6. SENSITIVITY ANALYSIS
6.5. Impact of discount rate on the future structure of electricity production
As perguntas seguintes da entrevista tinham o intuito de entender como e por que ocorreu a intramobilidade dos profissionais brasileiros. Para tanto, era necessário saber os motivos que levaram os investigados a se deslocarem intranacionalmente para trabalhar na Bahia e qual o conhecimento que eles tinham da região na qual iriam desempenhar suas novas atividades profissionais e residir.
É importante salientar que nenhum entrevistado mora em Camaçari, mas sim em cidades próximas, como Lauro de Freitas57 e Salvador. Isto porque Camaçari parece ainda não oferecer, de acordo com o EB4, infra-estrutura para que as pessoas possam residir nesta cidade: “Quando eu vim para cá eu pensava em morar em Camaçari, em trazer minha família para morar em Camaçari. Só que eu vi que não tinha condições, não tinha infra-estrutura. Eu não me via morando em Camaçari, tanto é que eu vim procurar moradia em Salvador” (EB4).
Perguntou-se também a respeito das expectativas em relação ao novo lugar e como foi o encontro destas expectativas com a realidade local. Como pode ser observado no quadro a seguir, surgiram dos relatos 18 categorias iniciais que foram reagrupadas em cinco categorias intermediárias que visam a explicar detalhadamente o processo de intramobilidade dos profissionais brasileiros.
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Categoria Final Categorias Intermediárias Categorias Iniciais A Intramobilidade dos Profissionais Brasileiros Conhecimento Prévio do Novo Local.
Já conheciam a(s) cidade(s). Não conheciam a(s) cidade(s).
Deslocamento por Motivos Profissionais.
Aumento salarial. Melhoria na carreira.
Trabalhar em áreas organizacionais diferentes.
Oportunidade que o pólo industrial de Camaçari oferecia a alguns segmentos de empresas.
Deslocamento por Motivos Pessoais.
Mudar de vida e de rotina.
Apreço pelo estilo de vida em Salvador.
Dificuldades na Chegada ao Novo Local. Dificuldades culturais. Dificuldades de relacionamento. Dificuldades sociais. Dificuldades de comunicação.
Dificuldades com o custo de vida local. Dificuldades relacionadas à distância entre a residência e o trabalho
Dificuldades relacionadas ao clima. Dificuldades com a prestação de serviços local.
Boa Adaptação na Chegada ao Novo Local.
Boa adaptação à nova realidade local. Expectativas positivamente
surpreendidas.
Quadro 5 – Categorização da Intramobilidade dos Profissionais Brasileiros. Fonte: coleta dos dados (2009).
A análise das entrevistas apontou que, dos 13 entrevistados, apenas dois já conheciam a Bahia. Um destes, a EB2, havia morado alguns anos na capital Salvador e outro, o EB12, tinha estado a passeio, mas, segundo ele, ficou em um resort à beira da praia, longe da realidade local. Alguns entrevistados relataram ter feito pesquisas na internet sobre a nova localidade.
Porém, a maioria disse que, à época, não fazia idéia do que poderia encontrar em Salvador e tampouco em Camaçari: “vim para cá sem nunca ter ido para o Nordeste. Eu fui de olho fechado [...] Sabia que era uma capital, né? Salvador. Sabia que era um pouco menor que São Paulo” (EB3). Para o EB8: “Foi uma aposta no escuro. Eu não conhecia fora de Recife muita coisa. Não conhecia Salvador, não conhecia a Bahia”. E, conforme o EB11: “Camaçari, eu confesso que para mim era uma incógnita total [...] Camaçari eu desconhecia por completo. Na verdade eu nunca tinha vindo antes para a Bahia sem ser em escala de avião”.
Quando eu recebi a proposta para vir para a Empresa58, até então eu nunca tinha vindo ao Nordeste. Na realidade, foi talvez uma decisão muito arriscada porque eu decidi vir para a Bahia sem nunca ter vindo para a Bahia para pelo menos saber como era a Bahia, como era o Estado, a cultura, como era a região Nordeste (EB7).
