teria utilizado a fama para ter seus pontos
de vista publicados na imprensa teria sido “O Carleto”. Gazeta de Notícias, 19/04/1907. Os redatores muitas vezes chamavam as notícias policiais de “reclamos”, por acharem que faziam propaganda dos criminosos.
527 “Ocorrências”. Gazeta de Notícias, 08/01/1904. 528“O criminoso perdigão”. A Notícia, 10 e 11/11/1899.
529 Ver, por exemplo, a alegação: “com relação à prisão dos indivíduos que passavam 45 contos de
estampilhas em S. Paulo; Silva Pontes diz só ter ciência desse fato pela leitura dos jornais, não conhecendo nenhum desses indivíduos”. “Uma quadrilha de salteadores – o chefe da quadrilha – o inquérito na Casa de Detenção – Silva Pontes pensa no suicídio – o sucesso da reportagem da ‘gazeta’”. Gazeta de Notícias, 06/07/1905.
530 “Diligencia importante. A prisão de um gatuno célebre”. Jornal Pequeno, 03/02/1909. Para Dr. Antônio
se comprometendo por levar consigo recortes de jornais com reportagens de crime, ver Memórias de um rato de hotel, p.267-268.
Pernambuco pedindo especificamente a restituição dela, no que aparentemente não foi atendido.531 Mas se essa contingência lhe trouxe problemas pela perda de documentos pessoais e recortes de notícias importantes, o mesmo não se pode dizer do acesso à imprensa em geral, pois, quando já estava na Casa de Detenção, foi “entregue à leitura dos seus jornais” que João Eustáquio Pereira afirmou tê-lo deixado depois da entrevista que realizou com ele em sua visita narrada no Jornal Pequeno.532
A relevância conferida por Dr. Anísio às informações prestadas pelos jornais a seu respeito pode ser percebida no uso que fazia delas. No último tópico do capítulo II, eu comentava o episódio em que o célebre gatuno foi à casa de cômodos na qual Dolores morava e escreveu-lhe uma carta no quarto de uma pessoa conhecida dos dois. O seu nome era Amélia Veiga e, em depoimento incluso no processo instaurado contra ele na ocasião, a moça afirmou que Anísio lhe mostrou uma edição do Jornal do Brasil, dizendo- a que ele era o mesmo doutor ao qual as reportagens se referiam, fato que ela declarou até então ignorar.533
Para um cidadão que considerasse os seus valores totalmente incompatíveis com a ilegalidade, certamente os adjetivos ou mesmo a pura descrição de algum malfeito no qual ele incorreu seriam motivo de vergonha pelo horror e desapreço que lhe esperaria em seus espaços de sociabilidade, além, quem sabe, de uma ponta de conflito interior por ter realizado ações incompatíveis com suas orientações pessoais. Este talvez seja um tema no qual a incompreensão por parte dos homens letrados e respeitáveis do período em relação aos gatunos se aproxime mais do meu próprio estranhamento para com eles.
Afinal, por um lado, parece natural esperar que notícias preconceituosas, deterministas e incriminatórias no geral tivessem alguma consequência negativa para os sujeitos aos quais elas se referiam; por outro lado, aqueles que eram por elas alvejados reagiam de formas diversas a depender das suas perspectivas de mundo. Para os gatunos profissionais, que tinham suas próprias ideias sobre certo e errado, o que pode parecer ofensivo talvez fizesse pouco sentido para pessoas de outras posições sociais.
Ecoando talvez aquela estranha e obscura distinção entre ladrões e gatuno abordada no capítulo II, Dr. Antônio, na época das tratativas para a elaboração das memórias, foi chamado de “ladrão inteligentíssimo” por um cavalheiro que talvez tenha
531 Volume 488, jan.-jun. 1909, Delegacia do Segundo Distrito da Capital, Fundo da Secretaria de
Segurança Pública, APEJE.
532 “Duas horas na casa de Detenção do Recife”. Jornal Pequeno (PE), 20/10/1909. (HDB). 533 Processo nº 781, ano 1899, caixa 1980, 6ª vara criminal, AN, fl.12.
sido João do Rio e não deixou de registrar que a palavra “ladrão” sempre lhe provocou sensação esquisita.534 Relacionada a menores habilidades profissionais, ela também não era tolerada por Dr. Anísio, que se considerava um gatuno; enquanto isso, nada me faz crer que ironizá-lo, tratá-lo como um indivíduo criminoso e degenerado realmente o incomodasse. Tanto assim que ele chegou a inserir e permitir que fossem inseridas reportagens com esse tom em suas próprias defesas em processos criminais apenas porque elas forneciam informações factuais que lhe pareciam relevantes para as suas argumentações.535
No final das contas, é como se ele estivesse tranquilo com a própria capacidade de não ser aquele personagem ilustre das notícias criminais quando precisassem passar- se por gente honesta. Ao mesmo tempo, nos ambientes nos quais era inevitável ser reconhecido, não se incomodaria em ser acusado e criticado daquela forma, pois isso seria até um mérito. Entretanto, essa explicação tem limites.
