1. B ACILLUS SPHAERICUS ( BSPH )
1.1 Mode d’action du Bacillus sphaericus
Fiz uso da tecnologia de rodas de conversa a partir de uma perspectiva orientadora: a pesquisa-intervenção para a construção do material de análise desta pesquisa.
A perspectiva da pesquisa-intervenção se define como estratégia de pesquisa a partir de um posicionamento que compreende o pesquisar como ação política. Consiste, assim, em uma tendência das pesquisas participativas, como crítica a uma política positivista de fazer ciência, propondo uma atuação transformadora na experiência social, uma vez que busca desarticular práticas e sentidos instituídos pela fórmula “transformar para conhecer”, como argumentam Marisa Lopes da Rocha e Katia Faria de Aguiar (2003).
A “pesquisa-intervenção busca acompanhar o cotidiano das práticas, criando um campo de problematização para que o sentido possa ser extraído das tradições e das formas estabelecidas, instaurando tensão entre representação e expressão, o que faculta novos modos de subjetivação” (ROCHA; AGUIAR, 2003, p. 66). Karla Adrião (2014) chamou essa modalidade de trabalho de pesquisa-intervenção-pesquisa, o que compartilho aqui, como forma de destacar um contínuo entre as ações de pesquisar e intervir: é preciso conhecer/pesquisar para intervir, e, ao mesmo tempo, é intervindo que se torna possível conhecer/pesquisar.
Alguns elementos fundamentam a perspectiva da pesquisa-intervenção. São eles: a relação sujeito-objeto, a autonomia e a ação transformadora. De acordo com essa perspectiva,
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a relação sujeito-objeto precisa ser entendida a partir da noção da ciência como um empreendimento coletivo. Na pesquisa-intervenção, todas/os participantes da atividade são sujeitos de conhecimento e, portanto, produtores desse fazer (CASSAB; CASSAB, 2008). Dizer isto não implica, por outro lado, desresponsabilizar a/o pesquisadora/pesquisador deste lugar, mas compreendê-lo como mais uma/um partícipe, ainda que em um lugar diferente, que não é o mesmo dos/as demais participantes.
A proposição de colocar em questão o cotidiano pelo confronto de diferentes experiências em um exercício de articulação de análises micro e macropolíticas, traz a concepção de autonomia para pensar a pesquisa, pela via da ação transformadora. Neste campo, as intervenções têm como objetivo tornar visíveis os jogos de poder e interesses que se presentificam no campo do fazer investigativo, contribuindo para os processos de desconstrução de instituídos e de criação de novas práticas (ROCHA; AGUIAR, 2003).
A autonomia é compreendida aqui não como absoluta, conduzindo o sujeito a um estado de equilíbrio uma vez conquistada. Trata-se de sua compreensão como função de autonomia; ou seja, como exercício, movimentos de prática de transformação, sempre limitada, mas infinita como prática de liberdade, relacionada à potencialidade de vida. A transformação, entendida em seu caráter de ação desnaturalizadora se refere a uma micropolítica dos processos de constituição de realidade, enquanto criação de possíveis, como assinalam as autoras acima citadas.
Estes pressupostos/aspectos/elementos foram orientadores das minhas ações em campo, junto à equipe que me acompanhou nos encontros, guias para o planejamento e execução das rodas de conversa com as/os jovens. Segundo Maria Anezilany Nascimento e Cícero da Silva (2009), rodas de conversa são um dispositivo metodológico bastante utilizado em intervenções comunitárias. Caracteriza-se pela criação de espaços de diálogos, em que as/os participantes têm a oportunidade de compartilhar experiências e conhecimentos através da participação coletiva em debates em torno de uma determinada temática. Nestes espaços de diálogos, os sujeitos podem se expressar e, sobretudo, escutar os outros e a si mesmos. Entende-se, assim, que a possibilidade de diversos posicionamentos nas discussões e problematizações pode favorecer a produção de novos sentidos e contribuir para a construção da autonomia dos sujeitos.
Neste trabalho, realizamos três rodas de conversa com as/os jovens em uma escola da rede pública estadual de ensino na cidade de Cabo de Santo de Agostinho, nas quais foram temas mobilizadores na sequência dos encontros: 1) sociabilidades juvenis (Apêndice A); 2)
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lazer no contexto Suape (Apêndice B); 3) relações risco/prazer no consumo de bebidas alcoólicas (Apêndice C). Em cada encontro, colocamos essas respectivas questões como tema, construindo os diálogos a partir da construção de cartazes e de esquete teatral no último encontro. As rodas foram elaboradas uma após a outra, de modo a articular a discussão de cada encontro com o anterior.
