O objetivo principal deste projeto é determinar, caracterizar e avaliar potenciais interações farmacológicas ocorridas numa residência sénior, de modo a compreender a sua frequência e etiologia, e assim poder prevenir iatrogenias e solucionar os efeitos negativos que daí advêm.
A residência sénior em questão é a Carlton Life Porto, a qual tem uma população bem caracterizada: utentes idosos, com múltiplas patologias, polimedicados, e muitas vezes com elevado grau de dependência. A farmácia Aliança presta serviços a esta unidade (assim como a outras), na medida em que é responsável por assegurar um farmacêutico, o qual é responsável pela unidade, pela validação da farmacoterapia aí administrada e pela preparação dessa medicação em unidose individualizada.
A realização deste projeto só foi possível devido à disponibilidade quer da farmácia (que possibilitou a presença e acompanhamento do trabalho realizado na unidade), quer da unidade sénior (que facilitou o acesso à unidade e aos dados, sempre com o compromisso de confidencialidade subjacente). Este projeto foi iniciado pouco tempo após o início do estágio curricular e prolongou-se no decorrer do estágio. Contudo, durante o período de estado de emergência, provocado pela pandemia de COVID-19, sofreu uma interrupção de modo a proteger quer os utentes e funcionários, quer nós próprios, uma vez que foram diagnosticados utentes infetados com a doença. Após o período de estado de emergência, foi nos possibilitado reencetar o projeto, após a implementação de medidas de proteção. Por conseguinte, este projeto não foi tão exaustivo como seria pretendido, pois foram perdidos alguns dados devido à saída de alguns utentes.
Recolha de dados e protocolo de atuação:
Numa fase inicial tive acesso ao cardex, documento onde se encontra o regime terapêutico de cada doente, discriminando toda a medicação administrada e respetiva posologia, [ANEXO V]. Uma vez que a unidade conta com a colaboração de diversos médicos, as alterações da terapêutica são frequentes. Deste
modo, os dados recolhidos podem estar desatualizados relativamente ao período em que foi recolhida a informação de cada utente. A cada utente foi atribuído um número de série, de modo a proteger a sua identidade. Numa fase posterior, procedi a uma análise exaustiva de toda a medicação administrada concomitantemente, a cada utente participante [ANEXO VI]. Avaliando o grupo terapêutico, indicações, posologia (de modo a garantir que não era ultrapassada a dose recomendada) e apurados os cuidados necessários e possíveis reações adversas de cada fármaco, de modo a estabelecer um perfil de cada fármaco [ANEXO VII]. De seguida, procedi à verificação da prevalência e frequência de interações entre os fármacos administrados, atendendo sempre à posologia[ANEXO VIII]. Para isso, recorri à plataforma de apoio, Multi-Drug Interaction Checker ®, disponibilizada pelo MEDSCAPE ®, o qual apresenta reconhecimento e validação internacional. Este permite a verificação de interações entre múltiplos fármacos, em simultâneo, classificando-as, quando efetivas, em três categorias:
• Major: elevado significado clínico. Evitar estas combinações pois o risco ultrapassa os benefícios. • Moderada: significado clínico moderado. Evitar de modo geral estas combinações, usar apenas
em circunstâncias especiais e bem determinadas.
• Minor: significado clínico mínimo. Minimizar o risco, avaliar os riscos e considerar um fármaco alternativo, instituir medidas de prevenção ou instituir plano de monitorização[59].
Análise estatística:
Perante os dados recolhidos e analisados, foram propostas alternativas, menos prejudiciais ou em doses mais adequadas às condições fisiopatológicas do utente. Posteriormente, procedeu-se à análise estatística dos resultados obtidos. Para isso recorreu-se ao desenho de gráficos e tabelas, apresentados de seguida nos resultados e discussão, de modo a visualizar mais facilmente as variáveis em questão.
2.3 Resultados e discussão:
Caracterização da amostra:
Relativo ao período compreendido entre 1 de fevereiro e 31 de agosto de 2020, os participantes com idades compreendidas entre 60 e 100 anos, apresentavam um regime terapêutico contendo uma média de 10 fármacos concomitantes por utente. A amostra é constituída por 20 utentes, 9 homens e 11 mulheres. Todos residentes na Unidade Carlton Life no Porto.
No total observamos a existência de 268 interações farmacológicas, com uma frequência de 16 de interações major, 189 de interações moderadas, 39 de interações Minor e 24 duplicações de terapêutica. A percentagem de ocorrência de cada interação está descrita na Figura 3.
FIGURA 3. PERCENTAGEM DE CADA TIPO DE INTERAÇÃO FARMACOLÓGICAS ENCONTRADA
As interações major mais comuns, estão descritas na Tabela 5. Em 60% dos perfis terapêuticos, observou-se a existência de pelo menos uma ocorrência, em 10% duas ocorrências e em 5% três. Na Tabela
6 estão descritas as interações moderadas mais frequentes. Dos 20 perfis analisados, cada utente apresenta,
em média, 10 interações. Em 80% dos casos apresentavam pelo menos 5 interações, em 40% pelo menos 10, em 20% dos casos pelo menos 15 e em 5 % mais de 20 interações.
As interações minor mais comuns estão descritas na Tabela 7. A frequência de ocorrência de pelo menos uma interação é de 75%, de pelo menos 3 interações é 35% e de pelo menos 5 é 10%.