É difícil negar que os praticantes de crimes contra a propriedade procuravam tornar-se conhecidos em seu meio, pois vez ou outra aparece um registro indicando o hábito de elaborarem – às vezes de maneira assaz criativa – os seus feitos profissionais quando conversando entre si.536 Mas daí a considera-los simplesmente ativos patrocinadores da notoriedade à qual foram alçados pelas imprensa é ignorar as consequências negativas que ela poderia trazer às suas carreiras e confundir a necessidade de tirar proveito de uma situação com o puro apreço por ela.
Na mesma parte das memórias em que narra as negociações para a sua elaboração, Dr. Antônio admite que contar a sua história poderia prejudicá-lo e certa vez, ao ser preso por uma suspeita (acertada por sinal), um delegado o teria perguntado: “por que criou fama?”537 Esse é o tipo de pergunta que qualquer gatuno profissional – e especialmente os citados a seguir – faria a si próprio ao ler a entrevista que A Noite disse ter realizado com um agente de polícia do Rio em 1911.
Na ocasião, entrevistador e entrevistado teriam ido a um dos pontos de reunião da gatunagem, a Praça Tiradentes, a mesma onde Anísio era visto circulando de forma suspeita logo após chegar ao Rio de Janeiro, ainda no início dos anos 1890.538 Portanto,
534 Dr. Antônio. Memórias de um rato de hotel, p.34.
535 Ver, por exemplo, o processo nº 1456, ano 1908, 10ª Vara Criminal, AN, fl.27. 536 Ernesto Senna. Através do cárcere (Casa de Detenção), p.19-20.
537 Dr. Antônio. Memórias de um rato de hotel, p.190. Ver também a página 34.
538 “Como se rouba no Rio de Janeiro – felizmente nós não temos grandes ladrões – em compensação não
mais de vinte anos depois ainda era nesse lugar que se procurariam os doutores do crime, ou assim pensou o repórter, que foi logo perguntando ao agente qual a especialidade de um dos transeuntes. Mas a resposta teria sido desencorajadora: “- Ah! Pensa o senhor que nós aqui temos grandes ladrões. Está enganado”.
A descrição então feita pelo policial lembra o que vem sendo sugerido em outras partes desta tese. Naquele início de década de 1910, a figura do gatuno de rua que era refinado, sabia disfarçar-se e atuar de modo discreto e eficaz estava em decadência: “os gatunos smarts são muito poucos e, por isso mesmo, quando fazem qualquer coisa, são logo descobertos”. E quando se tratavam dos trabalhos de maior elaboração, envolvendo disfarces e a criação de personagens, o rol de possíveis acusado se reduziria mais ainda segundo a autoridade:
Logo que se vê um desconhecido, cavalheiro distinto, que se hospedou em um hotel, intitulando-se doutor, diplomata ou mesmo padre ou coisa equivalente e que desapareceu do hotel, carregando alguns contos do hóspede vizinho, sem fazer arrombamento, o senhor pode escrever que foi o “Dr. Antônio” que lá esteve, ou então o “Dr. Anísio”. São os únicos capazes de fazerem o “serviço”, mais ou menos limpo.539
No momento em que a Noite reafirmava o status dos doutores Anísio e Antônio como representantes máximos do furto profissional, culpados em potencial de qualquer coisa mais elaborada que acontecesse, os dois já se encontravam definitivamente presos. Ambos sabiam que a sua fama no noticiário os antecipava como acusados e os ultrapassava ao atribuir-lhes tudo quanto pudessem ter feito.540 Portanto, era fundamental acompanhar de perto as narrativas dos jornais para saber a quantas andavam os seus personagens mais célebres e os progressos da polícia nas buscas quando estavam soltos, o que não significava necessariamente gostar de receber atenção das reportagens.
Quando o célebre gatuno Silva Pontes foi transferido para o Rio, após ser preso em São Paulo, em 1905, a Gazeta de Notícias afirmou que ele seria aguardado “como um herói”, pois era objeto de atenção de “um grande público”: “entra em franco sucesso de popularidade o Sr. Silva Pontes”.541 Ele, porém, estava desesperado com essa fama toda,
539 “Como se rouba no Rio de Janeiro – felizmente nós não temos grandes ladrões – em compensação não
há cidade onde gozem de tanta liberdade”. A Noite (RJ), 01/11/1911 (HDB).
