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As dificuldades de aprendizagem, as habilidades básicas ainda não adquiridas em Língua Portuguesa e Matemática, os conteúdos curriculares, as estratégias de aprendizagem e o desenvolvimento integral dos alunos eram os cinco focos do Programa de Apoio Pedagógico. Para bem cumpri-lo, foi necessário tempo e planejamento.

Por outro lado, as tarefas, os trabalhos individuais e em grupo, as apresentações e as provas também exigiam tempo além do turno regular e apresentavam uma dinâmica própria e assimétrica a cada semana, em decorrência do planejamento didático e pedagógico dos professores de cada uma das disciplinas daquele ano escolar.

Mesmo diante das interfaces existentes, particularmente em relação aos conteúdos curriculares, conciliar o tempo e o planejamento do apoio pedagógico com as atividades do turno regular era, durante todo o ano, um dos grandes desafios do Programa de Apoio Pedagógico do CMF.

4.5.7.1 Os trabalhos em grupo do turno regular e suas consequências para o Apoio Pedagógico

Já na primeira semana de atividades, alguns alunos informaram que precisavam faltar na semana seguinte em função de trabalhos em grupo dos quais deviam participar.

O Coordenador inicialmente passou a incentivar os alunos a realizar seus trabalhos em grupo nas salas de aula do LEM não utilizadas pelo apoio pedagógico. As salas eram confortáveis e facilitavam o acompanhamento dos alunos pelos professores. O tempo era otimizado e as tardes mais bem aproveitadas. A dificuldade, no entanto, consistia na falta de computadores com acesso à internet, já que boa parte desses trabalhos exigia pesquisa. Nestes casos, os computadores da sala dos professores foram disponibilizados e, com certa limitação de espaço, eles podiam realizar esses trabalhos. Como segunda prioridade, o Coordenador também orientava os alunos a utilizarem a Seção de Informática. No entanto, em ambos os locais, não havia impressora que eles pudessem utilizar.

Diante deste impasse, o Coordenador passou então a liberar os alunos sempre que necessário. Por mais importante que fosse uma atividade do apoio, a prioridade acabava sendo o trabalho, pois envolvia uma nota parcial e o compromisso com outros alunos do grupo.

No entanto, a liberação dos alunos para realização de trabalhos em grupo nos horários de aula do apoio trazia certa preocupação aos professores da equipe pedagógica. Por

isso, em uma reunião para tratar do assunto, o Coordenador sugeriu três propostas para serem apreciadas pela equipe.

Na primeira proposta, os alunos estariam livres para participar de qualquer grupo no turno regular sem qualquer interferência do apoio pedagógico nas datas e horários dos encontros. Dessa forma, os alunos seriam liberados das atividades do apoio sempre que informassem a necessidade de se reunir em grupo, sendo as faltas justificadas.

Na segunda proposta, os alunos teriam a mesma liberdade para integrar qualquer grupo de trabalho, no entanto o apoio pedagógico escolheria, junto com os grupos, os dias e horários dos encontros, de preferência na sexta-feira feira à tarde para não comprometer a participação dos alunos nas atividades do apoio. O Chefe da Seção Psicopedagógica ressaltou que nem todos os alunos tinham a sexta-feira disponível, por exemplo. Não era interessante interferir na vida escolar de alunos que não eram do apoio, sendo conveniente a liberdade de escolha do melhor dia por parte dos grupos.

Na terceira proposta, alguns grupos do turno regular seriam organizados apenas com os alunos do apoio. Isso facilitaria as reuniões dos grupos que poderiam ocorrer nos horários dos tempos de estudo previstos no apoio pedagógico. Integrantes da Seção Psicopedagógica ressaltaram que os alunos do apoio eram oriundos de turmas diferentes do turno da manhã e que era importante a integração deles com os demais alunos do turno regular nos trabalhos em grupo, não sendo, portanto, favoráveis a esta opção.

Após ouvir a opinião dos professores, o Coordenador optou pela primeira proposta, ou seja, permitir que os alunos decidissem sobre os grupos que iriam integrar e não influenciar na escolha dos dias e horários dos encontros. Essa decisão teve reflexos na assiduidade ao apoio pedagógico, já que em diversas oportunidades os alunos precisavam se ausentar para os mais diferentes trabalhos em grupo do turno regular. Alguns trabalhos eram demorados e, por isso, precisavam de vários encontros na mesma semana para serem realizados. Outros se estendiam em mais de uma semana, ocupando demasiadamente o tempo dos alunos.

