Dispositions transitoires et finales
1.4. Objectif(s)
Sontag (2013, p. 109) afirma que “a fotografia é vista habitualmente como um instrumento para conhecer as coisas”, uma vez que as fotos “são tidas como pedaços da realidade” e “parecem mais autênticas do que amplas narrativas literárias” (SONTAG, 2013, p. 89). Na visão de Brizuela (2012, p. 15), isso acontece porque a fotografia contém o que representa, aproximando-a do reino do sagrado por tornar presente o que está ausente, “trazendo de volta os mortos e inaugurando a viagem no tempo” (BRIZUELA, 2012, p. 15). Tais características explicam por que desde os primórdios da fotografia tentou-se usá-la para fixar acontecimentos públicos, embora as limitações técnicas iniciais permitissem apenas a obtenção de imagens isoladas em condições favoráveis de luz, conforme descreve Freund (1989, p. 107). Essa dificuldade não impediu o registro fotográfico de determinados acontecimentos ainda no século XIX, a exemplo da Guerra Civil Americana, iniciada em 1861 e fotografada por Matthew Brady e sua equipe, ainda segundo Freund (1989, p. 108). Como afirma Sontag (2013, p. 180), as “fotos são um meio de aprisionar a realidade”, e foi isso o que Brady e seus contratados procuraram fazer:
“[...] as [imagens] de Brady e seus colaboradores, entre os quais Timothy O’Sullivan e Alexander Gardner, dão pela primeira vez uma ideia extremamente concreta do seu horror. As terras queimadas, as casas incendiadas, as famílias no desespero, os numerosos mortos são fotografados por eles com uma preocupação de objectividade que confere a estes documentos um valor excepcional [...].” (FREUND, 1989, p. 108).
A força dessas imagens provém do fato de que “uma foto não é apenas uma imagem [...], uma interpretação do real; é também um vestígio, algo diretamente decalcado do real, como uma pegada ou uma máscara mortuária” (SONTAG, 2013, p. 170). Além disso, “uma foto nunca é menos do que o registro de uma emanação (ondas de luz refletidas pelos objetos) – um vestígio material de seu tema [...]” (SONTAG, 2013 p. 170). Por se basear no real é que a foto ganhou espaço na imprensa, na qual, segundo Freund (1989, p. 107), ela mudou a visão das massas por ampliar o que o homem comum podia ver. Até então, a visão deste limitava-se à sua realidade próxima, à sua aldeia, mas a fotografia na imprensa tornou-se uma janela para o mundo, tornando familiar personalidades e acontecimentos de dentro do país e também de fora. Por sua vez, Sontag (2013, p. 16) aponta que uma fotografia “equivale a uma prova incontestável de que determinada coisa aconteceu. A foto pode distorcer; mas sempre existe o pressuposto de que algo existe, ou existiu, e era semelhante ao que está na imagem.” A comprovação de um acontecimento por meio da fotografia é outra característica para o uso desse recurso de imagem na imprensa, reforçando o texto e tornando mais palpável o assunto narrado. Neste aspecto, Freund (1989, p. 107) conclui que “a palavra escrita é abstrata, mas a imagem é o reflexo concreto do mundo no qual cada um vive”.
Embora a fotografia tenha diversas utilidades, ela aqui é tratada sob o ponto de vista da sua capacidade de eternização de fatos, lugares e pessoas visando à transmissão, complementação ou comprovação de informações, conforme o exemplo do seu uso pela imprensa. E a partir do momento em que determinados fatos passam a ser estudados pela História, os possíveis registros fotográficos deles também podem auxiliar na sua compreensão pelas gerações que, embora não os tenham vivenciado, conseguem visualizar aspectos do passado. É o caso das imagens da Guerra Civil Americana citada anteriormente por Freund (1989, p. 108): embora a autora afirme que Matthew Brady lançara-se àquela aventura para lucrar por meio da venda de imagens daquela guerra, as fotos realizadas por ele e pelos seus fotógrafos são hoje uma forma de visualização daquela etapa da história norte-americana. São imagens que contêm um tipo de informação, complementando os registros escritos, pois ajudam a se ter uma ideia do que eram os locais de batalha. Sontag (2013, p. 33) chama a atenção para o fato de não se poder compreender nada a partir de uma foto, mas ressalva que
“as fotos preenchem lacunas em nossas imagens mentais do presente e do passado” (SONTAG, 2013, p. 33). Então, embora a fotografia isoladamente não transmita a compreensão de algo, ela auxilia nesse processo ao preencher as lacunas apontadas pela autora, contribuindo para os estudos da História:
Para Benjamin, o trabalho do historiador moderno (que ele considera o único historiador possível) é equivalente ao funcionamento da fotografia: a história da modernidade e a modernidade histórica têm na fotografia sua forma. Nesse sentido, portanto, fotografia e história se tornam inseparáveis. O paradoxo nessa formulação reside no desejo passado e presente de tantos fotógrafos, bem como de tantos observadores, de pensar a fotografia como o mais referencial, realista e verídico dos meios. Essa mimese absoluta levaria a pensar a fotografia como um processo que faria tanto a história como a política serem lineares – uma linha do tempo única e ininterrupta. No entanto, contradizendo essa lógica, eu gostaria de pensar a fotografia, ao mesmo tempo, como o aprisionamento da história. (BRIZUELA, 2012, p. 166).