Diante desta questão, pensa-se que, ao inexistir algum conhecimento prévio, o encontro com as questões inerentes ao dia-a-dia do novo local pode tornar-se mais fácil, por não haver expectativas em relação a esta realidade. Entretanto, expectativas sempre existirão, como será tratado posteriormente e, o não conhecimento antecipado, mesmo que ínfimo, tende a dificultar a adaptação destes profissionais por proporcionar maiores chances de não atendimento de seus desejos. Ao explicar esta questão, Brislin e Yoshida (1994) colocam que expectativas não atingidas são um fator delicado, principalmente quando as pessoas têm expectativa alta em relação ao que irão sentir e vivenciar no novo destino, pois quase sempre os encontros interculturais tendem a invocar intensos sentimentos.
Deste modo, é importante pensar nos motivos que levaram os entrevistados a assumirem este desafio “às escuras”. Assim, dentre as razões citadas pelos profissionais para migrar para Bahia, todas estiveram, de alguma forma, atreladas a aspectos profissionais.
Alguns almejavam incremento salarial e de carreira, como pode ser visto pelo discurso do EB11: “eu vim mais pela Empresa mesmo, pela oportunidade de ingressar em uma multinacional, com um salário legal”. Para o EB12, a mudança para a Bahia, mesmo havendo oportunidades em outros Estados, lhe proporcionaria ganhos profissionais e salariais.
O salário, comparado ao mercado que tinha o trainee da Empresa frente aos outros programas de trainee e frente a outras alternativas que eu tinha era em torno de 30% a 40% superior. Mas na verdade antes do salário, o primeiro ponto era plano de carreira, porque o trainee da Empresa ele mostrava, um projeto de dois anos, com plano de carreira, visita a todas as plantas, projeto focado a virar executivo, me parecia de fora o projeto mais bem estruturado. Tinha o melhor salário e era o mais bem estruturado. Então eu ponderei, coloquei na balança era início de carreira e era hora de arriscar. Então minha decisão foi baseada nisto (EB12).
Outros entrevistados queriam trabalhar em áreas organizacionais que visualizavam encontrar em empresas do pólo industrial de Camaçari, ou seja, a automotiva, pois, de acordo com o EB1, “a proposta era interessante e eu vim, eu estaria dentro de uma Empresa, trabalhando com gerenciamento de projetos veiculares”; e a área de desenvolvimento de produtos, como destacou a EB3: “basicamente o emprego mesmo, a área de desenvolvimento que era uma área que eu não via no mercado de São Paulo”.
58 O termo Empresa é utilizado quando na fala do(a) entrevistado(a) este(a) cita o nome da organização ou faz
Houve também profissionais que percebiam oportunidades que o pólo industrial de Camaçari estava oferecendo para alguns segmentos, principalmente os ligados ao automotivo, setor que se desenvolveu consideravelmente com a instalação da planta da Ford Motor Company no ano de 2001 em Camaçari, conforme dados do COFIC já apresentados. “Quando cheguei em Camaçari há nove anos, Camaçari não tinha nada. À noite, se a gente quisesse procurar um lugar para jantar, não tinha. Camaçari cresceu muito nestes nove anos que a Ford está aqui” (EB4).
Com isto, alguns profissionais decidiram apostar no crescimento da empresa que estava lhe contratando e, conseqüentemente, na promoção de sua carreira. Percebe-se que as narrativas destes entrevistados corroboram a opção em direcionar este estudo ao pólo de Camaçari, uma vez que empresas lotadas neste pólo foram atrativas para estes profissionais.
Na realidade foi um desafio eu vir para cá. Estava em uma empresa que estava iniciando. E eu vi que era a hora de sair de São Paulo e tentar uma nova perspectiva. Na realidade foi um desafio, porque eu estava trabalhando em uma empresa, eu estava muito bem, aí eu aceitei este desafio de vir para cá. E graças a Deus deu tudo certinho, estou muito bem, não tive problemas (EB5).