Quando os trabalhos em grupo de várias disciplinas se concentravam em um mesmo período, havia maior número de faltas às atividades do apoio. Nesses casos, o Coordenador sempre se preocupava em explicar aos professores, principalmente aos vinculados que normalmente tinham apenas um tempo de aula semanal, que o motivo da ausência dos alunos eram os trabalhos do turno regular.

Os encontros do grupo eram marcados pelo líder, que na maioria das vezes não participava do apoio. O líder, que normalmente era um dos melhores alunos da sala, marcava esses encontros com certa antecedência e a data nem sempre se encaixava na ordem de

prioridade dos alunos do apoio. Sempre que os alunos pediam liberação para realizar um trabalho, o Coordenador perguntava: “Pra quando é este trabalho?” Quando o aluno respondia uma data relativamente distante, o Coordenador perguntava: “você não tem nenhuma tarefa para entregar antes deste prazo?” O aluno respondia: “Mas é o grupo que escolhe a data”. Mesmo que o aluno tivesse alguma outra tarefa para entregar antes, ele necessitava atender às datas marcadas pelo líder do seu grupo, alterando sua ordem de prioridades de entrega de tarefas e de outros trabalhos.

Os trabalhos em grupo das diversas disciplinas, às vezes em grupos diferentes, se somavam às tarefas individuais e também às verificações imediatas que podiam ser avisadas ou não. Quando avisadas, os alunos também precisavam se preparar para estas provas, o que representava uma preocupação a mais para eles. Para atender a todas estas demandas individuais dos alunos, havia os tempos de estudo no planejamento do Apoio Pedagógico.

4.5.7.2 As tarefas do turno regular e os tempos de estudo no Apoio Pedagógico

Os tempos de estudo eram momentos destinados aos alunos para realizarem suas tarefas, trabalhos e estudos. Continuamente os professores orientavam os alunos a aproveitarem bem o período em que estavam na escola, para que o tempo em casa fosse prioritariamente de lazer e de descanso. Entretanto, nem sempre isso era possível, por vários motivos. Alguns alunos conseguiam compreender muito pouco sobre determinados assuntos ministrados pela manhã e, por isso, tinham mais do que dúvidas. Outros não sabiam como estudar, faltava-lhes autonomia e estratégias para remir o tempo. Eles dependiam do professor, que nem sempre conseguia atender a todos e, por isso, sempre que possível, solicitava a ajuda de alguns alunos para auxiliar os demais. Alguns eram desorganizados, não anotavam as tarefas a serem feitas, esqueciam o material didático, etc. Outros eram desinteressados e, sempre que podiam, retardavam o início dos estudos. Alguns alunos eram mais lentos e, dependendo da quantidade, do tamanho e da complexidade das tarefas, o tempo não era suficiente para concluí-las apenas durante o apoio pedagógico.

Por tudo isso, alguns pais relataram que os seus filhos estavam chegando em casa muito cansados e ainda com tarefas para fazer. O cansaço dos alunos também se explicava pela nova rotina à qual eles não estavam acostumados. Entravam no Colégio às 6:45h e saíam às 16:30h, de segunda a quinta-feira, e as salas de descanso ainda não estavam prontas na 3ª semana de atividades. Muitos alunos moravam longe do Colégio, alguns deles se deslocavam

de ônibus e acordavam muito cedo para cumprir o horário, além de chegarem tarde em casa após um dia inteiro de atividades.

Uma das preocupações da equipe pedagógica foi a de manter a motivação dos alunos com atividades variadas e estimulantes para que não desanimassem ao longo do tempo. As salas de descanso e de recreação tinham um papel importante na motivação dos alunos e também na atenuação do cansaço. A conclusão dessas salas passou a ter ainda mais prioridade, junto com a sala dos professores que também ainda não estava pronta no primeiro mês de atividades.