Nossas intervenções estiveram focadas, sobretudo, nas relações de poder que perpassavam os dizeres-fazeres das/dos jovens em relação ao consumo de bebidas alcoólicas, a partir justamente do intuito de tensionar elementos micropolíticos e criar, junto com as/os jovens, possibilidades outras de pensar-fazer sobre/com elementos constituintes das relações cotidianas, a exemplo do gênero. Nesse sentido, o processo de pesquisa-intervenção se deu a partir da ideia de um contínuo de “pesquisa-intervenção-pesquisa...”, como trabalhado por Karla Adrião (2014), em que tanto a pesquisa quanto a intervenção colocam-se em um processo de retroalimentação: o conhecer, pela pesquisa, gera possibilidades; assim como é possibilitado, pela ação da intervenção.
Cabe salientar que apesar do campo deste trabalho ter sido efetuado dentro do projeto Ação Juvenil – Programa Diálogos – com as/os jovens estagiárias/os, deu-se em condições particulares que não as de desenvolvimento convencional do projeto, visto que as suas atividades foram suspensas durante todo mês de junho de 2014, quando realizamos as três rodas de conversa que compõem esta pesquisa.
Em um cenário de atrasos de pagamentos em todas as esferas de funcionários – desde as/os coordenadoras/es e estagiárias/os dos projetos até e, principalmente, as/os jovens de Suape contratadas/os como estagiárias/os do Ação Juvenil – foi preciso reordenar as possibilidades de realização das rodas de conversas, as quais só foram possíveis diante do desejo e do acordo das/os jovens em participarem nesse contexto adverso, entendendo que não seria uma atividade atrelada ao estágio, mas a participação na pesquisa de mestrado que eu estava desenvolvendo. Dessa maneira, os encontros foram deslocados da UFPE para uma escola de ensino médio, localizada na Cohab da cidade de Cabo de Santo Agostinho.
3.4.3 Sobre as rodas de conversa. Do planejamento à realização: a flexibilidade no trabalho com grupos
É interessante destacar que, inicialmente, foram planejadas oficinas para o trabalho com o grupo de jovens. Conforme Karla Adrião e autoras (não publicado), a ênfase no ‘com’ vem
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destacar um tipo de trabalho específico, que caracteriza o posicionamento ético-político das/os participantes do processo grupal. Demarca-se um trabalho de fato coletivo, em que todos são vistos como sujeitos de conhecimento, que, a partir do compartilhamento de experiências, refletem sobre o cotidiano, tecendo deslocamentos e posicionamentos alternativos.
Nas oficinas, de acordo com essa modalidade de trabalho com grupos, a dimensão vivencial ganha importante relevo. São utilizadas técnicas corporais e de teatro como facilitadoras de vivências no espaço coletivo do grupo, relacionadas a determinadas temáticas de interesse para o trabalho em um momento específico. Assim, foram pensadas, para cada encontro, técnicas que pudessem facilitar o trabalho sobre sociabilidade, lazer e relação risco- prazer. No entanto, a flexibilidade é uma característica fundamental neste tipo de trabalho, uma vez que se entende o planejamento como algo aberto a alterações, flexível ao que o grupo demanda em determinado momento. Dessa compreensão faz parte o entendimento dos processos grupais a partir de uma lógica de construção de relações mais horizontais no espaço- tempo do grupo, como um posicionamento deliberado, comprometido com o horizonte ético- político da justiça social.
Apesar de reconhecermos uma hierarquia inevitavelmente imposta na relação de pesquisa-intervenção entre quem ocupa os lugares de participante e facilitadora/or – cujas funções são e se mantêm como diferentes, ainda que a/o facilitadora/or possa vir a ocupar a posição de participante (e vice-versa?) – uma das delicadezas do trabalho consiste em, justamente, não produzir desigualdades a partir desses lugares diferentes. Nesse sentido, a fluidez entre tais posições, assim como o trabalho a partir da e com a demanda do grupo, e a flexibilidade do planejamento, colocam-se como elementos importantes no processo de trabalho com grupos, como assinalam Julie McCarthy e Karla Galvão (2001).
Nesse sentido foi que os encontros, apesar de planejados como oficinas, aconteceram a partir da modalidade de rodas de conversa. Enquanto uma/um e outra/o participante chegava, aguardávamos conversando e, nestas conversas, os temas de trabalho emergiam de maneira espontânea. Assim, o planejamento de técnicas iniciais, que funcionariam como aquecimento para os trabalhos favorecendo o vivenciar no espaço-tempo do grupo, acabaram não acontecendo, de modo que tal dimensão vivencial, como proposta no planejamento (oficinas), cedeu lugar ao compartilhamento de experiências cotidianas através do diálogo (rodas de conversa) e da construção de cartazes e teatro.
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