A ligação da fotografia com a História mostra que a primeira assume um papel na transmissão das informações trabalhadas pela segunda. A própria fotografia pode ser um elemento material de época, oriundo diretamente dos períodos estudados pelo historiador, sendo ela mesma um vestígio do passado. Em todo caso, as fotos devem ser acompanhadas de informações que possam ser disseminadas entre o público após a conclusão de uma pesquisa histórica, divulgando e transmitindo o conhecimento acerca de acontecimentos e personalidades de diferentes épocas. Uma forma para essa disseminação do conhecimento é através das exposições fotográficas, conforme se verá a seguir.
De acordo com Fenalti (2011, p. 65), expor “significa mostrar, comunicar, divulgar”, sendo a exposição parte integrante de um processo maior, que é a “musealização, [...] parte que visualmente se manifesta para o público e a grande possibilidade de experiência poética por meio do patrimônio cultural” (CURY, 2005, p. 35 apud FENALTI, 2011, p. 65). Segundo Fenalti (2011, p. 65-66), o processo de musealização começa a partir da seleção e aquisição de objetos ou elementos a serem guardados em determinado espaço, concedendo-lhes um sentido valorativo do qual fica desprovido o que foi rejeitado na seleção. A parte final desse processo é a exposição dos objetos selecionados, com um objetivo definido. Essa questão vem ao encontro das concepções de D’Alambert e Monteiro (1990, p. 11), para quem a exposição é mais do que o agrupamento de objetos em um espaço físico, por ser um meio de comunicação o qual permite ao público o aprendizado e a vivência de experiências, tanto emocional quanto intelectualmente. E concluem:
Uma exposição é, portanto, um meio privilegiado de difusão cultural de um patrimônio ou de uma informação especializada (didática, comercial ou representacional), na medida em que é concebida para proporcionar aos indivíduos a possibilidade de se situar no espaço e na história e de compreender o seu próprio ambiente, sua vida, sua cidade, etc. (D’ALAMBERT; MONTEIRO, p. 11).
Para Desvallées e Mairesse (2013, p. 43), a exposição é uma das principais funções dos museus na atualidade. Os autores chamam a atenção para a definição dos museus como lugares de musealização e visualização, levando a exposição a ser considerada “como a ‘visualização explicativa de fatos ausentes pelos objetos, assim como dos meios de apresentação, utilizados como signos’” (SHÄRER, 2003 apud DESVALLÉES; MAIRESSE, 2013, p. 43-44). Fenalti (2011, p. 66) deixa claro que a exposição mostra, divulga e comunica o patrimônio, sendo uma forma de atribuir valor a ele. Sem contar a sensibilização do público por meio da exposição.
Oliveira (2008, p. 114 apud FENALTI, 2011, p. 66) lembra que, ao se falar em patrimônio, “está-se lidando com história, memória e identidade, conceitos inter-relacionados [...] definidos e modificados ao longo do tempo”. São conceitos relativos ao patrimônio cultural, em certos casos trabalhado pelas exposições. A História está incluída nesse patrimônio, segundo a concepção de Laraia (2014, p. 45) trabalhada anteriormente, pela qual o conhecimento faz parte do patrimônio cultural. Dentre outros significados, Ferreira (2010, p. 1102) define História como um “conjunto de conhecimentos adquiridos através da tradição e/ou por meio de documentos, relativos à evolução, ao passado da humanidade”, e também como “ciência e método que permitem adquirir e transmitir aqueles conhecimentos”. Sendo a História o conjunto de certos conhecimentos, fica estabelecida a sua relação com o patrimônio cultural.
Os conceitos mencionados neste item abrangem as diferentes formas de exposição, relacionadas por D’Alambert e Monteiro (1990, p. 71-83), incluindo exposições de esculturas, fotografias, mobiliário, pinturas, exposições de moedas, taxidermia, instrumentos musicais e assim por diante. Embora todas exijam cuidados na sua elaboração e tenham valor em divulgar conhecimentos ao público, destaca-se da lista a exposição de fotografias, por ser a forma escolhida para o produto final deste trabalho, devido à visualização de uma determinada época permitida pelas imagens das fotos, transmitindo ao público algo mais do que a informação escrita. Cabe aqui lembrar a impossibilidade da transmissão das informações unicamente por meio da fotografia, que na verdade serve para complementar o conhecimento transmitido por escrito. Por isso, a exposição fotográfica deve se valer da relação entre imagens e textos para enriquecer a mensagem a ser transmitida, conforme
ressalta Fenalti (2011, p. 20). Dessa forma se cumpre a difusão do conhecimento histórico por meio da exposição fotográfica, que ainda valoriza a história, segundo Fenalti (2011, p. 79).