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Mod`ele th´eorique et simulations des temps de vie des niveaux de spin 98

6.5 Exp´erience pompe-sonde

6.5.4 Mod`ele th´eorique et simulations des temps de vie des niveaux de spin 98

A escrita, como analisámos, representa para muitos povos indígenas uma ferramenta histórica do poder colonial, uma assustadora ferramenta de aniquilação cultural. A alfabetização forçada, a imposição da língua do colonizador, quer o castelhano, quer o português, as contínuas discriminações dos falantes de línguas indígenas, criaram uma tensão entre escrita e oralidade. O pensamento colonial, ao impor o estudo da escrita enquanto símbolo da

76 Apüshana, V. (1992). Contrabandeo sueños con alijunas cercanos. Woummainpa. Riohacha: Secretaría de Asuntos

44 superioridade da cultura dominante face às culturas dominadas, criou um desnível hierárquico entre duas formas de comunicar diferentes. O poder magnético da escrita ofuscou quer os defeitos desta, quer as imensas potencialidades da oralidade, desenvolvida em muitas culturas africanas e americanas. Como vimos, a palavra escrita foi imposta primeiro pelos missionários e depois pelos governos criollos para destruir as culturas indígenas e tornar os Índios cristãos e cidadãos da sociedade ocidental. A alfabetização na língua do dominador representa, portanto, mais uma ferramenta do poder colonial na perpetuação do genocídio indígena.

Quando falamos de conquista, porém, esquecemo-nos de um pequeno detalhe: os povos indígenas resistem e continuam a existir e resistir. Perante cada violência, quer física, quer cultural, os Índios continuam a reivindicar os seus direitos e as suas autonomias. Entre as inúmeras técnicas e estratégias de resistência e resiliência, a palavra escrita, não desconhecida de todos os povos originários (muitas civilizações pré-colombianas já tinham desenvolvido sistemas de escrita) tornou-se numa arma cultural que muitos povos decidiram utilizar na luta pela paz. Como vimos, surgiu assim o que se chama de oralitura indígena, uma forma artística que consiste na mistura entre escrita e tradição oral dos povos indígenas. A figura do oralitor indígena, como Elicura Chihuailaf, Fredy Chikangana e Jorge Cocom Pech entre outros, tomou assim uma múltipla importância: política e cultural. Apelando-se à figura quechua do chaka-

runa, os oralitores apresentam-se como ponte entre dois mundos, duas culturas e dois sistemas

de pensamento. Herdeiros da palavra ancestral dos antepassados, guardiãs das línguas indígenas, os oralitores preservam nas suas obras, bilingues ou monolingues, uma maneira diferente de representar o mundo e, consequentemente, de entender a escrita. Assim como a palavra oral, o texto do oralitor é tecido na coletividade das memórias dos povos, nos territórios que habitam há milénios, nos rios, nos bosques, no canto dos animais que fluem em harmonia com os relatos dos antepassados.

Inúmeras questões se colocam em relação ao projeto de oralitura indígena: será a palavra escrita uma ferramenta útil na luta de sobrevivência das línguas indígenas, cada dia em maior risco? Conseguirão os oralitores, no complexo papel de ponte entre mundos com um passado comum tão violento, que aliás parece não querer abandonar o presente (pensamos nas inúmeras violências físicas e culturais quotidianas contra os povos originários em todo o planeta todo)? Receberão as futuras gerações o apelo destes escritores indígenas de não sacrificar a própria cultura e de continuar a resistir? Finalmente, qual o futuro dos oralitores indígenas?

45 Na tentativa de dar uma resposta a estas e outras perguntas, introduzimos a análise de três casos específicos e heterogéneos de literaturas indígenas que decidiram utilizar a palavra escrita na luta de resistência cultural.

O primeiro caso, o da literatura zapatista, aparece cronologicamente como uma das primeiras tentativas de juntar tradição oral indígena e palavra escrita. Sendo o zapatismo um movimento político em que a componente indígena se funde com figuras não indígenas, como o porta-voz Subcomandante Insurgente Marcos, a análise da relação entre oralidade e escrita assume nuances de notável interesse devido também ao meio privilegiado pela comunicação zapatista. O discurso político, de facto, apresenta-se por si só como uma fusão entre os recursos estilísticos da escrita e os tons mutáveis da oralidade que, juntando a herança da cosmovisão maia, conseguiram alcançar uma vitalidade que permite ao zapatismo sobreviver até hoje não obstante os contínuos ataques dos diferentes governos mexicanos e dos grupos paramilitares.

Em segundo lugar, analisarei a literatura comunitária mapuche, destacando a produção de Elicura Chihuailaf devido à sua posição fundamental no projeto de oralitura indígena. Viajando por entre os bosques de palavras da riquíssima poesia mapuche, procurarei as sementes de resistência espalhada por vários autores e autoras, das regiões do sul do Chile até à capital, Santiago, onde uma parte importante da população mapuche chilena reside, devido às injustiças com as quais viram as suas terras roubadas pelo Estado e doadas às grandes empresas. Sendo a literatura zapatista maioritariamente em castelhano, a poesia mapuche assume importância na dissertação enquanto exemplo de produção maioritariamente bilingue em castelhano e mapudungun.

O último caso de estudo será o da cultura nasa do Cauca, um povo que resiste dia após dia à brutal violência do território colombiano e dos seus grupos paramilitares que perpetuam, com a conivência do governo colombiano, o genocídio indígena, para explorar as terras habitadas há milénios pelos povos originários. O povo nasa alfabetizou a própria língua, o Nasa Yuwe, para transmiti-la às futuras gerações, reclamar os próprios direitos, criar professores e fortalecer a própria cultura sob a ameaça quotidiana da violência paramilitar. No caso do povo nasa a análise será menos focada na questão literária e mais na questão social e cultural da auto-alfabetização de uma língua indígena na luta de resistência pela sobrevivência coletiva semeando e colhendo a palavra e contrabandeando sonhos.

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