A quantidade de tarefas e a complexidade de algumas delas foi um assunto constante levantado pelo Coordenador junto à equipe pedagógica. Em uma mesma semana, os alunos às vezes tinham tarefas, apresentações e provas, e era evidente que vários alunos não conseguiam dar conta de todas elas. Alguns deles deixavam para fazer as tarefas na véspera da entrega ou às vezes até quando o prazo já havia expirado. Várias vezes a equipe pedagógica se surpreendeu com a falta de entrega de trabalhos por parte dos alunos e algumas dessas vezes não havia mais nenhuma chance de entrega. Os professores da manhã alegavam que muitas oportunidades já haviam sido dadas.

O Coordenador, sempre que possível, alterava o planejamento para contemplar mais tempos de estudo que pudessem atender essas demandas. Mesmo assim havia alunos que acabavam deixando de realizar algumas tarefas ou fazendo sem a devida correção e capricho.

Obviamente que também estava em jogo a responsabilidade do aluno e sua capacidade para se organizar em relação às tarefas, aos documentos que recebiam, aos trabalhos em grupo, à preparação para as provas, ao material didático para o estudo, ao tempo para os seus afazeres, etc. Isso era um problema para boa parte deles.

Se algumas vezes os alunos deixavam para fazer as tarefas sem a devida antecedência, em outros casos eles queriam antecipar demasiadamente a sua realização sem estabelecer uma ordem de prioridades. A escolha das tarefas e trabalhos individuais a serem feitos muitas vezes não se dava por data de entrega, e sim por gosto pessoal. Os trabalhos mais interessantes ou das disciplinas de que os alunos mais gostavam eram priorizados, os outros eram “empurrados” para frente.

O quadro de atividades semanal era distribuído aos alunos na quinta-feira da semana anterior para que eles pudessem se organizar e se preparar para as atividades do apoio. Principalmente para levarem os livros e materiais necessários às aulas e à realização das tarefas. Mas infelizmente isto nem sempre ocorreu. Para proporcionar mais tempo e melhores condições

para a realização das atividades do turno regular, a equipe pedagógica decidiu adotar algumas providências.

O Coordenador passou a solicitar aos professores da manhã que informassem à equipe pedagógica sobre os atrasos e não entregas de tarefas dos alunos do apoio antes das notas serem lançadas, para que o apoio pudesse ajudá-los a tempo. Ele solicitou ainda que os professores do turno regular lançassem a nota zero no Sistema de Gestão Escolar (SGE) no primeiro prazo de entrega não cumprido e não quando já não havia mais prazo para isso. Dessa forma, os pais e os professores do apoio tinham como acompanhar pelas notas a não entrega de trabalhos dos alunos e atuar a tempo para que o trabalho fosse entregue na próxima oportunidade dada pelo professor, se fosse o caso. Quando o aluno entregava o trabalho, a nota zero era substituída.

Os tempos livres que se destinavam às atividades diversas foram convertidos para tempos de estudo. Os professores também foram orientados a verificar se os alunos tinham alguma tarefa por fazer da sua disciplina e a utilizar os seus tempos de aula para a realização dessas tarefas. Os tempos de recreação e esporte e os tempos destinados às intervenções dos orientadores educacionais passaram a ser quinzenais, havendo uma dessas atividades a cada semana. Com essas mudanças, foi possível dar aos alunos mais tempos de estudo para a realização das tarefas. A redução nos tempos de esporte e motivação em função dos tempos de estudo foi bem explicada pelo Coordenador aos alunos, que inicialmente não receberam bem esta decisão.

O Coordenador, que já enfatizava muito o acompanhamento das atividades da manhã, pediu aos professores que verificassem no início de cada semana com os professores do turno regular o que havia sido ministrado, as tarefas, os trabalhos e a previsão de avaliações para aquela semana. Providenciou-se um quadro na sala dos professores para o controle dessas atividades. O próprio Coordenador passou a acompanhar a cada dia no Sistema de Gestão Escolar os resultados. Tudo isso para que os alunos não deixassem de entregar as suas atividades e se preparassem adequadamente para as avaliações.

Apesar de todas estas providências, a solução do problema deveria contar também com melhor coordenação das atividades semanais das diversas disciplinas em cada ano escolar. Essas observações e sugestões foram levadas aos professores da manhã, sempre com o cuidado de não interferir na condução do ensino das Coordenações de Ano. Todas as iniciativas, tanto da equipe pedagógica, quanto das possíveis melhorias na organização das atividades semanais pelas Coordenações de Ano, não podiam prescindir, no entanto, da organização e da mobilização dos próprios alunos para atender as demandas do turno regular.