Ao explicar o que impulsiona os executivos a aceitarem viver e trabalhar em outros países, Freitas (2009) afirma que, muitas vezes, o profissional constrói expectativas em torno deste projeto, pois a carreira se beneficiará e a vida pessoal e familiar terá novos aprendizados culturais. A autora ainda alega que alguns se motivam pelo gosto do desafio em romper com algumas amarras de seu passado. Ao respaldar-se nestas colocações sobre o que ocorre na vida de indivíduos em processos de internacionalização, todavia, focando no intranacional, evidenciou-se nesta pesquisa que quatro profissionais (EB2, EB6, EB7 e EB13), realizaram a mudança para a Bahia em função de motivos pessoais, sendo que um destes decidiu pela ida para Camaçari pela “curiosidade e pela vontade de aprender a viver sozinho em uma nova cultura, outro clima e outra atividade profissional” (E13). Entretanto, notou-se nos discursos que, apesar da vontade inicial pela mudança ter sido pessoal, nenhum desvinculou a sua carreira desta movimentação.
Na verdade, como eu já tinha morado aqui com meus pais, eu gostava muito de Salvador, sempre quis voltar morar em Salvador. Aí juntou com minha insatisfação, pois eu estava bem insatisfeita em Curitiba, não queria mais continuar lá. Então eu ia voltar para o Rio e ia tentar alguma coisa lá. Então como acabou que eu passei no Programa de Trainee da Empresa bem na época que eu não aguentava mais ficar lá, juntou o útil ao agradável. Deu para voltar a morar em Salvador e foi por isso que eu vim (EB2).
Eu tinha muita vontade de morar no Nordeste, então eu pensei: agora que eu não tenho mais emprego, que eu vou ter que procurar emprego, eu vou procurar em outro Estado, eu quero morar na Bahia, eu tinha toda uma afinidade com Salvador e eu queria tentar. Eu me estipulei um prazo, vou tentar por quatro, cinco meses que era o período que eu tinha de seguro desemprego, porque eu não tinha grana na época para bancar isto então eu vim para Salvador sem nenhuma proposta de trabalho. Quando eu cheguei aqui eu procurei me informar sobre o pólo. Eu procurei ver quais eram as empresas que faziam parte daquele pólo industrial, eu sabia que aqui na capital eu não conseguiria nada. Aí eu fui me informando com o pólo, participando de algumas reuniões com gente do RH, participei de vários processos seletivos e aí um mês e meio depois eu fui contratada pela Empresa (EB7).
Foi uma decisão pessoal, foi uma opção minha, foi muito mais pessoal do que profissional. Eu tinha perdido meu pai e eu tava pirando de morar em São Paulo. E eu comecei a ver esta oportunidade de sair um pouco daquele ambiente de São Paulo, aí eu encarei. Eu não conhecia Salvador, eu nunca tinha vindo para cá, então foi muito mais pessoal do que profissional. E graças a Deus deu certo profissionalmente também. Eu nem pensei muito, foi mais no instinto mesmo (EB6).
Realizada a decisão pela mudança, iniciou-se o deslocamento para o novo Estado. Para entender como ocorreu este processo, primeiramente questionou-se os profissionais brasileiros sobre as expectativas que tinham em relação à nova localidade e como foi o encontro destas expectativas com a realidade local. Notou-se que as respostas dos entrevistados a este item foram bastante heterogêneas, pois muitos aspectos dificultadores foram citados, como, por exemplo, a questão dos elevados índices de violência em Salvador que os assustou, o alto custo de vida: “eu esperava que o custo de vida fosse mais baixo, que foi isto que me venderam também” (EB3); a grande distância entre Salvador e o pólo industrial de Camaçari, especialmente para os entrevistados que residem na capital: “Salvador é muito distante do meu trabalho, isto para mim é o que mais conta. O maior motivo de insatisfação hoje é a distância do meu trabalho para onde eu moro” (EB2).
Mas com relação à distância, isto é ruim porque eu não imaginava que fosse um confinamento tão grande. É aquele mundo ali das 7h30min às 17h. E isto foi difícil para eu me adaptar. Hoje as coisas fluem mais, mas nos primeiros dias eu me sentia em um internato. As pessoas só pensam naquilo, você vai almoçar e volta, não tem como espairecer. O confinamento é inevitável para quem está no pólo (EB7).
Outras dificuldades citadas pelos profissionais estiveram atreladas às diferenças culturais, sociais, de relacionamento e de comunicação que estes perceberam na mudança para a Bahia. Além disso, os respondentes apontaram fatores relacionados ao clima, horários de funcionamento de comércio e serviços e aos padrões de higiene local como dificultadores para seu ajuste logo na chegada.
