Colocados perante um "corpus" de textos, distribuídos pela obra romanesca de Victor Hugo, operando fundamentalmente no campo da realidade interior, e pondo em cena personagens consideravelmente envolvidas em situações de índole conflituosa ou em duelos psicológicos, tivemos já oportunidade de sublinhar que o afloramento desses estados subjectivos não implicava, necessariamente, uma fusão perfeita entre "voz" e perspectiva ou a utilização da centralidade do herói que vai vertendo os seus pensamentos na dinâmica da narrativa.
Muito embora o nosso século nos tenha habituado a que num processo deste teor, submetido aos meandros complexos da alma, se procure, numa adequação fictícia mas atrevidamente expressiva, fluente e inovadora, que a personagem seja imediatamente responsável pelos seus pensamentos e fantasmas pessoais, deixando que estes transpareçam pelos interstícios de um discurso que lhe é atribuído, não é essa a situação que melhor caracteriza o perfil romanesco de Victor Hugo, nem as suas coordenadas estéticas ou ideológicas.
Há em determinados textos um profundo hiatus entre a criatura fictícia que existe, sofre e vive na complexidade do seu mundo de
fantasia e de emoção e a entidade que assume o papel de enunciador, que nos apresenta essa vida íntima nas suas crises e mutações infindáveis.
Como que submersas pela peculiar elaboração omnisciente de um narrador e pela especificidade das marcas da sua passagem pela diegese, são as figuras de Gwynplaine e de Javert que melhor ilustram este processo, se atentarmos nos espaços que lhes são reservados na economia diegética^ onde visivelmente se procura equacionar uma mundividência de recorte conflituoso.
Inoperantes enquanto "voz" dos seus próprios dilemas, Javert e Gwynplaine encarregam o narrador dessa função, servindo então este de ponte de ligação ou de veículo de comunicação entre a consciência ou foco emotivo dos heróis e nós, seus leitores, situados fora da temporalidade da diegese e da imaterialidade da vida anímica das personagens. Em vez de forças criativas procurando assumir em plenitude o estatuto de emissor, ambas as personagens nos ocultam a sua fiel e minuciosa disposição psíquica, delegando esse trabalho numa entidade que lhes é estranhamente exterior.
De facto, convém ter presente que as ideias que se movem no psiquismo dos dois protagonistas, toda a incongruência e pluralidade de uma consciência, nos chegam manifestamente através da enunciação de um narrador heterodiegético que lhes não cede a tarefa e o uso da expressão
(1) Serão aqui particularmente privilegiados os seguintes capítulos de L'H.O.Rit: Symptômes d'empoisonnement (II, III, 8), Aby.ss.us. aby.ssum vocal (n, III, 9), La Ten ta Hon de Saint Gwynrjlaine (II, IV, 1), Eve (II, VII, 3) e Résidu (II, IX, 2).
verbal. Será o seu discurso que se encarregará de apresentar, com maior ou menor exactidão e suficiência, a inquietação psicológica das personagens, acompanhando o jogo analítico e afectivo dos seus dramas internos. Assim, em vez de um modelo discursivo tentando amoldar-se às múltiplas direcções e redemoinhos em que é lançado, adquirindo as características de um testemunho psico-biográfico do eu e as potencialidades de um registo adequado à medida do herói, optando por colorir-se do brilho, dos tons variados das ideias e dos movimentos imagéticos nascidos da sensibilidade própria dos protagonistas (o que emprestaria uma inédita e atrevida tonalidade ao modo de dizer), deparamos, no correr da leitura, com um universo subordinado e demistificado por um agente exterior.
Uma coisa seria, portanto, o processo de consciencialização e a vivência dos conflitos interiores comunicada pela personagem que os enfrenta, dando vazão através de um monólogo interior aos seus mais secretos anseios e frustrações; outra, bem diferente mas instaurada de forma nítida nos presentes contextos, será, mesmo quando se procura conservar a personagem como centro de interesse (aproveitando-a como foco de percepção e deslizando o fluir da representação subordinada às suas limitação naturais, aos seus estados de conciência ou de selecção flagrante da realidade), não lhe ceder o fascínio da enunciação. A expressão desses momentos fulcrais e o manuseio da linguagem com o seu ritmo e conotações passará, assim, fundamentalmente pela mestria de um narrador.