540 Para tanto Dr. Anísio quanto Dr. Antônio se queixado da publicidade que recebiam, ver o já citado “Duas
horas na casa de Detenção do Recife”. Jornal Pequeno (PE), 20/10/1909. (HDB) e Memórias de um rato de hotel, p. 270-275.
541 “A prisão de Silva Pontes – troca de telegramas – O chefe da quadrilha que assaltou a Casa da Moeda”.
Gazeta de Notícias (RJ), 04/07/1905 (HDB). Sobre a atração que as histórias de gatunos exerciam no público leitor, ver o comentário sobre o roubo de joias da Rua do Rezende feito por Melo Morais Filho. Fatos e memórias, p.82-83.
afirmou em depoimento que pouco antes de ser preso andava arisco e disfarçado, tentando despistar as autoridades. Para orientar-se, lia os jornais e tanto os leu que chegou a pensar em suicidar-se, diante da evolução da sua notoriedade.542 Na realidade, era uma relação meio estranha a dele com a imprensa, revoltando-se com o que lia a seu respeito mas confiando nas informações mais recentes sobre seus pares no crime.543
Também Afonso Coelho, após uma fuga, saía do seu esconderijo disfarçado de trabalhador para comprar, dentre outras coisas, jornais.544 E teria sido justamente no ato de ler as notícias sobre o seu maior crime que o companheiro de cela de Dr. Anísio na Casa de Detenção em 1899, Arthur Perdigão, foi preso no hotel da preta Henriqueta, em Copacabana.545
Em vista disso, os redatores, mesmo quando consideravam os egos inflados dos gatunos como a razão para tornarem os jornais seus companheiros inseparáveis, percebiam aí também uma motivação prática em relação àqueles que se encontravam soltos. Em 1898, um cronista da Gazeta de Notícias comentava um roubo de valor elevadíssimo à joalheria Luiz de Rezende quando reconheceu que “a imprensa com as suas indiscrições atrapalha por vezes a ação da polícia. Assim é que ela cita, com os mais circunstanciados pormenores, os passos que dá a polícia para a captura deste ou daquele gatuno, esquecendo-se que os amigos do alheio são leitores assíduos dos jornais, mesmo porque sentem orgulho em ver estampadas as suas façanhas”.546
Mas esta análise não conseguirá dimensionar a relação dos gatunos com a publicidade, questão indissociável de sua percepção sobre a fama, se não explicar que os jornais eram seu instrumento de trabalho quando empreendiam as ações mais elaboradas de todas. No capítulo anterior, a leitura do noticiário e seções literárias de periódicos e diários pelos presos foi apresentada como parte do seu aprendizado para a ficção das ruas. Os redatores dos jornais se animavam a estender essa forma de consumo do seu material
542 “Uma quadrilha de salteadores – o chefe da quadrilha – o inquérito na Casa de Detenção – Silva Pontes
pensa no suicídio – o sucesso da reportagem da ‘gazeta’”. Gazeta de Notícias (RJ), 06/07/1905 (HDB).
543 “Um chefe de quadrilha – a prisão de Silva Pontes – outras prisões – a reportagem da ‘gazeta’”. Gazeta
de Notícias (RJ), 05/07/1905 (HDB).
544 “Afonso Coelho”. A Imprensa (RJ), 19/02/1899 (HDB). 545 Vicente Reis. Os ladrões no Rio, p.28.
546 “Ao acaso”. Gazeta de Notícias (RJ), 16/12/1898 (HDB). Essa percepção permaneceu constante, como
indica a atitude das autoridades num caso de uma década mais tarde, também de roubo de joias: “Assalto a uma casa de joias – na galeria cruzeiro – prisão de um assaltante – outras notas”. O Século (RJ), 17/05/1909 (HDB).
aos criminosos fora da prisão, mesmo quando não sabiam exatamente como ele tinha sido usado.
Em novembro de 1886, relatando a tranquilidade com que os gatunos agiam na zona norte do Rio, a Gazeta afirmou que “da casa de um moço ali morador furtaram uma garrafa do leite e um pão, naturalmente para saciar o apetite provocado pelo trabalho, e mais uma Gazeta de Noticias, naturalmente para leram durante a refeição”.547 O jornal seria de algum modo informativo para os artistas do crime contra a propriedade como eram para qualquer pessoa, e saber que uma reportagem chamou a atenção dos gatunos – por mais que formalmente se criticasse o acesso deles aos jornais – era algo que jornalista