Eu nunca tinha vindo para Salvador, que é onde eu moro. Foi um choque bastante grande. Tanto por Salvador ser uma cidade bastante grande, onde há uma cultura totalmente diferente, onde há costumes diferentes, onde a própria linguagem e expressões corriqueiras são diferentes, o próprio clima, isto para mim é praticamente outro País (EB1).
Eu esperava que aqui fosse mais pobre, que fosse mais quente, que eu fosse ter dificuldade de adaptação, mas não tão grande como foi. Eu cheguei aqui e tive muito problema de infecção alimentar, os padrões de higiene são muito diferentes dos nossos. A própria água, mesmo filtrada, dá problema. Logo que eu cheguei aqui eu tinha muita febre, muita gripe. Porque aqui a cultura local é muito diferente. A gente até ta acostumado com uma cultura mais fria, mas aqui vizinho não respeita a sua individualidade, no lugar que eu morava, o pessoal não trabalhava e era festa todo dia, a semana toda. No verão então, você não tinha como dormir. Você fica pedindo silêncio acaba sendo muito chato e a cultura de festa é muito grande. Aí você fica surpreso que o pessoal esquece de trabalhar na época de trabalhar e é festa o tempo todo. Então é muito diferente para a gente, é um choque muito grande (EB12). Eu morei em Brasília muitos anos que é minha cidade natal e em Alagoas, mas eu nunca tive um choque cultural tão grande como eu tive aqui na Bahia. Isto para mim foi um grande choque. Um choque chocante. Em relação à educação... Eu diria que a Bahia é uma mistura de extremos. Nós temos desde a mais avançada indústria. Nós temos alta tecnologia e ao mesmo tempo pessoas que vivem em uma cultura extremamente arcaica. Tem os dois extremos (EB11).
A gente vem de uma formação que precisa pedir licença, que não pode furar fila, não pode ficar esbarrando em todo mundo e passar como se nada aconteceu. Lá você bate e pede desculpas, tem toda uma polidez no tratamento, aqui é complicado esta parte, tem muita sujeira na rua, cheirinho desagradável, isso foi bem complicado para mim [...] Então foi um choque cultural bem grande. A forma de localização de rua aqui é por ponto de referência, em São Paulo é por rua, bairro, número (EB3).
Tais relatos tornam-se importantes para refletir acerca da afirmação de Brislin e Yoshida (1994), que as pessoas têm necessidade de pertencer a grupos sociais e quando se sentem excluídas sofrem, principalmente quando se prepararam para fazer parte daquele ambiente. Assim, parece que alguns entrevistados passaram e ainda passam por tais sentimentos que geram problemas de adaptação, sendo que estes sugerem a necessidade de haver estratégias organizacionais (que serão tratadas detalhadamente no próximo item deste capítulo) para tentar minimizar estes transtornos.
Acredita-se também que a institucionalização destas estratégias direcionadas a atender a tais necessidades dos profissionais independe de onde a empresa esteja instalada, pois se considera o Brasil um País bastante diverso culturalmente e haverá percepção de diferenças culturais em qualquer Estado (em alguns, mais do que em outros) no qual a organização estiver alocada.
Porém, outros entrevistados disseram ter se surpreendido de maneira positiva com os aspectos da vida cotidiana do novo lugar: “as minhas expectativas foram positivamente surpreendidas. Fiquei muito mais satisfeita do que eu imaginei” (E7). É o puzzle cultural que
caracteriza a Bahia, conforme referencia Fischer (1997). “Eu estranhei muito. Quando eu cheguei aqui, eu pensei que não ia ter música eletrônica que eu gosto, eu pensei que só ia ter axé. No começo eu achava que não ia ter muita coisa, que a estrutura ia ser muito rústica, e quando na verdade não é, isto já foi no passado” (EB10).
Para falar a verdade eu não tinha muita expectativa daqui, da cidade [...] Então eu não tinha criado muita expectativa do que eu ia encontrar. E sinceramente, eu gosto muito de morar aqui. Tem as dificuldades, as diferenças culturais, mas isto para mim, pesando na balança e colocando tudo que tem de bom, isto acaba ficando em segundo plano, não é uma coisa que me incomoda (EB6).