5.4 Patrons de conception
6.1.4 Ordonnanceur-orienteur
A Teoria do Núcleo Central teve a sua gênese no quadro da pesquisa experimental em 1976 por Jean-Claude Abric, por meio de sua tese de doutorado intitulada Jeux, conflits et représentations sociales, defendida na Universidade de Provence. Esta teoria se constitui como um recurso complementar a Teoria das Representações Sociais, pois esclarece significativamente aspectos que dizem
respeito à aparente contradição que permeia as Representações Sociais, as quais podem ser rígidas e flexíveis, estáveis e instáveis (SÁ, 1996).
Segundo Abric, a hipótese do núcleo central pode ser formulada da seguinte forma: uma representação social apresenta uma característica específica, de ser organizada em torno de um núcleo central, sendo este constituído de um ou mais elementos, que dão significado à representação. (ABRIC, 2002)
Abric (2002, p. 31) afirma ainda que núcleo central é “todo elemento que desempenha um papel privilegiado na representação, no sentido que os outros elementos dependem dele diretamente porque é em relação a ele que se definem seu peso e seu valor para o sujeito (...)”. Ele é determinado, pela natureza do objeto representado, pelo tipo de relações que o grupo mantém com este objeto e pelo sistema de valores e normas sociais que constituem o meio ambiente ideológico do momento e do grupo.
O núcleo central – ou núcleo estruturante – de uma representação assume duas funções fundamentais (ABRIC, 2002, p. 31):
-Uma função generadora: ele é o elemento através do qual se cria, ou se transforma, o significado dos outros elementos constitutivos da representação. É através dele que os outros elementos ganham um sentido, um valor.
-Uma função organizadora: é o núcleo central que determina a natureza dos elos, unindo entre si os elementos da representação. Neste sentido, o núcleo é o elemento unificador e estabilizador da representação.
O núcleo central é considerado o elemento mais estável da representação que permeia o indivíduo ou a sociedade. Desta forma, os objetos que se encontram no núcleo central são aqueles que dificilmente serão modificados. E que, para sê-lo, é necessário que haja uma evolução que provocará uma transformação completa da representação. Pode-se considerá-lo como uma rocha: concisa, resistente e inflexível, mas, que dependendo das pressões exercidas sobre ela – levando-se em consideração os fatores tempo, continuidade, velocidade, força etc. - pode sofrer modificações.
É preciso considerar também que a centralidade de um elemento não pode ser atribuída somente por critérios quantitativos. Ao contrário, o núcleo central possui, antes de tudo, uma dimensão qualitativa. Não é a presença maciça de um elemento que define sua centralidade, mas sim o fato que ele dá significado à representação. Pode-se, perfeitamente, identificar dois elementos, dos quais a importância quantitativa é idêntica e muito forte, que aparecem, por exemplo, muito frequentemente no discurso dos sujeitos, mas, um pode ser central e o outro não (ABRIC, 2002, p. 31).
Ao redor do núcleo central organizam-se os elementos periféricos. Eles constituem os componentes mais acessíveis, mais vivos e mais concretos das representações. Permitem a ancoragem na realidade, espelhando as modulações individuais e tendo a grande importância de fornecer pistas ao pesquisador (SÁ, 1996).
Assim como o núcleo central, os elementos periféricos também possuem funções específicas, sendo elas (ABRIC, 2002):
-Função de concretização: diretamente dependente do contexto, eles constituem a interface entre o núcleo central e a situação concreta na qual a representação é laborada ou colocada em funcionamento. Permitem a formulação da representação em termos concretos, imediatamente compreensíveis e transmissíveis.
-Função de regulação: mais leves que os elementos centrais, os
elementos periféricos têm um papel essencial na adaptação da representação às evoluções do contexto. Então, as informações novas ou as transformações do meio ambiente podem ser integradas na periferia da representação. Elementos susceptíveis de entrar em conflito com os fundamentos da representação poderão também ser integrados, seja lhes atribuindo uma importância menor, seja lhes reinterpretando na direção do significado estabelecido pelo núcleo central, ou ainda, lhes atribuindo um caráter de exceção.
-Função de defesa: Ele constitui o chamado <<para-choque>> da
representação. A transformação de uma representação se opera, na maior parte dos casos, através da transformação de seus elementos periféricos: mudança de ponderação, interpretações novas, deformações funcionais defensivas, integração condicional de elementos contraditórios. É no sistema periférico que poderão aparecer e ser toleradas contradições.
Neste contexto, verifica-se que tanto o núcleo central como os elementos periféricos exercem funções distintas, mas importantes para a manutenção das representações. Cada um tem um caráter específico e complementar da outra parte, não podendo existir sozinhos. Funcionam como um duplo sistema, com características diferenciadas como apresentado no quadro 3.
SISTEMA CENTRAL SISTEMA PERIFÉRICO Ligado à memória coletiva e à historia do
grupo Permite a integração de experiências e histórias individuais Consensual
define a homogeneidade do grupo Tolera a heterogeneidade do grupo Estável
Coerente Rígido
Flexível
Tolera as contradições Resiste às mudanças Evolutivo
Pouco sensível ao contexto imediato Sensível ao contexto imediato Funções:
gera o significado da representação determina sua organização
Funções
permite a adaptação à realidade concreta permite a diferença de conteúdo
Quadro 3: Características do sistema central e do sistema periférico de uma representação Fonte: ABRIC, 2002.
A centralidade proporciona a estabilidade da representação uma vez que, ligada a memória e a historia resiste a mudanças. Já a periferia permite que novas experiências sejam agregadas, porém, de uma maneira a proteger a representação mais antiga. É nesse sentido que grupos com representações mais „parecidas‟ conseguem se entender mantendo o respeito aos que se diferenciam. Neste caso, o sistema central possibilita a proximidade e o sistema periférico aceita as contradições de pensamento.
Por fim, ressalta-se que a preocupação deste trabalho é com o conhecimento do senso comum, sua dinâmica de produção e inserção social nas relações que vão definindo o ambiente a partir da interação dos grupos sociais. Dessa forma, as pesquisas devem produzir saberes, conhecimentos e entendimentos, os quais permitam uma aproximação às práticas subjacentes, ou seja, um avanço para além das necessidades e pragmáticas dos fazeres. É por este motivo que esta teoria foi escolhida para fazer parte deste estudo, pois se procura compreender o núcleo de significações tanto dos discursos quanto das palavras evocadas, baseando-se numa teoria que apóia as Representações Sociais, a Teoria do Núcleo Central.