Mas se é certo que as duas figuras se encontram genericamente submetidas, no que respeita às opções técnico-literárias, ao abrigo da omnisciência de um narrador, que com as suas ilimitadas prerrogativas de superioridade e de conhecimento vai orientando o leitor através do mundo emaranhado que se agita na alma das personagens, não
obstante, é necessário reconhecer que esta situação sofrerá e admitirá alterações. Daí as repercussões inevitáveis a nível do enunciado narrativo, as quais não podem deixar de condicionar também os processos ou técnicas que pretendem reavivar ou pôr a nu as crises e os desajustes íntimos de Gwynplaine e de Javert envolvidos nos acontecimentos.
De facto, a instância narrativa, face ao duelo psicológico que se trava na consciência das suas criaturas, manifestará graus de penetração variável o que, em nosso entender, estará em consonância com a própria peculiaridade, perfil e grau de maturação das personagens.
Neste aspecto, convém desde já observar que, de um modo notório, a figura de Gwynplaine é avassaladoramente dominada pela transcendência de um narrador. Na heróica batalha que dentro dele o herói trava, a instância narrativa é, não só, capaz de lhe definir os contornos psicológicos ou de fazer o balanço de uma disposição íntima, mas até de superar as insuficiências das recordações ou dos conhecimentos de Gwynplaine. Explicitando nitidamente aquilo que a personagem sente e indo o seu saber até aos limites da previsão e da reconstituição de ideias que não chegam à superfície da mente agitada, a sua presença invasora fornecer- nos-à, com especial detalhe, o que se encontra submergido sob as camadas babélicas da imaterialidade e do sonho. O doador da narrativa raramente permitirá, neste âmbito, a expressão viva e confessional do sujeito no decurso dos parágrafos que alusivamente lhe estão reservados. Constantemente ouvimos um narrador que "fala" pela personagem e que, não raro, pensa por ela.
Do predomínio do doador da narrativa sobre a sua criatura e da utilização calculista do dilema desta, para certos fins menos concordantes com os latejos de uma intimidade, nascerá um processo de representação
que já aqui evocámos sob a designação de discurso narrativizado de tipo dissonante^.
Atitude semelhante, mas até certo ponto menos atrevida, parece ocorrer em relação a Javert. Muito embora o narrador teime ainda em condenar a personagem ao silêncio e à subserviência, irresponsabilizando-a pelo estatuto de verdadeiro enunciador da sua
ambivalência interior ou do seu monólogo mental, encontramos já significativos exemplos que visam ajustar-se à perspectiva do herói, à sua ideologia e à sua afectividade, sem que, aparentemente, em inúmeros lances, se falseie a sua percepção dos factos. Por largos momentos assistiremos à eclosão de um discurso narrativizado de tipo consonântico.
Deleitando-se, pois, a entidade narrativa em levar até aos últimos limites do verosímil as suas possibilidades de penetração em Gwynplaine, ou parecendo sujeitar-se em diversos segmentos, ao jogo do sentir e da reflexão de Javert, não se pode esquecer todavia, em qualquer caso, o destaque que, nestas circunstâncias, na sintagmática narrativa se atribui ao narrador omnisciente, quer como enunciador do dilema do "outro" quer até como descodificador exemplar duma vivência que não o atinge.
Para além desta profunda afinidade que une as duas sequências agora em estudo, assente principalmente nas modalidades de discurso dominante, foi-nos, também, já dado constatar o relevo e o comum prazer (notoriamente mais acentuado nestas parcelas textuais do que
noutras do mesmo teor ou raiz), com que o narrador se institui na diegese. Recorrendo a expedientes vários para nos impor os seus juízos, afectividade e ideologia, o narrador deixa bem manifesto no enunciado as marcas da sua passagem pela narrativa, num acto de vontade perturbador e, desde logo, proteico.