Relativamente às duplicações de terapêutica, estas foram encontradas em 30% dos perfis, sendo que destes, em média, apresentavam 3 duplicações simultaneamente, perfazendo um total de 16 ocorrências.
Na Tabela 8 estão descritas as duplicações de agentes cardiovasculares. De acordo com as guidelines, não devem ser ultrapassados os 4 fármacos, pertencentes a este grupo terapêutico, em simultâneo, no entanto 15 % dos perfis analisados continham pelo menos 5 fármacos deste grupo. Já no caso dos agentes anti-hipertensores, descritos na Tabela 9, 15 % dos utentes tomavam pelo menos 3 fármacos deste grupo, ultrapassando o limite recomendado, dois.
TABELA 5. INTERAÇÕES FARMACOLÓGICAS
MAJOR QUE SURGEM COM MAIOR FREQUÊNCIA
TABELA 6. INTERAÇÕES FARMACOLÓGICAS
MODERADAS QUE SURGEM COM MAIOR FREQUÊNCIA
TABELA 7. INTERAÇÕES FARMACOLÓGICAS
Na Tabela 10, referente aos inibidores enzima conversora da angiotensina, os quais devem ser limitados a um fármaco, em 5 % dos casos analisados, continham uma duplicação. Por sua vez, na Tabela
11, que diz respeito aos agentes antidepressivos, mais uma vez, limitados a um fármaco, encontrávamos a
prescrição de pelo menos 2 em 25% dos perfis analisados.
Relativamente aos agentes antipsicóticos descritos na Tabela 12 e aos nitratos, apresentados na
Tabela 13, ambos restringidos a apenas um fármaco, em 10% dos casos, comprovamos a existência de
duplicação da terapêutica.
Quando verificamos os fármacos que atuam no Sistema Nervoso Central (SNC), apresentados na
Tabela 14, os quais não podem ultrapassar os 3 fármacos em simultâneo, apercebemo-nos que, em 25%
dos casos existem 4 e em 10% dos casos chegam aos 5 fármacos concomitantes. Por último, ao analisar os agentes psicotrópicos, descritos na Tabela 15, restritos a 3 fármacos simultaneamente, constatamos que em 20% dos casos se recorreu a 4 fármacos.
TABELA 8. DUPLICAÇÕES TERAPÊUTICAS EM
AGENTES CARDIOVASCULARES
TABELA 9. DUPLICAÇÕES TERAPÊUTICAS EM AGENTES
ANTI-HIPERTENSORES
TABELA 10. DUPLICAÇÕES TERAPÊUTICAS EM
INIBIDORES DA ENZIMA CONVERSORA DA ANGIOTENSINA
TABELA 11. DUPLICAÇÕES TERAPÊUTICAS EM
AGENTES ANTIDEPRESSIVOS
TABELA 12. DUPLICAÇÕES TERAPÊUTICAS EM
AGENTES ANTIPSICÓTICOS
TABELA 13. DUPLICAÇÕES TERAPÊUTICAS DE
2.4 Conclusões:
A idade avançada é simultaneamente um fator fomentador e um fator de risco, para a ocorrência de interações farmacológicas. Devido às diversas comorbilidades é necessária a prescrição de um maior número de fármacos, o que por sua vez irá exponenciar a probabilidade de interações entre si. Deste modo, torna-se indispensável a monitorização frequente, com vista a evitar problemas de saúde desencadeados por estas interações. Assim sendo, podemos concluir que este projeto cumpriu o objetivo a que se propôs, identificando inúmeras interações farmacológicas, através da análise dos perfis terapêuticos dos utentes, permitindo que, de seguida, estas fossem transmitidas à equipa médica, de modo a que esta as pudesse corrigir, evitando assim a instalação ou agravamento de problemas de saúde associados a iatrogenias. A implementação deste e de outros projetos semelhantes é uma mais valia para utentes e prescritores, evitando o estabelecimento, quer de interações, quer de duplicações de terapêutica, devendo ser uma prioridade nestes utentes mais expostos.
TABELA 14. DUPLICAÇÕES TERAPÊUTICAS EM
AGENTES QUE ATUAM NO SNC
TABELA 15. DUPLICAÇÕES TERAPÊUTICAS EM
CONCLUSÃO
Após o termino deste estágio de seis meses, denoto, sem dúvida, uma enorme evolução nas minhas competências práticas enquanto farmacêutica. Agora, sinto-me muito mais preparada para lidar com as mais diversas situações, não só atrás do balcão, como na própria gestão de uma farmácia. O conhecimento que me foi transmitido durante esta etapa, permitiu-me consolidar todo o conhecimento que apreendi durante o percurso académico, transmitindo-o para o utente de uma forma concisa, simples e adaptada, auxiliando-os da melhor forma. As interações com utentes das mais diversas faixas etárias e condições socioeconómicas, permitiu-me compreender, qual a melhor forma de abordar cada utente, de modo a garantir que este teria o melhor resultado em saúde possível. Compreendi a importância fulcral do farmacêutico, não só do ponto de vista profissional, mas sobretudo do ponto de vista humanitário. O farmacêutico é muitas vezes, mais que um profissional de saúde, é mesmo um confidente, sobretudo em utentes com mais idade.
No final deste estágio, percebi o quão bela e humana, pode ser esta área, e o quão importante para a sociedade é. Ainda não sei por onde passará o meu futuro profissional, mas sei que irei levar esta experiência no coração pelo resto do meu percurso.
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