Cremos, contudo, como aliás em local mais oportuno vamos ter oportunidade de desenvolver, que a esta questão não será certamente alheio o próprio perfil psicológico da personagem e o seu posicionamento no seio da diegese.
Trataremos, pois, numa primeira etapa, de pôr em destaque algumas das coesões e disjunções que se estabelecem entre a instância narrativa e as suas personagens, ao entrarmos em contacto com os modos que veiculam ou relatam a estatura mental e o clima conflituoso que vive nas regiões vagas e movediças de Gwynplaine e na atrofiada natureza de Javert, acremente desiludido e enredado no seu sistema e na sua lógica.
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1.1. - UMA FIGURA DO CAOS
A figura que de modo significativo atrai o narrador em L'Homme qui Rit não é de maneira nenhuma uma personagem serena e harmónica, mas revela-se em ruptura e em conflito com os paradigmas éticos (e até posteriormente sociais) do mundo em que se movimenta. São esses momentos de angústia existencial, que alteram a natureza e a harmonia original de Gwynplaine, que o narrador entende privilegiar e sugerir.
Todos os fragmentos ou capítulos aqui postos em relevo(1)
possuem uma fisionomia geral que os liga e que assenta, em primeiro lugar, num denominador comum: a temática da sexualidade. Na base de todos eles aflora o confronto entre o amor carnal, as sensações de natureza
(1) Vide o capítulo anterior.
Alguns laivos do mesmo dilema surgirão ainda no capítulo ousadamente intitulado Satan. No entanto, face ao discurso torrencial e fascinante de Josiane, as potencialidades latentes do julgamento da personagem esfumam-se e Gwynplaine, como que absorto, degusta a explosão verbal da "mulher-desejo".
psicofísica e a corrente ideal ou transcendental latente no espírito de Gwynplaine. Concretamente, pode mesmo afirmar-se que eles não são mais do que variações sobre o mesmo tema, modificações subtis ao ritmo do desejo da personagem. Gwynplaine é o modelo mítico de um Adão tentado pela demoníaca Eva, aqui simbolizada nessa luxuriante e impudica Josiane. Ela impõe-se como uma realidade ameaçadora, oferecendo-se, atraída gostosamente pelo excêntrico e pelo feio. Do outro lado, coexistindo na alma da personagem, aparece o ideal-Dea:
"Destinée i r o n i q u e , l ' â m e , c e t t e chose c é l e s t e , i l l a t e n a i t , i l l ' a v a i t dans sa main, c ' é t a i t Dea; l e sexe, c e t t e chose t e r r e s t r e , i l l ' a p e r c e v a i t au p l u s profond du c i e l , c ' é t a i t c e t t e femme.
Une d u c h e s s e " ^ .
Em todos os segmentos textuais apontados se instaura a mesma dialéctica entre dois sentimentos ou afectos actuantes. Ao afluxo do desejo opõe-se a capacidade de resistência de um "ego" marcado por uma formação de carácter moral e que procura na figura simbólica de Dea - a alma -, nessa "image idéale intériorisée''^2), como sintomaticamente a
define Charles Mauron, uma aliada contra as suas pulsões sensuais, sobreviventes tardias de uma crise de puberdade.
Esta dupla vertente do espírito de Gwynplaine encontra-se bem documentada através dos próprios títulos dos capítulos, os quais funcionam aqui como elementos paradigmáticos importantes na (1) L'H.O. Rit, n, III, 8, p. 593.
(2) Charles Mauron, "Les personnages de Victor Hugo: étude psycho-critique", in O.C., édition du Club Français du Livre, t. II, p. XXXVI.
caracterização antitética das coordenadas internas da personagem, insinuando, desta forma, correlativamente, os sentidos e o travejamento temático do texto.
Para além desta evidente ligação, assente no desenvolvimento de um veio temático comum, outro factor de coesão - que por certo vem reforçar a justeza de uma harmonia ou de uma continuidade entre fragmentos esparsos da obra - inscreve-se na tentativa, por parte do narrador de desvalorizar a personagem enquanto enunciadora do seu drama íntimo, ao mesmo tempo que procura tornar transparente uma crise em estado de embrião ou vagamente formulada e apreendida por ela.
Muito embora noutros trechos que exploram situações paralelas apareça o discurso do narrador tentando desmontar as contradições que povoam as personagens, é ao delinear-se a problemática vivida por Gwynplaine que vamos encontrar o figurino ideal dessa particular situação e efabulação narrativa.
De modo dominador, e face a um tipo de herói parcialmente "ausente" da crise que o atravessa, é a mestria do narrador que se instala, querendo abrir caminho até à interioridade do eu, ou que activamente se empenha em descodificar os materiais "informulados", os estados indefinidos e fugidios que se agitam bem lá no fundo do subconsciente de Gwynplaine, um tanto submergidos pela opacidade da massa ou afogados na ignorância e no medo:
" I l s e n t a i t dans son for i n t é r i e u r , à l ' e n d r o i t des f ê l u r e s p o s s i b l e s , nous avons tous cet e n d r o i t - l à ,
un choc de v e l l é i t é s . Pour Ursus, c ' e û t é t é c l a i r ; pour Gwynplaine, c ' é t a i t i n d i s t i n c t " M -
Certas facetas ou problematizantes estados, como a imaturidade psicológica ou a intensidade das emoções, reduzindo drasticamente o poder de auto-análise das personagens, constituem alibis ideais para que o doador da narrativa exerça em plenitude o privilégio da sua omnisciência, entrando com naturalidade e fasto verbal no mistério e no processo de gestação de um conflito.
Se de facto no texto de L'Homme qui Rit, e segundo o testemunho de L. Fourcaut, "plus qu'en tout autre, Hugo explore l'invisible"<2>, esse mundo estranho e fantástico que sofre constantes
mutações e um perpétuo deslizar, escapa quase por inteiro às possibilidades expressivas e, o que é mais notório, ao próprio superior sentido de conhecimento da personagem. Gwynplaine revela-se incapaz de equacionar dialecticamente as contradições que no presente o atingem.
E, por conseguinte, em momentos particularmente críticos na vida do herói, ou seja, quando este vive horas extremamente conturbadas, onde entram em funcionamento conjugado o princípio do prazer e o princípio da realidade, a atracção pelo sexo e a resistência oposta pelo sujeito, que o narrador aparece para demistificar contradições e se pôr à escuta da linguagem do inconsciente, quase como na cura psicanalítica. Encontrando-se o dilema vedado ao conhecimento lúcido e penetrante de Gwynplaine, dadas as suas limitações e as contradições de vária ordem que
(1) L'H.O.Rit. II, ni, 8, p. 594.
(2) L. Fourcaut, "La parole du monstre", in L'Homme qui Rit ou La Parole-monstre de Victor Hugo. Paris, SEDES, 1985, p. 183.
pesam sobre a adolescência, é o narrador que, mergulhando no sistema pré- consciente da personagem, traz à tona alguns laivos de conteúdo. De facto, a instância narrativa não se cansará de assinalar amiudadamente a falta de lucidez do herói e o seu retraimento de um dilema que lhe corre na alma:
"Le combat e n t r e l e s deux p r i n c i p e s , l e duel e n t r e son côté t e r r e s t r e e t son côté c é l e s t e , s ' é t a i t p a s s é au p l u s abscur de lui-même, e t à de t e l l e s profondeurs q u ' i l ne s ' e n é t a i t que t r è s confusément aperçu"^)-
O interesse do narrador estende-se, deste modo, a certos estratos da vida psíquica, globalmente rebeldes à perspectiva e ao esclarecimento de Gwynplaine. É que fundamentalmente o conflito da personagem possui também a fisionomia e a vagueação do caos, percorrendo toda a gama de cambiantes que caracteriza este estado. Nas tonalidades e no emaranhado mundo de Gwynplaine respiramos as potencialidades do mundo caótico, desse organismo vivo que Victor Hugo frequentemente menciona na sua obra<2> e que caracteristicamente define a
sua estética. Fonte de inspiração e poderoso factor de atracção, é ele que melhor caracteriza a natureza sem freios do universo e do próprio homem, do macro-cosmo e do micro-cosmo.
(1) L' H.O.Rit. II, III, 9, p. 594
(2) E que, no fundo, define a imaginação do "poeta-Hugo", pois, como o autor diz em Promontorium Somnii, 'Tout songeur a en lui ce monde imaginaire. C'est un vague royaume plein du mouvement inexprimable de la chimère. Là on vit de la vie étrange de la nuée. Il y a dans tout de l'errant et du flottant. La forme dénouée ondule, mêlée à l'idée" (Proses philosophiques de 1860-1865. II Partie, O.C., Critique, p. 644).
Não esqueçamos que o mundo dos dramas íntimos de Gwynplaine possui o empolamento, a exuberância, a fugacidade, a anarquia e a obsessão torrencial do movimento caótico. Nele vem desaguar, como diria J.P. Richard, "une activité mentale non triée, échappant au contrôle d'une conscience-sujet, envahie par le grand principe matriciel de la confusion''^1). Aliás a diagnose não escapa ao narrador quando refere a
violenta confusão do espírito da sua criatura:
"Tous l e s mots l u i r e v e n a i e n t dans une s o r t e de chaos "(2).
O espaço privilegiado desse mundo caótico "c'est donc l'hétéropie, c'est-à-dire un espace hétérogène, hallucinant, contradictoire. Les contraires y sont commutables, et la conscience errante n'y trouve aucun point de repère sûr"(3).
Daí a diafaneidade de imagens que vão florescendo na sintagmática textual para caracterizar a problemática da personagem. Os vocábulos giram em torno de formas que se esvaem na nebulosidade ou se esfumam em linhas soltas, no uso de imagens que adquirem limites diluídos e fisionomias fugazes, tão cintilantes quanto fulgurantes. Uma subestrutura de descontinuidade trabalha interiormente a psique de Gwynplaine, explicando a fermentação activa e o curso não linear do movimento:
(1) Jean-Pierre Richard, Etudes sur le romantisme. Paris, Seuil, 1970, p. 180. (2) L'H. Q. Rit, II, IV, 1, p. 607.
" I l se f i g u r a i t Dea humaine ( . . . ) I l a v a i t honte de c e t empiétement v i s i o n n a i r e ; c ' é t a i t comme un e f f o r t de p r o f a n a t i o n ; i l r é s i s t a i t à c e t t e obsession; i l s ' e n d é t o u r n a i t , p u i s i l y r e v e n a i t ; i l l u i semblait commettre un a t t e n t a t à l a pudeur. Dea é t a i t pour l u i un nuage" ^\
Movidos por uma força invencível, estes ingredientes instáveis e de feição caótica desdobrar-se-ão em mobilidade, entrarão em colisão e confusão convulsionadas, daí resultando a visão de um mundo profundamente desorientado e para o qual o protagonista procura, em vão, um sentido. Sujeitas a metamorfoses, as crises que Gwynplaine atravessa caracterizam-se, assim, pela falta de amarras sólidas que as liguem a um centro. Livres na sua progressão e na sua viagem sem horizontes, os elementos em debate flutuam e derivam, esquivando-se ao conhecimento personalizado do herói. O movimento passa a ser, desta forma, o pano de fundo de uma paisagem interior amórfica ("cela changeait à chaque instant et flottait")í2) e que se traduz ao nível da consciência da personagem por
uma "diffusion d'idées"(3>.
Nesse fundo de vaivém desordenado e desconexo podem, entretanto, surgir violentas revoluções que parecem arrastar consigo os últimos laivos de conhecimento da personagem, atropelando a sua acuidade: